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Hadrian Marius
babell@ieg.com.br Capítulo II : "NOS ANÉIS DE SATURNO"
"Alvos localizados nas coordenadas: 02, Tango, 47, Bravo. Interceptem". "Roger", todos responderam prontamente o comunicado do comando e numa manobra conjunta seus astro-caças seguiram na direção dos anéis externos de Saturno. "Alvos visualizados, preparar para interceptar", anunciou, o capitão Khalil, assim que os alvos se tornaram visíveis em seus radares. O astro-caça de Marco assumiu sua posição junto a formação de ataque do grupo de caças, que assemelhando-se a uma ponta de lança, dirigia-se rapidamente sobre os alvos que se aproximavam rapidamente. 3.500 m, os dedos crispando nos disparadores de mísseis, 3.000 m, olhos atentos nos marcadores de alvo, a tensão presente em cada rosto do jovem piloto. 2.500 m, vários alvos assumem uma cor avermelhada piscando sem parar, anunciando o travamento de mira do alcance dos mísseis. "AGORA!!!". A voz do líder do esquadrão ecoa por todos os comunicadores e quase que imediatamente dezenas de mísseis partem das naves terrestres precipitando-se, como uma chuva mortal, sobre seus respectivos alvos. Vários são destruídos, mas muitos ainda permanecem intactos, fazendo com que os astro-caças arremetam dando passagem para uma nova onda de ataque composta por mais seis caças, que terminam o serviço começado pelo primeiro esquadrão. Marco vê tudo atônito, a precisão com que seus companheiros obedecem o comando de seu capitão e a sincronização perfeita de suas ações "Tenente Almeida o que você esta fazendo?!", uma voz ecoa pelo seu comunicador, assustando-o e fazendo-o virar a tempo de ver a aproximação de um enorme bloco de gelo e instintivamente puxa o manche para trás, torcendo para que consiga, e vê a frente de seu caça levantar e subir rente ao bloco de gelo saindo de sua trajetória. "Você é louco Almeida quer morrer?",
alguém grita pelo comunicador, mas ele não responde esta
assustado demais, suas mãos tremem e o suor escorre-lhe pelo rosto.
****************** "Todos os alvos foram destruídos senhor e apesar do incidente a diferença entre uma passada e outra diminuiu em um minuto com taxa de acerto de 90%", informou o primeiro-oficial Yamada. "Era de se esperar este tipo de incidente pois eles não descansam desde que passamos pela orbita marciana", comentou a doutora Lancaster. André ouviu os comentários da doutora e pareceu refletir, talvez ela tivesse razão pois fazia dezesseis horas que todos estavam treinando sem parar e o cansaço era visível no rosto de todos, pensou. "Ordene a todos que retornem. Os exercícios da ala aérea estão completos por hoje" "Sim senhor. Retornem a base, Condores", anunciou Yamada pelo comunicador, "Caças retornando senhor". "Ótimo! Preparar para disparo das baterias principais". "Certo!", respondeu o oficial de armas, "Baterias principais, preparar para o disparo. Alvo: bombordo, 10.000 km, 12 graus vertical, 2 graus horizontal, fogo!". Das quatro baterias de canhões de shock do encouraçado partiram doze colunas de plasma que cobriram a distância que havia entre a belonave e o alvo, um pequeno asteróide, em questão de segundos volatizando-o. "Alvo atingido senhor, índice de acerto de 75%". "Isto não é bom. O índice de acerto do Yamato é de 90%.Preparar para segunda salva de disparos". "O Miranda soltou dois alvos a 8.000 km desta vez senhor", anunciou a operadora de radar Lisa Mcdowell, sem mover seus olhos do painel de radar. "Rodrigues!".
***************** O astro-caça de Marco tocou suavemente a pista da área de pouso do Tamoyo no momento em que a primeira salva dos canhões foi disparada e assim que este desceu da carlinga uma moça aparentando vinte e cinco anos veio em sua direção exibindo no seu uniforme as insígnias de primeiro tenente. "O que você pensa que estava fazendo
lá fora Almeida? Passeando?", esbravejou enquanto terminava de retirar
seu capacete revelando seu cabelo esverdeado curto.
"Você não esta aqui para se distrair com a paisagem tenente, espero que isto não se repita, pois da próxima vez a sua distração pode lhe custar a vida e todo o esquadrão. Entendeu tenente?". "Sim senhora entendi", Marco respondeu fazendo continência. "Parece que a tenente não foi com a sua cara Marco", Lamertz comentou assim que a sub-lider dos Condores se distanciou deles. Marco nada respondeu apenas continuou observando a tenente com olhos pensativos. Ela estava certa ele sabia, pois sua imprudência quase custou-lhe a vida. "Planeta Terra para Marco? O que foi Cara ficou chocado com a bronca da tenente?, comentou Lamertz que, em seguida olhou na direção em que Marco olhava e pousou a mão sobre o ombro do amigo, "Se eu fosse você nem pensaria nisso amigo" "O que você quer dizer com isso, Lamertz?",
Marco perguntou, assustado com a insinuação
"Deixe disso. Porque não vamos comer alguma coisa enquanto podemos?". "Boa idéia. Faz dezesseis horas que
não ponho nada no estômago", comentou Lamertz, que começou
a caminhar, acompanhado de um pensativo Marco, em direção
a saída do hangar do Tamoyo.
***************** "Salva de disparos completada senhor, índice de acerto de 85%", anunciou Yamada assim que os disparos das baterias principais acertaram o alvo lançado pelo contratorpedeiro Miranda. André apenas ouviu a notificação de seu imediato e permaneceu em silencio, como se continuasse a refletir. "Devemos reiniciar disparos senhor?", Yamada perguntou. "Não é necessário Yamada. Cancele o alerta amarelo, creio que já alcançamos uma performance aceitável não devemos adiar mais nossa viagem. Liberem todos para um merecido descanso por duas horas, sendo que no fim das quais retomaremos nosso curso", e após se levantar completou, "Qualquer coisa estarei em minha cabine". Todos na ponte receberam a ordem do capitão com um suspiro de alivio, pois desde que passaram pela orbita marciana estavam em estado de alerta que somados as quase dezesseis horas de treinamento estava levando todos a exaustão. "Vamos procurar algo para comermos Julia? Estou faminta". Julia apenas respondeu a chamada de Lisa levantando-se e caminhando, ao lado desta em direção a porta. Seu corpo formigava, suas costas e olhos doíam por causa do longo período em que permaneceu sentada monitorando as comunicações e tudo o que realmente desejava naquele momento era poder caminhar um pouco e deitar logo em seguida. "O capitão pegou pesado dessa vez", comentou Lisa, quebrando o silencio que tinha se instaurado enquanto caminhavam na direção do refeitório. "Quero um banho", foi a única coisa que Julia pronunciou. "Acredite amiga não é só você. Mas não se preocupe nosso turno esta quase acabando e ai poderemos...", neste momento Lisa para de falar pois chegaram ao refeitório que apesar do fim das operações de treino ainda estava vazio, talvez conseqüência do fato de que nem todas as seções não terem sido notificadas do fim dos treinos pois notava-se claramente a ausência do pessoal da engenharia e dos pilotos. "Vamos pegar alguma coisa e sentarmos".
****************** Ao invés de ir para sua cabine, como tinha informado a Yamada, André se dirigiu para o observatório, que se localizava logo atras da superestrutura, e lá permaneceu observando os anéis de Saturno. "Magníficos não?", a voz da Doutora Judith Lancaster, chefe do departamento cientifico, ecoou atras de si. "Me trazem muitas lembranças", foi único comentário de André, que mesmo após a aproximação da Doutora , permanecia observando os anéis do planeta. "O que esta acontecendo com você André?", Judith perguntou após alguns minutos de silencio. "Como assim? Não esta acontecendo nada comigo Judith", respondeu surpreso com a pergunta repentina, " Fiz um exame completo com o doutor Vasquez e ele me disse que estou bem de saúde". "Você sabe que não é sobre a sua saúde que perguntei André, mas o porque de você estar tão ansioso nos últimos dias. Você sempre foi uma pessoa ponderada e calma, mas estas baterias de treinamento que tem imposto a tripulação desde que passamos por Marte tem levado todos ao esgotamento físico e mental. Sei que estamos numa missão extremamente delicada mas, pelo amor de Deus André, relaxe pois esta sua tensão esta tomando conta da nave e ela pode não agüentar, e na hora em que mais precisar eles podem não conseguir...". "Eu compreendo Judith e sinto muito. Talvez o fato de...", André interrompeu a frase neste ponto pois algo chamou-lhe a atenção. Pontos brilhantes que atravessavam os anéis em rápida velocidade. Seus olhos arregalaram-se. "André! O que houve?" "Espero que não seja nada Judith", foi sua resposta enquanto pegava o intercomunicador, "Capitão para ponte. Yamada que pontos luminosos são aqueles?". "Acabamos de receber a confirmação do Santiago senhor, são vários mísseis de origem desconhecida. Nossa escolta já começou as manobras defensivas e estamos entrando em código amarelo..". "Não!", André gritou assustando a doutora, "ponha a nave em código vermelho. Desta posição as escoltas não conseguiram fazer uma cobertura eficiente", gritou André atento ao fato de que o Tamoyo estava entre os misseis e a escolta, dificultando as manobras de defesa desta. "Devemos voltar a ponte", disse começando
a correr em direção da ponte de comando do Tamoyo seguido
de perto pela doutora.
**************** "Toda a nave em alerta vermelho", gritou, Yamada, seus olhos fixos no visor principal que focalizava a rápida aproximação dos mísseis, "Preparar sistemas de defesa anti-misseis". Rodrigues imediatamente acionou as baterias, controladas por computador, e estas começaram a mover-se na direção dos alvos, seus olhos estavam fixos no painel de controle das baterias quando uma claridade momentânea tomou conta da ponte anunciando os primeiros disparos da escolta que destruíram vários mísseis, mas muitos ainda permaneciam intactos e seguiam sua rota em direção a pequena frota terrestre. "Liberar inibidores de ogivas", Yamada ordenou ao perceber, como o capitão tinha dito, que a cobertura oferecida pela escolta tinha sido pouco eficaz. "Inibidores lançados", anunciou, o oficial de armas, quase que imediatamente a liberação de pequenos objetos metálicos, que se desprendiam do casco da nave e tinham por missão inibir os sistemas direcionais dos mísseis retirando-os da rota de colisão com o encouraçado terrestre, enquanto as baterias antiaéreas da nave entravam em operação destruindo-os. "Mísseis destruídos senh...", começou a dizer o operador de radar, substituto de Julia, mas silenciou e seu rosto assumiu uma coloração pálida ao observar três pontos luminosos aparecerem na tela do radar "...Meu Deus! Três escaparam de nossa barreira anti-misseis e se dirigem a nós. Impacto em trinta segundos". "Preparar para impac...".
******************** Marco estava pegando a bandeja quando começou a soar o alarme. "Deve ser outro treinamento", disse Lamertz, "Vamos nos sentar". Apesar de sentir uma sensação de que aquilo não estava certo Marco acatou a sugestão de Lamertz e junto com este começou a caminhar entre as mesas do refeitório a procura de um lugar quando um estrondo ecoou pelo casco da nave e assim como todos naquele momento foi arremessado para o lado oposto do estrondo, como se um trem tivesse se chocado com a nave. Sentia que sua cabeça doía e abriu os olhos, mas tudo permaneceu escuro causando-lhe um arrepio. Não via nada mas sentia como se estivesse com a cabeça enfiada num travesseiro. Levantando-a lentamente sua visão retornou e o seu "travesseiro" tomou contornos azulados, outro arrepio tomou-lhe o corpo quando ao levantar os olhos deparou com os olhos arregalados de uma moça de origem asiática que estampava no rosto um tom avermelhado. Permaneceu nesta posição por alguns minutos quando alguém pegou-lhe pelo braço levantando-o. "Já chega rapaz. Eu sei que ai esta bom mas tome cuidado pois ela é sua superior", comentou Lamertz, arrastando-o pelo braço e fazendo-o sentar, "Mas que vôo cara. Você se machucou?". Marco apenas respondeu com um balançar de cabeça, seus olhos estavam fixos na moça, que ajudada por outra garota, tinha se sentado em um banco de frente ao dele e quando seus olhos se desviaram procurando seu "travesseiro" um terceiro arrepio percorreu seu corpo quando esta escondeu-os com as mãos. *******************
"Você esta bem Julia?", Lisa perguntou levantando a amiga e sentando-a. "Estou", Julia respondeu sem desviar seus olhos
do rapaz sentado a sua frente e uma coloração vermelha tomou
conta de seu rosto quando notou que os olhos dele procuravam seus seios
fazendo-a, instintivamente, protege-los com as mãos e desviar o
rosto.
****************** André tinha sido arremessado contra a parede do corredor e instintivamente tinha puxado a doutora, colocando-se entre esta e a parede e talvez por essa razão suas costas doíam terrivelmente, mas a sensação de sentir o calor do corpo da doutora sobre seu corpo lhe trazia alivio. "O...O que aconteceu?", a doutora perguntou assim que se recuperou, "Você esta bem André?". "Estou", mentiu pois suas costas doíam
muito e num esforço quase sobrenatural começou a levantar-se,"
Devemos chegar a ponte o quanto antes".
***************** "Droga. Outra desta e nós já éramos ", praguejou Yamada observando os painéis de avarias, "Onde será que esta o capitão?". "Estou aqui", André respondeu entrando, acompanhado da doutora," Como estão as coisas? Quais são as avarias?". "A sessão B a bombordo foi atingida e as equipes de manutenção estão se dirigindo ao local acompanhados pelo Engenheiro-chefe Babenko, teremos um relatório sobre a gravidade do dano dentro de alguns minutos senhor". "O doutor Vasquez informa que não houveram feridos graves só tripulantes com escoriações", informou a doutora que tinha se aproximado de seu posto e se comunicado com o centro medico da nave. "Comunicação chegando, senhor. O Aconcágua e o Miranda informam que sofreram pequenas avarias, mas o Santiago teve rompimento de casco senhor e pedem auxilio de nossa unidade medica", informou o operador de radio. André lembrou-se que a posição em que o Tamoyo se encontrava na hora do ataque não foi apenas prejudicial ao encouraçado, que ficou sem uma cobertura eficaz da escolta, mas também foi prejudicial a escolta que não pode se defender eficientemente sem atingir a nave da Terra. "Avise ao Doutor Vasquez que apronte uma equipe medica para partir imediatamente em auxilio do Santiago", André ordenou, e inconscientemente sua mão se apoiou no encosto de seu cadeira. "De onde será que vieram aqueles mísseis, capitão?", indagou Yamada. "Realmente não sei imediato", foi a resposta de André que se segurava para não começar a tremer, pelo menos ate tudo estar resolvido, "Operador de radar! Rastreie a origem daqueles mísseis, imediatamente. Parece que tivemos uma repetição dos eventos ocorridos com a Patrulha estelar a uns meses atras". "Misseis perdidos?" "Se o senhor me der licença capitão?", Lisa interrompeu-os, "Meus instrumentos registraram residuos de reversão a poucos quilometros daqui". "Submarinos de Sub-espaço?". "Então foi um ataque deliberado", começou a ponderar André, mas foi interrompido pelo oficial de comunicação. "Engenheiro-chefe Babenko senhor" "Abra o canal. Qual é a gravidade da avaria Babenko? Espero que não seja necessário atrasar nossa viajem". "Eu receio que sim senhor. A avaria não foi muito extensa mas vamos levar 12 horas para repara-la". "Certo Babenko, faça o que for possível". "Avise o Aconcágua e o Miranda que devem escoltar o Santiago até a base de Saturno-Titã assim que seus tripulantes estiverem sido socorridos. Avise-os que prosseguiremos sem escvolta a partir daqui. Informe Saturno-Titã e depois abra canal com a Terra, devemos informar o Alto-Comando o mais breve possivel", ordenou ao operador de radio assim que Babenko desligou. "Senhor. O doutor avisa que esta pronto para sair com o grupo medico e... senhor?!", começou relatar o imediato mas parou abruptamente quando notou que seu capitão começava a tremer descontroladamente. André tinha ouvido a voz do imediato mas esta pareceu-lhe distante enquanto tudo a sua volta começava a girar e escurecer ao sentir seus sentidos se esvaindo. "Andrééé...!!?", gritou
a doutora Lancaster quando seu capitão tombou em direção
ao piso de aço do encouraçado.
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