Capítulo 7: A Reunião
O subterrâneo estava em festa. O fim do inverno era sempre um motivo de alívio, mas dessa vez haviam outras novidades a serem comemoradas. Kaizo e Tieko tinham conseguido pilhar um dos castelos mais ricos das redondezas. Eram tantos os tesouros afanados que seus jovens colegas não faziam outra coisa a não ser admirá-los e, é claro, bajular seus proprietários.
A celebradíssima dupla de ladrões mal via a hora de exibir ao mestre as suas conquistas. Era decepcionante a falta de oportunidade de estar com ele. Há meses Najah não aparecia nas reuniões. Kaizo só não pensava que ele pudesse estar doente porque o tinha visto recentemente na floresta, conversando com um sujeito de capa preta.
Mas não tinha problema. No fundo Kaizo sabia que sua chance estava chegando...
"Estou admirado. Vocês dois estão progredindo muito... Só espero que não fiquem confiantes demais e esqueçam de ter cuidado.", comentou Najah ao ver os objetos roubados por Kaizo e Tieko espalhados sobre uma pequena mesa a sua frente.
"Não se preocupe, mestre. Nós nunca nos esqueceremos de tudo que nos ensinou."
"Ora, Kaizo. Não precisa ser tão modesto. Sabe bem que nunca os ensinei nada sofre furtos."
"Mas é que nós..."
"KAIZOOOOO!!!!!!!!"
Todos se viraram para a entrada, de onde tinha vindo o grito que interrompeu o discurso de Kaizo. Kuronue tinha largado tudo de qualquer jeito para correr a abraçar o irmão que não via há mais de sessenta dias.
Kaizo ficou furioso com a interrupção mas, no instante que percebeu do que se tratava, um de seus raros sorrisos iluminou seu rosto. Finalmente Kuronue estava de volta. Kaizo não gostava muito de ser emotivo na frente dos outros mas naquele momento não se incomodou de abraçar seu irmão longamente. Ainda tinha esperanças de que a coisas voltassem a ser como antes.
"Kaizo, tenho mil coisas pra te contar..."
"Ai meus ouvidos..."
"Sério... você não imagina as coisas que aconteceram lá na montanha..."
"Olá Kuronue!"
"Tieko! Nossa que roupa bacana. Espero que tenha tomado conta direitinho do meu irmão."
"Eu só estou guardando o seu lugar. Sei que o parceiro é seu."
"Que é isso? Eu te empresto o Kaizo quando você quiser."
"Ei! Que estória é essa de me emprestar? Ficou uns dias fora e já está achando que é o chefe? Dá só uma olhada no que você perdeu.", disse Kaizo, mostrando os objetos em exibição.
"Uau!..."
Foi só aí que Kuronue deu conta que Najah estava lá.
"Ups!... Mestre... perdão... é que quando eu vi..."
"Não precisa se desculpar. Na verdade, faz tempo que não vejo tanta euforia."
"Mesmo assim... Ai! Esqueci do Kurama também!...", disse dirigindo-se para a entrada, "... ele está ali fora."
Kuronue foi até o corredor e voltou de lá puxando Kurama pela braço. Era a primeira vez que ele era levado à presença do mestre depois do incidente que o trouxe de volta à forma de youko.
Kaizo e Tieko se entreolharam. Então ele estava de volta também... e bastante diferente... quase do mesmo tamanho de Kuronue. Nem parecia a mesma criança franzina de alguns meses atrás.
Najah ficou em silêncio por um tempo.
"Espero que já tenha aprendido a falar."
"Sim, senhor.", respondeu Kurama meio indignado com a pergunta.
"Isso é bom. Você lembra de mim, não?"
Kurama se limitou a fazer um sim com a cabeça. Se não fosse por Kuronue já tinha saído dali há muito tempo. Não se sentia nada bem em estar naquela sala, cercado de youkais que o olhavam torto e fofocavam sem parar... Como se ter que pedir benção pro sujeito que um dia o atacou não fosse ruim o suficiente.
"Não precisa ter medo...", continuou Najah, "... Não reparei que era um youko da primeira vez que o vi."
"Não estou com medo. E o senhor devia pensar duas vezes antes de atacar os outros."
Kuronue já tinha percebido que Kurama tinha uma certa tendência a ser atrevido, mas nunca imaginou que fosse tanto. Antes que a conversa esquentasse mais, achou melhor se meter.
"Ah! Kurama! Mostra as coisas que você roubou!", disse, derrubando no chão a sacola que o youko tinha deixado ao seu lado.
De dentro da sacola, Kuronue foi tirando uma série de peças de metal, algumas com pedras
encrostadas. No conjunto, a coleção fazia uma vista e tanto... Kaizo e Tieko não evitaram de trocar olhares espadados. Mas isso não foi tudo...
Najah se levantou e examinou algumas peças com uma expressão que misturava surpresa e até um pouco de espanto.
"Você roubou isso tudo sozinho?"
"Foi.", confirmou Kurama.
"Menino... ou você é um grande ladrão ou um grande mentiroso."
Foi aí Kurama se encrespou de vez.
"Ah sou? Se é tão sabido, então me diz como que isso tudo foi parar aí se eu estou mentindo."
Najah fez um olhar tão severo que Kuronue instintivamente puxou o youko pra trás de si.
"Acho que seu irmão não deveria ter ensinado ele a falar...", comentou Tieko quase no ouvido de Kaizo.
Até então, Kaizo estava se divertindo com a situação. Só que o cochicho de Tieko o lembrou que Kuronue podia se enrolar tentando ajudar o youko.
"É... acho que vou ter que me meter..."
Mas então o inesperado aconteceu. Antes mesmo que Kaizo desse um passo a frente, Najah soltou uma gargalhada.
"Não é que ele tem razão...", falou, quando terminou de rir.
Kurama fez uma expressão vitoriosa enquanto Kuronue respirava aliviado.
"Bom...", continuou Najah, "... depois de ser desbancado por um fedelho, tudo que me resta é um retirada estratégica. Sejam bem-vindos de volta."
Assim que Najah saiu o burburinho recomeçou. Foi um custo para Kaizo dispersar os jovens que se aproximavam para inspecionar - e sobretudo comparar - os tesouros.
"Agora que todos foram embora, acho que podemos conversar melhor.", disse Kaizo assim que só restaram os quatro na sala.
Kuronue sentiu que a conversa não ia ser das mais fáceis, então resolveu dar uma amenizada logo se saída.
"Kurama, lembra do meu irmão e do Tieko?"
"Seu irmão parece com você... Do outro eu não lembro"
"Tieko é o parceiro do meu irmão."
"Como vai, Kurama? Parabéns pelo roubo. Confesso que fiquei impressionado. Já ouvi falar de sorte de principiante mas igual a sua deve ser difícil de encontrar.", cumprimentou Tieko.
"Bom, ...", interferiu Kuronue, "... Já que nós temos a sorte e vocês a experiência, por que não formamos um grupo? Tenho certeza que seríamos imbatíveis."
"Não dá, Kuro. Sabe que não podemos trabalhar assim. Nosso forte é que conseguimos entrar e sair sem sermos notados e com quatro isso seria impossível... Quero voltar a trabalhar com você. Já conversei com Tieko e ele tem outro parceiro em vista."
Kurama olhou para Kuronue meio apreensivo mas não disse nada. Já tinha entendido que não era bem-vindo ali e não queria dar àqueles despeitados o prazer de perceber que estava com medo de ser deixado de lado.
"E Kurama?", perguntou Kuronue.
"A gente dá uma parte pra ele, está bom assim?"
"Ele pode ir conosco, mano. Ele é bom, acredite em mim."
"Olha, ele pode até ser sortudo, mas ainda é um amador. Não posso assumir o risco... Eu fiz minha parte e te esperei até que ele soubesse se virar, agora a decisão é sua."
Dessa vez foi Kuronue quem olhou para Kurama, sem saber o que dizer.
"Kaizo... me dê mais um tempo... até que arranje um outro parceiro para ele..."
"Não quero outro parceiro...", afirmou o youko, entrando na conversa, "... Kuronue, se você combinou com seu irmão de voltar a roubar com ele, eu entendo. Não vou deixar de ser seu amigo por causa disso. Mas não me peça pra arranjar outro parceiro. Prefiro ficar sozinho."
Kuronue abaixou a cabeça indeciso.
"Então?", cobrou Kaizo.
"Irmão... me desculpe... mas eu gostaria que as coisas continuassem como estão..."
"Que se seja do seu jeito, então!", bradou Kaizo, antes de sair sem olhar pra trás, seguido de Tieko que não escondia uma certa satisfação.
"Mano! Espera! ... "