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Hadrian Marius
babell@ieg.com.br
Judith Lancaster sentiu um leve tremor percorrer o casco do shuttle terrestre quando este iniciou sua descida rumo à superfície, sabia que as partículas de poeira chocavam-se com o casco com tamanha ferocidade que parecia querer impedi-los. Judith não gostava de reentradas atmosféricas, mas sua curiosidade cientifica era maior que seu medo de voar. Levantou os olhos e olhou a sua volta: seus dois assistentes estavam ao seu lado e suas faces refletiam uma leve excitação, eram jovens e provavelmente nunca tinham estado em solo alienígena, ponderou com inveja. Voltou a cabeça na direção da saída do Cosmo Hound e visualizou as faces sisudas dos fuzileiros que os acompanhavam, percebendo-a o oficial dos soldados, uma garota que não aparentava a idade que tinha, sorriu-lhe amistosamente.
"Comunicação chegando do Cosmo Hound 01 capitão: acabam de terminar a reentrada e iniciaram transmissão de imagens", Julia avisa, atenta. "Passe para a tela principal" "Sim senhor. Na tela principal". André voltou-se para a tela principal
que começou a mostrar a superfície planetária. A nitidez
das imagens enviada pela câmera instalada no dorso do shuttle terrestre
era superiores as enviadas pelo satélite. Todos na ponte, naquele
momento, pararam suas atividades e se concentraram na enorme tela. Pela
primeira vez tinham uma ampla visão do mundo que orbitavam: um mundo
com áreas cobertas de florestas intercaladas por desenhos geométricos,
lembrando monstruosas teias de aranha. Pensamentos começaram a se
formar na mentes de todos. Pensamentos que indagavam se sua busca havia
terminado, que poderiam voltar para casa e que sua civilização
estava salva. Sendo o capitão, André esforçou-se para
não ser engolfado pelo crescente clima de euforia que tomava conta
dos oficiais e somente usando de sua autoridade conseguiu que retornassem
a seus postos. Ordenou que as imagens fossem transferidas para o monitor
instalado próximo a seu assento onde, cautelosamente, continuou
observando-as. Sua experiência lhe ensinara a não confiar
nas primeiras impressões.
*********** O shuttle continuou a cruzar o céu daquele mundo alienígena até alcançar seu destino, previamente determinado: as ruínas daquela que parecia ser a maior e mais importante cidade daquele hemisfério. "Estabelecemos um perímetro de 500 m ao redor da nave tenente", a oficial dos fuzileiros informou, se dirigindo a Depardieu, após cumprir as normas de segurança sobre desembarque planetário. Normas estas que exigiam um rápido conhecimento do terreno e o estabelecimento de um perímetro de segurança. "Algum sinal de vida sargento?", a doutora perguntou, ansiosa, cortando a frente de Depardieu. "Não Senhora. Nenhum sinal de vida foi localizado num raio de 10 quilômetros". A resposta da sargento surpreendeu a doutora que se retirou pensativa. "Algo esta errado não é doutora?", Depardieu se aproximou, logo após a retirada da sargento, "Não entendo muito destas coisas, mas não deveríamos encontrar, pelo menos, um pássaro?". "Você esta certa em sua duvida tenente e, acredite, estou tão intrigada quanto você", Judith respondeu sem tirar os olhos da tela de cristal liquido onde varias informações passavam a uma velocidade que Depardieu não conseguia acompanhar, "Gostaria de recolher amostras de solo das áreas ao redor". A tenente consentiu no pedido da doutora, mas
com a condição de que esta e seus auxiliares fossem acompanhados
por pelo menos um fuzileiro. Estavam em solo estranho e todo cuidado era
necessário.
*********** Julia olhava o azul estelar. Fazia seis horas que o grupo de desembarque tinha pousado e a única noticia da superfície eram os comunicados realizados de hora em hora, como ordenava as normas de desembarque. Por esse motivo às coisas voltaram rapidamente à normalidade, mas assim como todos Julia mantinha apenas uma tranqüilidade superficial: a ansiedade queimava por dentro. Estava no refeitório, onde tinha se dirigido após ser substituída no intervalo dedicado a refeição. Se tinha fome não saberemos, apenas que segurava a bandeja displicentemente. "Porque será que você esta tão pensativa hoje tenente?", Marco tirou-a de seus pensamentos. Não havia notado a chegada dele. Nanako, que o acompanhava, apenas acenou de leve com aquela timidez característica da enfermeira. "Nada em especial". "Quer se sentar conosco?", Nanako adiantou-se convidando. A proposta foi prontamente aceita e o trio procurou uma mesa onde se sentaram iniciando uma animada conversa. "E o pessoal que esta no planeta? Como estão?", Marco perguntou interrompendo uma discussão sobre a necessidade, ou não, de se cortar os cabelos ao se entrar na EDF. Discussão esta que o deixou de lado. "Estão se demorando mais desta vez", Nanako completou. Ante os olhares curiosos de seus amigos Julia iniciou um relato de tudo o que o pessoal da missão planetária tinha pesquisado. Pelos menos à parte que ela sabia. A parte não confidencial. "Isso é tudo?", o aviador indagou-lhe assim que terminou. "Pelo menos é à parte que posso contar-lhes". Se Marco ficou satisfeito ou não com a resposta de Julia não pode manifestar-se pois Nanako alertou-lhes de que seus horários estavam quase esgotados. Levantavam se quando um som que lhes era familiar ecoou por todo o refeitório: UUUÓÓÓÓÓÓÓÓ...UUUÓÓÓÓÓÓÓÓ.... Ficaram imóveis por alguns segundos. Seus rostos ostentando expressões de incredulidade. Uma incredulidade que se desfez ao fim do sinal. "Isto não é um treino. Todos a seus postos. Estamos em alerta amarelo... Repetindo...". A voz do imediato se intercalava ao som da sirene. ************ Depardieu caminhou por alguns minutos entre as ruínas da cidade alienígena, seus olhos perscrutavam os arredores. Ainda se espantava com o fato de não terem encontrado nenhum sinal de vida. Um fato que intrigava não só a ela mas a doutora também. Parou, no que poderia ser considerado o limite daquele pequeno território em posse da Terra, sentando-se numa laje tendo a aeronave terrestre ainda a vista. Olhando para a cidade abandonada lembrou-se das cidades da Terra, que até cinco anos antes ainda se encontravam abandonadas sobre a superfície árida de um planeta semimorto. Recostou-se e retirou a luva revelando um anel prateado ornamentando um de seus dedos. Rememorou os últimos acontecimentos e duvidas começaram a tomar sua alma. "Será que...", esta frase iniciada e não completada sintetizava o jogo de emoções por que estava passando. Era verdade que gostava de Kallil senão não teria ficado ao lado dele durante tanto tempo, mas será que gostava o suficiente para querer assumir o compromisso que aquele anel representava. Seus olhos se estreitaram ao serem atingidos pela luz refletida no anel. "Tenente? Responda tenente?", o som do intercomunicador retirou-a de seus pensamentos. "Aqui é Depardieu... pode falar Mendoza". O jovem aviador começou a falar mas foi logo interrompido pela doutora que ansiosa pedia que ela voltasse imediatamente. Entre curiosa e assustada Depardieu caminhou rapidamente em direção ao shuttle. "O que aconteceu doutora?", perguntou ao chegar quase ao mesmo tempo em que a sargento, que resmungava sobre ter sido interrompida quando checava uma área e esperava que fosse realmente importante. "Comunicação chegando tenente", Mendoza, o co-piloto, interrompe a doutora no momento em que esta iria começar sua explanação sobre a provável causa que levou ao desaparecimento da vida daquele planeta. O motivo de ter pedido a presença das duas oficiais. "E qual é Mendoza?", Depardieu perguntou em tom áspero. Estava por demais curiosa sobre o que teria ocorrido ao planeta e aquela comunicação chegava em má hora. "Veio em Código Morse tenente", as palavras do jovem aviador fizeram os olhos de Depardieu se cruzarem com os da sargento. Ambas sabiam o que significava quando uma mensagem era enviada em Código Morse, "E diz: Espaçonaves avistadas PT Mantenham silencio PT Alerta Amarelo PT". A mensagem atingiu as oficiais como uma flecha e seus olhos procuraram o céu como se pudessem ver o que se passava sobre suas cabeças. "Sua explicação deverá esperar doutora". Rapidamente ordens foram passadas e os militares
começaram a se preparar para o provável. Uma imensa lona
de camuflagem fora retirada do shuttle e rapidamente estirada sobre o mesmo.
Três metralhadoras antiaéreas foram colocadas em pontos estratégicos
ao mesmo tempo em que o perímetro de segurança fora recuado
e os fuzileiros mantinham-se em estado de alerta. Depardieu caminhava de
um lado para o outro: às vezes falava com a sargento, às
vezes com Mendoza que não desviava sua atenção do
radio.
************* Judith não tinha ficado satisfeita com a interrupção, como todos os cientistas e professores, ela também não gostava de ser interrompida no momento em que iria expor suas teorias e descobertas. Agora estava impressionada com a precisão com que cada um daqueles homens e mulheres cumpriam suas tarefas. Uma precisão comparada às engrenagens de uma máquina. "O que iremos fazer doutora?", sua auxiliar perguntou assustada. "O que viemos fazer aqui Catherine: pesquisar",
respondeu voltando-se para o interior do Shuttle. Deveria deixar a guerra
para os soldados e era isso que iria fazer mantendo a mente, sua e de seus
ajudantes, ocupada.
*************
A voz de Lisa pareceu não encontrar eco aos ouvidos do capitão que permaneceu atento na tela principal da nave onde três vultos azulados se pronunciavam. André parecia alheio a tudo que ocorria a sua volta, mas esta era uma impressão falsa porque dentro dele as opiniões entravam em conflito e opções eram lançadas e descartadas com um simples raciocínio. Baseado no histórico dos contatos entre naves da Terra e as da Federação Polar, principalmente o caso envolvendo a nave Lagendra e a Patrulha Estelar, André vislumbrou uma possibilidade de evitar um confronto. "Abra canais de comunicação Wan-li" "Freqüências abertas capitão". "Aqui é o capitão André
Romanov no comando do Encouraçado Espacial Tamoyo das Forças
de Defesa da Terra. Estamos em missão cientifica, por favor, se
identifiquem".
********** Julia, assim como todo, estava com os nervos à flor da pele e se concentrava nos seus fones como se temesse perder algum ruído que não fosse de estática. Dez minutos se passaram desde que a mensagem foi enviada em todas as freqüências e em todos os idiomas conhecidos, mas a única resposta que tinham obtido até agora era o silêncio. Um silêncio que incomodava a todos. Seus olhos corriam pelo painel quando um barulho chamou-lhe a atenção: Lisa se mexia na cadeira com os olhos vidrados no visor do radar e seus lábios se movimentavam: "Naves inimigas dispararam: Torpedos se aproximando".
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