Capítulo 8: Vivendo e Aprendendo

 

Com o correr dos dias, as coisas foram voltando para os seus lugares. Para a felicidade de Kuronue, Kaizo voltou a falar com ele poucos dias após a discussão quando de sua chegada. Ainda não tinha se conformado com sua decisão, naturalmente, mas os bons resultados de sua parceria com Tieko lhe serviam de consolo.

Porém, Kuronue não tinha muito tempo para ficar remoendo o desentendimento com seu irmão. Era primavera, e a floresta oferecia uma enorme variedade de coisas divertidas para se fazer. Ao lado de Kurama, ele pode se permitir molecagens que Kaizo jamais entenderia, como se esconder numa árvore junto da trilha e atirar caroços nos viajantes, arrumar confusão nas vilas mais próximas ou afanar coisas bobas, só pela diversão.

Estava então com quatorze anos, o que para um youkai significava algum tamanho, pouca força e quase nenhum juízo. A idade do aprendizado, nos padrões do Makai, é claro. Sua especialidade era o manejo de pêndulos presos por fios. Apesar das travessuras com Kurama, ele procurava praticar todos os dias. Era uma arma muito útil, mas não tão estimada por ele como o pingente de pedra vermelha de que nunca se separava. Era herança da mãe, segundo Kaizo, que também tinha um quase igual.

Kurama, por sua vez, continuava se valendo apenas da habilidade de mudar de forma, o que não deixava de ter sua utilidade. Vez por outra, conseguia influenciar alguma planta, mas nada que valesse muito o esforço. No fundo, sabia que longe dos outros youkos, suas chances de dominar seu youki eram mínimas.

Assim, ele passou um tempo tentando de tudo, de esgrima até os pêndulos de Kuronue. Não chegava a se sair mal, mas a verdade é que nada daquilo parecia ser a sua vocação. Até a data, a única arma com que podia se garantir era a sua esperteza. E Kurama fazia questão de tirar o melhor proveito possível dela.

Uma alternativa para os habitantes do subterrâneo eram as lições que o Najah costumava ensinar. No entanto, embora fosse um youkai visivelmente poderoso, o mestre jamais ensinava nada que pudesse ser usado numa luta. Suas aulas se resumiam à escrita, leitura e algumas estórias antigas sobre os três mundos. Poucos eram os que se interessavam por esses assuntos. Kurama até tinha certa curiosidade, mas sua implicância com o professor continuava prevalecendo.

 

Anoitecia. Kurama e Kuronue estavam perto do lago, disputando algo que no Ningenkai poderia ser considerado uma variedade de luta greco-romana. No caso deles, não passava de brincadeira. Nenhum dos dois admitia a idéia de machucar o outro, daí preferirem jogos inofensivos ao treinamento a sério. A cumplicidade era tanta, que geralmente um deixava o outro ganhar sucessivamente até dar empate.

"Meu... Kurama! Você pegou meu pingente!!"

"Vem pegar!"

"Golpe baixo! Dá aqui ou eu torço essa sua cauda até você soltar."

"Faz isso e eu jogo ele lá no lago."

"Você não é doido..."

"Não?"

"Pensando bem, você é... Devolve meu pingente, anda!"

Kuronue aproveitou uma distração de seu adversário para lhe aplicar um golpe e tomar o pingente de volta. Foi estranho. Kurama não costumava se deixar vencer tão facilmente nem quando fazia de propósito.

"Que foi? Cansou?"

"Olha ali."

"É o mestre."

"Eu sei que é o mestre. É a terceira vez que vejo ele rondando a gente."

"O que tem demais?"

"Eu sei lá... Só sei que não gosto. Ele fica me olhando engraçado."

"Sabe, Kurama, acho que você faz um mal juízo dele. Estou convencido que ele gosta de você... ou não aturaria os desaforos que você vive dizendo pra ele, né?"

"Vamos sair daqui. Tô morrendo de fome.", disse Kurama se levantando sem tirar os olhos da direção de seu observador.

"Quê? De novo? Kurama assim não dá. Toda hora a gente tem que ficar procurando comida... Deve ser por isso que seu traseiro tá grande desse jeito..."

Kurama parou em tal choque que esqueceu da conversa sobre Najah instantaneamente.

"Meu que?"

"Seu traseiro... Daqui a pouco minhas calças não cabem mais em você."

"Sério?", perguntou Kurama se torcendo todo.

"Não chega a ser uma tragédia... Já está mais do que na hora da gente separar nossas roupas. Estou cansado de usar calças com os buracos que você faz pra sua cauda e aposto que você também não agüenta mais os buracos das minhas asas nas camisas."

"Não estou falando disso... acha mesmo que meu traseiro está ficando grande demais?"

"Ai... pra que eu fui falar... Esquece isso, tá? Seu bum-bum cresceu porque você cresceu. Eu só estava brincando."

A princípio, Kurama pareceu aceitar a explicação mas logo Kuronue perceberia que não era bem assim. Desse dia em diante, o youko passou a desenvolver novos e esquisitíssimos hábitos por conta por conta daquele infeliz comentário...

 

Alguns dias depois, Kuronue conseguiu arrastar seu parceiro para a primeira aula do mestre. Sabia que ele estava doido pra ir mesmo...

Najah se surpreendeu ao ver a inseparável dupla entrar na sala e se juntar ao grupo a que estava tentando ensinar a ler.

"Enfim resolveram se juntar a nós..."

Kurama fechou a cara o mais que pode, fingindo que os objetos espalhados no chão em meio ao circulo formando pelo alunos não despertavam sua atenção. Só havia um espaço vago bem ao lado de Najah... Contrariado, não viu outro jeito a não ser se sentar. Mas o pior foi ver Kuronue inventando uma desculpa e saindo de fininho logo em seguida. Bem que tinha desconfiado que tinha caído numa cilada.

"Tem idéia de que tipo de atividade estamos desenvolvendo aqui?"

"Aprendendo a ler?"

"Isso mesmo. Imagino que não conheça nenhum símbolo."

Kurama se irritou ao perceber que seus colegas já estavam rindo antecipadamente de sua inevitável confissão de ignorância.

"Eu nunca tive aulas antes... mas conheço alguns símbolos sim.", blefou.

Os olhos de Kurama se arregalaram ao ver uma folha ser empurrada em sua direção.

"Então mostre."

O youko engasgou mas não se deu por vencido. Os olhares curiosos empurraram sua mão em direção à pena.

"Kurama."

"Que é?"

"A pena... está ao contrário."

As gargalhadas só não se ouviram mais alto devido à intervenção de um severo olhar reprovador do mestre.

"Desculpe.", disse Kurama sem graça, "... Acho que esqueci desse... detalhe."

Ele estava todo vermelho... de raiva e de nervoso, mas com certo esforço de memória alguma coisa lhe ocorreu. Acabou rabiscando algo vagamente parecido com um símbolo que vira na casa dos youkos, um dia antes de ser aprisionado na floresta

Najah se inclinou e observou intrigado. Não fazia muito sentido, mas como boa vontade dava pra entender. Pegou um folha e redesenhou o símbolo...

"Não seria isso aqui?"

Kurama olhou com atenção.

"Eu acho que é. O que quer dizer?"

"Bom, faz tempo que não vejo um desses... mas se não me falha a memória, quer dizer youko."

Kurama sorriu. Jamais pensou que conseguiria ser capaz de sorrir para Najah mas não pode deixar de admirar alguém com tanto conhecimento.

"Estou vendo que gostou da lição."

"Adorei."

"Pode voltar amanhã, se quiser."

"Vou sim... Posso ficar com a folha?"

"Pode."

Kurama pegou a folha e saiu apressado. Estava tão ansioso pra mostrar seu "presente" para Kuronue que nem se lembrou de agradecer. Mas uma coisa era certa... Najah não levou a mal nem um pouco...