Duas Saoris
Autora:Érika
"Saint Seiya" é propriedade de Masami Kurumada,Shueisha e Toei Animation.
Capítulo 2 - Parte 2
Ichi estava se sentindo um pouco deprimido,mas isso não era estranho,pois desde a mais tenra idade a depressão fora sua companheira constante.Claro que naqueles tempos ele não sabia que o seu estado de desânimo classificava-se como depressão,já que era apenas uma criança,mas agora que era adulto compreendia melhor seus sentimentos.E neste dia,estava se sentindo o maior dos inúteis,pois vários cavaleiros de Athena,valorosos e leais,haviam morrido.E ele,Ichi,que nunca pudera defender Athena por ser extremamente fraco,encontrava-se vivo,gozando de uma saúde perfeita.Por isso,ainda que tivesse conhecido Seiya e alguns cavaleiros de ouro (devido à batalha contra Ares) apenas superficialmente,Ichi não conseguia deixar de se sentir culpado.Se ao menos ele tivesse conseguido tornar-se um cavaleiro realmente poderoso,poderia ter lutado contra Hades,e desse modo,talvez nem Seiya,nem qualquer outro dos cavaleiros tivesse morrido.Ela quisera ter muita força e um cosmo elevadíssimo para ajudar Athena e seus guerreiros,por isso,voltara à Finlândia,com a intenção de tornar-se um cavaleiro digno de sua deusa.Claro que seu mestre,Paavo,ficara muito admirado ao vê-lo novamente.E foi neste ponto de seus pensamentos que Ichi voltou ao passado,quando era apenas um menino de seus dez anos,completamente só depois da morte de seus pais.Ou melhor,havia uma pessoa que poderia cuidar dele,sua única parenta viva:sua tia Naoko.No entanto,ela já tinha quatro filhos,não queria ter que criar mais uma criança,sobretudo tratando-se de uma aberração como Ichi.Isto ela dissera claramente a ele.O cavaleiro de Hidra jamais poderia esquecer-se das palavras de sua tia e de sua falta de humanidade e,apesar da pouca idade,naquela época ele a odiou.Principalmente quando ela o levou até um orfanato e o deixou na porta,indo embora logo em seguida.Então,começou a chover,o pequeno Ichi tremia de frio e somente no dia seguinte as portas do orfanato se abriram e uma senhora o viu ali,sozinho.Logo,ele passou a viver naquale lugar,em meio a pessoas que o desprezavam ou tinham medo de sua aparência,e isso incluía as outras crianças também.Eram órfãos como ele,mas se sentiam superiores simplesmente pelo fato de terem um aspecto "normal".Na realidade,a única pessoa em todo aquele maldito lugar que sentira algum afeto por ele fora justamente a senhora que o recolhera.Ele nunca soubera o seu nome,e ela não podia fazer muito por ele,pois era meramente uma funcionária.Mas ele se lembrava perfeitamente bem do dia em que completara onze anos,recordando como nunca seus pais,pois em cada aniversário seu eles lhe preparavam uma festinha.Modesta,claro,mas para o menino era suficiente,e sentia-se o ser mais amado e especial de toda a Terra.Mas agora ele não tinha ninguém,e foi neste dia que ele se deparou com o corpo daquela senhora estendido no chão.Sendo apenas um garotinho,Ichi não sabia que ela estava morta,agachou-se ao lado dela e começou a sacudi-la (não podia chamá-la,pois não sabia seu nome).Ela não reagiu e o pequeno Ichi não sabia o que fazer,até que viu dois funcionários do orfanato caminhando em sua direção.Ichi foi até eles:
- Por favor,me ajudem.Tem uma senhora... - mas ele não pôde concluir sua frase,pois um dos funcionários o interrompeu:
- O que esse garotinho horrível pode querer conosco,Makoto?
- Não sei,nem me interessa.Saia do caminho,menino.
- Por favor,não estão me entendendo.A senhora...ela está ali,dormindo no chão,e não quer acordar.Eu não sei por quê - disse Ichi rapidamente, apontando na direção do corpo inerte que ele encontrara.Os funcionários dessa vez prestaram atenção e aproximaram-se do cadáver.Logo, Makoto estava ajoelhado ao lado dela,e após brevíssimos segundos,concluiu:
- Está morta.
E para eles,isso era indiferente.Makoto dera a notícia no mesmo tom impessoal que uma pessoa poderia empregar quando informa a alguém as horas. Em seguida,os dois homens partiram levando consigo o corpo,esquecendo-se completamente do menininho que ficara para trás,quase em choque e perguntando-se por que todos aqueles que ele amava sempre o deixavam sozinho.E assim,passou-se um tempo e outras crianças foram chegando ao orfanato,e eram justamente Seiya (acompanhado de sua irmã bem mais velha), Shiryu,Shun e Ikki (também anos mais velho do que o irmão),Hyoga,Nachi e Jabu.Quanto a Geki e Ban,eles já estavam no orfanato quando Naoko o levara para lá,e também o achavam horrível.E essa foi a infância de Ichi,solitário e rejeitado.Por vezes ele conseguia unir-se a algum grupo,depois de muita insistência,mas mesmo todos sendo órfãos,sempre ficara muito clara a diferença entre os demais meninos e ele.Depois,todos foram mandados para a Fundação Graade,aquele lugar odioso,e mais tarde,cada um deles fora enviado a seu respectivo local de treinamento.E nesse ponto,Ichi não tinha muito o que reclamar,pois teve um mestre generoso e uma das poucas pessoas que jamais zombaram de seu aspecto físico.Além disso,conheceu a garota mais maravilhosa do mundo.Ao chegar nessa parte de suas recordações,Ichi sentiu uma nostalgia insuperável,pois desde a morte de seus pais,nunca se sentira tão querido.A moça tão especial que ele conhecera em seus anos de treinamento chamava-se Tarja e era filha de seu mestre Paavo.
Tarja era um ano mais nova do que Ichi;tinha belos cabelos negros e grandes olhos azul-escuros,mas o que ela tinha de mais lindo era seu nobre coração.Sempre tratou Ichi como igual e rompeu relações com todos os seus amigos porque todos eles sempre maltratavam Ichi e diziam as piores barbaridades sobre sua aparência.Finalmente,Tarja cansou-se de tanta maldade e mandou todos para o inferno. Quando Ichi soube disso,ficou um pouco confuso:por um lado estava feliz por ter uma amiga tão sincera e que sempre o defendia,mas por outro lado,seria justo que ela se privasse dos amigos da vida inteira?E foi justamente isto que ele comentou com ela:
- Fico contente por você ser uma pessoa que sabe ver além das aparências,mas acho que sua atitude foi muito radical,porque você me conhece há apenas um ano,enquanto esses seus amigos sempre estiveram com você.
- Trata-se justamente disso:nesse ano inteiro você teve que tolerar a ironia e os insultos daqueles estúpidos.Eu pensei que à medida em que o tempo fosse passando,eles reconsiderariam e aprenderiam a te respeitar,por isso,mesmo te defendendo deles,eu mantive minha amizade com eles,mas agora já basta.Se mesmo depois de tanto tempo,eles não souberam te reconhecer como um igual,então eu não quero mais ser amiga deles e a partir de hoje sempre vou desprezá-los - disse Tarja decidida.
A partir desse dia,Ichi e Tarja tornaram-se ainda mais inseparáveis,e Paavo estava muito orgulhoso da amizade entre eles dois.Na verdade,ele ficaria muito contente em ter um genro como Ichi,mas isso ele não disse,pois preferia que as coisas entre sua filha e seu pupilo fluíssem naturalmente,sem interferências.
Um dia,Ichi estava treinando com outros aspirantes à armadura de Hidra e pela primeira vez sem a supervisão de Paavo,pois este havia contraído uma forte gripe e estava de cama.Esses outros aprendizes não gostavam de Ichi,não por sua aparência (embora eles também o discriminassem),mas sim por ele ser o preferido de Paavo.Por isso,todos se uniram contra Ichi,e claro,mesmo tentando se defender, ele ficou muito ferido.Quando Tarja soube,ficou revoltada e contou tudo ao seu pai.Ele,mesmo sendo uma pessoa muito nobre,obrigou os aprendizes a pedirem perdão a Ichi como condição para não expulsá-los.Então,contra a vontade,eles tiveram que se desculpar. Mesmo assim,Tarja não estava satisfeita,pois sempre fora contrária a lutas,e por isso ela sempre insistia para que seu pai não treinasse mais ninguém,mas era inútil.No entanto,ela aproveitou esta ocasião para insistir com Ichi:
- Você tem que parar de treinar,Ichi.Eu não entendo por que as pessoas insistem em resolver seus problemas com violência.
- Não se trata disso,Tarja.Eu não posso fugir,não quero.Tenho que continuar treinando.E afinal,eu não tenho alternativas - disse Ichi pacientemente.
- Não sei por que você é tão teimoso - disse Tarja irritada.
- Além disso,se eu desistir do treinamento,terei que ir embora e não nos veremos mais - explicou Ichi.
- Mas por quê? - ela perguntou intrigada.
- Seu pai certamente não deixaria que você viesse comigo.
- Mas ele gosta muito de você - lembrou-o Tarja.
- Sim,é verdade.E aliás,por isso mesmo tenho que continuar treinando,pois seu pai jamais permitiria que eu desistisse.
- É mesmo,talvez você tenha razão - ela disse,tristemente.
- Mas não se preocupe,eu sei me cuidar - disse Ichi com um sorriso.
E assim passaram-se os anos,Ichi concluiu seu treinamento,mas ainda não queria partir.Ele tinha que fazê-lo,mas não queria ir sozinho e,por isso, conversou com Tarja:
- Mesmo tendo que enfrentar a fúria de seu pai,eu gostaria que você viesse comigo,Tarja.
- O papai nunca ficaria furioso com você.Mas eu não sei se conseguiria habituar-me a viver no Japão,eu gosto muito do meu país.Além disso,não sei se seria muito correto irmos juntos,sem nenhum compromisso - disse Tarja com um meio sorriso.
- Ah,está me propondo casamento? - perguntou Ichi,rindo.
- E por que não? - disse Tarja,também rindo.
- E o que meu mestre diria? - ele perguntou,indeciso.
- Creio que o papai ficaria muito contente.Se bem que ele nunca disse nada,mas é que ele é uma pessoa discreta e talvez pensasse que ficaríamos constrangidos se ele comentasse algo - observou Tarja.
- Bom,nesse caso,vamos logo falar com ele - disse Ichi,mas ela não o acompanhou. - O que foi? - ele perguntou,intrigado.
- Há uma condição - ela respondeu.
- Condição?Mas do que você está falando?
Tarja aproximou-se dele,abraçou-o e,após beijar-lhe os lábios,disse:
- Você sabe que o maior sonho do meu pai sempre foi que eu me tornasse uma amazona,de preferência de ouro,mas por mais que eu o adore e queira agradá-lo em tudo,eu nunca poderia atender seu desejo,pois desprezo as lutas e qualquer tipo de violência.Por isso,para que nos casemos,você terá que parar de lutar.E para sempre.
- Lamento,mas eu não posso fazer isso - disse Ichi.
- É claro que você pode.Não faça por mim,faça por você mesmo - ela insistiu.
- Não - Ichi disse firmemente.
- Está bem.Se é o que você quer,então nos despedimos aqui - disse Tarja,começando a afastar-se,mas Ichi segurou-a pelo braço e disse, aflito:
- Por que está fazendo isso?Não percebe que temos o futuro em nossas mãos?
Tarja respondeu sem olhar para ele:
- Você era quem tinha o futuro em suas mãos.E foi você quem escolheu o meu e o seu - e soltando-se delicadamente,ela foi embora.Ichi não pôde fazer nada e,assim,voltou ao Japão.
E no fim,Tarja tinha razão.Se ele a tivesse escutado,agora não seria um frustrado,pois de nada servira sua insistência em lutar;ele era um fracassado, nunca pudera defender Athena,nunca ajudara ninguém.
Quando ele voltou para a Finlândia,menos de dois meses depois de ter concluído seu treinamento,Tarja imaginou que tinha sido por sua causa,que ele havia se arrependido e voltara para buscá-la.Ao descobrir que ele só queria aperfeiçoar seu treinamento,ela ficou irritada e ao mesmo tempo decepcionada.E hoje,pensando em tudo isso,Ichi se arrependia.Arrependia-se por ser covarde,fraco,mas sobretudo, por ter escolhido a solidão.E a responsável por todos os seus conflitos era a sua tia,a única pessoa que poderia tê-lo ajudado.Então,ele se perguntou se a verdadeira aberração era ele ou se fora ela.