Capítulo 9: Escapada noturna
Em menos de um mês, todos o subterrâneo já comentava o quanto as aulas haviam se estendido. Mesmo depois de todos saírem, Kurama ainda ficava lá, ouvindo as estórias do mestre... coisas antigas, por que ninguém dava a mínima, mas que ele adorava. Não demorou muito para perceber que Najah o dedicava atenção especial, o que tinha lá suas vantagens. Era bom ter tratamento privilegiado, mas sem dúvida o que mais gostava era de usar isso para esnobar seus colegas, com exceção de Kuronue, naturalmente.
Ao contrário do que podia se pensar, ser amigo de alguém com tantas prerrogativas não era um tarefa muito fácil. Kuronue até já se arrependia um pouco de ter incentivado Kurama a ir às aulas. Antes era mais divertido... Depois que tomou gosto pelas lições Kurama não tinha mais tempo pra nada... Só se preocupava em ficar treinando e lendo. Um tédio.
A verdade é que Kuronue não era muito de apreciar o valor de tanta escrita e jamais poderia ter imaginado que o oposto pudesse se dar com Kurama. Mas essa não era a única excentricidade de seu amigo...
"Kurama, para com essa besteira! Já te disse mais de cem vezes que sua bunda não é grande! Não tem cabimento essa mania de não querer comer."
"A bunda é minha e a barriga também. Não quero discutir isso com você de novo, tá? Não estou com a menor fome, se quer saber."
"Sei.... Bom, no caso de você mudar de idéia, tem umas frutas na minha sacola. E tem mais uma coisa, se não conseguir dormir, depois não venha me dizer que foi porque eu me mexi a noite inteira."
"Até amanhã, Kuronue."
O tempo passava devagar naquela madrugada silenciosa. Kuronue dormia profundamente há um bom tempo porém não havia nada que fizesse Kurama conciliar o sono. Ele estava determinado a não sucumbir ao apelo de seu estômago vazio, que protestava veementemente contra a ausência do jantar. Era uma situação, no mínimo, ridícula. Por toda a sua vida a escassez de comida foi um fantasma permanente, sobretudo nos longos períodos de inverno que teve que superar sozinho na floresta. Agora que podia comer tudo o que quisesse, era forçado a se submeter à fome voluntária. Parecia piada...
Kurama se virou no colchão pela 25ª vez, tomando todo o cuidado pra não acordar Kuronue. Ele sim era um youkai de sorte. Comia o que queria e continuava com a bunda pequena. O youko virou de barriga pra baixo, numa tentativa de comparar seu traseiro com o de Kuronue. Com cuidado, levantou um pouco a asa que o cobria de leve e espiou com interesse. A cauda e a escuridão atrapalharam um pouco suas observações mas não havia dúvidas... seu traseiro era maior. Não havia solução a não ser resistir até o fim.
Mais alguns momentos intermináveis se passaram e ele já não tinha mais esperanças de conseguir dormir tão cedo. De repente, Kuronue se virou bruscamente, o empurrando para fora do colchão. Foi a gota d'água. Sem comida e sem cama era demais! Ele se levantou e, sem pensar mais, pegou a sacola de Kuronue e saiu do quarto.
Os corredores estavam escuros e silenciosos. Kurama entrou no primeiro compartimento vazio que viu na sua frente, sentou no chão, abriu a sacola e começou a comer como se fosse sua última refeição de sua vida. Que se danasse o tamanho de sua bunda! Nada valia o desconforto de um estômago vazio roncando em plena madrugada.
Estava tão absorvido na tarefa de saciar a fome que nem deu conta dos passos que ecoaram pelo corredor. Quando finalmente percebeu, deparou-se com Najah parado na entrada do quarto onde estava. Mas nem isso foi capaz de fazê-lo interromper o lanche.
"Refeição noturna?"
"Hn.", respondeu Kurama de boca cheia.
"Se incomoda se eu me juntar a você?"
"Hn-hn", disse, torcendo para que o mestre não estivesse com fome.
Detestaria ter que dividir o lanche.
Najah se sentou ao lado de Kurama, observando a voracidade com que o youko devorava as frutas a sua frente. A escuridão ainda predominava, ainda que levemente iluminada pela luzes de vela que vinham do corredor. Era a primeira oportunidade que Najah tinha de estar a sós com Kurama, sem a ameaça de um interrupção repentina. Só ele sabia o quanto havia esperado por isso em seu íntimo. O jovem youko conseguia ser uma visão magnífica mesmo se atracando com a comida como um esfomeado qualquer.
Acima de tudo, Najah sabia que não deveria estar ali. Mas simplesmente não conseguiu ir embora...
"Você está mesmo com fome... Essa floresta é farta. Não há razão pra ficar assim."
Kurama engoliu apressadamente. Najah parecia nunca se importar com seu maus modos, mas em todo caso, algo lhe dizia que não era simpático ficar respondendo só com "hns".
"A culpa é minha. Eu não deveria estar comendo. Assim meu... meu traseiro... nunca vai diminuir."
"Seu que?"
"Meu bum bum... Kuronue disse que é grande demais porque eu como muito."
Najah corou levemente. Há séculos não tinha uma reação desse tipo. Naturalmente, não foi a citação ao 'bum bum' que o pôs desse jeito, e sim a maneira como Kurama se inclinou para dize-lo bem perto de seu ouvido.
"Er... você parece bastante bem pra mim. Não creio que precise passar fome."
"Preciso sim, mas é um problema e tanto. Eu fico com fome o tempo inteiro. As vezes não consigo nem dormir.", comentou antes de mais um mordida.
"Não faça isso... Não tente mudar o que já está perfeito."
Kurama ficou tão espantado que quase engasgou. Estaria o mestre o chamando de perfeito?
"Não sou perfeito. Minha bun... bom, o senhor sabe o que, é grande demais e meu cabelo tem essa cor esquisita, mas pelo menos eu não sou verde, nem tenho escamas."
"Por favor, não me chame de senhor... Eu gosto da cor do seu cabelo, parece prata sob a luz. Você é só um menino e é tão lindo. Não consigo entender por que te baniram..."
Kurama foi pego de surpresa dessa vez. Sentiu um aperto no peito que o fez esquecer até da fome. Não sabia o que dizer e acabou abaixando a cabeça como um último recurso para se esconder do olhar inquisidor de Najah.
O mestre se sentiu mal por fazê-lo lembrar-se de situações desagradáveis, mas por outro lado, há muito ansiava por conversar a esse respeito. Por mais que a presença de Kurama lhe fosse agradável, sabia que deveria haver algo errado por trás de sua aparição inesperada.
O youko permanecia de cabeça baixa enquanto tentava buscar uma saída para aquela situação. A última coisa que queria na vida era falar sobre esse assunto. Desde que se lembrara de tudo, só desejava a voltar a esquecer. Não compreendia a razão de se envergonhar tanto de seu passado. Não havia explicação lógica para isso e Kurama odiava se sentir assim mais do que tudo. Kuronue tinha sido expulso de sua terra e não ligava a mínima, então, por que com ele tinha que ser diferente?
O mestre era um sábio, certamente não poderia enrolá-lo como fazia com seu amigo... Mas como explicar o que não conseguia entender? Kurama estava sem fala. Fechou os olhos na esperança de ter alguma idéia mas nem isso adiantou.
Porém, seu suplício foi interrompido por um leve toque em seu rosto. Kurama abriu os olhos para ver Najah ajoelhado a sua frente.
"Me desculpe, filho. Não precisa me contar se não quiser.", disse o mestre da forma mais suave possível, enquanto deslizava seus dedos pelos cabelos de Kurama.
"Não vai me mandar embora, vai?"
"Você sabe que não."
Kurama tentou sorrir sem sucesso. Não tinha do que reclamar... Se não tivesse sido expulso, não conheceria Kuronue. O que mais podia desejar?
"Quantos anos tem?"
A pergunta trouxe Kurama de volta para a realidade. Najah continuava acariciando seus cabelos e olhando-o fixamente. Havia alguma coisa naquele olhar que o fez se sentir subitamente incomodado. Sentiu um impulso para se esquivar do toque mas resistiu. Não tinha nada demais... Mesmo assim, acabou se despistando da pergunta.
"Que?", disse, sem graça, tentando dissimular sua distração com um sorriso.
"Eu perguntei quantos anos tem."
"Eu não saberia dizer ao certo."
"Você é crescido. Isso é bom no mundo em que vivemos.. Mas é só uma criança..."
"Não sou criança."
Kurama achava que sua prevenção contra o mestre já havia desaparecido, afinal, ele o tratava tão bem... Mas quando sentiu os dedos entrarem pelas mechas de seu cabelo até tocarem o seu pescoço, sentiu seu incômodo aumentar consideravelmente. Mesmo assim resistiu heroicamente à vontade de se levantar.
"Ainda tem medo de mim?"
"Eu? Não tenho medo de nada, muito menos de você...", respondeu, exercitando a auto-afirmação.
Najah achou graça, como sempre e chegou ainda mais perto. Quando Kurama deu conta, estava sendo beijado. Como não sabia o que fazer, acabou não fazendo nada. Se limitou a esperar que "aquilo" acabasse, louco de vontade se sair correndo.
Quando já começava a recear que não ia terminar tão cedo, Najah o soltou. Ele aproveitou então para se distanciar discretamente, tentando se recompor daquela experiência nada convencional...
"Kuronue nunca te beijou?"
"Kuronue? Não, nunca... Isso é horrível!", respondeu Kurama, com uma expressão desgostosa.
"Você se acostuma. Sabe por que fiz isso?"
"Não..."
"Porque você é especial pra mim. Não creio que ainda não tenha percebido. Você é um garoto muito esperto."
Kurama fingiu que não ligou...
"Posso ir agora? Estou com sono."
"Claro. A escapada noturna foi sua..."
Quando Kurama voltou para o quarto, Kuronue ainda estava dormindo... Estava totalmente esparramado sobre o colchão, com as asas abertas. O youko suspirou ao constatar que não havia sobrado um mínimo espaço para se deitar. Podia empurrá-lo pro lado, mas, com certeza, o acordaria. Acabou se deitando ao seu lado... no chão.
No fim, sua refeição havia rendido muito mais do que podia esperar. Ser considerado perfeito e especial por alguém como o mestre não podia ser mal... E até que o beijo não tinha sido tão ruim, consolou-se, antes de pegar no sono.