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Hadrian Marius
babell@ieg.com.br CAPITULO XXI: MAIS QUE AMIGAS ?
"Aqui Marco!!", a voz de Nanako ecoou límpida pela cantina,
chamando a atenção do piloto.
"É raro os três estarem juntos, por isso vamos comemorar", Nanako propôs. "Devemos incluir ai o fato de estarmos voltando para casa", as duas apoiaram a sugestão de Marco e brindaram. Tinham passado muito tempo no espaço e, apesar de gostarem de singra-lo, sentiam saudades da Terra. Queriam voltar a pisar sobre a grama verde, sentir a brisa a beira-mar e ver novos rostos. Com este sentimento de poderem rever seu mundo a conversa se formou e Marco e Nanako começaram fazer planos para, juntos, reverem velhos conhecidos. Julia observava, mais do que participava, imaginando como estiveram tão perto de não terem para onde voltar. **************
André estava em seu escritório acompanhado de Lorde
Wendern, do capitão Ormultz e de Löwin. Uma atmosfera que misturava
ansiedade com solenidade impregnava a sala.
A notícia dada por André causou efeitos diversos em seus convidados. Wendern e Ormultz ficaram satisfeitos com a possibilidade de poderem retornar para seu mundo mas Löwin permaneceu calada. "Esta noticia realmente nos alegra muito, capitão, Por
mais que gostemos de sua hospitalidade ainda sentimos saudade de
nossa pátria"
"Fico contente que seu mundo tenha conseguido ser salvo, capitão", Ormultz estende a mão para André, que a aperta, "Sei como é perder um mundo e, acredite, não desejo isto para ninguém". "Obrigado, capitão". ******************
Estavam voltando para casa e este acontecimento era suficiente para animar qualquer um. Menos Depardieu, que andava pela nave sentindo como se estivesse perto de perder algo muito importante para si. Subitamente ela estacou, olhando em volta com olhar incrédulo.
Não estava indo para o hangar? Então, porque estava próxima
a area reservada aos passageiros, se aquele caminho não levava a
seu destino? Depardieu balançou a cabeça e sorriu. Será
que tinha vindo tantas vezes àquela área da nave que suas
pernas já faziam o caminho por sua própria conta?
O beep de seu comunicador chamou-lhe a atenção. Retirou o aparelho do cinto e chamou. É melhor a senhora vir à cantina, ouviu do outro lado. *******************
Marco estava de pé, encarando outro piloto, seus olhos crispavam. Nanako e Julia observavam, enquanto a multidão se aglomerava. "Retire o que disse, Frazier!!!", ele rosnou. O jovem para quem ele esbravejara tinha, momentos antes, passado, acompanhado de mais dois, próximo à mesa onde ele e as duas garotas estavam. O louro ria, provavelmente por causa de alguma piada obscena que contara e por um momento o riso dos três aumentou de intensidade. Este aumento ocorreu quando o nome de Depardieu foi citado. "Porque eu deveria?", o piloto disse arrogantemente, "Todos aqui concordam comigo. Mal o capitão morreu e ela não desgruda daquela et". "E o que tem demais nisso cara? Não deve estar sendo fácil para ela", Mohammed Azziz, um companheiro de esquadrão de Marco, disse, "Além disso, elas são amigas desde que a galman chegou...". "É impressão minha ou todos os membros do segundo esquadrão são ingênuos", o desdém aumentou na voz e no olhar do rapaz. Alguém soltou um palavrão, "A nossa querida capitã já passou a noite no quarto daquela azulada", seus olhos fitaram Marco, com desprezo, "E não ficaram fazendo crochê..." "Ora seu!!!", Marco agarra-o pelo colarinho. Ele tentava se controlar e o outro sabia. Por isso continuou provocando. "Não falei que este pessoal do 2º esquadrão é ingênuo", gritou, recebendo como resposta os risos de seus companheiros de esquadrão, "Só vocês não perceberam que aquelas duas são mais que amigas. Até o capitão sabia e foi por isso que ele morreu...de desgosto por ser trocado por uma fêmea alienígena!!!". Neste momento Depardieu já se encontrava na porta da cantina e aquelas palavras ressoaram dentro de sua alma. "Mas nem por isso você tem o direito de desrespeitar um superior...", Marco estava próximo da explosão. "Por que a defende?", ironizou, "Esta interessado na capitã? Lamento informar, garotão, que o negócio dela é out...". Não conseguiu terminar a frase, pois o braço esquerdo de Marco abandonou a inércia em que se encontrava e chocou-se contra o queixo de Frazier, arremessando-o por sobre a platéia. A confusão foi armada e os pilotos de ambos os esquadrões se enfrentaram no que podia ser descrito como uma batalha campal. Depardieu permaneceu imóvel na porta até que os primeiros fuzileiros passaram por ela. Dentro da cantina os ânimos foram rapidamente esfriados pelos marines. E enquanto alguns eram encaminhados para a enfermaria, por causa de hematomas, os causadores da confusão, Marco e o piloto Louro, eram algemados e levados para a prisão. Os olhos de Depardieu encontraram-se com os de Frazier, por instantes, e pode sentir todo o desprezo que aquele piloto sentia por ela. ***************
"Mas que loucura", Nanako resmungou. Tinha voltado para a enfermaria e cuidava daqueles que haviam se ferido na briga da cantina, "Nunca vi tanta testosterona junta". "Tínhamos que lavar a honra da capitã", o piloto que ela atendia sorriu entre meio um gemido, "Além disso, fazia tempos que eles nos provocavam..ai...". "Mas...será que elas são...?", indagou pensativa. "E daí?", o jovem censurou-a, "Elas não estão cometendo nenhum crime. É como disse o Almeida; este fato não é motivo para desrespeitar um superior...ai!!!". Almeida!? Nanako lembrou-se que naquele momento Marco estava encarcerado em uma das celas da belonave. E como ela desejava estar junto a ele naquele momento. *****************
"Então??", André olhou firme para Depardieu, que estava há sua frente. Ela estava rija tentando parecer o mais calma possível. Mas o capitão parecia olhar dentro dela e apenas o olhar complacente da doutora Lancaster parecia anima-la. "O senhor tem deve relevar que estes homens estão sobre um estresse continuo e que poderiam explodir a qualquer momento", começou após criar coragem, "Enquanto permanecermos em espaço internacional precisamos contar com todos os pilotos disponíveis, por isso peço que o senhor reconsidere...". "Apesar da senhora ter razão, capitã, terá que concordar comigo que o fato de eles estarem cansados não é motivo suficiente para que a ordem e a disciplina sejam quebradas; uma punição se faz necessária...". "Se quer puni-los, senhor!", ela cortou-o, num lance de ousadia, "De-lhes alguns dias na prisão, para esfriarem os ânimos..." "Mas e quanto ao tenente Frazier? Ele desrespeitou um oficial superior, merecendo um inquérito administrativo..." "Que pode leva-lo a corte marcial?", ela se sentia cada vez mais segura, "Creio que o rapaz não merece tal coisa, capitão, deixe que eu assuma toda a responsabilidade sobre ele". A firmeza com que a líder dos Condores pronunciou tais palavras foi o que convenceu André e não os argumentos. Por um momento chegou a ver Khalil, na sua frente, defendendo seus homens com a mesma convicção. Ele lançou um olhar para Judith e voltou-se para a capitã-aviadora. "Então será como à senhora deseja mas se
algo deste gênero se repetir à responsabilidade recairá
sobre seus ombros".
"Ela ficou muito tempo com Cassius", a doutora comentou assim que se viram a sós. *****************
Era engraçado que apesar de estar tanto tempo a bordo do Tamoyo, Marco ainda não conhecia aquela área da nave. Uma área dedicada a eventuais prisioneiros de guerra, mas que servia perfeitamente para esfriar os ânimos de algum fanfarrão. Naquele momento ele estava sentado sobre a cama, tinha cansado de olhar para as paredes brancas do cubículo, e seus olhos fixavam num ponto no piso. "E ai brigão!!?", a voz de Julia despertou-o do aparente transe. Ela sorria-lhe, "Como se sente sendo um criminoso?". "Muito engraçado. Provavelmente a corte marcial me espera quando retornarmos...". "Pelo que ouvi você só vai ficar ai mais alguns dias e depois sairá e...", fez suspense, "...nunca mais ninguém ouvira falar do assunto". A jovem chinesa piscou quando notou a cara de espanto de seu par. Antes que ele pudesse formular qualquer pergunta, ela se adiantou. "Ou você acha que a capitã Depardieu não sabe que você a defendeu naquele dia". Era verdade! Enquanto Frazier o provocava, atingindo Depardieu, ele se lembrava de ter percebido o vulto de sua capitã na entrada da cantina e podia jurar que ela ouvira a discussão. Como será que ela estava se sentindo?, ele pensou. *******************
Evitando! Depardieu estava evitando-a!. Este pensamento não saia da mente de Löwin. Era como se algo desagradável tivesse surgido entre elas depois do que acontecera no refeitório. Ela soubera da briga por intermédio da doutora Lancaster, inclusive do motivo da mesma; sua amizade com Brenda. "Parece que até mesmo numa sociedade, que se diz liberal, como a terrestre existem certos tabus" , resmungou, ao se levantar do sofá, onde estivera cosendo até aquele momento. Abandonou seus apetrechos sobre uma mesinha e alisou a capa do livro que pegara emprestado da piloto há algum tempo. Sentiu um calafrio. Será que Brenda não sentia o mesmo que ela sentia? Será que ela estivera interpretando mal os sentimentos da outra? Não!! Isto não era possível! Ela não era tão ingênua para confundir dois sentimentos tão distintos. Pegou o livro e abraçou-o. Mas, a duvida corroia sua alma. Uma corrosão que só fazia aumentar nestes dias em que Depardieu evitava-a. Lágrimas, furtivas, respingaram a capa do livro. Porque Brenda fazia isto com ela? Porque a entregava a incerteza? Seus olhos visualizaram a porta. Precisava encontrar Brenda e ter certeza sobre seus sentimentos, além de qualquer duvida. Um tremor percorreu seu corpo ante a possibilidade de ser rejeitada. Mas, suspirou, tomou coragem, devia aceitar o que viesse. "Preparar para reversão!", a voz no alto-falante obrigou-a
adiar este momento. Que seria o mais importante de sua vida.
Continua...
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