TAMOYO`S JOURNEY


Hadrian Marius
babell@ieg.com.br

 CAPITULO XXII:  O COMEÇO DO FIM

 
 

 Um tremeluzir em meio às estrelas, seguido de uma forma fantasmagórica, marcava o ponto em que um engenho humano iniciava seu retorno ao universo, após um período cruzando o subespaço.
 
 O encouraçado terrestre tinha acabado de dar um salto subespacial de 100 anos-luz, o máximo permitido pela tecnologia terráquea, e seus efeitos eram sentidos por todos a bordo; dores de cabeça e enjôos eram os mais comuns, mas, não eram raras as perdas de consciência

 André ainda lutava para controlar uma onda de pavor que o acometia quando a voz da operadora de radar chegou a seus ouvidos.

 "Alta concentração de táquions, cinco mil quilômetros à frente", a voz de Lisa saia pastosa, ela também lutava contra os efeitos da reversão de longa distancia, "Posição: 10 graus estibordo. Estou passando para a tela principal..."

 O capitão terráqueo olhou para o local indicado e pode divisar o leve tremeluzir que a saída de uma nave do hiperespaço provocava no tecido da realidade. Por um segundo ele cogitara a possibilidade de que poderia ser a nave galman que viria buscar Lorde Wendern e sua comitiva mas, este pensamento foi sepultado assim que pode perceber os contornos do veiculo.

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 O encouraçado Krushkaretv estava imóvel, no vácuo estelar. Era como se estivesse aguardando algo acontecer. Os instrumentos de localização da potente embarcação Polar ainda registravam a concentração de táquions da reversão que o destróier Robevsk tinha acabado de fazer. Um encouraçado, um destróier, um cruzador e um porta-aviões, eram tudo que tinha sobrado, de útil, depois do embate com a nave da Terra, na frotilha comandada por Perves. 

 O veterano General Polar ainda tentava digerir a derrota quando recebeu a noticia da morte de Ben-Lazzi no Sistema Solar. Deslock tinha sido seu algoz. Como um misero planeta subdesenvolvido podia causar tantos transtornos a nação mais poderosa da Via-láctea? Como apenas uma nave desta nação pode ter infligido uma derrota tão vergonhosa a sua frota? O sangue de Perves exigia vingança contra esta mácula em sua honra militar.

 "Estamos prontos para saltar, senhor", seu primeiro oficial lhe informou. Perves voltou a contemplar sua frota. Eles estavam indo para o ultimo combate. Aquele que exigia apenas a vitória como resultado.

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 André tinha percebido, tarde demais, que o destróier Polar não havia vindo sozinho; em seu rastro vieram duas dezenas de caças. Uma falha em sua avaliação que pode ser creditada a confusão mental que sofria após ter dado um salto de longa distancia. De uma forma ou de outra, ele demorou em dar a ordem para que os astro-caças partissem e esta demora quase selou o destino do encouraçado terrestre.

 Assim que os caças polares puderam, eles iniciaram um ataque contra a belonave. Apoiados pelos mísseis do destróier que tinha servido de transporte para eles.

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 Depardieu gritava para que seus homens se apressassem. Ela estava frustrada, era a primeira batalha que teria como comandante dos Condores e não era a primeira a decolar. A preferência da partida pertencia aos dois caças que sempre permaneciam em prontidão.

 De onde estava, podia ver a tensão nas faces dos dois pilotos enquanto seus motores eram acelerados. Fez um sinal de encorajamento para cada um deles. Quase no mesmo instante, seus olhos se voltaram para a comporta de saída, que iniciava sua abertura.

 "Anda logo, droga!!!", ela resmungou. 

 Como se estivesse dando uma resposta, ao resmungo da piloto, um baque seco ecoou pelo hangar; a rampa de decolagem acabava de se abrir. Imediatamente a luz de decolagem mudou do vermelho para verde e o primeiro astro-caça iniciou sua caminhada em direção ao espaço cósmico.

 E, foi neste momento que a tragédia se abateu sobre os Condores.

 Quando o Cosmo Tiger passou pela comandante dos Condores ela acompanhou sua trajetória até a saída mas, algo fê-la gelar; um brilho, como se uma estrela estivesse entrando pela rampa, surgiu e desapareceu ao se chocar contra o cockpit do caça.

 "Todos para o chão!!!", Depardieu teve tempo de gritar antes do caça se tornar uma bola de aço e chamas. Seus destroços voaram por todo o hangar, por causa da onda de choque, e novas explosões foram ouvidas em meio aos gritos. 

 Segundos se passaram até que ela tivesse coragem de levantar os olhos e ver o caos que havia tomado conta do hangar da belonave terrestre.

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  "O hangar foi atingido. A rampa de lançamento foi destruída. É impossível lançar os Condores!!!", a voz de Julia saiu abafada. O esforço que fazia para se controlar era visível.

 André olhou para ela complacente. Aquela noticia só vinha confirmar o que ele já suspeitava; de que os caças não atacavam aleatoriamente, tinham alvos específicos como os reparos dos canhões, as armas de ondas e o hangar. Os pilotos polares tentavam mutilar o encouraçado e, estavam conseguindo.

 Um estremecimento fez com que ele saísse de suas conjecturas. O destróier tinha disparado mais uma salva de mísseis. O capitão olhou para a nave polar e depois para Rodrigues, que entendeu a mensagem.

 As torres dianteiras do Tamoyo começaram a se mover. As baterias AA cuidariam dos caças e eles cuidariam do destróier.

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 O Krushkaretv se materializou a tempo de presenciar a destruição da Robevsk, pelos canhões de shock do Tamoyo. Isto somente fez aumentar o desejo de vingança de Pervez.

 "Ordene aos caças para que saiam", gritou para seu oficial de radio, "Todas as naves preparar armas!!! Vamos dar um basta a isto tudo!!".

 Mal os caças liberaram a linha de tiro as belonaves Polares descarregaram suas armas.

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 Um rugido seco ecoou por todo o casco do Tamoyo e, por um instante, seus tripulantes pensaram que o fim tinha chegado para a nave da Terra. 

 "Danos??!!", André gritou após se ajeitar em seu posto. Quase foi arremessado dele quando um míssil explodiu próximo a ponte.

 "Blocos C e D sofreram sérias avarias. Engenharia informa que o motor foi preservado...", Yamada mantinha seus olhos fixos numa tela enquanto o suor escorria sobre sua fronte. A tensão parecia encher a sala de comando. 

 André sentia a vida daqueles homens e mulheres em suas mãos.

 "Dispare a vontade, Rodrigues!!!", sua voz saiu irada, "Vamos dar o troco!!!".

 As quatro baterias do Tamoyo obedeceram, despejando seus projéteis mortais de plasma. Duas salvas se perderam mas as outras lograram êxito em alcançar seus alvos; o poderoso encouraçado polar sentiu a destruição resvalar em seu bojo enquanto que o porta-aviões foi penetrado por um raio mortífero, destruindo dois de seus compartimentos. Os gritos e as ordens se sucederam na nave polar até que o perigo da destruição estivesse afastado.

 André sorriu. Considerando que as naves polares estavam executando uma manobra e se distanciavam do ponto de referencia do disparo, aquela salva tinha alcançado relativo sucesso.

 "Iniciar preparativos para a reversão!", ordenou. Tinham ganhado uma pausa e ele iria aproveitar.

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 O estremecimento foi mínimo a bordo do Krushkaretv e, ao que tudo indicava, os danos sofridos pelo Frashuetviskh eram irrisórios. Perves considerou aquele disparo terráqueo como o canto do cisne de seu inimigo.

 "Estamos detectando uma elevação dos táquions em torno da nave inimiga, senhor", o imediato notificou-o, "Eles tentarão uma reversão...".

 Então eles querem fugir? Perves sorriu ao olhar para o casco do cruzador Krishiebv que brilhava com a luz das estrelas. Como se eles fossem conseguir!!.

 Três fachos de luz incandescente desprenderam-se das armas do cruzador polar. Alguém a bordo da nave terráquea notara o avança dos raios mortais e a poderosa belonave girou em seu eixo fazendo com que dois disparos se perdessem mas, infelizmente, para os terráqueos, o raio restante abriu caminho pelo casco, ameaçando a integridade da sala de maquinas e, da própria nave.

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 Gritos vieram da sala do motor. André suspirou ao ordenar que um grupo da enfermaria se dirigisse para a engenharia. Os instrumentos do Tamoyo tinham detectado, a tempo, os disparos inimigos e, somente, graças à habilidade de Camalani eles não eram poeira cósmica.

 O piloto parecia desconsolado, apesar do relativo sucesso de sua manobra, desesperada. A reversão tinha sido abortada e o encouraçado permanecia imóvel. Seu motor principal tinha sido avariado e o reator nuclear de emergência conseguia fornecer energia apenas para os sistemas internos, inclusive os de armas.

 Os canhões voltaram a disparar, assim que o remuniciamento voltou, e a estabilidade foi restaurada. Mas suas colunas de plasma passaram longe das unidades polares. Que responderam!

 O casco estremeceu e um ou dois monitores explodiram na torre; seus controlares caíram feridos. André firmou o corpo a tempo de ver um disparo chocar com uma das torres principais e vê-la dar um salto, impulsionada pela força da explosão.  O encouraçado terrestre ardia no espaço e seu capitão chegava a cogitar que este poderia ser o fim.

 "Cerca de 15 objetos estão revertendo, 5.000 km, a bombordo das nave atacantes", Lisa grita ao voltar sua atenção para o painel do radar. O ultimo ataque havia retirado-a de seu posto jogando-a ao chão. Seus olhos tremulavam.

 Neste momento André teve certeza que o fim havia chegado.

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 Perves segurou uma gargalhada. Olhando a belonave terrana, sendo bombardeada pelos disparos de suas naves, ele chegou a conclusão de que somente a sorte tinha salvado aquela nave da primeira vez que se encontraram. Uma explosão num dos flancos do encouraçado fez seu sorriso aumentar. Dentro de poucos minutos tudo estaria acabado e ele poderia retornar para sua casa e receber o descanso que tanto ansiava.

 "Alta concentração de táquions a bombordo",  a noticia caiu-lhe como um balde de água fria. Seus olhos se voltam para o painel central que começa a exibir o espaço onde a reversão se iniciou. Ele não precisa que ninguém lhe diga quantas naves estão retornando ao espaço normal. E ninguém, também, precisa lhe dizer de que nação são aqueles cruzadores; o verde galman-gamilon se torna, incrivelmente, visível contra o fundo negro do espaço.

 "Mas que mer....".

 O general não consegue terminar sua exclamação pois as primeiras torrentes de plasma rosado partem das naves inimigas e atingem as belonaves polares, nos flancos expostos, trazendo o caos.

 Perves se apóia, para não cair, a tempo de ver o porta-aviões Frashuetviskh ser transpassado por cinco disparos certeiros. O casco, que já havia sido castigado pelas baterias do Tamoyo, não resiste e se rompe, revelando seu interior para o infinito, antes de desaparecer em meio a um brilho cegante.

 Não havia tempo para lamentar a perda do capitão Vazilyevtch e sua nave pois sua nau-capitânea foi novamente açoitado pelos disparos inimigos. 

 Seria o fim, ele pensou antes de uma sombra bloquear a visão da frota galman. O cruzador espacial Krishiebv iniciava seu derradeiro ato.

 "Nós lhe daremos cobertura, General. Aproveite para recuar...", a voz chegou em meio ao chiado do radio.

 "O que pensa que esta fazendo Major Breviano. Ordeno que reverta imediatament...".

 "Nosso propulsor de salto foi danificado, senhor", o chiado aumentava, "Pelo menos o senhor..."

 O radio emudeceu, sobrando apenas o chiado que foi ignorado por todos. A torre de controle do Krishiebv acabava de ser evaporada por um disparo inimigo. O silencio tomou conta da ponte do encouraçado polar.

 Se Perves pudesse chorar ele choraria. Nesta empreita tinha perdido bons homens, sejam eles oficiais ou marinheiros. Levantou os olhos e vislumbrou a carcaça do cruzador, que ainda cumpria sua função de escudo. Breviano havia se casado com uma bela jovem antes de ser convocado para aquela missão e... Conteve-se.

 Era um militar experiente por isso não podia sucumbir ao sentimentalismo. Olhou para a astronave terrestre, que pairava inerte no oceano estelar. Tão perto e...

 "Preparar para reversão", disse apenas. Não precisava dizer mais nada. Todos naquela ponte sabiam suas intenções e concordavam com elas.
 
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 Nunca, na vida, André pensaria que ficaria tão feliz ao ver aquelas naves de cor esmeralda. 

 O fim estava próximo, já tinha admitido, e o Tamoyo teria o mesmo destino de outras naves da Terra, quando a primeira nave esmeralda delineou seu contorno no véu espacial. Incrédulo com o que via, ele observou quando as torrentes de plasma róseo partiram dos canhões galmans e alvejaram as naves polares. E incrédulo permaneceu, até que o porta aviões desaparecesse em meio a um clarão de luz e chamas.

 "A cavalaria chega sempre na hora!!", alguém comentou, expressando a opinião de todos.

 Por mais tentador que era ficar observando a batalha entre as duas frotas, se pudesse chamar aquilo de batalha afinal eram quinze contra três, ele não podia. Como capitão tinha a obrigação de zelar pela segurança de sua própria tripulação. Iniciou a distribuição de ordens, com prioridade para o reparo do motor de ondas; queria se afastar daquela área de batalha o mais breve possível.

 Ainda estava neste procedimento quando um novo clarão chamou-lhe a atenção. O cruzador que havia se postado entre o encouraçado polar e frota galman, num desesperado ato de dar proteção para que a outra nave pudesse reverter, seguiu o mesmo destino do porta-aviões, desaparecendo numa bolha de gás incandescente. Levando, muito provavelmente, consigo a nave que tentava proteger, André pensou.

 A batalha parecia ter acabado, pelo menos era esta a esperança de todos. Infelizmente iria continuar apenas uma esperança.

 "Alta concentr...", Lisa não conseguiu completar a frase pois o espanto do que via fez com que perdesse a fala. Um ato que foi seguido por todos.

      O enorme encouraçado polar, que todos julgavam ter sido destruído, juntamente com o cruzador que lhe servia de escudo, se materializou, a menos de um quilometro da belonave terrestre, e avançava inexoravelmente em sua direção. 
 
 

       CONTINUA...