TAMOYO`S JOURNEY


Hadrian Marius
babell@ieg.com.br

 CAPITULO XVI: LAÇOS DE AMIZADE






 A belonave terrestre cortava o espaço cósmico. Seu nome de batismo é Tamoyo a ultima das naves da classe Andrômeda e uma das ultimas esperanças da Terra em sua desesperada missão de encontrar um novo lar. Apesar da urgência de sua missão nos últimos dias ela foi obrigada e fugir ou melhor, brincar de gato e rato, com um inimigo invisível. Tantas foram às reversões e mudanças bruscas de rotas que a própria tripulação começava a se desorientar.

 André estava em seu lugar na ponte, seus olhos estavam fixos no espaço infinito, que começava após o vidro. Tinham-se passado três horas desde a ultima reversão e ele aguardava impaciente o relatório de seu oficial de radar. 

 "Tudo em silencio, senhor", Lisa informa e o alivio é geral. 

 Eles haviam conseguido despistar seus perseguidores mas o preço tinha sido alto, André sabia disso, pois se afastaram em demasia de seu destino; o ultimo naquela jornada derradeira.

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 "Então é isso!", Depardieu estava de pé olhando o espaço pela escotilha do alojamento. Atrás dela via-se o corpo de Khalil envolto nos lençóis de sua cama.

 Ela tinha acabado de saber do motivo de seu amante ter lhe dado um gelo durante todos aqueles dias; Löwin.

 A piloto já imaginava que a resposta seria aquela mas ao ouvir a confirmação de suas suspeitas demorou a digeri-la. 

 "Só não entendo o porque? Ela não fez nada para você".

 "Apenas uma palavra Brenda: gamilon".

 Aquele nome soou como um sino em seus ouvidos.

 "Como você pode ser amiga de alguém cujo povo trouxe tanta morte e destruição ao nosso. Você mesma perdeu sua família num bombardeio nuclear..."

 "Pérai!! Você está me dizendo que acha que ela é uma gamilon? Se fosse um marinheiro eu até aceitaria tal coisa mas, você? Um oficial graduado, que os recebeu e sabe que, com exceção daquele capitão, tanto o pai como à filha são galmans!".

 "Galmans...Gamilons... São todos a mesma coisa".

 "Essa é boa!!", ela disse exaltada, "Isto é preconceito Cassius".

 O silencio imperou durante um tempo. Período em que ambos pareciam refletir.

  "Os rapazes estão fazendo comentários..."

 "Eu lá ligo para que os outros dizem. Se ligasse não estaria com você", ela fez uma pausa.

 "De qualquer forma. Eu quero que você pare de andar com aquela moça", o tom de Khallil soou autoritário, como uma ordem. Ele pretendia terminar aquela discussão ali. 

 Infelizmente aquele tom de voz serviu apenas para irritar Depardieu. 

 "Só porque você dorme comigo não quer dizer que pode escolher minhas amizades".

  Dito isto ela abandonou o alojamento.

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 A jovem garota loura parecia não se importar com os olhares dos marinheiros que passavam por ela enquanto caminhava pelos corredores. E realmente não se importava, porque se sua passagem provocava a reação dos homens, e de uma ou duas moças, a culpa não era sua e sim do uniforme de enfermeira que vestia.

 Tinha estado até aquele momento na enfermaria, atendendo os casos de enjôos, comuns após reversões, e agora se via livre para caminhar. Pensava em seguir até a cantina, onde com certeza encontraria alguém para conversar, ou continuaria até o alojamento onde desabaria na cama e dormiria o resto do dia. Uma escolha difícil.

 "Nanako?!", alguém a chamou, tirando-a da decisão que teria que tomar.

 "Já terminou seu turno?", Julia, sorridente lhe interrogava, "Não quer tomar uma ducha comigo?".

 Porque não?, ela pensou; juntando-se a oficial de comunicações que caminhava na direção dos chuveiros. 

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   Depois de sair da presença de Khalil, Depardieu tinha caminhado pelos corredores da nave ruminando a irritação que sentia. Tão absorta estava em tal tarefa que mal percebia os tripulantes que passavam por ela, sem contar o fato de estar completamente alheia ao destino que seguia. Tal ignorância levou-a até um observatório onde ela permaneceu olhando, sem ver, as estrelas na imensidão cósmica.

 "Quem ele pensa que é!", resmungou.

 Seus olhos se voltaram para o anel que brilhava em seu dedo e por um instante teve vontade de retira-lo e joga-lo lixeira abaixo. Fazia quase três anos que estavam juntos. Tinham se conhecido na base lunar onde ela, como cadete, fora treinar sendo ele seu instrutor. Logo os olhos dos dois se cruzaram e uma paixão surgiu. 

 Foi um romance complicado pois a opinião geral de todos era de que ela estava tentando galgar posições as custas da fascinação do instrutor por francesas.

 Girou o anel no dedo mas, seus olhos ainda permaneciam concentrados nas estrelas. Tinha que admitir que não foram raras às vezes em que agradeceu sua sorte de ter se amarrado com um homem como Khalil, muitas portas foram abertas por causa dele.

 Girou novamente, com força, o anel, exprimindo sua revolta. Nem por isso ele tinha o direito de tentar controlar sua vida. Tentar afasta-la de Löwin...

 O nome da galman foi o primeiro a surgir, em sua mente, logo seguido por seu rosto, suavizado por um sorriso jovial. A lembrança da amiga teve um efeito tranqüilizante na sua raiva. Como? Como? Ele ousava pedir para que ela se afastasse de tão doce criatura....

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 A água escorria pelo corpo de Julia como uma carícia. 

 Marco tinha feito uma boa escolha, Nanako pensou olhando para as curvas no corpo da amiga. Ele podia ser tudo , menos burro e sabia apreciar um corpo como aquele.

 Abaixou os olhos e olhou seu próprio corpo. Será que ele algum dia já tinha olhado para ela com olhos do desejo? Será que seu corpo despertava algo em alguém?

 "Pra mim você tá ótima", a fala de Julia pegou-a de sobressalto e um leve rubor manchou-lhe a face. Julia achou graça.

 "Quer que eu esfregue suas costas?", perguntou recebendo as costas de Nanako como resposta.

 "Quer saber?", a oficial de comunicações começou a dizer, ao esfregar iniciar sua tarefa que arrancava arrepios da enfermeira, "Com um corpo deste você devia seguir a carreira de modelo. Sinceramente, eu agradeço ao fato de Marco ser míope senão, eu não teria a menor chance..."

 "É mesmo".

 "Hei! Não é pra ficar convencida".

 Nanako não pode segurar uma gargalhada. Em seu intimo o elogio foi recebido de bom grato. Ela estava pra baixo desde aquele dia e apreciava o fato de Julia estar tentando lhe animar.

 "Obrigada", disse segurando o riso.

 No mesmo instante sentiu o corpo de Julia colar ao seu e os braços dela envolvendo sua barriga.

 "Peça qualquer coisa; mesmo que seja para abandona-lo, Eu farei isso...", Julia sussurrou em seu ouvido.

 "Não", balançou a cabeça, "Eu nunca mais quero ouvir isso, entendeu?"

 Ela desejou que sua voz fosse firme o suficiente para que a outra entendesse que aquele assunto estava morto. Que cada um levasse a vida que bem entendesse.

 "É melhor você me soltar, afinal o que pensariam se nos vissem assim", disse procurando soltar-se do abraço.

 "E dai! Toda nave tem que ter um casalzinho destes", as palavras de Julia foram ditas maliciosamente no mesmo instante em que deu um tapinha numa nádega da amiga. Nanako ruborizou.

 "É brincadeirinha..."

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 Ali estava ela, sentada em frente à mesa de despachos de André. Judith estava calada, tinha passado a ultima meia hora fazendo um relatório oral sobre suas pesquisas e agora o capitão do Tamoyo olhava atentamente os papéis que ela havia trazido.

 "Até quando vamos ficar andando me ziguezague?", perguntou, tentando quebrar a monotonia.

 "Entendo sua preocupação mas, infelizmente, teremos que nos demorar mais um pouco neste jogo".

 "O tempo está passando André".

 "Eu sei, Judith. Ninguém, dentro desta nave, sabe mais sobre isto que eu!", pela primeira vez ele abandonou os papéis sobre a mesa, "E logo agora que a Terra perdeu contato com a Patrulha Estelar, temos que ficar nesta situação!".

 Minutos se passaram. Cada um parecia absorto em seus próprios pensamentos. Sentindo, cada um a sua maneira, o peso de sua missão.

 "Se o senhor não tiver nada para me dizer eu devo voltar ao laboratório", ela disse, enfim, e se levantou. Como não recebeu resposta virou-se para sair. 

 Seu avanço foi impedido pela mão de André que segurou a sua.

 "Depois que tudo isto acabar eu quero que você se case comigo, Judith".

 A doutora permaneceu imóvel, sua mente fervilhava.

 "Eu entendo se você se recusar...".

 Ele tinha se levantado e agora estava atrás dela. 

 "Recusar?! Você imagina quanto tempo estou esperando por isso?", disse com a voz embargada. Seus olhos tremulavam quando ela voltou-se para ele.

 As estrelas pareciam fixas no céu cósmico quando os lábios, seguidos pelos corpos, do capitão de mar e guerra André Romanov e da oficial cientifica Judith Lancaster, se uniram num ato protelado por mais de dez anos.

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 A garota galman despreguiçou afastando os lençóis e revelando seu corpo. Seus olhos acostumaram aos poucos com a luminosidade.

 "Bom dia Löwin!" cumprimentou-se, a si mesma, sorrindo, "Você dormiu bem?".

 O momento do despertar era o menos apreciado pela moça pois era quando ela se sentia mais vulnerável a solidão. Uma solidão que sentia desde o dia em que sua mãe morrerá naquele campo de refugiados e se aventurara com seu pai pela ilegalidade da resistência.

  Foram anos duros. Não que o bondoso Lorde Wendern não tivesse dado a atenção necessária à filha adolescente que o seguia mas, os assuntos sobre a liberdade de seu povo eram mais urgentes. Ela sabia que assim seria, quando se juntou a ele, por isso nunca exigiu mais atenção do que a que ele próprio estava disposto a dar. 

 Amigos, de verdade, ela nunca tivera. Laços afetivos não eram apreciados pois um sentimento como este poderia ser usado como elemento de chantagem por parte das forças de ocupação. Löwin sorriu, como se isto fosse possível? A morte era uma constante entre eles.

 Tempos tristes aqueles. 

 Levantou-se e caminhou até a pequena mesa e pegou um livro de capa vermelha. Folheou-o despreocupadamente. Aquele livro pertencia a Brenda e apesar de não entender a escrita terrestre ela o tinha pego, queria ter algo de Brenda por perto. Folheou-o, era de poesia, segundo dissera a piloto, mas também possuía ilustrações belíssimas. Seus olhos passearam pelas paginas até que pousaram sobre uma qualquer.

 Havia duas moças sentadas sobre a sombra de uma arvore. Elas vestiam belíssimos vestidos com rendas e babados, seus cabelos estavam soltos, apesar de estarem cobertos por chapéus de aba larga, ambas sorriam e pareciam trocar segredos enquanto suas mãos, enluvadas, tocavam-se levemente.

 Para a galman a cena era idílica e se perguntou se aquelas vestes eram tradicionais da Terra. Chegou a se imaginar  naquele quadro, vestindo aqueles vestidos e trocando confidencias com Depardieu.

 Ela sorriu. Não conseguia imaginar Brenda Depardieu trajando tais vestes...

  Envolveu o pequeno livro num abraço e aconchegou-o entre os seios. 

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 Marco procurava por Julia e Nanako quando as avistou ao dobrar um corredor: ambas andavam lado a lado conversando e sorrindo.

 Ele gostava de vê-las e por isso decidiu diminuir o passo e ficar observando-as com olhos quase desejosos. Na sua frente estavam as duas pessoas mais importantes para ele nesta vida. 

 Com Nanako, podia compartilhar seus medos e esperanças. Era a pessoa mais preciosa que conhecia e por ela moveria céus e terras se preciso. Julia era sua paixão. Não! Seu amor, sua alma gêmea...aquela por quem todos procuram durante a existência...por ela morreria...

 Gostava de vê-las juntas, sorrindo, pois isto lhe fazia bem. Decidiu se aproximar e fazer-se anunciar:

 "Então era aqui que vocês se escondiam?".

 Foi recebido por dois sorrisos que ele mesmo definiria como angelicais.