TAMOYO`S JOURNEY


Hadrian Marius
babell@ieg.com.br

 CAPITULO XIII: "VOCÊ É PILOTO ?" 





 Nanako olhou para a estrela vermelha que ocupava todo seu campo de visão. Fazia cinco dias que o Tamoyo estava orbitando-a e parecia que ficaria outros cinco; os danos da batalha mostraram serem mais severos que o que aparentavam, no inicio. Dois blocos haviam sido danificados severamente e cinco tripulantes tinham se ferido com gravidade. Felizmente ninguém, entre os marinheiros, tinha morrido.

 Ela estava cansada, os dias posteriores ás batalhas sempre eram de muita agitação e ela quase não saia da enfermaria. A parte boa de estar atarefada era que desde aquele dia fatídico, no observatório, ela não havia se encontrado com Marco, ou Julia, uma única vez. E agradecia aos céus por isso afinal, apenas o pensamento de ver os dois juntos fazia-lhe  sentir um aperto no peito.

 Ela se considerava uma idiota; Como uma mulher adulta podia sofrer tanto por paixão? Até parecia uma daquelas heroínas dos romances do século XIX. Cedo ou tarde ela teria que encara-los; Marco era seu melhor amigo e logo ele a procuraria. Julia, uma pessoa que tinha aprendido a respeitar e amar, deveria estar magoada com ela por haver desaparecido neste momento de felicidade.

 Levou a mão ao peito e respirou fundo 

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 Löwin caminhava pelos corredores da nave com destino a área de oficiais. Desde que foram obrigados, por força das circunstâncias, a seguir sua viagem a bordo da nau terrestre ela gostava de andar pelos corredores; apesar de seu pai, com o aval do capitão Ormultz, sempre lhe dizer que não seria conveniente. Ela sempre fora uma filha obediente mas, não conseguia obedecer a seu pai, não quando Ormultz concordava com ele. Durante o tempo em que estivera a bordo da Hohenzollern, tinha permanecido em seu aposento, como um animal, uma aberração que não podia ser exibida. Sabia que ali ninguém a reprovaria, quando resolvesse andar, e que não seria tratada como algo agourento como foi na nave gamilon. 

 Obviamente sua presença causava estranhamento mas, com raras exceções, os olhares para ela eram de curiosidade. Até aquele momento Löwin estivera na cantina. Fazia dois dias que ia àquele lugar e ficava durante horas observando como as pessoas a sua volta se relacionavam, algo que sempre a fascinara. Às vezes algum dos oficiais aparecia e puxava conversa. O que era bom afinal conhecia tão poucos a bordo daquela nave e se aproximar de estranhos era complicado; mais por culpa de sua educação galman, que pelo comportamento dos terráqueos, ela admitia.

  Caminhou, despreocupadamente, até chegar num elevador que a deixou num corredor que dava para uma porta razoavelmente grande. Olhou para os lados; o local não lhe era estranho, mas aquele não era o caminho para os alojamentos dos oficiais. A galman sorriu, faltava muito a aprender sobre a nave terrestre, pois havia se perdido de novo.

 Teria que pedir informação, novamente, a algum tripulante. Suspirou e se aproximou da porta que se abriu, deslizando para o lado. Seus olhos se arregalaram.

 Realmente ela já estivera ali antes, só que não havia prestado atenção. Era uma visão incrível, todos aqueles caças acomodados em 'estantes' e aqueles homens e mulheres absortos em seu trabalho de manter aquela força de combate operando. O fato de homens e mulheres interagirem e ocuparem as mesmas funções ainda era algo novo para ela, que olhava tudo praticamente boquiaberta.

 Os terráqueos presentes pareciam não tê-la notado e por isso começou a caminhar para dentro do hangar olhando a tudo com uma curiosidade infantil.

 "Esta área é restrita para civis!", uma voz feminina, que obviamente se dirigia a ela, foi ouvida acima de sua cabeça.

 Löwin levantou sua cabeça e viu uma jovem, que limpava as mãos, próxima a um dos caças espaciais. Ela já a tinha visto, naquele mesmo hangar, quando viera à nave terrestre, cinco dias atrás.

 "Hei!?Estou falando com você!"

 "Desculpe. Eu estava indo para o alojamento...".

 "...e se perdeu?", ela disse, passando a mão sobre o cabelo esverdeado, cortado num comprimento que nenhuma galman ousaria em cortar, "Era de se esperar".

 "Espere ai. Já vou descer", colocou o pano numa espécie de caixa e disse algumas coisas para um homem que estava perto dela. Pelo comportamento do homem Löwin percebeu que a garota tinha um posto mais elevado que ele. A terráquea começou a descer e a galman perscrutou suas formas sobre o uniforme negro e, começou a imaginar se teria coragem de vestir algo tão justo.

 "Vou pedir para alguém te acompanhar até os alojamentos dos oficiais".

 A proximidade com a jovem terráquea fez seu coração acelerar e , sinceramente, ela estranhou. Sentia-se inibida como uma adolescente.

 "Eu...preferia que...fosse você", pediu cabisbaixa.

 Se a terráquea estranhou seu pedido ela não viu, pois seus olhos procuravam o solo.

 Está bem!", a jovem disse após alguns minutos," Não estou fazendo nada importante mesmo "".

 "Jackson?", gritou para o homem que estava com ela próximo ao caça, "Se me procurarem: diga que estou acompanhando a passageira aos alojamentos".

 "Sim senhora".

 "Vamos então", Depardieu chamou, apontando a saída.

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 Marco estava ansioso, aquela ansiedade que os apaixonados adquirem ao se manter muito tempo afastados do objeto de sua paixão, e caminhava a passos largos pelos corredores, seu destino: o observatório onde poderia ter uns instantes a sós com Julia. 

 O piloto chegou ao observatório e viu, aliviado, que Julia estava sozinha. Se aproximou dela e ambos trocaram um rápido beijo e voltaram-se para observar o céu estrelado, Suas mãos se tocaram leve e discretamente. 

 Namorar a bordo de um vaso de guerra era coisa complicada; pelas leis que regiam a caserna este tipo de atitude era proibido. Os capitães costumavam ignorar, principalmente em viagens de longa duração, desde que se mantivesse certo nível de discrição. Na prática, isto significava, que abraços, beijos, andar de mãos dadas e demonstrações de carinho, mais íntimos, em público eram terminantemente proibidos e os excessos eram punidos com o rigor da lei militar. Algo mais intímo? Nem pensar! Apenas os oficiais mais graduados tem o privilégio de ter um alojamento individual.

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 "Você é piloto, não é?", Löwin perguntou.

 Depardieu se perguntava onde estava sua cabeça quando aceitou acompanhar a alienígena até o alojamento quando a galman fez a pergunta.

 "Sou", respondeu e achando que tinha sido ríspida demais, tratou de complementar, "Porque pergunta?".

  "Vi vários pilotos e você usa um uniforme da mesma cor do deles", ela respondeu timidamente e Depardieu estranhou. Talvez não estivesse acostumada a conversar com estranhos, concluiu.

 "E é uma oficial". 

 "Sou, e dai?", neste momento Depardieu lembrou-se de que uma mulher oficial devia ser uma tremenda novidade para uma galman, "É mesmo! Em seu mundo as mulheres não podem fazer muita coisa, além de casar e ter filhos".

 "Não é tão ruim assim. Nós ainda podemos exercer algumas funções, as gamilons estão sobre um jugo de submissão maior". 

 "Eu sempre me esqueço de que você não é gamilon mas, galman".

 "É compreensível, somos praticamente o mesmo povo; afinal, Gamilon foi colonizado por galmans", Depardieu sentiu uma pontada de orgulho e superioridade nestas palavras, "Seu capitão disse, uma vez, que em termos de comparações históricas; as mulheres galmans têm os mesmos direitos das mulheres terrestres no inicio do século XX e as gamilons ainda estariam na Idade Média. Isso deve ser uma coisa boa, eu acho...".

 "E é! Você não faz idéia de como!. Chegamos".

 Depardieu parou de fronte ao corredor que dava para o alojamento dos oficiais.

 "Creio que daqui você conseguirá ir sozinha".

 Löwin apenas balançou a cabeça afirmativamente.

 "Você me acompanhou este caminho todo e eu nem sei seu nome. O meu é Löwin Wendern", a galman esticou a mão que foi apertada pelas mãos enluvadas da piloto.

 "O meu é Brenda Depardieu. Foi um prazer acompanha-la mas agora devo ir", Depardieu sorriu enquanto virava-se para voltar ao hangar, "Tchau!".

 "Nós ainda podemos nos encontrar?", a galman perguntou ansiosa.

 "Mas claro", Depardieu ergueu o braço direito num aceno antes de desaparecer numa curva do corredor.

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 "Isto é tudo Babenko?", André perguntou sem levantar os olhos do relatório que olhava.

 "Sim capitão. Creio que dentro de mais um dia os reparos na torre quatro estarão concluídos".

 "A única vantagem de permanecermos parados aqui", André se levantou e caminhou na direção da escotilha que mostrava a estrela vermelha, "É que a tripulação pode aliviar um pouco o estresse".

 "Como estão as coisas lá na Terra?".

 "Quentes, Jorge, quentes. As naves que estavam incumbidas de vasculhar a galáxia a procura de uma nova Terra foram chamadas de volta, isto é, as que não foram destruídas pelos polares. Os únicos que permanecem no páreo somos nós e a Patrulha Estelar. Que responsabilidade hein?".

 "Mas..."

 "...Porque continuamos e não voltamos? O pessoal do Wildstar está apostando todas as suas fichas no planeta Shepar e nós ainda temos, pelo menos dois sistemas para averiguar", André deu as costas para a estrela, "É isso ou, nos querem bem longe da Terra".

 André voltou a se aproximar da mesa e pegou, novamente os relatórios, "Veja se você consegue apressar os reparos".

 "Sim senhor", Jorge Babenko, bateu continência, e se retirou deixando seu capitão novamente sozinho. Como engenheiro-chefe ele tinha por obrigação manter todos os sistemas da nave em funcionamento impecável, uma tremenda responsabilidade mas ele não trocava este seu quinhão pelo do capitão por nada.

 André permaneceu alguns minutos observando os papéis mas logo decidiu sair e dar uma volta pela nave. Pegou o quepe sobre a mesa e antes de sair olhou, por alguns segundos, as bandeiras que ficavam posicionadas atrás de sua mesa de despachos. 

 Duas bandeiras que sempre permaneciam em seus mastros; a da direita era azul com um planisfério ladeado por uma coroa de louros, aquela tinha sido a bandeira da Terra durante muitos séculos e André se perguntou por quanto tempo mais ela perduraria. A da esquerda era verde com um losango amarelo ao centro, que, por sua vez, também possuia um circulo azul ao centro. Era tradição nas esquadras da EDF o transporte de uma bandeira que representasse o país de origem do nome da nave. André suspirou, as bandeiras nacionais tinham caído em desuso no fim do século XXI e agora apenas representavam o passado. 

 Um passado que logo poderia desaparecer e aquele pedaço de pano poderia ser a única coisa que fizesse lembrar que um dia existiu num planeta, na periferia da galáxia, uma nação que se chamava Brasil.

 Suspirou, novamente, e saiu.

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 "Oficial Wan-li?".

 "Capitão!".

 Julia estava tão absorta em seus pensamentos que, por pouco, não viu o capitão e deixou de saudá-lo com uma continência.

 Ela devia estar contente pois acabara de vir de um encontro com Marco mas o assunto de sua conversa com ele, no observatório naquela tarde, tinha deixado-a pensativa: Nanako.

 O piloto tinha reclamado que não conseguia encontrar sua amiga de infância, para contar-lhe sobre seu relacionamento com ela. Que era como se a moça o estivesse evitando. Julia, rapidamente, disse que os últimos dias tinham sido extenuantes por causa da batalha recente e que até eles não tinham se visto muito naqueles dias. Era uma desculpa ela sabia mas, pelo menos Marco tinha concordado  com ela.

 O problema, então, era que ela mesma não acreditava em sua desculpa e temia que a verdade podia ser outra. Muito mais dolorida. A lembrança do brilho nos olhos de Nanako quando estava com Marco assaltava-lhe a mente. 

 O que devia fazer, então? Procurar a enfermeira? Mas... o que ela poderia dizer a Nanako afinal, ela havia... 

 Julia estacou, sentia-se horrível, suja; Nanako tinha lhe apresentado Marco e desde, o primeiro momento, que ela os viu juntos sentia, que para a amiga, aquele rapaz era mais do que um amigo de infância. 

 Traição. Era a única palavra que conseguia encontrar para definir o que fizera. A verdade fez seus sentidos se revirarem e a angustia ocupar o lugar do amor em seu coração.

 Julia se apressou, tentava alcançar seu alojamento antes que tudo aquilo que lhe vinha à garganta explodisse.