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Hadrian Marius
admarius@ig.com.br
A bateria principal, dianteira, do Tamoyo entrou em operação, despejando sua carga de plasma mortal sobre o encouraçado Polar. Era um ato de desespero que logrou êxito apenas no sentido de que as três colunas de energia atravessaram a ponte do alvo, esfarelando-a. Desesperado, Camalani acionou os motores de manobra exigindo que eles evitassem o inevitável. Eles rugiram contrariados e após um tremor, que percorreu a nave, esta começou a se mover. Apesar do Tamoyo ter começado a se mover, o piloto terráqueo sabia que eles nunca teriam potencia para deslocar as 98.000 toneladas do encouraçado na velocidade necessária. Então, o alivio que todos sentiram ao verem a belonave Polar passar ao largo do casco, foi apenas momentâneo. O impacto produziu um baque seco.
Nanako sentiu como a se alguém a segurasse e depois a arremessasse de encontro à parede da enfermaria; seu corpo reclamou ao chocar-se. E protestou, mais ainda, quando bateu contra o piso frio. Mas naquele momento a jovem enfermeira não podia se preocupar com isso pois, assim como ela fora arremessada, o mesmo se dera com bandejas e objetos cirúrgicos; que voaram sobre seu corpo protegido apenas por seus braços. Segundos se passaram até que ela achasse seguro sair da posição defensiva e, neste momento, pode observar o caos na enfermaria. Praticamente todos haviam sido arremessados contra as paredes e outros obstáculos, macas se chocaram contra paredes, armários se abriram esparramando os frascos de medicamentos, pelo ambiente, enquanto pacientes e enfermeiros gemiam. Alguém a ajudou a se levantar. E um rápido diagnóstico pessoal fê-la perceber que, apesar das dores na costa, tivera sorte. O mesmo não podia ser dito de alguns de seus companheiros; vários apresentavam cortes na cabeça e uma enfermeira choramingava exibindo o braço fraturado. Nanako aprumou-se. Havia muito que fazer e ela sentia que o tempo seria curto. ****************
Lisa estava se levantando, apoiada em Julia, e havia vários cortes em seu corpo por causa do painel de radar que havia explodido. Ela sobrevivera apenas por causa de seu próprio reflexo que ha fez jogar-se no chão no momento em que ele se estilhaçava. Yamada não tivera a mesma sorte. No momento do impacto
ele estava de pé então a inércia tratou de arremessa-lo
contra os painéis, que se encontravam a quase cinco metros, e agora
o imediato estava imóvel, no chão, com o sangue ensopando-lhe
o uniforme.
Apesar das cenas desoladoras que via André ainda era o capitão da nave e esta posição exigia-lhe frieza ante a desgraça. Todos olharam para ele e demorou alguns segundos até que alguém se dispusesse a dar um relatório. "Fomos abalroados nas seções entre a engenharia e a ala médica", Camalani iniciou olhando para a estrutura avermelhada que se projetava no lado direito do Tamoyo, "As equipes de reparos já se dirigiram ao local...". O piloto foi interrompido por um aviso de comunicação. Julia abriu o canal e o rosto apavorado do chefe da manutenção apareceu. Atrás dele o cenário não era animador. "Estamos sendo abordados. Solicitamos apoio dos marin..." sua comunicação foi interrompida. As coisas estão indo de mal a pior, pensou André. ****************
"Eles estão nos abordando por isso é melhor que o senhor tire seu pessoal daqui...". Nanako voltou-se na direção de onde vinham as vozes que conversavam em seu comunicador. Na porta estavam o médico-chefe Babenko e a comandante dos fuzileiros. Seus rostos refletiam toda a tensão presente. "Esta louca sargento!", Babenko esbravejou indignado, "Alguns de nossos pacientes não podem ser removidos...". Nanako lançou um olhar para o marinheiro que estava imerso num tanque de gel. Ela havia jurado que não deixaria aquele rapaz, que tivera seu corpo quase todo queimado, ter o mesmo destino de seus companheiros... "...Eles terão que ser removidos, doutor! Nós não sabemos por quanto tempo poderemos manter o perímetro!", pelo visto a sargento tinha dado a palestra por encerrada pois ela abandonou a porta e desapareceu no corredor. A respiração ofegante do médico-chefe do Tamoyo mostrava que não estava satisfeito com a situação. Quando ele voltou-se para o interior da enfermaria todos estavam parados, olhando-o e esperando. "Vocês ouviram a moça!", suspirou, "Então, mãos a obra!" ****************
A força da trombada. da belonave polar, foi sentida por toda a nave, inclusive no bloco de detenção. Seus ocupantes atuais, dois pilotos arruaceiros e um soldado em seu turno de vigia, foram obrigados a se segurarem para não serem arremessados contra as paredes. "Essa foi forte!", Frazier externou o pensamento de todos. "Uma batalha dessas acontecendo e nós aqui...", Marco resmungou. Os sons que haviam chegado até eles indicavam que a batalha tinha sido feroz. Pelo menos até as vibrações pararem, indicando que os canhões de shock do Tamoyo haviam cessado seu bombardeio. Tudo parecia ter terminado mas de repente sentiram aquele tranco, como se algo tivesse se chocado contra o casco perolado da nau terrestre. Marco sentiu uma súbita ansiedade, como se pressentisse algo terrível e, imediatamente temeu por Julia e Nanako. Queria ve-las ou pelo menos saber se estavam bem. "ALERTA!!", os alto-falantes ecoaram por toda a nave aumentando-lhe a preocupação, "Estamos sendo abordados. Todos os combatentes devem se apresentar...". Os três se olharam e o fuzileiro ajustou o capacete enquanto procurava o rifle "Ei!!!", Frazier gritou quando ele preparava-se para deixa-los, "Você vai nos deixar aqui? Nós também somos combatentes...". O marine titubeou. "Pense: Nessa hora toda ajuda é bem vinda", Marco não esperava que o vigia os deixasse sair mas, não custava tentar, "Além do que; para onde poderíamos fugir...". O marine se aproximou das celas olhando cada um nos olhos. Voltou-se na direção da porta mas, antes de sair parou perto da mesa, passando a mão sobre um painel. As celas se abriram. "Há rifles, no armário, na parede", disse antes de sair. *******************
O capitão do Tamoyo havia decidido que o lugar mais seguro para proteger seus hóspedes galmans seria na ponte e tomou providências. Lorde Wendern e o Capitão Ormultz acostumavam permanecer na mesma na maior parte do tempo mas, Löwin não. Então ele enviou um grupo para buscar a garota que se encontrava em seus aposentos. A moça protestou. Preferia ficar onde estava, de onde poderia procurar Depardieu quando tudo acabasse. Infelizmente os marines, enviados para busca-la tinham ordens expressas de leva-la e, não tinham outra intenção em mente. Durante todo o trajeto, entre a ala de passageiros e a ponte, a jovem presenciou todo o drama vivido pela tripulação terráquea. Os corredores estavam cheios de destroços e vários feridos agonizavam em macas improvisadas. Quase tropeçou em um ou dois cadáveres. Löwin não era de se impressionar fácil, afinal ela presenciara situações mais desesperadoras, após os bombardeios preventivos que Polar despejava sobre as cidades e vilas de seu mundo, mas não tinha o coração duro e sentia pena daquela gente. *******************
"Como anda a situação sargento?", Marco, que acabara de se posicionar ao lado da comandante dos fuzileiros, pergunta. Recebe, durante alguns segundos, apenas seu olhar incrédulo. "Você não deveria estar atrás das grades, Almeida?". "E deixar vocês se divertirem sozinhos!!", ele pisca. "Bom...", ela da de ombros, "No momento estamos mantendo esta posição...esperando o pessoal da Depardieu, pelo outro lado...". Vários disparos passam a poucos centímetros de suas
cabeças e um soldado cai agonizando a poucos centímetros
de Marco.
Marco sente um calafrio percorrer-lhe a espinha. *******************
Camalani movimentou o leme e a belonave gemeu baixinho. Fez uma careta. Tinha receio que se forçasse demais...enfim, tinha recebido uma ordem então lavava as mãos. "Sala de máquinas: preciso de mais potência!", pediu, pelo comunicador e, quase que imediatamente, o indicador de potência começou a se elevar. Novamente o piloto movimentou o leme e a belonave reclamou quando seu casco se moveu, friccionando, ainda mais, no da astronave polar. O rapaz movimentou a manete, aumentando a potência, exigindo que ambas se soltassem. Os motores de manobra estremeceram com a potencia extra e continuaram impotentes. A manete se movimentou de novo e estalos foram ouvidos dentro da ponte. Camalani suava e praguejava baixinho. Mais um estalo e a estrutura de aço carbônico se libertou, abandonando sua algoz a deriva no espaço. Camalani suspirou aliviado. André pousou a mão no ombro de seu piloto e sorriu ao ver a poderosa belonave Polar envolver-se numa bola de fogo logo após se separar do Tamoyo. ********************
Medo, era uma palavra que Nanako Fujikawa conhecia desde a infância,
quando presenciou a primeira explosão atômica que dizimou
sua cidade natal. Medo, era o que sentia agachada atras daquela barricada
improvisada, na enfermaria, enquanto os lasers zumbiam sobre sua cabeça.
Medo, muito medo.
"Agüente firme!", alguém tentou conforta-la, "O nosso pessoal logo estará aqui!!". Palavras vazias, eram aquelas ditas por aquele jovem de uniforme cáqui, ela sabia. Não era nenhuma boba para perceber que estavam encurralados, distantes de qualquer ajuda, e que o fim era uma questão de tempo. Suspirou, abnegada. "Os pilotos chegaram!!!", a voz do marine sobressaltou-lhe a alma. Marco estava ali. Durante alguns minutos os disparos se intensificaram. Encurralados, entre os marines e os pilotos, os polares iniciaram uma resistência desesperada. Rendição não parecia fazer parte do vocabulário daqueles homens. Mas era uma batalha perdida e um a um seus rifles começaram a ser silenciados. Atrás da barricada, improvisada, uma porta se abriu e Nanako vislumbrou os rosto de Marco. A alegria tomou conta de seu coração e sentiu vontade de correr, jogando-se em seus braços. Desta vez suas pernas obedeceram. O marine, que estava do seu lado, gritou quando ela se levantou, e suas mãos, que tentavam segura-la, pegou apenas o ar. Nanako não via nem ouvia nada, queria apenas estar próxima a seu amado. Mas, porque ele olhava-lhe desesperado, por que gritava-lhe coisas incompreensiveis. Ela parou. Sentia como se um ferro em brasa lhe transpassasse o ventre. Sua mão tateou e seus dedos tocaram o liquido viscoso. Novamente aquele ferro quente perfurou-lhe a carne, antes que pudesse ver o sangue que sujava seus dedos. Sorriu e voltou a andar. Queria estar com Marco não importava quantas ferroadas lhe dessem. Mas, de onde vinha aquela neblina que nublava seus olhos? E a areia que fazia seus pés se arrastarem? Novas ferroadas faziam-na sentir-se exausta. Queria poder dormir mas antes tinha que alcançar Marco. Mais alguns passos naquele pântano e seus braços tocaram nos daquele que ela sempre amou. Ele gritava seu nome. Seu rosto tocou o peito do rapaz e ela pode sentir seu cheiro. Sentia-se feliz, sentia-se segura. Então podia, finalmente dormir. "Nanakoooo!!!", ouviu-o sussurrar, antes de ser envolvida pela cálida luz.
CONTINUA... |