Meninos também choram...

(Meninos também choram...)

 

De Luiz A. B. do Nascimento

Capitulo 1

A primeira lágrima feita de dor...

Parte 1 de 2

"Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?"

Fernando Pessoa, 7-1-1935.

Antes mesmo de tudo começar, ele pode ver por entre a penumbra num rastro de luz que se formava entre o chão e a porta a sombra dela. Já era do seu conhecimento o que viria à seguir, não seria a primeira vez e de tão repetitivo, acordava segundos antes, para se preparar. Suspirou e fechou os olhos.

A porta não tardou em ser aberta com o barulho das dobradiças, rangeu. A luz invadiu o seu quarto, chegou até à sua cama, sentiu os olhos doerem, contraio-os, gemeu baixinho e virou-se de lado.

No chão, a sombra dela projetada, escondia o brilho no qual acordará naquela manhã, era uma felicidade nova, diferente da habitual, estava com vontade de desperta-lhe com beijos e dedicar o dia inteiro a paparica-lo. "Minha criança cresceu!", pensou ela. O orgulho com o qual dissera aquela frase fora tamanho que não tardou em acorda-lo:

- Levante-se meu filho, hoje é o grande dia, soava a voz alegre de sua mãe, a felicidade dela durante o período da manhã sempre o irritava, a felicidade alheia é extremamente irritante.

Na mesa do café da manhã, todos menos Igor comentavam aquele assunto. Seu Carlos, o pai, com sua barba grisalha se gabava batendo nas costas do filho mais velho, fazia planos e até pressupunha o futuro do filho como se a vida pudesse ser guiada com as mãos ou palavras. Investir no futuro daquelas crianças, três, para ser mais exato. Muitas vezes o obrigou a sacrificar-se, quantas noites passou refazendo seu orçamento, onde seus filhos sempre tinham o primeiro lugar na lista de gastos? Agora o primeiro deles mostrava que tudo valia a pena, enchia o peito ao olhar o seu "garotão". Cíntia a irmã, contribuía na bajulação e comentários futurísticos imaginando que no próximo ano será ela a dona das atenções. O irmão caçula, Fabinho, tentava de todas as formas destacar-se na conversa, erguendo assuntos sem sentido, inventando episódios nunca ocorridos, mas em vão, seu irmão mais velho detinha as atenções para si, decidiu inginora-lo, afinal de contas sempre fora chato mesmo. A mãe, Dona Catarina, apenas sabia dizer: "Temos orgulho de você." Repetia de maneira incansável. Carregavam, querendo ou não, um pouco daquela felicidade, mas este sol de esperança e confiança achava-se distante de Igor, que tomava o café, apenas isto. Evitava os olhares radiante a cerca-lo, cada parte da refeição, ingerida, indicava que tão logo se levantaria da mesa e está sensação lhe dava um grande alivio.

Já encaminhado, recebia o dinheiro para a passagem de ônibus, todavia também pusera na sua mão, além, uma tesoura comum, destas de cortar papel e coisas do tipo. Este, achou estranho e perguntou no mesmo instante:

Aquela alegria, confiança e a mão sobre os ombros, pesava, pesava muito, todos estavam crentes por que ele não? Isso o deixou envergonhado. Sorriu; fora o gesto de reflexo, de momento e saiu. Pensou nos rostos. Orgulho. Vergonha.

A primeira decepção:

O dedo caia pela lista pregada na parede, cada nome fazia seu coração acelerar-se um pouco mais, pode ouvir os gritos de alegria atrás de si, abraços emocionados, lágrimas. Percorria toda a letra, subitamente um susto! Nada mais que um engano, os olhos atentos tinham esperança, mesmo que a quisesse negar ela estava lá..., a letra "I" terminará, o seu nome, não havia, quando os nomes com "J" começaram a aparecer respirou profundamente, baixou a cabeça... A tesoura sutilmente escorregou por entre os dedos. Caminhou entre a felicidade, era um corpo sobre as pernas. Só. Sozinho. Mais uma derrota.

A segunda decepção:

A porta rangeu baixinho ao ser aberta, a luz mais uma vez lançada contra o rosto de Igor que fez cara feia e deu ás costas.

Ele fez-se demorar no quarto para que todos fizessem suas refeições e seguissem seus caminhos. Foi para a mesa. Tomou seu café da manhã. Sozinho. Evitava os olhares do pai, não por que este estar bravo com ele, pois a frustração completava um meses, mas agora um clima de piedade mantinha-se no ar e este clima o corroia por dentro por que agora era tratado como o coitadinho e isso é pior do que a raiva. Comeu sem saber o que ingeria, o alimento estaria ali todos os dias e ele não ajudava, comia, a comida que parecia nã ter sabor.

Saiu.

O diretor chamou-lhe pelo nome completo, num tom calmo e convalescente, com a mão no seu ombro guio-o a diretoria. Igor sentou, sentiu, pensou... O homem de cavanhaque sentou-se numa poltrona macia, está cedeu um pouco por causa de seu corpanzil. Começou a discursar sobre a metodologia de ensino, citou estatísticas, dissera também que o corpo discente do colégio fizera seu papel e que era preciso se esforçar para ser alguém na vida. Igor via claramente o mesmo discurso de seus pais, que tomava, agora, uma conotação ridícula e nauseante. Apertou as mãos sobre o joelho, os olhos semicerrados puderam ler a palavras escrita em vermelho no seu boletim: REPROVADO. Nada ouviu apartir daí, a palavra se repetia: reprovado, reprovado, reprovado.... Deixou-se sentar, sentindo, mentindo, fingindo...

Continua...

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