Duas Saoris
Autora : Érika
"Saint Seiya" é propriedade de Masami Kurumada,Shueisha e Toei Animation.
Capítulo 3
Após o beijo,Seiya e Saori permaneceram quietos por alguns minutos,pois ambos sentiam-se desconcertados,até que finalmente Seiya perguntou:
- O que você pretende ,Saori?
Ela respondeu :
- Seiya,creio que temos que conversar.
Ele não falou,estava reticente.Saori valeu-se das circunstâncias para dizer :
- Espere-me aqui.
- Mas aonde você vai? Não queria que conversássemos ? - perguntou Seiya segurando-a pelo braço,para impedi-la de sair.Saori voltou-se para ele :
- Sim,mas tenho que sair por um momento.
- Então é melhor eu acompanhá-la,porque você não está muito bem... - começou a falar Seiya,mas Saori o interrompeu :
- É melhor que você fique aqui , porque eu não quero ter que adiar uma conversa que já deveríamos ter tido há muito tempo - soltando-se do braço dele, Saori saiu do quarto do Mestre, e desta vez, Seiya não fez nada para impedi-la e resolveu que iria esperá-la pacientemente.
Mas estava intrigado. Afinal, por que Saori o beijara ? Obviamente ele tinha uma certa noção de que Saori sentia algo especial por ele, um afeto distinto do que ela direcionava a seus outros cavaleiros , e ele também já havia demonstrado que o carinho que sentia por ela não se devia somente ao fato de que ela era sua deusa. Todavia, eles nunca puderam esclarecer sua situação, sempre havia algo a impedi-los ; as lutas,as incertezas que cada um sentia... E o que realmente parecia estranho a Seiya era que Saori quisesse falar sobre isso justamente agora. Para ele, aquele não era o momento. "Mas então, quando ? Pensando bem, talvez devamos resolver isso de uma vez. Por outro lado... as coisas não são tão fáceis assim.Certamente esta não era a ocasião mais adequada para Saori me beijar ; eu nunca poderia imaginar que ela agiria dessa forma. Bem,claro, eu sei que as gregas são relativamente liberais, mas Saori foi criada no Japão , logo , não deveria ter tido essa atitude. Aliás, eu é quem deveria tê-la beijado, já que eu sou o homem. Bom, mas eu também não poderia fazer isso, ela é a deusa, não seria apropriado, embora em diversas oportunidades eu tenha sentido vontade de fazê-lo. Só que sempre tive que me controlar, e não só por ela ser Athena, e uma rica herdeira, ao passo que eu sou um simples cavaleiro. Eu sei que os motivos são mais profundos. Minha confusão sentimental... mas nos últimos tempos,estou seguro do que sinto. Mesmo assim, eu não posso tomar uma decisão agora, não sem antes ver a Miho. Por que será que eu evitei tanto esse momento? As batalhas? Não,isso não foi um real obstáculo, porque depois da luta contra Ares,tivemos umas poucas semanas de descanso. Eu poderia tê-la procurado, mas não o fiz. É irônico como tenho toda a coragem do mundo para enfrentar meus inimigos, não me importo se me ferem, nem mesmo temo a morte... e no entanto, não tive o valor suficiente para ir falar com a Miho,olhá-la nos olhos... como eu pude ser tão frio?" ,murmurou para si mesmo.
Alguns segundos depois, Seiya tocou levemente seus lábios com a ponta dos dedos e esboçou um pequeno sorriso : se era verdade que o primeiro beijo era inesquecível, então o dele ficaria indelevelmente marcado em seu coração. Ao pensar nisso, o sorriso de Seiya se alargou, mas logo depois morreu,porque ele começou a fazer algumas conjecturas : se Saori tomara a iniciativa, então isso devia significar que ela já beijara antes. E se fosse esse o caso, quem teria sido o felizardo? "Será que foi o Jabu? Ah, mas se aquele desgraçado se atreveu a encostar um só dedo na minha Saori... ora, eu não devo ser tão pretensioso,ela não me pertence. Deveria ser o contrário, já que ela é a deusa. Mas isso agora não importa, o que me preocupa é o imbecil do Jabu. E se foi ele o primeiro homem que a Saori beijou? Certamente ele teria adorado, pois sempre a venerou" , pensou Seiya furioso.E continuou seu raciocínio: "Desde que éramos crianças, o Jabu sempre teve um carinho sem limites por ela... e eu a odiava naqueles tempos. Tempos nos quais eu nem imaginava as tristezas que o destino reservava a todos nós"... Nesse rumo de seus pensamentos, já não havia nem mais um resquício de cólera no semblante dele, pelo contrário: neste instante Seiya parecia tão somente um rapaz comum de 18 anos, como qualquer outro, a não ser por dois fatores : vestia uma armadura e tinha várias cicatrizes pelo corpo, e não eram por causa de travessuras ocasionais que tivesse feito na infância ( e ele nem fizera tantas assim, pois quando era descoberto,sofria punições extremamente rigorosas), e sim por estar vivendo uma vida que não escolhera, mas da qual não podia fugir. "Bom, também não devo me queixar.Tudo poderia ter sido pior, na verdade meus amigos sofreram muito mais. E quanto a mim? Fui separado da minha querida irmã,a única pessoa que eu tinha no mundo. Cortesia de um infeliz chamado Mitsumasa Kido, que transformou a todos nós no que somos hoje. Por culpa dele eu conheci o que era o ódio" - neste instante, toda a raiva de Seiya voltou de maneira avassaladora , pois ele sempre se sentia assim quando recordava seu "pior inimigo", ainda que ele já estivesse morto há anos. "E por isso, eu também não gostava da Saori, ela era o retrato do avô, tinha a mesma personalidade, mesmo ele não sendo seu avô verdadeiro. E quando eu voltei da Grécia, após anos de um treinamento sem sentido e muito feliz e orgulhoso porque conseguira uma armadura... que ridículo... acreditando que reencontraria minha irmã... e vi a Saori... eu ainda a detestava.E ela jamais cumpriu a promessa, nunca encontrou a Seika. Bom, felizmenteagora ela reapareceu, ams não foi por obra da Saori. Apesar de que eu não ganhei o Torneio Intergaláctico e essa era a condição para que procurassem a Seika. Então,nesse caso, eu também falhei. Se bem que o torneio realmente não teve um fim, devido à aparição do Ikki e tudo o que aconteceu depois. E meu ódio por Saori morreu em pouco tempo,depois de ter persistido por anos... que curioso... Por ela ser a deusa? Não, nada disso, a divindade dela não tem nada a ver com isso. Eu penso na própria Saori, um ser humano como qualquer outro... e só depois eu lembro das complicações,que ela é a deusa Athena... e que já deve ter beijado outro antes de mim. E é bem provável que tenha sido o imbecil do Jabu... Mas afinal, o que eu queria? A maioria das pessoas certamente já beijou alguém antes dos 18 anos. Por que com a Saori seria diferente? Só porque é uma deusa? Mas ela (e todos nós também) somente descobrimos isso há uns poucos meses. E se eu pensar bem, estou sendo ilógico, até os deuses têm direito a viver um romance. Aliás, principalmente eles, creio... bem, mas talvez o mais natural seja que se relacionem entre eles... Então, por que a Saori escolheu o Jabu?... Quer dizer... se ela o beijou, por que eles não iniciaram um relacionamento? Ou teria sido só um capricho da parte dela? Não, estou confuso outra vez... Jabu também foi embora do Japão quando éramos crianças, também esteve ausente por oito anos... seria improvável que tivesse havido algo entre eles. Apesar de que ele voltou ao nosso país uns dias antes de mim... Quem sabe se nesse meio tempo... Mas se for esse o caso, eu juro que ele vai me pagar, se ele teve a ousadia de tocar nela... nem que tenha sido em um só fio de seus cabelos... então, ele terá uma lição da qual jamais vai se esquecer". Após refletir sobre todas estas questões, Seiya começou a sentir uma certa inquietude, nem sabia por que estava pensando tantos disparates. "Que estupidez, já não faz diferença mesmo. Primeiramente, Mitsumasa já morreu há muito tempo, eu não deveria recordá-lo. Acho que a questão é que os feitos dele ainda permanecem até hoje, por isso é tão difícil esquecer. E quanto à Saori... ela está se comportando de forma incomum... sua insitência para que eu não saia daqui... que será que está acontecendo? E talvez... pensando bem, talvez sendo tão rica e indo a eventos sociais, ela na verdade tenha conhecido alguém... quem sabe se foi com esse alguém que ela aprendeu a beijar? Mas quem será? Festas... jantares... com certeza Saori teve muitas oportunidades... se eu soubesse... bem, não poderia fazer nada mesmo, não posso mudar o passado. E não devo ser tão cretino, ainda há pouco eu estava me lembrando da Miho... e que preciso vê-la" - Seiya ia fazendo essas considerações enquanto caminhava pelo salão do Mestre.
Saori encontrou Shun, Ikki e Hyoga e logo percebeu que eles não estavam bem. Entretanto, agora ela não tinha tempo para conversar com eles e tentar ajudá-los, era preciso que fosse o mais breve possível :
- Onde está o Shiryu? - ela perguntou.
Os três pareceram assustar-se com a pergunta, só então notando a presença de Saori.
- Quem sabe? - disse Ikki pensativo.
- Bem, tenho que dizer-lhes algo, mas terei que ser rápida. Peço-lhes que não façam muitas perguntas agora, apenas sigam minhas instruções, e quando eu puder ("Se eu puder", disse Saori a si mesma) farei os devidos esclarecimentos.
- Mas o que está acontecendo? - perguntou Shun alarmado.
- Eu ressucitei o Seiya, mas é melhor que ele não fique sabendo disso, eu falei que ele encontrava-se em khoma profundo e que eu o trouxera de volta e que também fizera o mesmo com os outros cavaleiros - disse Saori rapidamente, para que ninguém pudesse interrompê-la.
- O quê? - disseram todos em uníssono.
- Por favor, eu pedi que não fizessem perguntas.Ouçam-me, quero que vocês avisem tudo o que eu acabei de falar a todos os outros.E rapidamente. E lembrem-se: que ninguém conte ao Seiya que ele morreu e que eu o ressucitei - disse Saori, já um pouco impaciente.
- Mas por que não podemos contar nada? Saori, isso não faz o menor sentido - disse Ikki intrigado.
- Eu estou fazendo algumas cogitações, só que realmente não vou falar sobre isso agora, basta que saibam que tenho minhas próprias razões... quero dizer, talvez eu ... bem, já chega, façam o que eu digo, depressa! Eu já perdi muito tempo, tenho que ir - disse Saori, mas antes que pudesse dar um passo, sentiu-se tonta e precisou de alguns segundos para se recuperar. Ikki e os outros notaram a palidez da deusa e a impediram de ir.
- Saori, o que você tem? Está tão pálida - comentou Shun, preocupado.
- Não tenho nada. Será que vocês podem atender ao meu pedido, por favor? - respondeu Saori, já exaperada.
- Está bem, porém, antes de ir, diga-nos onde está o Seiya.Claro, se isso também não for segredo - disse Ikki, em tom levemente irônico.
- Ele está no salão do Mestre. E não, não é segredo. Aliás, ele está me esperando, por isso, eu tenho que voltar logo para lá ("antes que ele saia, e eu não quero ter problemas") - em seguida, Saori encaminhou-se de volta ao salão do Mestre, deixando para trás três cavaleiros de bronze, cada um com uma mesma expressão confusa. Contudo, Ikki foi o que reagiu mais rápido e, recompondo-se, falou aos demais:
- Depois teremos tempo para fazer as devidas perguntas, agora temos que seguir as instruções que Saori nos deu. Vamos?
Shun e Alexei Hyoga assentiram e acompanharam Ikki naquela "missão" , ainda pensando que seria mais simples se Saori dissesse a verdade a Seiya.Porque senão, que motivos ela teria para ocultar a ele que o ressucitara?
Quando os três cavaleiros encontraram "Seika" e lhe deram a notícia, estranharam a reação dela: a moça não se mostrou feliz, entusiasmada... claro, demonstrara muita surpresa (como todos os outros, aliás), mas somente isso. Logo após, o rosto dela adquiriu uma expressão indefinível, e ela perguntou:
- Por que Athena não quer que ele saiba que esteve morto e ela o trouxe de volta?
- Não sabemos - respondeu Ikki olhando-a atentamente. Decididamente o comportamento dela era esquisito.Obviamente era natural que ela fizesse essa pergunta, realmente era uma incógnita, porém, por ela ser irmã de Seiya, ele julgou que o normal teria sido que ela pedisse para vê-lo imediatamente. Sobretudo depois de ter chorado tanto por ele e de todos os insultos que dissera a Athena. "E a bofetada. Não devo me esquecer da bofetada" , pensou Ikki.Foi então que ele resolveu perguntar:
- Bem, mas eu suponho que agora você queira vê-lo?
Ela pareceu admirar-se com a pergunta, era óbvio que não a esperava. E notou os olhares de estranheza que os outros lhe dirigiram.
- Obrigada pela informação. Vou esperar até que ele venha falar comigo - disse "Seika" com um meio sorriso.
"Obrigada pela informação? Mas que espécie de resposta é essa?" , pensou Alexei Hyoga perplexo.
- Não precisa agradecer, afinal, você é a irmã - disse Ikki lentamente.
- Claro,claro - disse "Seika" calmamente.E acrescentou:
- Já contaram isso à Shaina?
- Ainda não. Ainda não a encontramos - disse Shun.
- Bem, eu mesma gostaria de falar com ela. Se a encontrarem,avisem a ela que estou esperando-a aqi em sua casa para lhe dizer algo... como direi? Bom, algo importante - pediu "Seika".
- Está bem - concordaram os três e começaram a retirar-se, mas Ikki ainda se deteve por um momento mais e disse:
- Eu não entendo. Você deveria estar contente por ter recuperado seu irmão.
- E estou - falou "Seika".
- Pois não parece. Por exemplo, disse que se encontrarmos Shaina, devemos dizer a ela para vir até aqui para que você mesma fale para ela que o Seiya foi ressucitado. E você disse que devemos falar a ela que você tem algo... importante para contar. Mas antes de usar a palavra "importante", você disse : "Como direi?" E eu não compreendo.Qual era a dúvida? Evidentemente a informação de que o Seiya voltou é importante. Ou não?
- Suponho que sim - respondeu "Seika" dando de ombros.
- Supõe? - perguntou Ikki boquiaberto, mas antes que "Seika" pudesse dizer algo, ouviu-se Alexei Hyoga, já um pouco afastado com Shun, dizendo:
- Ikki, você não vem? Lembre-se de que ainda temos que encontrar o Shiryu.
- Sim, já estou indo - disse Ikki enquanto lançava um olhar perscrutador em direção a "Seika". Sorrindo, ela disse :
- E então, você não vai? Não deixe seus companheiros te esperando por mais tempo.
- Sim, tem razão - disse Ikki e, dando meia-volta, dirigiu-se até onde Alexei Hyoga e Shun o esperavam.
- O que houve? Por que ficou falando com ela? - perguntou Alexei Hyoga.
- Algum problema? - perguntou Shun.
- A atitude dela é um pouco rara, não lhes parece? - respondeu o cavaleiro de Fênix.
- Sim,eu também reparei - concordou Shun pensativo.
- Bem, mas agora é melhor irmos - disse Alexei Hyoga. Os irmãos concordaram e os três continuaram seguindo seu caminho.
"Seika" observou-os enquanto eles se afastavam, depois entrou na casa, fechou a porta e sentou-se no parapeito da janela. "Por que Saori o ressucitou? Não, não é difícil imaginar, eu sei. Contudo, ela não deveria tê-lo feito. Nem eu mesma, apesar de todos os meus equívocos, nunca fiz isto. Se bem que durante uma boa parte de minha vida realmente teria sido impossível para mim ressucitar quem quer que fosse. Na realidade, eu nem mesmo poderia resgatar alguém do khoma profundo. Mas isso foi antes, no passado. Hoje eu poderia ressucitar qualquer pessoa se fosse necessário. Pelo menos é o que acredito, só que nunca tentei. E também, por que eu o faria? Não é algo imprescindível. Pelo contrário : não se deve fazer isso. Será que a reencarnação atual da deusa Athena ignora que não é permitido ressucitar alguém? Obviamente ela ainda é imatura, se bem que temos a mesma idade. Mas apesar da inexperiência, ela continua sendo a deusa da Sabedoria, não? E da Justiça, da Guerra Defensiva, das Artes Úteis e Ornamentais... ou seja, tem muitas responsabilidades, mais do que muitos outros deuses. E tem que saber... é claro que ela tem que saber que não deveria ter ressucitado aquele cavaleiro. E se isso prejudicar meus planos? Não, não posso permitir. Estou tão perto... bem, isso é claro, se ela ceder. Porque se resistir... se seus servos se intrometerem... Bom, agora creio que já não há mais tempo, com o que Athena acaba de fazer, terei que agir logo. E no entanto... eu ainda gostaria de observar mais um pouco os locais do Santuário, seus cavaleiros e amazonas (meus futuros inimigos?)... Será que conseguirei evitar uma guerra? Athena, essa Athena é pusilânime, terá que concordar comigo. Porque eu não quero nada demais, apenas desejo recuperar o que me pertence. Então, se eu permanecer uma semana aqui, observar a movimentação... tenho que estudar muito bem cada lugar do Santuário, porque se for preciso uma invasão..." , refletiu "Seika". Segundos depois, ela voltou a pensar no "ato impensado" de Athena,mas desta vez, não com a mesma calma de antes, agora sentia-se irritada e impotente. "Se eu tivesse imaginado...Todavia, como eu poderia saber? Então, eu teria impedido. Ah, se eu soubesse até onde isso poderia lesar-me... Essa estúpida... Por que teve que trazer aquele cavaleiro de volta? E qual será a punição de Athena? Quando ocorrerá? Não, não, tenho que conseguir o que é meu, não posso deixar. Mas o que eu posso fazer? Também não estou muito segura sobre quais são as penas que os juízes impõem àqueles que cometem tal delito... Mas eu poderia tentar colocar-me no lugar deles.. Se eu fosse um juiz, o que eu faria ? Ah, não, isso não adianta, como vou saber? Mas não poderia ser um escarmento muito severo, afinal, ela é uma deusa da justiça. Ou será que justamente por isso o castigo seria pior? O que fariam se tivesse sido eu quem tivesse cometido esse erro?" Nesse rumo de seus pensamentos, "Seika" não pôde deixar de sorrir um pouco. "Certamente meu castigo não seria muito brando... bom, pelo menos aquela escarmentação que eu sofri não foi muito amena... pensando bem, será que eu já estou totalmente curada? Será que não ficaram seqüelas ? Não sei... agora que estou refletindo sobre isso, talvez quando eu menos esperar... Ah,mas eu me sinto tão bem.Finalmente meu cosmo atingiu um nível elevado...tanto que é difícil ocultá-lo,às vezes penso que não vou conseguir. Mas até aqui ninguém ainda percebeu. Pelo menos é o que eu espero. Mas e a punição... Ah, não, agora estou recordando: segundo os juízes, não é um castigo, na verdade o que eles fazem é reeducar . Realmente as mais elevadas autoridades têm uma maneira curiosa de justificar nossos castigos. Eu lembro... sim, fui irreverente, disse que não sabia que já haviam inventado outro nome para a palavra "punir" . E eles ficaram furiosos comigo. Não precisamente a fúria que os humanos ou deuses sentem. Na verdade,não sei bem como chamar um sentimento de raiva baseado na indiferença... porque os juízes são neutros e mantêm um invólucro de indiferença. Raramente eles externam enfado ou compaixão... justamente porque têm que ser imparciais. Mas por que todas essas lembranças estão voltando à minha mente? Eu não deveria lembrar-me de nada. Bem,não como ser humano. Mas é a minha parte divina, é ela quem recorda tudo o que aconteceu. Porque eles falaram diretamente com a deusa mitológica, a original, pois eu sou tão somente mais uma reencarnação... não, mas o que é isso? Onde está minha auto-estima? Eu nunca a perco. Além disso, que outro deus ou deusa poderia fazer o que eu fiz? Não importa que eu seja outra reencarnação, que haverá outras depois de mim (isso se houver), isso não invalida o fato de que eu realizei um prodígio. Nem mesmo Athena que é a filha favorita de Zeus... Mas será que isso efetivamente corresponde à realidade? Porque segundo a mitologia, Zeus temeu que com o nascimento dela, ele perdesse sua soberania, então devorou a esposa grávida, mas sentiu uma terrível dor de cabeça, que ele não sabia serem as contrações... e então Athena nasceu, já de armadura e preparada para guerrear. E neste caso,dou toda a razão a Zeus por sua preocupação, Athena de fato tomou o seu lugar. Ademais, antes de eu reencarnar, Zeus estava se comportando de forma pouco comum... não sei definir o que havia de errado... talvez algo que ele dissera... o que poderia ser? Ah, isso eu não lembro. Está tudo vago. Aliás, eu nem deveria lembrar-me de nada disso, dos deuses à minha volta e seus comportamentos quando eu ainda não voltara para a Terra. A maioria das pessoas em imagina o que foi, o que fez em suas reencarnações passadas. Mas eu não esqueço o que ocorreu antes que eu estivesse novamente na Terra... não esqueço o castigo que me impuseram... bom, é óbvio que eu sou extraordinária, por isso me lembro de tantas coisas. E se ao menos eu também pudesse trazer novamente à minha memória o que Zeus disse ou fez... por que estou com essa sensação estranha? O perigo... e não sou eu. Não é o que eu posso causar a Athena ou ao Santuário se eles não concordarem comigo... trata-se do que Zeus poderia ou queria fazer. As intenções dele... algo sobre Athena ou a Terra ou os humanosou outros deuses específicos... o que seria?"
Quando Saori regressou ao salão do Mestre, Seiya já estava deveras impaciente:
- Finalmente você voltou. Por que essa demora? De onde você está vindo? Do Japão?
- Creio que este não é o melhor momento para ironias,Seiya - disse Saori,séria.
- Não estou sendo irônico, só que não compreendo por que demorou tanto. Esqueceu-se que disse que tínhamos que conversar? Esqueceu-se que me deu um beijo? - disse Seiya para Saori. "E que foi o meu primeiro beijo" , disse a si mesmo.
- Não me esqueci de nada, por isso estou aqui - disse Saori enquanto se sentava, pois novamente sentia-se tonta, sua vista estava um pouco embaçada e ela sentiu medo de desmaiar, principalmente agora que ela e Seiya tinham tantas coisas para esclarecer.
- Ótimo. Então, eu vou fazendo as perguntas - disse Seiya.
"Novidade. Desde que eu o ressucitei, isso é tudo o que ele sabe fazer : perguntas" ,pensou Saori, e não pôde deixar de sorrir.
- Por que está sorrindo? - perguntou Seiya desconfiado.
- Eu? Eu...? - Saori não notara, fora um gesto involuntário.
- Está bem, esqueça, é melhor eu fazer outra pergunta : quem foi o outro homem que você beijou antes de mim ("Não acredito que eu falei isso") ?
- Quê? Mas que pergunta é essa? - Saori estava admirada.
- É muito simples, é só me responder. Foi alguém que eu não conheço? Alguém do seu nível? Ou foi... talvez o idio... isto é, o Jabu? - quis saber Seiya.
- Jabu? Mas o que te faz pensar isso? - Saori estava cada vez mais (desagradavelmente) surpreendida com a atitude de Seiya.
- É óbvio.Ele sempre te amou, desde a nossa infância - disse Seiya bruscamente.
- Seiya, por que está dizendo todos esses absurdos?
- Só que não são absurdos, se você nunca reparou, então está cega ou é insensível, não sei - respondeu Seiya.
- Não estou cega e também não sou insensível. O que não entendo é o que te faz imaginar que algum dia Jabu e eu tivéssemos nos beijado. Ou você não lembra que ele foi treinar na Argélia no mesmo dia em que você veio aqui para a Grécia quando éramos crianças e que só retornaram oito anos depois? Então, como você pode ver,não haveria nenhuma ocasião em que eu pudesse beijar o Jabu - disse Saori um pouco aborrecida.
- Isso não é verdade. Em primeiro lugar, Jabu voltou para o Japão antes de mim, então, nesse meio tempo vocês poderiam ter se beijado. E agora que estou me lembrando, houve ocasiões em que meus amigos e eu estivemos afastados da mansão por causa das lutas. Então... - mas Seiya não pôde continuar, pois Saori o interrompeu:
- Você parece ter esquecido que Jabu não ficou muito tempo na mansão, pois ele voltou à Argélia para reiniciar seu treinamento.
- Sim, mas e antes disso? Oportunidades não faltaram. Aliás, seria muito difícil eu descobrir, afinal, eu não moro na mansão mesmo. Posso até estar lá com muita freqüência, mas não é a minha casa. E se não foi ele quem você beijou, então quem foi? Nachi, Ichi, Geki ou Ban? Algum outro? - insistiu Seiya.
- Já chega, Seiya! - disse Saori levantando-se, mas logo depois teve que sentar-se novamente,pois sentiu outra tontura. Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, até que Saori disse:
- Você não tem nenhum direito de fazer essas perguntas. Nós não temos nada, você é apenas meu cavaleiro, nada mais.
- Ah, então é assim? Neste caso, me esclareça somente essa dúvida: por que você me beijou? Ah, já sei, foi tudo um jogo para que eu não saísse daqui. Porque você disse que não queria que eu saísse. Então você me falou que queria que conversássemos, e saiu, e eu fiquei te esperando como um estúpido, quando o que eu deveria ter feito era sair para ir ver minha irmã. Mas não pense que por você ser a deusa tem o direito de usar os outros assim. E agora eu vou embora - disse Seiya, mas antes de dar o primeiro passo, ele mesmo se interrompeu e perguntou sarcasticamente:
- Ah, me perdoe, esqueci de pedir sua permissão. Será que agora eu posso sair, senhora?
- Não. E você me interpretou mal. E eu é quem deveria estar ofendida por suas perguntas sem propósito. Aiás, e se eu perguntasse sobre você e a Miho? O que houve entre vocês dois para que ela estivesse tão triste naquele dia em que estivemos no orfanato para nos despedirmos porque no dia seguinte viríamos para cá? E por que ela lhe dirigiu um olhar tão afetuoso quando eu te disse para ficar por lá mais um pouco? Eu não vi somente amizade no olhar dela - disse Saori desafiadoramente.
Agora era Seiya quem estava surpreendido e também um pouco constrangido:
- Ora, a Miho é... ora, você sabe, uma amiga de infância. E não queria perder nossa amizade, por isso estava triste por minha partida.
- Claro. Sei - disse Saori ceticamente.
- Acontece que... que... na verdade, outra vez eu havia me esquecido dela. Ou melhor, eu quis esquecer porque eu queria evitá-la. Mas... eu já não posso continuar. Eu não... - mas Seiya teve que se interromper, pois sentiu uma pontada no peito. Contudo, controlando-se, ele continuou:
- Acho que não vamos conseguir resolver nada com essa nossa conversa. Eu tenho assuntos pendentes e me sinto... bem, um pouco confuso, não sei. Creio que é melhor conversarmos em outra ocasião, quando tudo já estiver mais claro. Porque agora meus pensamentos estão obscuros, eu me sinto... não sei, um pouco perdido. É melhor eu ir - disse Seiya, começando a se afastar, e desta vez, Saori não fez nada e deixou que ele se fosse. Mas ficara frustrada. Esperava resolver as coisas com Seiya e... mas ele estragara tudo com aquelas perguntas estúpidas. Ou será que ela era a responsável? Talvez estivesse enganada, e os sentimentos dele fossem para a moça do orfanato. Porque era óbvio que ele se importava muito com ela. E talvez fosse melhor assim, Miho era uma pessoa simples como ele, não haveria complicações... Talvez Saori tivesse sido precipitada ao beijá-lo, apesar de que ela não fizera isso para extravasar algum sentimento romântico, mas sim porque tinha que impedi-lo de sair, convencê-lo a ficar para que conversassem, e essa era a única forma. Do contrário, por que ele teria permanecido ali, esperando por ela? "Mas por que eu fiz isso? Deveria haver outra maneira. E ele... ele certamente vai falar com ela. Mas o quê? Durante muito tempo ele me detestou. Talvez agora só sinta que tem responsabilidade para comigo por eu ser a deusa Athena, mais nada. Mas por que eu o ofendi? O que eu fiz?" Saori continuou pensando, tentando descobrir onde foi que errara. Ou talvez não se tratasse disso, talvez o fato fosse que sua vida estava muito confusa e ela quisera encontrar alguém que lhe mostrasse que rumo seguir.