Epílogo
O dia seguinte...
Kurama se pôs de pé.
Ainda não acreditava no que estava acontecendo. Seus olhos iam do parceiro preso a sua frente para os youkais que os rodeavam. Não havia pensamento que parasse por mais de um instante em sua mente. O que havia dado errado? Por que nada adiantava?
Havia sido tudo tão fácil até que... por um pingente?
Sentia seu coração batendo tão acelerado, tão alto que encobria os outros sons. Mesmo assim não dava conta se estava respirando ou não. Era como se estivesse mergulhado numa cena irreal, numa dimensão paralela onde era impossível pensar, agir ou ter controle sobre a própria vontade.
Não podia deixá-lo, não queria...
Mas não havia saída.
Kurama olhou em volta mais uma vez.
Ainda não estava cercado, mas já havia vários youkais em formação a sua volta.
Olhou para baixo.
O prisioneiro estava de joelhos, se escorando em sua prisão de bambus. O sangue era tanto, que Kurama não pode não notar que a terra sob seus pés também já estava avermelhada. Deu um passo atrás, instintivamente.
Sua mente se recusava a admitir que estava pisando sobre o sangue de Kuronue.
Mais uma vez seus olhos buscaram o rosto de seu parceiro. No entanto, Kuronue estava de cabeça baixa. Parecia já não dar mais conta do que se passava.
Os youkais avançaram, cercando a armadilha.
Tempo esgotado.
"Fiquem onde estão ou eu arrebento esse espelho!!", gritou, pegando o espelho do chão.
Kurama mal atinava o que estava dizendo, mas assim mesmo, sua ameaça não passou desapercebida. Os youkais pararam, entreolhando-se, como se não soubessem mais o que fazer.
Com certeza, o líder ainda não estava presente.
Era a chance que Kurama precisava. Sabia que não teria outra.
"Digam ao seu chefe que eu troco o espelho pelo meu parceiro. Ao amanhecer, na curva do rio...", disse antes de desviar um último olhar para Kuronue.
Kuronue levantou a cabeça como se quisesse demonstrar confiança em suas palavras. Moveu os lábios, mas Kurama não entendeu o que quis dizer. Não havia mais tempo. Alguém com o mínimo de inteligência veria logo que nem sequer tinha como danificar o maldito espelho...
E Kurama desapareceu entre a vegetação sem olhar para trás.
"Onde está o outro?!", esbravejou um youkai que chegou acompanhado de um pequeno grupo logo depois do youko ter sumido de vista.
"Ele fugiu senhor..."
"Como fugiu?"
"Ele estava com o Espelho das Cinco Luas, senhor. Disse que o destruiria se..."
Um golpe direto contra a cabeça silenciou o youkai antes de concluída a explicação.
"Que isso sirva de exemplo. Ninguém rouba nossos tesouros e foge sem punição. Você! Pegue seus homens e cerque o desfiladeiro! Você, o mesmo no lado oeste! Você, leste! Você, sul!"
Depois de dispersado parte do grupo, o sujeito pareceu se acalmar um pouco. Voltou-se então para Kuronue.
"Não se anime. Seu amigo não vai escapar."
"Ele vai sim... Tenho certeza que vai."
"Não seja ridículo... Ninguém foge desse território... ninguém."
"Senhor,", interveio um youkai humildemente.
"Espero que seja importante, para se dirigir a mim..."
"Creio que sim, meu senhor. Fui dos primeiros a chegar. Ouvi esse daí chamar o outro que fugiu de Kurama."
"Kurama, o youko?", exclamou, arregalando os olhos.
"Prateado, senhor, como andam dizendo por aí. E isso não é tudo..."
"Continue."
"Kurama disse que troca o espelho pelo parceiro, amanhã cedo, na curva do rio..."
O youkai soltou uma enorme gargalhada. Demorou para que parasse de rir.
"E eu que cheguei a ficar preocupado... Esse Kurama está fazendo nome, mas pelo que vejo deve ser só um moleque que nem esse aí... Que espécie de ladrão troca um preciosíssimo artefato do Reikai por um parceiro inútil como ele?"
"E o que faremos com ele, senhor?"
"Leve-o para o calabouço. Acredito em antes do fim da tarde Kurama estará fazendo companhia para ele. Depois, vejo o que faço com os dois..."
"... E se Kurama conseguir fugir?"
"Bom, nesse caso, nós faremos o acordo."
"Faremos?"
"Se Kurama quer tanto assim o parceiro, nos o devolveremos, por que não?", disse, num tom levemente irônico.
"Como quiser senhor."
"Hn... estava aqui pensando...", continuou, coçando o queixo, "...Você se lembra se, por acaso, Kurama mencionou se fazia questão o devolvêssemos vivo?"
"Acho que não senhor, mas acredito que ele queira..."
"Ótimo!", cortou o líder, voltando a se aproximar de Kuronue.
Um pouco mais atento, o prisioneiro sentiu ser circulado, observado atentamente...
"Não vai pegá-lo... Kurama é muito esperto.", disse com firmeza ao encontrar os olhos de seu captor.
O youkai sorriu.
"Terei o que me pertence e ensinarei ao seu parceiro uma lição... de um jeito ou de outro.", afirmou, voltando-se para os subordinados, "Levem esse tolo como ordenei. E não se esqueçam de dar a ele nosso tratamento especial... Não queremos desapontar o grande Youko Kurama, queremos?"
Dois anos depois...
Um trovão se fez ouvir num estrondo tão violento que parecia ter rachado o céu. A tempestade já desabava há bastante tempo, praticamente o dia inteiro.
Hekel se inclinou de costas para a janela, sem se importar com a chuva em suas costas. Seus olhos permaneciam fixos sobre a figura encolhida a sua frente. Embora não pudesse ver seu rosto, escondido entre os braços, podia adivinhar perfeitamente o que se passava naquela mente mortificada pelos últimos acontecimentos.
"Mas que tempo agradável!", exclamou, olhando de soslaio para trás, "... Adoro quando chove assim. Não é lindo?"
Ele voltou a fitar o youko sentado no chão de seu quarto. Seria digno de compaixão, se isso valesse de alguma coisa...
Não, já havia aturado mais lágrimas em uma noite do que julgava ser capaz de suportar em uma vida. Era tempo de por um fim naquilo.
Outro trovão ressoou, ainda mais forte do que o anterior, preenchendo o cômodo espaçoso com sua claridade efêmera.
"Ouviu esse? Não há nada mais belo e poderoso do que os relâmpagos do Makai. Deveria se orgulhar por ter nascido neste mundo...", continuou, "... Escute Kurama, se quiser morrer, não farei nada a respeito dessa vez. Agora que sabe a verdade, está livre para decidir seu próprio destino. Posso até ajudá-lo, se quiser... Então, me diga... Quer veneno? Um punhal afiado?... Que eu saia da frente da janela?"
Hekel suspirou. Depois, se aproximou devagar.
"Posso também oferecê-lo outra alternativa... a de terminar o que começou há dois anos atrás... Esta noite... Tenho tudo o que precisa bem aqui. A chance de enterrar todos esses anos deprimentes de uma vez por todas..."
Kurama ergueu os olhos. No entanto, não os voltou para o seu interlocutor. Mesmo assim, Hekel sorriu, certo de que algum progresso estava sendo feito ali.
"É bom ver seu lindo rosto novamente... Vamos, Kurama. Não é do tipo que se abate por qualquer coisa... Sei que se por a cabeça para funcionar, vai ver que não é tão trágico quanto parece... Afinal, o que pretendia da sua vida? Por acaso preferia continuar vivendo aquela mentira bucólica até o fim de seus dias? Ou talvez encontrar consolo nos braços daquele caipira ridículo?... Confesso que ajudei Najah a salvar o que restou do seu juízo depois que seu amado Kuronue foi jogado morto aos seus pés, mas não me agradava nem um pouco vê-lo aceitando uma vida que nem de longe se parece com a para a qual foi feito..."
Hekel se ajoelhou em frente do youko. Sua intenção era persistir naquela ladainha até que ele dissesse alguma coisa. Ainda não sabia exatamente até onde havia mentido quanto a ajudá-lo a se matar. Esperava que não chegasse a tanto. Seria uma pena ver um youkai como Kurama sucumbir tão facilmente. Isso sem levar em conta o enorme investimento que havia feito ali. Anos de observação destruídos por um amor perdido era algo que fazia seu sangue ferver só de pensar...
Com toda a calma, Hekel deixou que seus olhos examinassem bem a fisionomia apática do youko. E quanto mais olhava, mais indeciso ficava. Jamais havia visto olhos tão indiferentes em toda a sua vida... Estavam secos, levemente avermelhados, mas sem nenhum sinal de lágrimas... Podia jurar que ele estivera chorando a noite inteira, como poderia ter se enganado tanto?
Ele se levantou. Não havia mais o que fazer ali.
"Estarei na sala de reuniões. Creio que sabe o caminho. Minha proposta ainda está de pé. Fique a vontade para decidir... Mas lembre-se que o passado não voltará a desaparecer. O perseguirá por toda a sua vida se continuar desse jeito... Morra por ele, viva sem ele, a escolha é sua..."
Novo trovão arrebentou no céu. Num movimento ligeiro, Hekel deu as costas para o youko, retirando-se com passos largos e decididos.
A chuva ainda caía. Parecia que não pararia nunca mais.
Kurama permanecia imóvel como uma estátua. Talvez fosse assim mesmo que se sentisse...
Verdade, mentira, amor, ódio... No fim, acabava dando tudo no mesmo.
De algum modo, ele não se importava mais.
Fim
Infelizmente, por enquanto é só, pessoal . Depois de 41 longos capítulos, fora um Prológo e um Epílogo, Parceiros chega ao fim . Mas não pensem que isso acaba aqui, pois para quem acompanhou desde o inicio essa obra escrita pela Ana-chan, pode acompanhar a continuação dessa maravilhosa história, que se passa em Memórias, o qual vocês encontram nesta mesma página !
Mas, antes de ir até lá ... que tal se mandassem um e-mail para a autora ? Sério ! Gostar da história não basta, tem que falar com ela ! Afinal, ela não tem como saber se você gostou ou não sem mensagens, portanto, faça a sua parte, incentive-a e aos demais autores para que eles continuem escrevendo !
Lexas, 23 de abril de 2oo2
O que está esperando para falar com a autora de Parceiros ?
A Ana-chan (
Yomi_No_Miko@Mailcity.Com) mal perde por esperar pelos seus comentários (^___^) !!!