Tamoyo´s Journey 


Hadrian Marius
babell@ieg.com.br

        Capítulo I :  "QUE BONS VENTOS O LEVEM"

    

        Hyokuro Todo era comandante em chefe da EDF há bastante tempo e  presenciou muitas batalhas que começaram perdidas mas que no final o povo da Terra soube se sobrepor e vence-las, mas agora ao olhar o horizonte, da janela de seu gabinete,  e ver as aves fazendo evoluções sobre os edifícios de Genebra um sentimento de tristeza toca-lhe a alma. Aquele mundo que eles tinham lutado tanto para preservar estava ameaçado novamente, mas não por um inimigo que eles podiam combater, mas por um inimigo que nenhuma força seria capaz de deter. A Natureza. 

     Faziam quase três meses que o doutor Simon o tinha procurado com a noticia mais surpreendente que tinha ouvido, anomalias no espectro solar estavam transformando este numa supernova que se expandiria até englobar todo o sistema solar, desacreditado pelo governo unido e sofrendo represálias no meio acadêmico via no comandante sua única esperança, pois de acordo com suas estatísticas o sistema solar teria apenas mais um ano de existência. Apesar de ser uma  história inacreditável, a experiência tinha lhe ensinado a acreditar em historias inacreditáveis, mas mesmo toda sua influencia não foi suficiente para convencer os membros do governo e temendo o pior enviou a Patrulha Estelar, em missão secreta, na busca de um novo lar para a raça terrestre. Agora, após dois meses, o disco solar esta duas vezes maior e qualquer duvida sobre as previsões do doutor Simon se desvaneceram, finalmente o governo decidiu tomar providencia, mas ele temia que fosse tarde demais. 

     "Comandante? Os oficiais que o senhor queria ver estão aqui", avisou o intendente, pelo interfone. 

     "Mande-os entrar", ordenou e logo a porta se abriu e por ela passaram seis oficiais, os melhores capitães que a Força de Defesa disponha, e se perfilaram saudando-o com uma continência. 

     "Os senhores sabem, evidentemente, que tudo o que for dito nesta sala é de caráter confidencial", começou. 
  

    *************** 

     Os raios solares, de mais uma manhã, refletem-se na lataria de um veiculo cinza, ostentando as ensignias da EDF, que circula pelas ruas de Natal, com destino a base aeroespacial nas cercanias da cidade. Em seu interior o capitão André Romanov. observa a paisagem passar, perdido em seus pensamentos 

     "Esta calado hoje André", comenta a, também, capitão  Mary Mendonça, o outro único ocupante do veiculo," O que houve?" . 

     André olha para sua amiga e sorri amarelo, "Não é nada. Deve ser a ansiedade da partida" 

     "Sei como é, também fiquei assim na primeira vez em que fui designada para o comando de uma nave estelar mas, você deveria estar contente afinal conseguiu o comando de um dos grandes". 

     "Mas não sei se estou preparado para tanto ". 

     "Deixe disso André. Se lhe deram o comando é porque você tem capacidade. Alem do mais esta não é sua primeira designação e o comando de um encouraçado não é assim tão difícil como você pensa." 

     "Então vai me dizer que você não ficou assim quando te deram o comando do Idaho?", André interrompeu-a, seus olhos continham um brilho irônico. 

     "Para dizer a verdade não consegui dormir durante duas noites quando recebi a designação", disse aparentemente constrangida mas logo seu constrangimento se transformou num sorriso, "E quando entrei na ponte de comando tremia tanto que meu imediato achou que estava doente". E os dois começaram a rir. 

     "No fim não foi o que pensei e por isso, falo por experiência própria, André", continuou após conter o riso," Não se preocupe pois é apenas uma nave como qualquer outra". 

     "Você tem razão", e procurando mudar o rumo da conversa continuou, "Mas me diga o que aconteceu então?". 

     "Bom ele queria que eu fosse de qualquer maneira ver o medico da nave e mesmo usando de minha autoridade para comandar a decolagem só largou o meu pé quando fui ver o medico". 

     Os dois continuaram contando as desventuras de sua vida de militar enquanto o veiculo saia da cidade e passava rapidamente pelas dunas que cercam a capital do Rio Grande do Norte até alcançar uma enorme placa que indicava o acesso a base e alguns minutos depois já observavam o portão da mesma. Após a identificação obrigatória no portão continuaram seu trajeto contornando os edifícios administrativos e passando rapidamente pelos alojamentos  chegaram ao portão que dava acesso a área de pouso e decolagem do porto seco da base. 

     A base aeroespacial de Natal era sede da sétima frota da EDF e uma das maiores do mundo, com capacidade de receber quase trinta naves ao mesmo tempo, mas agora estava praticamente vazia, com apenas uma dúzia de belonaves, a maioria em  manutenção. A confirmação da existência de uma guerra acontecendo nas fronteiras do sistema solar obrigou o Conselho de Segurança a manter a uma patrulha constante das fronteiras. A Terra se manteria neutra no conflito mas não permitiria a invasão de seu espaço territorial, por isso a Força de Defesa estava em alerta constante. O veiculo continuou sua rota passando pela sombra de dois cruzadores e se aproximando de uma terceira belonave parou. 

     "Adeus Mary e obrigado", André agradeceu, assim que deixou o veiculo. 

     "Tudo bem", respondeu e ao observar o casco azul da belonave comentou antes de se despedir," Quase sinto inveja de você". 

      Após observar o veiculo se distanciar André voltou-se para a enorme astronave que fazia sombra sobre ele e seus olhos brilharam de satisfação . Mary tinha razão, dentre as belonaves atracadas no porto esta era a que mais se destacava, afinal era uma da classe Andromeda, a mais poderosa astronave já construída na Terra e seus dois canhões de ondas, evidenciavam isso. Começou a subir a plataforma de embarque, mas se deteve por um momento e passou a observar a evolução de uns pombos que tinham feito  de um dos canhões de shock seu poleiro. 

     "Você conseguiu André", murmurou a si mesmo antes de adentrar a nave, tendo a enorme superestrutura a lhe fazer sombra. 

     "Bem vindo a bordo senhor", o imediato cumprimentou-o, assim que entrou. 

     "Obrigado Yamada. Como estão as coisas?", perguntou, começando a caminhar tendo a seu lado o imediato 

     "Tudo dentro do cronograma senhor. Deveremos estar prontos na hora estimada" 

     "Ótimo. Conto com você para que tudo saia como planejado" 

     "Obrigado senhor" 

     Continuaram andando por mais alguns minutos até pararem ante a porta de um elevador 

     "Avise aos oficiais que daqui a vinte minutos teremos uma reunião na sala de estratégia, até lá estarei em minha cabine" 

     "Sim senhor", respondeu o imediato, que após uma continência se retirou na direção da ponte. 

     Após uma rápida viagem de elevador André chegou a sua cabine e literalmente desabou numa poltrona fechando os olhos. Tinha muito o que pensar, principalmente sobre os acontecimentos das ultimas semanas. A reunião no gabinete do Comandante e posterior nomeação como capitão de uma das naves mais poderosas da esquadra. A capitão Mary estava certa, ele estava preocupado mas o motivo não era aquele que ela tinha imaginado. 
  

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     "Realmente não gosto destas reuniões", resmungou a tenente Julia Wan-li, oficial de comunicações, que estava esperando o capitão na sala de estratégia há quase cinco minutos e começava a ficar ansiosa com o motivo da reunião. 

     "Não preocupe-se Wan-li", disse uma moça de pele morena, que estava a seu lado, "Seja o que for não será nada com relação a seu desempenho". 

     "Mesmo assim, não gosto disso Mcdowell", retrucou dirigindo-se a oficial de radar, a seu lado, e esta apenas sorriu. 

     Após o comentário Julia voltou a observar a sala. A sala de estratégia era ampla e tinha as paredes cobertas com vários painéis e controles, não havia lugar para se sentar e todos os gráficos eram visualizados no chão onde um enorme display ocupava quase todo o piso. Ainda observava o display, que terminava um pouco antes de chegar a seus pés, quando a voz do imediato, anunciando a chegada do capitão, chamou-lhe a atenção e assim como todos o outros oficiais presentes cumprimentou-o com uma continência. 
  

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     "Descansar", disse André assim que entrou, "Creio que todos devem estar se perguntando sobre o motivo desta reunião?". 

     Após uma pausa, em que olhou cada oficial no rosto avaliando suas expressões, continuou, "O motivo desta reunião é sobre a real natureza de nossa missão. Sei que para muitos de vocês as ordens eram referentes a patrulha das fronteiras externas do sistema e pesquisa envolvendo a Academia de Estocolmo mas, a realidade da missão é outra", observou novamente os rostos de seus oficiais, "A doutora Lancaster poderá explicar-lhes melhor". 

     "Obrigada capitão", adiantou-se uma mulher loura ostentando no uniforme as ensignias de oficial cientifico, "Tudo que posso dizer-lhes é que o sol esta morrendo e nós temos menos de dez meses para encontrar um novo lar". 

     Esta declaração pareceu abalar todos naquela sala e um silencio repentino encheu o ambiente. 

     "E eu pensando que era apenas mais uma onda de calor", o engenheiro-chefe Babenko foi o primeiro a quebra-lo. 

     "Infelizmente não. O sol esta se expandindo muito rapidamente e se tornará uma supernova em no máximo dois anos" 

     "Muito antes disso a Terra terá sido engolida por um mar de fogo", complementou o imediato Yamada. 

     "O que não entendo é o porque de nossos lideres terem demorado tanto para tomar uma atitude", resmungou no fundo da sala o Capitão Kallil, comandante da ala aérea da belonave. 

     "Não havia como, pois esta reação anormal do sol só foi detectada e confirmada a menos de dois meses" 

     "Agora que todos já sabem sobre o motivo de nossa missão creio que devemos no ater a ela", cortou André, temendo que a discussão se prolongasse em demasia". 

     "O senhor esta certo capitão", concordou a doutora fazendo com que as luzes da sala fossem apagadas deixando como única fonte de luminosidade o display, sob seus pés, que exibia um mapa da galáxia, "Senhores. Nossa galáxia tem forma espiralada, com 100.000 anos luz de diâmetro por 400 anos luz de espessura.   O núcleo central é composto de um gigantesco buraco negro, em torno do qual não só gira nossa galáxia mas também as Nuvens de Magalhães. Existem bilhões de estrelas orbitando o núcleo central, formando "braços" como se seguissem umas as outras. O sol fica no final, ou começo, do Braço de Orion cujo nome deriva da nebulosa de mesmo nome.  Olhando para o Cruzeiro do Sul, se vê o Braço de Sagitário e o Centro da Galáxia. Na direção oposta fica o Braço de Perseu e a borda da galáxia. Nó iremos conduzir nossas buscas até o limite de 15.000 anos luz na direção do Braço de Sagitário e..." 

     "Porque o limite de 15.000 anos luz? Se com o novo motor de ondas quase igualamos o Yamato em autonomia de vôo", perguntou o oficial-navegador, Carlos Camalani, interrompendo a Doutora 

     "Porque mesmo que encontremos um planeta adequado acima desta distancia nossas naves de imigração não conseguiriam alcança-lo, pois seu alcance máximo é de 15.000 anos luz", respondeu o engenheiro-chefe Jorge Babenko 

     "Dentre os incontáveis astros que possuem satélites estamos procurando por um sol e um planeta que, necessariamente, apresentem a mesma distancia entre si que o nosso mundo natal, como também a mesma densidade mantendo assim as mesmas condições climáticas e de gravidade que as da Terra", continuou a doutora, "Mas não será uma busca as cegas pois nossos radio-telescópios já selecionaram sistemas estelares com prováveis indícios de planetas do tipo da Terra". 

     "Isto é tudo senhores, espero que não se esqueçam que tudo o que foi ouvido nesta sala é de caráter confidencial. Seria bom que a tripulação continuasse a pensar que estamos em uma missão cientifica, por enquanto. Dispensados", André encerrou a reunião e rapidamente foi deixado só , tendo a seus pés apenas o display, que exibia uma imagem da Terra. 
  

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     "Todas as alas. Relatar checagem final. Decolagem em T menos 5 minutos. Pessoal não autorizado deve evacuar área de decolagem", este comunicado ecoou por toda a nave, deixando a tripulação em estado de alerta. 

     "Até que enfim. Estava começando a pensar que nunca partiríamos ", um tripulante com uniforme de aviador comentou ao ouvir o comunicado, no sistema de som do hangar, próximo a um astro-caça. 

    "Mas que pressa é esta, Lamertz, ouvi dizer que nesta época do ano o espaço é mais frio", alguém respondeu de dentro do  astro-caça. 

     "Então é melhor você não esquecer seu cobertor Marco", respondeu ironicamente. 

     "Espero que tenham terminado as checagens, para estarem tão prosas", uma voz feminina chamou-lhes a atenção. 

     "Está tudo em ordem tenente Depardieu", Marco, que estava dentro do astro-caça respondeu. 

     "Agora preparem-se, pois iremos partir dentro de instantes", retirando-se, aparentemente sem perceber os olhares dos dois rapazes que a observavam, e após alguns passos parou pois sua atenção foi atraída, assim como todos no hangar, para a rampa de acesso, que começava a se levantar, era o primeiro indicio de que eles iriam realmente partir. 
  

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     "Todas as alas checagem completada. Rampa de acesso do Hangar foi travada. Toda a área de decolagem esta liberada senhor", Yamada comunicou, voltando-se para André, que estava em seu assento, seu rosto carregava uma expressão séria e aparentemente pensativa, "Estamos aguardando suas ordens". 
  

     "Ótimo", e voltando-se para a operadora de radio completou, "Comunique nossa autorização de decolagem Wan-li" 

     "Sim senhor", Wan-li respondeu, "Torre. Aqui é SBB 404. Pedindo permissão para ascensão" 

     "Permissão concedida SBB 404. Que bons ventos o levem Tamoyo", veio a resposta. 

     "Tire-nos daqui Camalani", André ordenou imediatamente após a confirmação da Torre. 

     "Certo. Estamos subindo senhor", confirmou o navegador. O enorme encouraçado foi percorrido por um leve tremor e todos os presentes, na área das docas naquele momento, pararam seus afazeres para observar a ascensão da belonave da Força de Defesa, tinham visto aquele tipo de decolagem varias vezes mas sempre achavam impressionante o fato de uma estrutura de mais de 70,000 toneladas desafiar a gravidade e subir aos céus em direção ao espaço infinito. 
  

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    "Saindo da estratosfera, senhor", Camalani anunciou assim que a  belonave deixou as camadas de nuvens para trás. 

     "Qual será nossa escolta Yamada", André perguntou. Apesar de achar que após a recente repontecialização que o     encouraçado tinha passado não havia mais necessidade de escolta mas, eram ordens do Comando. 

     "Serão as Fragatas Miranda e Aconcágua e o Destróier Santiago, que nos esperaram na orbita lunar senhor". 

    "Saindo da orbita terrestre", Camalani anunciou mais uma vez chamando a atenção de todos na ponte. 

     "No visor Camalani" André ordenou, percebendo o sentimento de todos. O visor, que até então tinha permanecido negro exibiu a orbe terrestre e uma comoção tomou conta da ponte. Todos se lembravam das palavras da doutora e das ordens do capitão por isso olhavam como se a vissem pela ultima vez e a medida em que ela ia se distanciando um sentimento de saudade ia preenchendo seus corações.