Parceiros Por Ana-chan (Yomi_No_Miko@Mailcity.Com)

Prólogo

"Ande logo, molenga! Depois vive dizendo que o lerdo da dupla sou eu..."

"Espera Kuronue... Mas que coisa! Só porque está na minha frente uma vez na vida já acha que pode se exibir!"

"Isso é o que dá... Se acostumou com aquele chicote de planta e agora tem dificuldade de usar uma simples corda..."

"Tô indo, tô indo!!"

"Anda, deixe de ser orgulhoso, segure a minha mão."

"Já disse que não!"

"Você que sabe. Te vejo lá em cima."

Kurama olhou de soslaio a subida ligeira de seu parceiro. Droga, pra essas coisas ele não tinha medo de altura... Por outro lado, não se lembrava da última vez que tinha tido dificuldade em uma tarefa tão boba. Escalar um penhasco baixo, de inclinação moderada, ainda que um pouco escorregadio não deveria ser problema. Talvez Kuronue tivesse razão. Passara tempo demais desfrutando das facilidades de se dominar a natureza. Agora que não podia contar com ela, mal podia acreditar na própria falta de jeito... Que humilhação.

Suado e arfando bastante, o youko chegou ao fim da inclinação algum tempo depois de Kuronue. Pior foi encontrá-lo sentado a sua espera.

"Cansado?"

"Cansado, eeeeu?! Só se foi de ontem a noite, né benzinho..."

Kuronue corou levemente. Melhor não provocá-lo mais. Kurama estava num mal humor de fazer gosto.

Depois, não era recomendável que falassem alto dali para frente. De acordo com os mapas, já estavam no território dos ladrões e todo o cuidado seria pouco.

No começo, Kuronue chegou a temer um pouco pela adaptação de Kurama. Ele já estava tão dependente de sua habilidade de controlar vegetais... Mas, durante o percurso, foi se tranqüilizando a esse respeito. Com certeza, se seguissem o combinado, tudo acabaria bem.

Em determinado ponto, se separaram. A cada um deles competia verificar uma ala da fortaleza. Seria tudo muito rápido e silencioso. Kuronue não pode evitar de pensar que estavam fazendo aquilo tudo apenas para obter um simples espelho... Bom, depois que Kurama o havia dito que o artefato sagrado dos Senelos não passava de uma estatuazinha do tamanho de uma amora já não duvidava mais de nada... Mesmo assim, continuava achando muito estranho que boa parte das relíquias mais preciosas do Makai não passassem de objetos pequenos e aparentemente inúteis.

Ao avistar a fortaleza, o jovem youkai alado respirou fundo. Seria agora ou nunca. Com toda a calma, se embrenhou em meio aos arbustos até localizar a pequena passagem mal vigiada que o mapa havia indicado. Lá estava ela, tão estreita que por um momento chegou a pensar que não haveria espaço para suas asas.

Porém, em questão de instantes, desapareceu em seu interior.

 

Mal pisara no interior da fortaleza, Kuronue começou a contar. Esse foi a única forma que encontraram de marcar o tempo até o momento em que deveriam ir para o ponto de encontro. Tudo o que ele queria era localizar o tal espelho, e rápido.

Mas não foi bem assim.

Kuronue entrou e saiu de inúmeros cômodos, todos eles repletos de tesouros e objetos esquisitos. Não se apropriou de uma agulha sequer. Não estava lá para roubar e sim para cumprir sua missão. Não podia perder tempo se distraindo com outras coisas, por mais tentadoras que fossem...

O tempo passou e nada do espelho. Faria como combinado. Encontraria Kurama e, se ele não tivesse encontrado, vasculhariam novamente. Poderiam fazer isso até três vezes. Se não desse em nada, a prudência recomendava que voltassem outro dia. Esse era o plano. Melhor segui-lo à risca.

Como uma sobra, ele atravessou os corredores sombrios. Cada voz que ouvia, cada barulho que captava era motivo para que seus músculos se retesassem e sua respiração quase parasse. Jamais havia tomado tanto cuidado em sua vida. Só desejava que Kurama também estivesse procedendo assim. Costumava ser tão folgado aquele youko...

O ponto onde havia ficado de se encontrar com Kurama era uma reentrância do corredor que dava diretamente na entrada principal, aquela com cara de monstro que se podia ver à distância. Poderia parecer loucura, mas pretendiam sair pela porta da frente. Em caso de perseguição, isso lhes daria uma certa dianteira já que os vigias costumavam ficar dispersos em vários locais diferentes.

Assim que chegou ao local, sentiu ser agarrado por trás. Foi sorte não ter gritado de susto. Kurama estalou-lhe um beijo na bochecha e depois o soltou.

"Ficou louco?", sussurrou Kuronue o mais baixo possível.

"Olha só o que eu tenho aqui...", respondeu o youko, com um sorriso de satisfação.

"Mas... já?", espantou-se Kuronue, ao ver o objeto que seu parceiro trazia embaixo do braço.

"Vamos embora rápido porque o vigia não me viu, mas logo vai dar falta do espelho."

"Não precisa dizer duas vezes...", pensou, seguindo o youko já em desabalada correria.

Ao alcançarem a entrada, já podiam ouvir nitidamente a gritaria dos vigias em polvorosa. Porém a dupla ainda teve tempo para uma paradinha assim que se viram do lado de fora. Mesmo que já tivessem sido descobertos, a dianteira que conquistaram era mais do que suficiente para livrá-los do pior. Havia sido tão fácil que mal podiam acreditar...

Depois do pequeno descampado, havia uma floresta de bambus. Depois, outra, de arbustos altos. Depois, a liberdade. Assim que atravessassem a parte dos bambus, a magia que protegia o território já estaria bem mais fraca e Kurama voltaria a ter domínio sobre a floresta. Então, nada mais poderia detê-los.

Foi quando Kuronue sentiu um estalo atrás de seu pescoço...

Quando seus olhos se desviaram do caminho, seu pingente já estava fora do alcance de suas mãos. Não importava o que houvesse, tinha que buscá-lo. Não podia estar longe, seria tão rápido que talvez nem Kurama desse conta. Havia um bambu grosso bem a sua frente. Ao invés de desviar, se jogou contra ele, usando-o para dar impulso e voltar atrás.

"Kuronue, não!!"

O grito de Kurama ressoou em sua mente. O pingente estava mais longe do que pensara. Mas agora que tinha voltado, não podia mais desistir.

"Preciso dele!", gritou em resposta, sem sequer olhar para trás.

Kurama parou assim que sentiu a mudança de rumo. Não podia acreditar no que estava acontecendo...

Finalmente, Kuronue avistou o pingente. Podia ser pior, pensou, ao abaixar-se para pegá-lo.

De onde estava, Kurama viu os pedaços de bambu caírem sobre seu parceiro. Os gritos foram quase simultâneos. O dele, de desespero, e os de Kuronue, de agonia...

"Kuronue!!!"

Por um momento, Kurama ficou completamente sem ação. Era como se estivesse preso num pesadelo, no pior de todos os pesadelos. Só que o sangue que se espalhava no chão da floresta não era uma ilusão. Era real. De Kuronue.

"Me esqueça e corra!!!", gritou Kuronue para a figura estática alguns metros a sua frente.

Subitamente, Kurama sentiu o sangue voltar a correr em suas veias. Nada do que vira durante os instantes em que permaneceu petrificado havia se modificado a não ser por apenas mais bambus ao redor de Kuronue... e mais sangue derramado no chão.

"Foge, Kurama. Eles estão vindo", gritou o aprisionado mais uma vez.

Kurama se aproximou tão rápido que quase escorregou ao parar. Nem sequer lhe dirigiu o olhar. Apenas começou a puxar os bambus que formavam uma barreira ao redor de Kuronue. Em algum lugar de sua mente, podia ouvir os gritos dele, pedindo que fugisse, podia ver suas pernas, perfuradas por toras de bambu pontiagudas, podia até saber que jamais conseguiria escapar com ele naquele estado, mas seus braços continuaram agarrados aos troncos, tentando inutilmente movê-los...

"Kurama, não vai adiantar. Fuja enquanto pode!"

"Já está quase..."

"Esquece isso... Vai embora...", implorou Kuronue, tentando tocá-lo.

Mas o youko continuou lutando com a armadilha sem lhe dar ouvidos.

"Kurama, olhe pra mim!", gritou.

Ele obedeceu, caindo de joelhos ao seu lado.

"Vou te tirar daí...", murmurou, ainda tentando empurrar um dos troncos que os separavam.

"Não diga besteiras... Você não pode.... Está ouvindo? Estão chegando..."

"Não vou te deixar aqui!"

Kuronue segurou o rosto de seu parceiro, através das grades de bambu. Queria ter certeza que ele ouviria o que tinha a dizer.

"Me escute e faça o que eu mando uma vez na sua vida!", disse, segurando-o com mais força, "...fuja agora e leve o espelho. Eles não vão me matar, vão querer o espelho de volta, está me entendendo? Se te pegarem aqui agora não haverá chance para nós. Leve o espelho e me troque por ele..."

"Não..."

"Leve o meu pingente... Quero que tome conta dele pra mim enquanto eu não puder...", pediu, colocando o objeto na palma da mão do youko.

"Não...", repetiu Kurama, segurando a mão de Kuronue como se nunca mais fosse soltá-la.

"Vai agora... Se me ama mesmo, faça o que eu estou falando...", murmurou sem forças.

Mesmo assim, sorriu para ele, encorajando-o a se levantar. Custou um pouco para conseguir libertar sua mão, presa entre as dele...

Kurama estava prestes a fugir, a deixá-lo para trás pela primeira desde que se tornaram parceiros... Kuronue o seguiu com os olhos, como se quisesse ter certeza que não desistiria.

Precisava mais do que tudo vê-lo escapar daquele lugar maldito.

Naquele momento, não se importava fosse pela última vez.