TAMOYO`S JOURNEY


Hadrian Marius
babell@ieg.com.br

 CAPITULO XV: SEI QUANTO DÓI






 "Perdoe-me", as palavras afloraram da boca de Julia engolfadas em meio aos soluços.

 Ela estava de joelhos de frente a Nanako, que simplesmente não conseguia reagir, e seus olhos marejavam.

 "Você confiou em mim e...eu te...trai", Julia soluçou.

 Se até aquele momento a enfermeira não sabia o que se passava isto já não era mais possível pois a verdade cortou-lhe como um raio; Marco! Marco era a razão do pranto da amiga. Uma amiga que tinha visto em seus olhos a verdade e agora sofria. Nanako lamentou...não queria aquele peso sobre ninguém.

 Ajoelhou-se e levantou a cabeça da moça fazendo seus olhos se encontrarem; aqueles olhos avermelhados pelas lágrimas cortaram-lhe o coração.

 "Não há o porque de me pedir desculpas", consolou-a, "Porque não houve nenhuma traição".

 Julia olhou no fundo dos olhos da enfermeira; sentia a dor dela mas também sua luta para se controlar e sua sinceridade. Sentiu-se envergonhada e tentou conter as lágrimas.

 "Você pensa que me traiu ao conquistar o coração de Marco", Nanako se levantou e ficou de costas para Julia, "Mas não foi assim que aconteceu. Afinal não poderia me ferir ao tirar ao algo que não posso ter...".

 "Nanako..."

 "Se te apresentei foi porque ele vivia falando sobre a oficial que tinha conhecido no refeitório..."

 A oficial de comunicações recordou o momento em que viu Marco pela primeira vez, de como ele vôo sobre ela quando a nave foi atingida por mísseis ainda no Sistema Solar.

 "Sabe...eu estou feliz...que vocês estejam juntos...não há companheira melhor para ele", as palavras saiam entrecortadas, anunciando o choro.

 "Porque você não disse a ele?"

 "Eu disse... mas, o idiota, me... considera apenas como irmã...".

 Aquelas palavras estavam machucando e Julia sabia por isso se aproximou, enlaçando-a por traz.

 "Não fale mais...eu sei o quanto dói".

 As ultimas defesas de Nanako ruíram e ela voltou-se para a garota despejando seu pranto sobre o ombro da outra. Ali ficaram, abraçadas, e Julia se perguntava o quanto o destino podia ser cruel; ambas amavam o mesmo homem mas apenas uma podia tê-lo enquanto que a outra devia apenas se satisfazer com a presença do amado. 

 Ela sentiu vontade de chorar mas conteve-se; não se sentia digna de misturar sua lágrimas com as daquela criatura...que carregava um fardo tão grande. Apenas os soluços de Nanako eram ouvidos dentro daquele aposento mas logo eles foram abafados por um silencio e uma luz branca que envolvia a tudo. 

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 André abriu os olhos e olhou envolta; haviam acabado de fazer uma reversão, saltado cerca de 50 anos-luz no espaço-tempo, e definitivamente aquela não era uma experiência agradável. Vários de seus subordinados apresentavam sintomas de enjôo. 

 "Defina as coordenadas Mcdowell", começou imediatamente a passar ordens, "Yamada. Ordene a decolagem, imediata, de uma patrulha...veremos se algo nos seguiu" ·

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 A ordem de decolagem ecoa pelo hangar e não foram poucos os resmungos. Muitos achavam loucura uma decolagem imediatamente após uma reversão mas ordens eram ordens e rapidamente um astro-caça modificado para vigilância e reconhecimento foi posicionado.

 "Depardieu", Khalil chamou, "Você conduzirá a escolta".

 Depardieu, que ainda sentia os efeitos da reversão, pegou seu capacete e gritou três nomes; Minamino, Almeida e Lamertz 

 "O objetivo de vocês é fazerem vôo em espiral a partir da nave até que sejam instruídos a retornar, entenderam?", Khalil terminava a instrução dos pilotos da nave de reconhecimento quando a vice-comandante dos Condores, acompanhada dos outros três pilotos, se aproximou. 

 "Quanto a vocês; devem garantir a segurança do avião de vigilância", ele disse friamente, evitando olhar para a moça, "Agora vão".

 O astro-çaca de reconhecimento foi o primeiro a se lançar ao espaço enquanto Depardieu olhava para seu noivo que se afastava; ele estava irritado isto ela percebeu mas, a questão era com o que. Pelo seu olhar tudo dava a entender que a causa da irritação era ela...só não entendia porquê...

 "Tudo pronto tenente", o oficial de pista avisou-lhe que seu caça estava pronto. Entrou e prendeu o cinto enquanto o astro-caça deslizava para o centro da plataforma de lançamento. Olhou pelo retrovisor e viu Khalil conversando com um mecânico. Parecia descontraído. Talvez sua irritação tinha sido causada pela reversão mas de qualquer forma, quando tivessem um tempo sozinhos, ela perguntaria sobre o que estava acontecendo. Um polegar levantado e um movimento de braço indicou o momento em que seu caça foi arremessado ao espaço.

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 Elas não conseguiam se lembrar de quanto tempo permaneceram abraçadas compartilhando suas dores. Tudo que lembravam era da luz esbranquiçada que envolveu-as; provavelmente o fruto de uma reversão.

 "Nós somos perfeitas idiotas, você não acha?", Nanako foi a primeira a falar.

 Julia balançou a cabeça concordando e quase que imediatamente começou a gargalhar, seguida pela enfermeira. O acesso de riso durou alguns minutos e ao finda-lo as duas moças se recompuseram sentando uma na cama e outra na cadeira.

 "Quero que você saiba uma coisa Nanako", Julia disse olhando para o rosto interrogativo da outra, "Que se você quiser eu abro mão de Marco".

 A enfermeira empalideceu; não esperava ouvir aquelas palavras de Julia e podia perceber o quanto tinha custado para a outra pronuncia-las.

 "Não!", quase gritou, "Não quero isso, não permitirei isso. Sei o quanto você significa para ele e...o quanto ele significa para você. A mim basta estar ao lado de vocês dois e sua felicidade será minha"

 "Eu...eu não sei o que dizer", Julia estava transtornada. Levantou-se e se ajoelhou aos pés da moça e pegou-lhe as mãos, beijando-as delicadamente.

 Nanako afagou os cabelos da amiga e beijou-lhe a face.

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 Judith estava vistoriando o jardim hidropônico quando André entrou. o lugar poderia ser considerado a estufa da belonave; varias espécies de vegetais eram cultivados e eles serviam tanto para complementar o cardápio do refeitório como para pesquisas relacionado a influencia de reversões sobre as plantas. Ela estava justamente analisando o nível de radiação em um tomateiro quando o capitão entrou.

 "É disto que mais sinto falta neste tipo de viagem", ele disse olhando para os canteiros, "O cheiro da grama, o farfalhar das folhas, o vento no cabelo...".

 A doutora entendia o que ele queria dizer; este era um tipo de nostalgia comum em tripulações de naves estelares e não era raro tripulantes entrarem na área do jardim apenas para olharem durante alguns minutos para o verde das plantas e sentirem que havia algo mais do que paredes de metal.

 "Pensei que estivesse na ponte", Judith tentou desvia-lo daquela sensação melancólica.

 "Se acontecer alguma coisa Yamada me avisa pelo comunicador", ele se aproximou e alisou um tomate, "As reversões são extremamente extenuantes e eu...precisava caminhar, pensar, um pouco".

 "Como estão as coisas?".

 Ela entendia tudo o que aquelas palavras queriam dizer nas entrelinhas; o capitão do Tamoyo queria conversar, procurar apoio em suas dúvidas. Alguém que pudesse compartilhar a solidão do comando. Esse alguém, esse apoio, era ela e estava muito satisfeita com isso.

 "Depende do ponto de vista; por enquanto estamos seguros mas sinto que esta é a calmaria antes da tempestade...". 

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 O primeiro astro-caça a pousar foi o de reconhecimento mas logo ele foi seguido pelos outros três. Sua missão tinha se revelado infrutífera para alivio e frustração dos tripulantes do encouraçado. Eles tinham conseguido despistar quem quer que fosse que os seguia mas seu lado guerreiro sentia se frustrado por não terem encarado o perseguidor frente a frente.

 O caça de Marco foi o último a pousar, logo atrás do de Depardieu,  e já havia descido do aparelho quando seus olhos caíram sobre sua líder de esquadrão; algum tempo atrás ele estaria saboreando as curvas da moça mas agora ele tinha Julia e apesar de, continuar achando Depardieu uma das mulheres mais bonitas a bordo ela não lhe atraia o desejo.

 Depardieu estava ao lado de Khalil terminando seu relatório, uma rotina. Só que havia algo estranho, Marco tinha notado; o capitão aviador recebia o relatório com uma frieza que não exibia nem com seus subordinados. Aquilo significava uma coisa, eles haviam brigado afinal não era segredo de ninguém o romance entre os dois.

 A frieza de Khalil atingia em cheio a primeiro-tenente; ela se sentia transtornada e quase perdeu a compostura quando ele deu-lhe as costas e seguiu em frente, ignorando-a. 

 Marco sabia que ele não tinha nada com aquilo mas sentia-se impelido a interferir dizendo palavras de consolo para sua comandante não se esquecendo de esmurrar Khalil por fazer uma mulher como aquela sofrer. Felizmente sua razão sobrepujou seus sentimentos e tais pensamentos não se tornaram ações.

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 "Gostaria que você parasse de andar com aquela terráquea".

 Lorde Wendern olhava para sua filha, que estava entretida com várias peças de roupa. Suas palavras pareciam não terem surtido o efeito desejado.

 "Foi Ormultz que disse isso ao senhor, não foi?", ela parou o que fazia e voltou-se para seu  pai.

 Wendern apenas olhou o chão.

 "Não sou mais criança pai", Löwin sentou-se aos pés de seu pai e olhou-o com olhos ternos, "Creio que já sei escolher minhas companhias. Ormultz tem medo que eu seja influenciada pela sociedade terráquea".

 Wendern fitou a filha. Löwin nunca fora uma criança feliz; crescera num campo de refugiados, onde via a mãe  morrer num bombardeio retaliatório preventivo e depois acompanhou o pai pelo mundo em sua missão de unificar a resistência. Um tipo de vida pouco indicado para uma criança mas, que tinha ajudado a forjar uma mulher forte, que trazia orgulho para seu pai e a admiração de toda Galman.

 "Ormultz está despeitado desde que eu o recusei como meu esposo. Ele não achava que poderia ser rejeitado".

 "Até hoje não compreendo sua recusa".

 Löwin desviou o olhar e Wendern percebeu que aquele não era o momento.

 "E esta terráquea? Como ela é? Ouvi dizer que é piloto", procurou mudar de assunto.

 "Ela não é apenas um piloto, pai. É líder de esquadrão", Löwin sorriu e seu sorriso era franco e doce; como os olhos, que brilhavam.