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Hadrian Marius
babell@ieg.com.br CAPITULO X: CORAÇÕES OPORTUNOS E SOFREDORES
Marco havia dito a Nanako que na primeira oportunidade resolveria o assunto que tinha-lhe contado. Pois bem; ao voltar do hangar, tendo como destino seu alojamento, ele encontrou Julia no observatório. Sozinha! A oportunidade havia se apresentado e agora cabia ao nosso piloto juntar coragem e resolve-lo. Sentia uma insegurança que não conseguia compreender afinal, sua adolescência havia passado há algum tempo e sua lista romances não chegava a ser igual à de Don Juan, mas pelo menos não era a de um monge. Por isso ele não conseguia entender porque tinha dificuldades de dizer para Julia as mesmas palavras que repetira inúmeras vezes para inúmeras garotas. *************
O capitão do Tamoyo tinha se recolhido tendo como objetivo a reflexão e foi o que tentou; em vão. De alguma forma não conseguia conciliar os pensamentos em relação ao andamento da missão e a parada que estavam fazendo para socorrer a nave Galman, uma falta de concentração que atribuiu ao cansaço; por isso, resolveu seguir o conselho que a doutora lhe dera antes de sair da ponte: descansar. Apesar de haver passado tanto tempo ela ainda era capaz de intuir seu estado fisico-emocional, às vezes, antes dele próprio perceber. Sorriu e, ainda sorria quando recebeu a noticia de uma chamada de Yamada, proveniente da nave Galman-Gamilon. Meio a contragosto pediu para que ela fosse transferida para a pequena tela de cristal liquido que havia em sua mesa de despachos. Quando a ligação se completou Yamada surgiu, na ponte da Hohenzollern, acompanhado de Khorlz e Lorde Wendern. O nobre galman não era desconhecido de André por que ambos já haviam sido apresentados numa comunicação anterior. Depois dos cumprimentos de praxe o primeiro oficial do Tamoyo começou seu relatório; estava otimista, os reparos estariam completos em no máximo uma hora. Uma noticia que agradara a André e ao Major, como ele soube logo que este assumiu a comunicação. "Não sei como agradecer sua ajuda capitão". "Não há o porque Major; fiz apenas minha obrigação". "O senhor é muito modesto capitão, se não fosse sua ajuda nós ainda estaríamos aqui esperando o inevitável", Lorde Wendern se adiantou a khorlz. "Foi como disse antes embaixador", André o chamava assim, pois foi como um embaixador que Khorlz havia apresentado Lorde Wendern, "Não fiz mais que minha obrigação". "Mesmo assim queira aceitar nossos agradecimentos na forma de um jantar". "Devo, novamente, recusar. Por questões de protocolo nossas normas não permitem que todos os oficiais de comando deixem a nave ao mesmo tempo; só que, faço meu o teu convite embaixador, seria uma honra para mim ter o senhor e o Major a bordo de minha nave". A comunicação foi interrompida logo depois. O embaixador ficou muito satisfeito com o convite e o aceitou. Khorlz, como era de se esperar, recusou alegando o mesmo motivo que André alegara ao recusar o convite de Lorde Wendern. Apesar de achar que uma conversa com Khorlz seria muito mais interessante que um debate político com o embaixador, ele estava satisfeito com a oportunidade que tinha de estreitar os laços entre a Terra e Galman. Ainda mais, levando-se em conta que abordagens pacificas como aquela eram raras; a forma de diplomacia que sempre prevalecera, entre as nações espaciais, fora a dos canhões. **************
Algo estava se passando com Marco, isto Julia pressentia. Ambos estavam a sós naquele observatório há algum tempo e tinham conversado sobre coisas triviais mas, agora, o silencio imperava. Um silencio que incomodava. Procurava um meio de quebrá-lo quando, como num estalo, ela percebeu que estavam a sós; então, porque não seguir o conselho de Lisa e por as cartas na mesa? Seu coração vibrou com o pensamento. "Eu preciso lhe dizer algo", o som de sua voz se misturou com a de Marco e ambos se surpreenderam. Nunca duas frases haviam sido pronunciadas em tal sincronismo; de locução e de coração. *************
Nanako se encaminhava na direção do refeitório quando passou pelo observatório. Lembrou-se que Julia gostava de ficar vendo as estrelas e que por essas horas, conferiu no relógio, ela bem que poderia estar ali. Resolveu entrar e antes de passar do hall para o observatório propriamente dito viu Julia, assim como tinha suposto, mas havia outra pessoa com ela: Marco. Seu coração acelerou. Ela deveria se alegrar ao vê-los ali, mas algo estava diferente; algo não palpável, como uma atmosfera os envolvia, e impregnava todo o observatório, num silencio quase religioso. Sabia que não podia ficar, fazia uma idéia do que estava acontecendo, só que, sentia suas pernas pesadas e insensíveis a seus pedidos para sair daquele lugar. *************
"Pode falar você primeiro", Julia disse-lhe visivelmente aliviada, "Não é importante". Ele a fitou por alguns instantes e, então voltou a observar o infinito deixando-a intrigada. Ela não podia imaginar que o amigo reunia forças. Alguns segundos se passaram... "Sempre acreditei que as coisas devem ser às claras e muito menos enganar as pessoas". Julia permanecia imóvel tentando compreender as palavras de Marco. Uma tentativa inútil porque seu raciocínio era engolfado por um turbilhão de sentimentos. O que ele queria dizer com aquelas palavras? Será que tinha percebido os sentimentos dela e achava que o estava enganando. "Por isso resolvi te procurar para dizer que... não posso ser seu amigo", as palavras fluíam descompassadas e ele se esforçava para ordena-las evitando encara-la, "Porque... o sentimento que trago comigo não é o de amizade". Julia sentiu o chão fugir-lhe e o sangue escoar da face. Como ela poderia dizer que o amava se ele repudiava-lhe a amizade. Será que ele tinha interpretado sua covardia como uma traição? Sentia seu coração bater descompassado e o sangue gelar. Os lábios dela tremiam quando ele se virou. Sabia que ele esperava uma resposta, mas tudo o que pode dizer foi um; "Porque?". "Porque? Você me pergunta. Porque... eu a amo... e eu não conseguiria viver apenas com sua amizade...", ele parou de repente. Finalmente disse e agora esperava a resposta enquanto a angustia queimava-lhe no peito. Olhava fundo nos olhos de Julia e tudo o que via era um tremeluzir que fazia seu coração bater mais forte. Ela nada dizia ou fazia. Mas porque não conseguia falar nada? Também o amava e era isto que ia lhe dizer a alguns minutos atras; então, porque não abraça-lo, beija-lo, ao invés de ficar parada sentindo o corpo tremer. Confusa desviou o olhar. Um desvio que Marco interpretou como um não. Um não para seu amor que no fim não seria correspondido. Constrangido, abalado e desesperado ele se preparou para sair dando as costas para Julia que alarmou-se. Ela devia fazer alguma coisa ou ele iria embora levando seu coração. "Espere...", o pedido, quase uma suplica, saiu murmurado. ************** Encostada na fria parede metálica Nanako sentia seu coração acelerar e a angustia se apoderar de seu ser, os olhos tremeluziam e uma lagrima furtiva escorreu pelo rosto. Não suportava mais; se permanecesse ali iria explodir e num esforço supremo saiu. Poderia imaginar o resultado da cena e imagina-la já era dolorido o bastante. **************
Mesmo sem ter coragem de encara-la novamente ele atendeu. Mil pensamentos passavam pela mente do piloto naquele momento e a medida que os segundos transcorriam e sua aflição aumentava decidiu retomar seu caminho. Parou assustado. Sentira uma leve pressão em suas costas e as emoções inundando-lhe o corpo. Julia encostara suas mãos, depois a face, seguida do corpo e ele podia sentir sua respiração, seu peito ofegante onde um coração acelerado misturava-se ao seu. Sentia até suas lagrimas. Lagrimas que brotavam de seus olhos castanhos escorriam-lhe pela face e umedeciam o uniforme. "Você não sabe o quanto me fez feliz ao dizer estas palavras... O quanto meu coração ansiava por isto... meu amado...". Ele virou-se e a teve nos braços. Trocaram um breve olhar sem palavras. Um olhar que foi se intensificando à medida que seus lábios se aproximaram e se fundiram. **************
Judith estava no departamento de pesquisa quando ao levantar os olhos, da tela do computador, vislumbrou a silhueta esverdeada da nave Galman-Gamilon. A visão imediatamente arremeteu-a aos dias em que naves daquela cor faziam um bloqueio a Terra e traziam à morte a milhões. Assim como todos Judith sentia uma onda de rancor invadir-lhe o peito; nada mais natural, pois ela mesma perdeu o pai num ataque nuclear sobre Ontário. Judith sorriu, após alguns minutos, suas lembranças não eram feitas apenas de momentos tristes afinal, foi durante um ataque Gamilon que ela, uma estudante de xenobiologia, conheceu um jovem oficial de nome Romanov. **************
Ao entrar em seu alojamento, nunca ele tinha parecido tão distante, Nanako sentiu que não precisava mais se conter e as lágrimas começaram a escorrer-lhe pela face. Rememorava as cenas que tinha presenciado no observatório. Cenas que fizeram suas pernas fraquejarem e ela se viu obrigada a deixar-se cair ao lado da cama, recostando a cabeça sobre o leito macio. "Porque resolveu ficar ao perceber o que estava acontecendo?", ela sentia uma dor desesperada rasgar-lhe o peito, "Porque tinha que estar naquele estado se era isto que ela queria; seus melhores amigos juntos, como seus corações ansiavam". Suas mãos crisparam sobre o lençol ao mesmo tempo
em que o mordia; tentava abafar os gritos de angustia que lhe afloravam
enquanto soluços faziam seu corpo tremer.
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