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Hadrian Marius
babell@ieg.com.br CAPITULO XX: TRIBUTO
Os espaço sideral sempre foi um local de mistério para o homem do planeta Terra. Desde que se escondiam em cavernas aquele manto negro, recortado por pequenas jóias que brilhavam ininterruptamente, que pairava sobre suas cabeças parecia ser algo inalcançável e indomável. Mas o dia chegou em que os homens alcançaram-no e ousaram toca-lo. A partir daquele momento o manto negro e inexpugnável abriu-se para a humanidade mas, havia um preço; que seria pago com o sangue dos filhos desta mesma humanidade. *******************
O Tamoyo estava imóvel naquele momento. As marcas da ultima batalha podiam ser vistas, nitidamente, nas manchas negras que borravam o azul do casco. Mas, naquela hora a tripulação da belonave terrestre se preocupava com algo mais importante; outra vez o espaço cósmico cobrara seu tributo. Do alto de uma das torres de canhões André olhava seus homens perfilados; fuzileiros, artilheiros e pilotos. Que permaneciam em silencio contemplando os cilindros sob a sombra dos canhões. Cada um daqueles invólucros metálicos, adornados pelas insígnias do Governo Unido da Terra, trazia em seu interior um filho da humanidade. "Estamos aqui para homenagearmos nossos companheiros. Que estiveram ao nosso lado. Que riram conosco. Que lutaram conosco. Companheiros que deram suas vidas para que continuássemos a trilhar esta senda. Guerreiros que tombaram para a glória da Terra." André sentia o quanto àquelas palavras eram vazias. Por mais belas que elas sejam nunca trariam de volta aqueles que tombaram. "Saudemos nossos companheiros de armas", Yamada gritou e todos se enfileiraram-se em posição de continência. Vários soldados saíram da formação
e levantaram os cilindros,
O capitão, assim como todos, acompanhava, com os olhos, o cortejo. Havia apenas cinco cilindros mas, eles representavam muito mais vidas que aquelas que carregavam. Passou os olhos por sobre os aviadores. Não precisava ver suas faces para saber o que sentiam; três dos seus haviam perecido e nem tiveram direito a um funeral. Subitamente seu corpo estremeceu, seus olhos pararam sobre um jovem, que agora trazia as insígnias de capitão-aviador. *****************
Julia não estava presente a cerimônia. Estava concentrada no rádio. Mas sua atenção foi desviada para o brilho dos disparos e instantaneamente se levantou saudando seus companheiros que partiam. Foi imitada por todos na ponte. Seus pensamentos vagaram pelo convés da belonave e se depararam com Marco, entristecido, observando o cortejo. Como gostaria de poder conforta-lo naquela hora. Continuou aquela viagem mental até pousar sobre eles e num reflexo de luz vislumbrou o rosto de seu ocupante. Estremeceu, sentiu vontade de gritar mas abafou o grito. Era apenas sua imaginação pregando-lhe uma peça. Marco não estava naquele caixão... pelo menos não desta vez. Sentiu um calafrio percorrer seu corpo; pela primeira vez deu-se conta da fatalidade da guerra. Orou baixinho pedindo para que tudo aquilo acabasse o mais rápido possível. ***************
A enfermaria estava calma. Muito diferente do que fora durante a batalha, e nas horas subseqüentes, quando os feridos uns atras dos outros e o corpo médico fazia o possível com a nave vibrando e balançando sob o peso dos disparos inimigos. Nanako olhava para as cinco camas que ainda permaneciam ocupadas; Sua atenção se redobrava sobre uma das camas onde um marinheiro estava com o corpo quase que totalmente enfaixado, denunciando as queimaduras sofridas. Desde de pequena, ela decidira-se pela enfermagem, porque queria ajudar as pessoas. Não havia nada mais gratificante do que ver alguém se sentir bem por causa de seus cuidados ou, um sorriso de gratidão. Mas, aquela era uma profissão que fazia a pessoa presenciar muito sofrimento e ela nunca presenciara tanto desta sina humana quanto naquela enfermaria durante as batalhas por que foram obrigados a passar. Voltou-se para a vigia onde a luz de milhares de sóis brilhavam incessantemente. Naquela hora a cerimônia de despedida dos mortos já devia ter se encerrado, ela suspirou, dois daqueles caixões levavam antigos pacientes seus. Era óbvio que se sentia frustrada, assim como todos na enfermaria. O jovem queimado gemeu. E ela faria tudo para que mais nenhum cadáver saísse daquela sala. *****************
Quando Marco chegou no hangar ele sentiu toda a tensão do local. A mesma se via no rosto de cada piloto. De cada mecânico. De cada oficial de pista. Era deprimente mas, não poderia censurar aqueles homens pois ele mesmo sentia a perda dos companheiros. Os locais onde seus aparelhos ficavam estavam vazios como que atestando o ocorrido. Minamino voou muitas vezes a seu lado, inclusive na fatídica missão onde ele, próprio, presenciou a destruição do caça do rapaz. Redgrave voava no primeiro esquadrão e só haviam trocado palavras uma única vez no refeitório, sobre um assunto que fora esquecido, mas considerava-a uma moça alegre, sempre disposta a fazer uma brincadeira com seus amigos. Khalil era o capitão e não havia muito o que dizer dele a não ser o fato de Marco admira-lo; por seu um ótimo piloto, um bom comandante e por ter o coração de Depardieu. A lembrança de sua líder, que fora promovida a comandante dos condores, fê-lo pensar em como ela deveria estar sofrendo. Um motivo a mais para aquele clima que pairava sobre o hangar do Tamoyo. ****************
Depardieu tinha pressa em chegar ao seu alojamento. Logo após a cerimônia tinha se dirigido ao hangar, como nova comandante dos Condores precisava se certificar de que tudo estava em ordem, mas não conseguiu permanecer no local mais de vinte minutos; não suportou os olhares de todos aqueles homens e mulheres. Olhares de piedade e compaixão. Infelizmente aqueles olhares não a deixaram nem quando alcançou os corredores; eles se estampavam na face de cada marinheiro que passava por ela. Depardieu não gostava de ser olhada daquela maneira, sentia-se fraca, impotente, desprotegida. E uma coisa que a vida lhe tinha ensinado era não parecer fraca e indefesa. Finalmente alcançou seu aposento. Seu santuário, onde poderia se ver livre daqueles olhares piedosos. A porta se abriu e Depardieu se viu parada observando o interior do mesmo, sem poder entrar. Löwin estava, parada, no meio de seu quarto. A jovem terráquea sentiu os olhos da amiga perscrutando-a. Seus olhos doces fitavam-na de um jeito que ela viu todas as suas defesas desabarem uma a uma. Sua vista começou a turvar e seu coração acelerou. Em passos apressados ela se jogou nos braços da galman e seus soluços abafaram o baque da porta ao se fechar. *****************
A luz das estrelas, da Via-Láctea, brilhavam as costas de André quando Judith entrou. Ele estava com a cabeça levemente abaixada observando um relatório sobre a mesa. Parecia não tê-la visto entrar. "O que eu mais detesto nesta carreira que escolhi são estes dias após as batalhas", ele começou a dizer, assim que ela se aproximou, "Sempre se tem que enterrar alguém". Pelo tom das palavras Judith sentia que André estava arrasado. Um capitão nunca poderia mostrar-se sentimental na frente de seus tripulantes. Cada decisão sua devia ser imbuída da mais pura lógica militar. Ele deveria sempre estar disposto a sacrificar qualquer membro de sua tripulação, se preciso fosse. Este fato fazia com que o posto de capitão fosse o mais solitário que existisse. E era por isso que ela estava ali; em horas como aquela à solidão do posto era mais abrasadora e ela faria de tudo para que André não se sentisse só. "Sabe o que é pior? É pensar que todas estas vidas que se perderam... foram perdidas em vão!!". Judith sabia que, por mais absurdo que podia parecer, no meio militar nunca as vidas eram perdidas em vão pois se sacrificavam peões, sempre havia um objetivo por traz. Então, naquele momento, aquelas palavras de André não foram compreendidas por ela. O capitão se levantou e fitou-a. "Recebi uma mensagem do Alto Comando", mostrou um papel sobre a mesa de despachos, "A Patrulha Estelar retornou de Shepar, trazendo uma arma que pode deter a reação que esta acontecendo no sol. Aliás, neste momento eles já devem estar utilizando-a". Neste momento aquelas mesmas palavras se revelaram em toda sua verdade, nua e crua, para a doutora. Agora ela percebia o porque de uma noticia que deveria ter trazido alegria em seus corações era recebido com um sentimento de amargura, decepção e impotência. *****************
Minutos haviam se passado desde que Depardieu se jogou, soluçando, nos braços de Löwin. Ela percebeu que agira bem ao vir à procura da piloto. As lágrimas da moça molhavam-lhe o vestido e ela alisava o cabelo esverdeado carinhosamente. "Pode chorar, minha amiga, faz bem para a alma", pronunciou após alguns minutos, quando os soluços ameaçavam parar. Se pudesse ela permaneceria naquela posição por toda a eternidade. Sentindo o cheiro dos cabelos de Brenda, o arfar de seu peito... "Sabe o que é pior", Brenda começou a balbuciar, "É que parece que ele não era tão importante assim para mim". As palavras surpreendem a garota. Löwin afasta-a e indica o sofá. E, enquanto Depardieu tenta se controlar, prepara um copo de água com açúcar. "Claro que fiquei chocada com sua morte", ela recomeça, mirando o copo em suas mãos, "Mas, depois que tudo passou é como se ele fosse mais um dentre os muitos amigos que perdi e...não o cara com que ia me casar...". Depardieu deixou o copo cair e rolar pelo chão enquanto seu rosto se afogava no colo da galman. "Será que a vida me deixou tão insensível que não consigo nem sentir a perda do homem que amo?", sua voz saia amarga, desesperada. Löwin sente-se impotente diante da dor que a terráquea sofre e ela se amaldiçoa por isso. Seus dedos percorrem os cabelos de Brenda numa tentativa de consolo. ******************
André caminhou, a passos firmes, pelo corredor, na direção da ponte.Sua intenção era fazer com que a belonave se pusesse a caminho o mais breve possível. Poderia se dizer que tomara tal decisão depois de receber mais uma mensagem do Centro de Comando que anunciava o sucesso alcançado pela Patrulha Estelar com a Hidro Cosmo Gen. Mas, a verdade era que haviam permanecido estacionados naquele local durante muito tempo e isto era arriscado. Tal atitude não se justificava pela necessidade de reparar as avarias causadas na ultima batalha. Uma das funções de um capitão de uma nave estelar era zelar pelo bem estar de sua tripulação e foi o que André fez naqueles dias ao manter o Tamoyo parado, apesar dos riscos. Todos precisavam de um tempo e ele deu este tempo. Mas agora chegava o momento de seguir em frente. "Capitão na ponte", Yamada anunciou assim que ele entrou. André dirigiu-se a seu lugar sentindo os olhos de todos sobre si. Todos seus oficiais já haviam sido informados do que ocorrera na Terra e esperavam apenas que a ordem de seu capitão fosse de encontro ao desejo de todos. "Preparar para partir", anunciou. "Destino, senhor?". "Sistema Solar".
Continua...
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