Meninos também choram...

(Meninos também choram...)

De Luiz A. B. do Nascimento

Capitulo 2

Adeus é muito tempo...

Parte 1 de 2

O telefone chamava pela quarta vez, o barulho ecoava por todos os cômodos da casa, uma quinta, sexta, sétima vez, parecia não haver ninguém.

Um estalo. Uma porta é aberta. De dentro do banheiro alguém sai com a toalha enrolada na cintura, batia os pés no chão enquanto esbravejava:

Soluços, prantos. Alguém chorava do outro lado da linha. Quem seria?

Igor empalideceu naquele instante, suas mãos ficaram frias e teve a estranha sensação de que não se tratava de uma engano.

"Ela morreu!"

Desligou o telefone, sem nem ao menos responder só conseguia pensar numa coisa:

"Ela morreu!"

O jovem Henrique de Campos Lemos, dobrava uma camisa, em seguida a punha dentro da mala, que achava-se volumosa, quando sua mãe grita do pé da escada no térreo que o trim..., do telefone escutado a pouco, estava endereçado a ele. Desceu os degraus com passos precisos e confiante. O aparelho ficava sobre uma mesinha próximo a escada.

Igor colocou o telefone devolta no gancho, sentou-se no sofá da sala deixando a cabeça cair para trás, sentiu a felicidade em poder contar com um amigo nessas horas, foi sem querer que a nostalgia invadiu-o, o passado aflorava, fechou os olhos e permitiu que as lembranças viessem átona...

Ele fazia a quinta série e todas às vezes que tocava para o recreio descia a longa escadaria do colégio cabisbaixo, procurando qualquer motivo para desviar dos olhares como se estes fossem agredi-lo, todavia apenas não acreditava ser capaz de vencer sozinho por isto se considerava inferior pequeno diante de todos. Possuía colegas e até brincava com eles, às vezes, mas sempre sentia a falta de algo, queria ser o centro das atenções, ser importante, queria mostrar para todos que era bom só não sabia em que.

A fila da cantina achava-se enorme como de costume. Demorou, mas pediu cachorro quente e guaraná, o mesmo lanche de todos os dias. Aceitava as coisas calado sem luta, afinal perderia mesmo. Comeu seu lanche sossegado, ninguém o incomodou, ninguém veio pedir um pedacinho, comeu, só.

Quando soou o sinal e a aula recomeçou, Igor notou que seus colegas comentavam algo, não tardou e um entre os poucos que conhecia correu na sua direção afim de contar-lhe o assunto que era motivo de tanto rebuliço.

A professora retornava a classe impedindo mais comentários. Mesmo assim Igor ainda tentava se lembrar quem era o menino em questão.

Todos voltavam aos seus lugares.

Uma mãozinha pequena de dedos finos ergueu-se, junto com ela, uma voz tremula que respondia:

Os rostos viraram quase que simultaneamente, queriam saber quem fora o escolhido.

Igor sentiu o coração acelerar, olhou os olhos olhando-o. Encolheu a cabeça entre os ombros.

Ele balançou a cabeça.

Balançou novamente.

Ele sentou-se e fingiu ter algo importante para escrever, fez dois ou três rabiscos no papel que nada diziam, queria parecer natural. Queria esconder-se dos olhares alheios, fingir ser importante, mesmo após a derrota, entretanto sabia não o ser, pois o representante escolhido após sua abstinência, sim o era, todos acompanhavam seus movimentos, enquanto Igor estava sentado na sua carteira, como todo os dias e isso nada tinha de grandioso.

Vira o menino sair e quando a aula aproximava-se do fim percebeu quando ele retornou, ficou pensando o que teria acontecido se ele tivesse escolhido ir, mas sempre era assim, não tinha coragem para fazer nada, as oportunidades vinham, passavam e Igor ficava imaginado, como seria, seria como?

O toque soara por todo o colégio, as aulas do dias, haviam sido encerradas.

Enquanto todos saiam apresados, correndo e quase momentaneamente organizando o material na mochila. O menino tímido, no centro da sala organizava seu material devagar tendo em vista que o pai só viria busca-lo após o trabalho, uma hora de espera o aguardava na portaria. Desceu as escadas com a mochila-carrinho se fazendo presente em cada degrau, pac! Pac! Pac!

No pátio no entanto, parou. Viu a capela da escola, a porta principal estava aberta. "Será que ainda estão, lá?" _pensou. Pequenos passos fizeram as rodinhas do carrinho-mochila girarem em direção a capela, porém ficou meio de longe da entrada, esticou o pescoço o mais que pode, olhou, olhou e nada viu, fora as cadeira longas, as rodinhas voltaram a girar em direção a porta principal. Foi nesse instante quando achava-se de fronte a entrada, ouviu passou vindos de dentro, atônito ficou paralisado sem saber o que fazer. As portas foram abertas por inteiro e pessoas surgiram! Primeiro uma mulher acompanhada de um homem, parecia abatida, os olhos vermelhos e inchados e ele podia até jurar que podia ver resquícios de lagrimas ainda beirando seus olhos, ambos passaram por ele sem lhe dar atenção, em seguida um jovem da sua idade, um pouco mais alto... "Henrique!" , caminhava em sua direção. Parou. Olhou o menino na sua frente. Igor não sabia o que dizer ou pensar. Henrique abraçou o menino que estava na sua frente, sabia ser da sua sala.

CONTINUA....

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