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Hadrian Marius
babell@ieg.com.br CAPITULO IX: HOHENZOLLERN
Os dois Cosmo Tigers giraram sobre o próprio eixo e começaram a descer em direção a estrutura esverdeada. Uma estrutura que foi tomando formas até se revelar em uma nave estelar. Os caças tinham decolado da belonave terrestre há pelo menos três horas iniciando uma busca na área demarcada como possível origem do sinal de S.O.S. Uma busca que tinha se mostrado infrutífera e eles iniciavam o retorno quando num dos astro-caças a tela do radar assinalou um ponto; o mesmo ponto que assumia os contornos de uma astronave quando o sobrevoaram. "Controle Aqui é Condor 04: estou sobrevoando a astronave agora e ela parece estar muito danificada, possivelmente esteve sobre ataque". "Há indícios de sobreviventes?". "Provavelmente controle, vejo áreas iluminadas e... controle? Uma de suas baterias AA está acompanhando nosso vôo". "Entendido Condor 04. Mantenha-se a uma distancia segura e aguarde nossa chegada". *************** Os pilotos terráqueos não sabiam, mas todos seus movimentos estavam sendo observados pelo Major Khorlz, comandante da nave avariada. Ele havia observado com apreensão o sobrevôo dos caças terrestres e ordenado o posicionamento das baterias antiaéreas, únicas armas que ainda operavam, com o objetivo de demonstrar de que não estavam tão indefesos quanto parecia. "Os dois caças se posicionaram fora do alcance de nossas baterias senhor". Khorlz estava intrigado: as espaçonaves não se pareciam com as de Galman-Gamilon e muito menos com as da Federação Polar, mas ele pressentia que já vira caças com aquele design antes. Seja como for aqueles caças eram os primeiros a aparecer após o envio do sinal de S.O.S. e o fato de não terem chegado atirando era um bom sinal. "Uma astronave se aproxima". O aviso não surpreendeu o major que já esperava a chegada da nave-mãe daqueles caças. "Ela esta ao alcance de nossas câmeras?". "Sim senhor". "Então passe para a tela principal". A imagem do espaço cósmico se formou no telão e em seu centro um pequeno ponto se aproximou até parar. "Aumente a imagem". A imagem da belonave, os canhões deixavam bem evidente que aquela astronave era um engenho dedicado à guerra, se fez o mais nítida possível. "Este design?", o Major murmurou, mais para si do que para seus subordinados. Ele já havia visto uma outra nave com as mesmas linhas básicas há muito tempo. Uma nave que trouxe destruição a seu povo e derrota a seu líder. Uma nave que pertencia a um planeta chamado: "Terra!", murmurou. *************** "Aqui é o Encouraçado Espacial Tamoyo da Força de Defesa da Terra, ouvimos seu S.O.S, por favor, identifiquem seu planeta de origem". André achava que o pedido de identificação desnecessária porque tinha certeza que a nave a sua frente era de origem Gamilon, mas preferia seguir o protocolo. Um protocolo que ele decidira seguir quando considerou se deveria atender o pedido de ajuda ou ignora-lo. "Um comunicado chegando senhor", Julia avisa quase ao mesmo tempo em que a figura de um oficial surge na tela principal. "Aqui é o major Khorlz, oficial em comando da nave diplomática Hohenzollern do Império Galman-Gamilon. Obrigado por terem atendido nosso sinal de S.O.S.". "Eu sou o capitão Romanov. O senhor não precisa nos agradecer, pois esta em nossas leis de navegação o atendimento a pedidos de ajuda e lhe ajudaremos no que for possível, só não poderemos lhe fornecer armas". "Compreendo capitão. Já fui informado da posição da Terra e lhe agradeço qualquer ajuda que possa nos enviar; principalmente na área médica e de manutenção". Minutos depois a comunicação foi cortada e André passou as ordens para que um grupo fosse enviado a nave danificada. Observando as avarias no casco ele percebia que a Hohenzollern tinha estado em alguma batalha e conjeturava quanto tempo levaria para ela ser encontrada por seus perseguidores. Raciocinou se, apesar de ter tomado a decisão mais humana possível, não estava arriscando a segurança de sua tripulação e o cumprimento da missão que estavam empenhados. ************* Nanako havia ajuntado o material necessário e junto com outros membros da equipe médica caminhava em direção ao Hangar onde se reuniriam com membros da equipe de manutenção e seguiriam para a nave avariada. Naturalmente ela estava apenas ajudando no transporte do material porque o Capitão, sabendo o quão machista era a sociedade Gamilon, tinha ordenado que as equipes fossem formadas apenas com membros masculinos da tripulação. Por causa desta peculariedade Nanako sorria interiormente; visualizava a expressão de espanto que os Gamilons fariam se vissem uma mulher em trajes militares e, pior, dando ordens a homens. Ainda se deleitava com essa visualização quando Marco se aproximou. "Eu realmente não concordo com isso", ele dizia ajeitando o capacete debaixo do braço; "Porque temos que ajudar os pele azul". Marco apenas externava um sentimento que percorria cada tripulante desde que tomaram conhecimento da origem da nave avariada. Eles ainda se ressentiam da guerra entre Gamilon e a Terra, uma guerra que tinha acabado há quase seis anos e que havia deixado feridas que insistiam em não cicatrizar. Ela sabia disso e também carregava aquele sentimento, só que, ao ouvir aquelas palavras saírem da boca de Marco, sentiu revolta interior. "Mas estes ais são Galmans". "Galmans... Gamilons; são tudo farinha do mesmo saco, Nanako". "Eu não esperava este tipo de comportamento de você. Esquecer era a melhor solução; Não guardar rancores e o que nos faz diferentes deles; Ama teu inimigo como a ti mesmo, sempre repetia para mim quando éramos menores". A indignação na voz de Nanako o surpreendeu. Ela se lembrava daquelas palavras? Palavras ditas há muito tempo, numa época de provação onde a esperança era a única coisa em que podiam se segurar. Só que... Ela tinha razão e ele sempre acreditara naquelas palavras. "Eles perderam seu planeta natal e você não acha que isso já é punição suficiente e...", ela se assustou com a intensidade das próprias palavras e percebeu consternada que não apenas Marco, mas todos a sua volta as tinham escutado. Um sentimento de vergonha espelhava nos olhos de todos ao redor. "Desculpe", ela disse, suas bochechas levemente rosadas. "Não tem porque se desculpar. Você tem razão só que é difícil ser perdoador quando vemos nossos familiares sendo dizimados por ataques atômicos". Vendo que Nanako se entristecia. Seu desabafo tinha feito com que ela se lembrasse de antigas dores. Dores que haviam sido abertas sobre os escombros de sua cidade natal. Dores que tinha tentado amenizar com as palavras relembradas por ela. Sentiu-se culpado. "Falemos de coisas mais alegres; Sabe aquilo que te falei?". Nanako sentiu um leve calafrio correr seu corpo. "Decidi seguir teu conselho e vou resolver na primeira oportunidade". "Eu torço muito por você Marco", Aquelas palavras saíram doloridas e ele, sem nada perceber, fez-lhe uma caricia se distanciando. Marco não sabia, mas aquelas pequenas caricias que lhe fazia desde a infância eram pequenas perolas que sua amiga guardava no coração. *************** "Estranho, não?". Khorlz estava, na ponte da Hohenzollern, observando a belonave terrestre quando está liberou o Cosmo Hound com o pequeno grupo de técnicos e enfermeiros a bordo. O shuttle não permaneceu só por muito tempo porque recebeu a companhia de dois astro-caças e o major sorriu de leve com a precaução da capitão terráqueo. Khorlz concordava com a frase, apesar de não ter sido ele o formulador. O comentário havia partido por um homem de tez levemente azulada e cabelos levemente prateados, o que denunciava sua idade, e que curiosamente não envergava um uniforme militar, que estava a seu lado. "Vocês quase destruíram a civilização terrestre e eles devastaram seu mundo e mesmo assim seus povos sempre socorrem um ao outro". "É porque os destinos deles estão entrelaçados pai", a voz, denodadamente feminina, soou atrás deles, "E nós fazemos parte deste destino agora". A moça que se aproximava não aparentava mais de vinte anos, seus cabelos amarelos escorriam pelas costas até tocarem um cinto prateado que dava forma à cintura e contrastava com o vestido azul escuro que trajava. Uma cor que fazia ressaltar o suave tom azulado de sua pele. Em tudo ela poderia ser confundida por uma Mulher Gamilon, mas seus olhos desfaziam qualquer engano; eles refletiam todo seu orgulho Galman. Lorde Wendern e Lady Löwin, estes eram os nomes dos interlocutores de Khorlz. Pai e filha, juntos com um terceiro, eram o motivo da viagem daquela nave e provavelmente à razão de terem sido atacados pelas naves polares. "É uma forma romântica de se ver as coisas Lady Löwin" "Talvez Major; de que outra forma o senhor explicaria tantos encontros e desencontros?". Numa atitude que levava mais em consideração a presença de Lorde Wendern do que a moça, afinal ele não precisava responder a mulheres, Khorlz iria dizer que não cabia a ele questionar as razões de seus superiores quando foi interrompido por um dos tripulantes. "Se o Senhor e a Senhorita me derem licença, devo ir recepcionar nossos resgatadores". Deixados a sós na ponte Lorde Wendern olha para a filha com uma expressão séria, beirando a reprovação. "Você não deveria vir a porte, sabe como são os Gamilons...". "Muito arrogantes isso sim!". "Löwin?". "Não precisa me repreender pai, sei que mesmo entre eles existem pessoas decentes; o major é um exemplo...". Um olhar mais severo do Lorde fê-la calar-se. Uma decisão acertada pois a tripulação da ponte era inteiramente composta por Gamilons e onde estavam suas palavras eram ouvidas por todos os presentes. Então, por hora, Lady Löwin, deveria deixar suas criticas ao modo de ser Gamilon longe de ouvidos alheios. **************
"Lady Löwin era atrevida como todas as mulheres Galmans", Khorlz resmungou ao se encaminhar para o exíguo hangar da nave, "Elas não serão boa influência para nossas mulheres". Apesar deste tipo de raciocino o Major tinha uma mentalidade liberal, o que contrastava com a maioria dos Gamilons; por essência conservadores. Concluía que uma amalgama das culturas Galman e Gamilon seria benéfica. Uma amalgama que daria origem a uma nova civilização que aproveitaria o melhor de ambas. Tal conclusão não o impedia de ainda carregar pensamentos pejorativos em relação às mulheres; acima de tudo ele era um Gamilon e como tal achava que as mulheres ajudariam mais ficando em casa e gerando filhos saudáveis para o império. Por estas e outras foi que ele suspirou aliviado ao ver que na delegação terrestre, que desembarcava, não havia à presença de mulheres. Khorlz tinha algum conhecimento da Cultura Terrestre, pelo menos o suficiente para saber qual era a posição feminina. Agradeceu ao Supremo pelo fato do capitão terrestre ter tido o bom senso de não enviar nenhum membro feminino de sua tripulação. Se uma mulher a bordo já lhe dava dor de cabeça,
pensava ao se aproximar do oficial que desembarcara; Imagina se tivesse
que lidar com mulheres alienígenas ou pior: mulheres oficiais.
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