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Hadrian Marius
babell@ieg.com.br CAPITULO XVII: CELEBY IV - III
A estrela conhecida como Celeby IV nunca havia impressionado os astrônomos da Terra. Vista da Terra ela não passava de uma estrela de brilho fraquíssimo em meio a tantas outras. Quando os radiotelescópios voltaram-se para aquela estrela a única coisa digna de nota foi a leve oscilação em seu espectro, o que evidenciava a existência de um sistema planetário. Mas, no ultimo ano muita coisa havia mudado e a estrela, antes considerada, insignificante, talvez pudesse ser a salvação de toda a civilização terrestre. Talvez... *****************
O Tamoyo acabava de sair de uma reversão a uns poucos milhares de quilômetros de Celeby IV-III que, de acordo com os astrônomos terrestres era, um mundo azul, com tons esverdeados e marrons espalhando pela malha atmosférica, em muitos aspectos lembrava o planeta natal dos tripulantes do encouraçado. "Quero a imagem mais nítida possível". Aqueles que estavam na ponte tiveram que se esforçar para controlar o choque da cena que se descortinava a sua frente. De acordo com as Cartas Celestes da Terra o planeta conhecido como Celeby IV-III deveria possuir três luas mas, os terráqueos viam apenas duas. A terceira aparentemente também estava lá: se considerassem aquela infinidade de rochas, que circundavam o planeta, uma lua também. Aparentemente o terceiro satélite havia se esfacelado, por obra de alguma força descomunal, criando um anel de asteróides, de vários tamanhos, cercando o planeta-mãe e confundindo-se com seus satélites irmãos. ***************
"Não foi nada Tenente", a enfermeira que estava medicando a galman procurou tranqüilizar Depardieu quando percebeu o olhar aflito que ela lançava para Löwin. "Não te falei que não era nada. Apenas não estou acostumada com estas coisas", Löwin procurou sorrir. "Mas foi um susto danado. O que você acha que pensei ao ouvir que você tinha sido encontrada inconsciente num corredor". "Sua amiga tem razão. Você deveria manter-se em seu alojamento durante as reversões", a enfermeira, uma garota loura que não aparentava ser mais velha que elas, apoiou a censura da piloto. "Me desculpe por deixa-la preocupada", seus olhos procuravam o chão. "Esta tudo bem com ela agora. Mas é melhor que repouse durante algumas horas". "Obrigada enfermeira", Depardieu agradeceu enquanto ajudava Löwin se levantar, "Vamos. Vou te acompanhar até o alojamento". A garota sorriu agradecida. ***************
Nanako acompanhou, com os olhos, as duas amigas, até elas desaparecerem pela porta da enfermaria. Era a primeira vez que tratava da moça galman, apesar de já tê-la visto na cantina. Apesar de ter constituição frágil, sua pele era muito bonita, apesar do tom azulado que, ao invés de ser estranho, lhe conferia uma certa beleza exótica. Tinha achado-a muito simpática. Depardieu era uma velha conhecida sua; varias vezes tinha ministrado a sub-comandante dos Condores os inibidores de menstruação. Marco também havia falado muito sobre ela. Se não se enganava ela teria sido a paquera de seu amigo antes de Julia. Vendo-as juntas percebeu o porque dos boatos que corriam entre os tripulantes. ***************
"Os detritos estão causando interferência em nossos escaners", foi à resposta de Judith a pergunta que André lhe dirigira momentos antes, "Seria melhor se ultrapassássemos a barreira". O Tamoyo, que até aquele momento havia permanecido no mesmo lugar em que tinha saído do subespaço, pos-se em movimento. O quadro que André tinha visto não era muito animador mas ele tinha esperança que o planeta não tivesse sido afetado pelo fenômeno. Uma esperança compartilhada por todos os oficiais. "Você consegue Camalani?", Yamada perguntou ao navegador. "Mas é claro. A travessia por barreiras de asteróides faz parte de nosso treinamento básico, senhor". A resposta veio azeda, obviamente o jovem piloto não gostou do fato de seu superior ter duvidado de suas habilidades Carlos Camalani movimentou o manche e imprimiu mais velocidade a astronave. Estava decidido a mostrar a todos que era capaz de fazer a enorme belonave atravessar os obstáculos em segurança. "Vai ser como um passeio no parque", murmurou para si mesmo. As primeiras rochas começaram a se aproximar. *******************
Löwin, como de costume, caminhava um passo atrás de Depardieu. Seus olhos se mantinham atentos a cada movimento do corpo da terráquea. Era como se a simples visão do balançar do cabelo e o movimento do corpo ao caminhar da moça fossem uma força hipnotizadora sobre ela. "Você não precisava se preocupar comigo", disse, procurando despertar daquele hipnotismo involuntário. "Como não?", foi à resposta. Depardieu parecia aborrecida, "Viro as costas e você é encontrada desacordada. Você não sabe o perigo que correu? Poderia ter sofrido ferimentos sérios...ou pior". A piloto enfatizou a ultima palavra. Estavam dentro de uma nave de guerra e ela tinha ouvido estórias sobre violações que tripulantes desacordados, principalmente mulheres, durante reversões, sofriam. Portanto seria melhor que a galman sentisse um pouco de receio. "Porque seu pai ou o capitão Ormultz não apareceram?" Löwin ainda digeria as palavras de Depardieu e a terráquea teve de repetir a pergunta. "Pedi para que não fossem avisados. Se meu pai descobre, ele me proibiria de sair de meu aposento. Ormultz apoiaria veementemente". Depardieu parou esperando que Löwin ficasse de seu lado. "Não entendo o porque de você andar sempre atrás de mim. Não imagina como é chato conversar com alguém que esta te olhando pelas costas". "É um costume de meu povo; quando andamos com alguém que respeitamos devemos sempre andar atras desta pessoa". "Não mereço tanta consideração Löwin. Por isso quero que ande do meu lado". A garota sorriu. Se isto deixava Brenda feliz então ela andaria de seu lado. *****************
"Camalani é bom mesmo hein!?", o comentário tinha surgido de um dos tripulantes que observavam, no observatório, os asteróides passarem pela nave sem resvalarem em seu casco. Marco ouviu o comentário e teve que concordar; não era qualquer um que conseguiria realizar tal manobra. Até mesmo um piloto de caça teria dificuldades. O Tamoyo tinha a sorte de contar com um dos melhores navegadores da frota. Superado apenas por Mark Venture da Patrulha Estelar. "Porque será que estão arriscando tanto? Fazendo esta travessia por um cinturão instável como este", refletiu. ****************
Camalani suspirou baixinho quando o ultimo asteróide foi deixado para traz; o encouraçado havia atravessado ileso e congratulações foram proferidas pelo imediato e pelo capitão, enchendo-o de orgulho. Há sua frente o planeta azulado se apresentava com toda sua beleza. Cálculos para uma órbita segura deveriam ser feitos o mais breve possível. "Procure identificar sinais de radio, Wan-li, enviados por bóias. Não quero invadir o território de ninguém", André começou a distribuir suas ordens, "Mapeie os objetos na área, Mcdowell..." "Os radares estão recebendo muita interferência, provenientes dos planetesimais, senhor", Lisa interrompeu-o. "A ruptura do satélite deve ter acontecido muito recentemente e os níveis de radiação ainda devem estar altos", Judith, veio em socorro da operadora de radar que sucumbia ante o olhar interrogativo do capitão. "Veja o que pode fazer tenente". André voltou, novamente, sua atenção para a janela panorâmica. Celeby IV-III era o ultimo, de uma longa lista de mundos selecionados que poderiam sustentar a civilização terrestre. Todos na ponte do encouraçado estavam cientes deste fato. Aquele mundo poderia coroar seus esforços com os louros do êxito ou com a derrota, que não seria apenas deles mas de toda uma civilização. *****************
Lisa Mcdowell considerava-se uma oficial de radar competente e tinha certeza de que resolveria aquele imprevisto. "Como o esfacelamento de um satélite podia interferir tanto", resmungou. Mexeu chaves, entrou em contato com a central de radar, ativou filtros, ajustou polaridades. Um sorriso moldou-lhe o rosto quando seus esforços começaram a se mostrar promissores; a estática diminuía e os filtros começaram filtrar os sinais que realmente importavam das interferências. Mais alguns segundos e o radar de curto alcance estaria limpo Foi neste momento que ela empalideceu. ******************
André percebeu imediatamente o estado de sua operadora de radar e lançou um olhar interrogativo para a mesma. Ela retribuiu o olhar e as palavras saíram atropeladas. "Mísseis se aproximando...t-5 seg para impac...", suas palavras foram abafadas pelo reverberar do impacto dos artefatos no casco da belonave "Nível de dano: nulo", foi à resposta de Yamada ante o olhar inquisidor de André, "A origem dos mesmos é o cinturão de asteróides, senhor". O capitão do Tamoyo já sabia. Ele sabia que os mísseis estavam estacionados, inertes nos destroços da lua, esperando apenas que a astronave terrestre passasse por eles. Era o truque mais antigo do mundo; ficar de tocaia e atacar pelas costas, e ele havia caído nele. "Todos a seus postos. Alerta um, Yamada" As sereias ecoaram pela nave. *******************
As duas amigas tinham acabado de chegado ao alojamento de da galman naquele instante e estavam se despedindo quando o casco do encouraçado foi sacudido pelo impacto dos primeiros mísseis. Löwin se apoio no corpo de Depardieu, que por sua vez, se apoiou no batente da porta. "Tudo bem?", Depardieu perguntou, afastando Löwin, delicadamente. A galman balançou a cabeça afirmativamente, "O que foi isso?", perguntou logo em seguida. "Não sei. Mas garanto que coisa boa não é". Parecia que estavam apenas esperando que ela terminasse a frase pois imediatamente as sereias de alarma começaram a ecoar pelo corredor . Apressando os tripulantes. "É melhor você ficar em seu alojamento", Depardieu empurrou-a galman para dentro. "E quanto a você?", Löwin perguntou, segurando a porta e impedindo-a de fechar automaticamente. "Bem sabe que tenho que ir para o hangar; este é um alarme nível um...a coisa pode se complicar...", neste momento os olhos das duas moças se cruzaram e Depardieu pode sentir toda a preocupação que a jovem alienígena sentia por ela. "Não se preocupe...deve ser outro treinamento", tentou acalmar a amiga com palavras que ela mesma não acreditava, "Tchau!". Löwin foi deixada só. E de dentro de seu peito emergiu uma oração que pedia proteção para sua grande amiga. ****************
Não havia tempo para lamentações. Mal dera a ordem de alarma André recebeu a noticia que uma nova onda de mísseis se aproximava da popa. "Lançar inibidores de ogiva. Preparar baterias três e quatro". O efeito de suas palavras foi instantâneo e varias bolas de luz foram visualizadas pelos sensores e pelas câmeras. "Camalani; siga em direção ao planeta. Estas porcarias devem estar sendo ativadas por sensores de proximidade. Tire-nos do alcance deles". Mais uma vez suas palavras receberam resposta instantânea e o pesado encouraçado terrestre começou a se mover. "Terceira leva de mísseis...". "Baterias três e quatro...fogo!!!!" Os potentes canhões de popa responderam a ordem fazendo suas rajadas de plasma cortarem o vácuo; a precisão foi absoluta e, por uns instantes, dezenas de mini-estrelas iluminaram o casco azulado da belonave terrestre. Um sorriso se formou no rosto de Rodrigues. André não
viu o sorriso mas se o visse consideraria -o imprudente pois
sentia que os acontecimentos estavam apenas se iniciando.
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