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Hadrian Marius
babell@ieg.com.br
O general Perves tinha devotado toda sua vida a Federação e agora que estava em vias de se aposentar esperava gozar de todos os direitos e privilégios que sua classe tinha direito. Este já era para ele um fato consumado por isso nem se importou em esperar por quase vinte minutos para ser atendido pelo seu superior. Ignorava o motivo de ter sido chamado mas, acalentava a idéia de ser apenas para receber comprimentos e felicitações pela nova vida que começaria dentro e alguns dias. "O senhor pode entrar", o intendente avisou-lhe apontando a porta. Ao entrar o coronel o cumprimentou com aquele ar de oficial de carreira que Perves já estava acostumado. O general esperava as felicitações e talvez, algum mimo; mas a face severa de seu comandante desfez-lhe as ilusões. "O senhor ouviu falar do incidente de Ardossia coronel?". A pergunta era desnecessária pois, Perves, assim como todos na base, tinha ficado sabendo do ocorrido no sistema Ardossia: um cruzador e dois destróieres tinham sido destruídos após entrar em combate com uma astronave desconhecida. Perves sabia do fato e se indagava o que aquilo tinha ver com ele. "No principio pensamos que fosse uma nave corsária Galman-Gamilon", o coronel recomeçou após pesar o impacto de suas palavras no semblante do general, "Mas após analisarmos a radiação residual nos locais de impacto chegamos a conclusão de que se trata de uma nave da Terra. O senhor já ouviu falar na Terra general" Perves respondeu negativamente. "E a Patrulha Estelar? Esta você conhece, não? Nosso governo acha que eles estão alinhados com os galman-gamilon, e a Patrulha Estelar tem dado muita dor de cabeça as nossas esquadras e agora descubro uma belonave da mesma origem está rondando meu setor e isso não posso permitir. Por esse motivo eu o chamei aqui, general, o senhor ira liderar uma força tarefa com o intuito de destruir esta nave Terráquea". "Senhor...", Perves iria falar que estava se aposentando, que o coronel achasse outra pessoa, mas preferiu calar-se. "O senhor serviu neste setor durante toda sua vida e o conhece como a palma da mão por isso é o homem mais indicado para liderar esta caçada. Considere isto como seu ultimo favor pela Pátria". Aquelas palavras fizeram Perves crer que seu futuro dependia de como se saísse daquela caçada. "Eu quero aquela nave fora do meu céu general", foi a última coisa que ouviu ao sair da sala. ************** "Todos os sistemas em ordem", Depardieu levantou o polegar, que foi visto pelo mecânico que a acompanhava na inspeção. Ela estava na carlinga de seu astro-caça fazendo as ultimas checagens nos instrumentos de navegação fazendo mais uma daquelas inspeções de rotina. Ela, pessoalmente, não gostava daquelas checagens de rotina, apesar de serem essenciais para se evitar surpresas desagradáveis; preferindo que houvesse um pouco mais de ação, mas apesar da batalha recente tudo tinha voltado ao normal. De onde estava via todo o hangar e percebeu que alguns dos membros de seu esquadrão ainda não tinham acabado suas checagens entre eles estava Marco que recostado em seu caça era auxiliado por Lamertz. Ele ao percebe-la cumprimentou-a com uma continência. Marco era um dos melhores pilotos a bordo do Tamoyo e Depardieu não negava isso; só que, desde o primeiro dia que ela o viu, na base lunar, tinha antipatizado com ele, uma antipatia que ela não sabia bem a razão. "Talvez tenha sido por causa daquele olhar guloso dele", ela refletiu olhando para o colo e um sorriso vaidoso estampava-lhe a face, "Dá pra entender aquele olhar". *************** "É melhor você desistir da comandante", Lamertz ironizou assim que Marco voltou sua atenção para o astro-caça após ter cumprimentado Depardieu. "Você sabe que estou em outra Lamertz, além do que ela já tem dono", ele se referia, obviamente, ao relacionamento entre sua comandante e o capitão Khalil que era do conhecimento de todos e se antes ele tinha sentido alguma atração pela tenente agora isto inexistia. Seus sentimentos se voltavam cada vez mais na direção da Oficial de Comunicações. Julia fazia seu coração acelerar e cada vez mais ele pensava nela. Pensava em pedir uns conselhos, afinal nunca fora bom nestas coisas, conselhos que obviamente não seriam pedidos a Lamertz. ************** Nanako e Julia se encontraram quando ambas iam na direção do refeitório e rapidamente entabularam uma conversa que as manteve juntas mas, logo após se sentarem o assunto pareceu morrer, não que elas não tivessem o que dizer mas é que as vezes, até mesmo entre amigos, ocorre aquele período onde os assuntos interessantes se esvaziam e op silencio impera por instantes. A Oficial de Comunicações mordiscava um pedaço enquanto Nanako observava pensativa para uma xícara de chá e Julia viu nesta cena a oportunidade de quebrar o gelo. "Não sei como você consegue beber isso", disse. "É estranho você me dizer isso, não acha? Afinal a asiática aqui é você". Julia olhou para a xícara de café que estava na sua frente. Ela nunca tinha apreciado o sabor do chá preferindo o aroma forte do café. São suas heranças portuguesas, sua mãe sempre dizia. "De que região você é Julia?" "De Macau. Minha família descende de portugueses". "Por isso o nome: Julia", Nanako bebericou o chá. "O interessante é que lá em casa eu sou a única com nome de origem ocidental por isso passei a infância inteira achando que meus pais não gostavam de mim afinal tinham me dado um nome estranho, até parecia nome de bicho" "Entendo. Afinal Nanako Fujikawa é um nome bem brasileiro e japonesas louras são muuuito comuns", a ironia se evidenciava num leve sorriso que se formou nos lábios. "Era difícil ser a única com nome estranho na escola", achando que seu café já estaria frio o suficiente Julia decide tomar um gole, "Você sabe o quanto às crianças podem ser cruéis e como eu não deixava barato acabava chegando esfolada todos os dias em casa". "Também passei por essa vida e Marco sempre me defendia quando me molestavam com suas brincadeiras idiotas", ao citar o nome de Marco os olhos de Nanako luziram naquele misto de alegria e tristeza que Julia por varias vezes surpreendera nos olhos da enfermeira quando o piloto era o tema de suas conversas. "Você o conhece há muito tempo, não?" "Desde o jardim da infância e sempre estudamos na mesma escola e nos separamos apenas quando ele decidiu entrar para a Academia". "E você decidiu ser enfermeira" "Sim. Desde aquela época nós perdemos o contato, voltando a nos reencontrar apenas no dia do embarque". Julia achou estranho amigos de infância terem ficado tanto tempo sem se ver, nem ao menos tinham se correspondido, e estava pronta para perguntar justamente isso quando a expressão melancólica de Nanako fê-la mudar de idéia e de assunto. ************* "Capitão na ponte", um dos oficiais avisa ao ver André entrar e, um a um, os presentes o cumprimentam a moda militar. "Tudo em ordem capitão", Yamada diz-lhe o obvio. A tela principal exibia a mesma imagem de céu estrelado que se via pelas vigias; cada estrela que piscava podia conter a esperança de sobrevivência da civilização terrestre, mas o tempo se encurtava. "Alerte todos os setores de que iniciaremos uma Reversão; as coordenadas são: Lambida 453 Alfa, Sistema Mérgury-6" "Sim senhor". "Espero que tenhamos mais sorte desta vez", Judith fala a seu lado. "Também espero doutora". O tempo se encurtava e a sorte preferia ajuda-los a se manterem afastados de encontros com forças inimigas, não que André estivesse reclamando... "Estou captando um sinal no subespaço capitão", o aviso da operadora de radio toma-lhe a atenção do acompanhamento dos preparativos para a Reversão. "É uma de nossas comunicações?". "Não tenho certeza senhor. Há muita estática e estou tentando filtrar o sinal... espere...". Wan-li mexia freneticamente no sistema de comunicação, um movimento que começava a deixar todos na ponte ansiosos afinal aquele sinal poderia ter muitos significados: desde uma mensagem do Alto-Comando até comunicações inimigas alertando sobre um possível ataque e isto começava a mexer com os nervos da tripulação. "Consegui senhor", ela fala como se tivesse marcado um gol e talvez tivesse. "Então diga tenente". "É um sinal de S.O.S. senhor" Aquelas palavras os atingiram como projéteis;
afinal eles esperavam qualquer coisa menos um pedido de ajuda. Um pedido
de ajuda lançado ao vazio na esperança de se encontrar um
ouvinte. Um pedido de ajuda que poderia não passar de um embuste.
Estes pensamentos ressoavam pela cabeça de André e ele não
tinha tempo de avaliar com calma a situação que pedia uma
reação rápida. E naquele tipo de situação
só havia uma coisa a fazer.
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