Meninos também choram...

(Meninos também choram...)

 

De Luiz A. B. do Nascimento

Capitulo 1

A primeira lágrima feita de dor...

Parte 2 de 2

"És feliz porque és assim,

Todo o nada que és é teu.

Eu vejo-me e estou sem mim,

Conheço-me e não sou eu."

Fernando Pessoa, 1-1931

O ranger da maçaneta, fazia escorregar a luz, novamente ela o obrigará a tocar de posição, tão logo a mesma voz doce que escondia pena daquele garoto deitado soaria, como todos os dias. Por um instante dona Catarina sentiu vontade de deixa-lo dormir, mas infelizmente ela não podia faze-lo.

Enquanto tomava café sua mãe lhe explicará pela milésima vez , que os outros membros da família estariam ocupados com atividades pessoas e ele deveria ir sozinho visitar alguém com quem possuía uma enorme distancia afetiva e deveria passar toda a manhã. Era sua avó por parte de pai, que se encontrava debilitada. Seria constrangedor, todavia preferiu evitar contestações, afinal de contas decepcionara seus pais.

Assim foi.

Chegou a casa de sua avó em torno de nove e meia, fora recebido pela enfermeira que cuidava da casa e da senhora dona do reduto, desde o retorno do hospital onde fora submetida a duas cirurgias com finalidade desconhecida para Igor. Enquanto se dirigia ao quarto onde a enferma estava a dormir como fora enformado na entrada, percebia um sentimento de culpa a devorar-lhe a alma, um parente seu achava-se doente e ele não conseguia sentir nada , que espécie de pessoa era ele? Ficava distante quando dele precisavam, sairia de perto se assim pudesse, por que? Medo de que?

Suavemente foi abrindo a porta com a ponta dos dedos, os olhos acostumados ao sol não identificavam nada naquela penumbra. Engoliu a saliva em seco, deveria chamar por ela?

Adentrou ao quarto devagar, como se até seus passos pudessem agravar a saúde dela. Puxou uma cadeira e próximo a cama se sentou. Apesar do sorriso largo, o olhar doce, notava-se a fadiga na enrugada pele, havia cansaço expresso passando pelas veias azuladas do pescoço, havia o não lutar, ela aguardava a morte. Ao perceber isso sentiu ser envolto numa sombra negra, gostaria de preocupar-se, queria ter as palavras certas, para consolar, dar força, desejava ter carinho a oferecer e assim o faria de bom grado se soubesse de que forma...

Silêncio.

Sem saber o que dizer, o garoto de olhos negros tentava organizar algo a falar, todavia nenhuma se concatenava, pareciam bobas idiotas e vazias.

Silêncio.

Olhou para a porta e fingindo ver algo interessante , até cogitou a hipótese de dizer a ela o que lhe prendia à atenção, como não via nada mentiria que alguém olhava a casa, quem sabe diria que um gato passava sobre o muro..., mas permaneceu calado, voltou a olhar para a senhora deitada na cama.

Silêncio.

Igor apenas sorriu.

Sorrio. Sem emoção, como um bobo. Sorrio, só.

Balançou a cabeça positivamente, suspirou e continuou indo em direção a porta.

Tentou não ser alvoroçado, procurando a melhor maneira de desembrulhar sem fazer muito barulho. Dentro encontrou o que parecia ser um rádio e algumas, fitas, todos os seus amigos tinham diskmen e ele ganhará um rádio. Abriu um sorriso forçado e desengonçado e disse:

Beijou-a na face, agradeceu-a mais uma vez e saio.

No ônibus devolta, enquanto sentado olhava o pequeno presente, que só agora notava conter um bilhete com os seguintes dizeres: "Ensine seu coração a falar".

Na sua cabeça aquela frase ficara a ecoar repetidas vezes:

"Existe, vezes meu querido, que o coração quer nos dizer o caminho a seguir, apenas precisamos ensina-lo a falar...."

Chegou em casa e jogou as coisas sobre a cama, Dona Catarina logo chegou ao quarto afim de saber da novidades. Igor decidiu não mostrar o presente e o escondeu por debaixo da camisa estirada sobre a cama, deu o recado do qual sua vó o incumbira. Em seguida sentou-se na escrivaninha do quarto, pôs o gravador sobre a mesa junto com as fitas, era um aparelho pequeno e as fitas também tinha tamanho inferior ao normal. Rasgou o plástico que envolvia uma delas e a colocou no aparelho. Já continha pilhas. Pressionou o botão REC e observou se está estava girando. Sim, estava. Aproximou a boca de onde julgava ser o alto-falante, disse então:

Parou a gravação, voltou a fita e colocou PLAY.

Encheu os pulmões de ar soltando aos poucos, olhou para o aparelho na mão direita, pôs o dedo novamente sobre o botão REC e deixou que seu coração fala-se por se só:

"Eu não gosto de estudar. Mas e daí, ninguém liga, estão preocupados com o que eles chama de diploma ou curso superior. Mas o que eu realmente gosto de fazer? Não sei. Não tenho tempo para descobrir por que sou obrigado a ficar estudando, fiz vestibular para engenharia elétrica por que meu pai quis. Hum! Certa vez ele me perguntou se isso era realmente o que eu queria fazer. Respondi que não sabia. Como posso saber se estou ocupado estudando? Hoje eu me pergunto que tenho feito da minha vida, onde realmente eu pretendo chegar? Quais são os meus objetivos? Eu não sei, desculpe..., des-desculpe pai e mãe, mas eu não, sei.... me desculpe...."

Não consegui continuar, dos seus olhos lágrimas afloravam. Colocou a cabeça entre os braços e se permitiu chorar...., com soluços fortes, daqueles que obriga a pessoa a encher os pulmões de uma só vez. Aquentara tudo calado, sem reclamar..., aceitava as coisa, então que pelo menos o direito a chorar ele assim tivesse, chorou..., chorou..., chorou...

A porta do quarto fora aberta, entretanto a luz iluminava uma cama vazia. Dona Catarina estranho e entrou no quarto, esperou os olhos se acostumarem na escuridão e o viu dormindo sobre os próprios braços. Vê-lo assim fora algo tão inesperado quando doce, lá estava ele seguro, respirando profundamente, quem lhe dera poder fazer com que as coisas fossem sempre assim, simples e bonitas, era uma criança no corpo de adulto ele estava sofrendo ela sabia disso, como ajuda-lo então? Sem resposta preferiu deixa-lo, antes o envolveu com um lençol e beijou-lhe a face, era melhor permitir que essa calma durasse um pouco mais.

Fechou a porta ao sair. Nem percebendo que uma pequena lágrima ainda existia sobre um dos olhos, não só uma lágrima, uma lágrima feita de dor...

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