Capítulo 6: Visita ao Passado
A noite parecia não ter fim. Pela décima nona vez, Kurama mudava de posição no chão duro, tentando se acomodar melhor e assim chamar de volta o sono perdido. De vez em quando, dava uma espiada em Kuronue que, pelo contrário, dormia sono solto há horas. Talvez o problema fosse a distância... Como todo o cuidado, Kurama engatinhou até onde Kuronue estava e se deitou ao seu lado. Podia não ser nada de mais, mas desde que conhecera Kuronue, só se sentia bem junto dele.
Kurama bocejou logo que se ajeitou melhor. Talvez o sono não tardasse muito mais, afinal...
Era uma floresta densa, escura e sobretudo assustadora. Kurama sentia as pernas doerem mas a necessidade de acompanhar os passos largos da jovem youko a sua frente, o impelia a continuar sem reclamar. Sabia que qualquer protesto seria inócuo. Yu nunca o ouvia mesmo...
Subitamente a moça parou e se voltou em sua direção. Ao certo seria para reclamar da demora, pensou Kurama, aproveitando a oportunidade para se sentar um pouco.
"Não mandei se sentar."
"Estou cansado."
"E eu? Já podia ter chegado há dias se não fosse a sua lerdesa... Quero que escute bem o que vou te dizer. No lugar onde estamos indo, moram outros youkais, muito parecidos conosco..."
"Youkos?"
"É. Para que tudo corra bem, é preciso que você se comporte exatamente como eu mandar. Nosso futuro depende disso."
Kurama inclinou a cabeça, cheio de dúvidas. Se ao menos Yu costumasse lhe explicar melhor as coisas...
A garota agachou, até ficar da mesma altura de Kurama, que continuava sentado sobre uma pedra. O menino se espantou um pouco. Yu nunca tinha se preocupado em se abaixar para conversar com ele.
"Quero que você não saia de perto de mim. Em nenhuma hipótese influencie as plantas. Não dirija a palavra a ninguém e nem fique olhando muito para as pessoas. Youkos não gostam se ser encarados, entendido?"
"E se eu ficar com fome?"
Yu se levantou nervosa.
"Lá vem você pensando em seu estômago o tempo todo. Até parece que ainda não comeu hoje. Anda, levanta daí de uma vez! Estou farta das suas reclamações!"
"Mas eu não reclamei..."
"Anda logo e cale a boca!"
Kurama obedeceu, um tanto a contragosto. Com Yu era sempre a mesma coisa, andar, se esconder, andar, não reclamar e ficar quieto. Talvez quando fosse maior e menos estúpido, Yu aceitasse conversar com ele um pouco pra variar. Até lá, o jeito era engolir as perguntas e ignorar o cansaço e a barriga vazia. Não era assim tão mal... Yu era mal-humorada e impaciente, mas por mais que ameaçasse, nunca o havia deixado pra trás de verdade.
"É logo ali. Não saia de trás de mim... mas não se atreva a segurar minha cauda. Sabe que eu odeio isso."
O pequeno youko chegou o mais perto possível, sem descuidar da distância regulamentar.
Havia uma casa enorme erguida em meio a uma clareira e também algumas crianças brincando perto da entrada que desapareceram assim que avistaram os estranhos. Kurama se limitou a seguir Yu, embora sua vontade fosse a de crivá-la de perguntas. Mas as novidades não pararam por aí.
Ao entrarem na casa, alguns youkos já os esperavam, provavelmente alertados pelas crianças. Haviam quatro adultos, fora os menores que os olhavam ressabiados de um canto. Kurama não pode deixar de admirar os mais velhos, o que o levou a esquecer totalmente a recomendação de não os encarar demais. Eram lindos, todos eles e altos... muito mais do que Yu.
"Como vão?", perguntou Yu tentando manter a voz o mais firme possível.
"Seiji, leve os pequenos lá pra fora.", ordenou o que parecia ser o líder.
"Pai, me deixe ficar, por favor. Já tenho quase 19, não sou mais criança.", protestou o youko de aparência mais jovial.
Porém, bastou um olhar severo para convencê-lo a obedecer sem regatear. O jovem se retirou, levando consigo todas as crianças. Kurama ficou na dúvida se deveria seguí-lo também mas achou melhor ficar quieto. Reparando bem, havia um clima tenso naquele lugar, algo de errado que não sabia identificar.
Com a saída de um deles, restaram os outros três, dois homens e uma mulher. Um dos homens e a mulher pareciam um pouco mais velhos e estavam vestidos de modo mais imponente. O terceiro, era alto mas aparentava menos idade, além de estar vestido de modo mais simples, pelo menos na ótica de Kurama. Mas o que mais o intrigava, era a sensação de estar sendo minuciosamente examinado, não por um, mas por todos eles. Ou talvez fosse só impressão...
"É esse o menino?"
"Sim senhor."
"Você o escondeu por cinco anos. Como espera que eu acredite agora que é filho de Sendai?"
"Não estou mentindo. Seu filho Sendai sabe muito bem que não. Sei que não gostam de mim, mas francamente eu não me importo mais. Estou farta. Tudo que quero é resolver a minha vida de uma vez por todas."
"Acho que não precisamos conversar isso na frente do menino.", interveio a outra mulher, que mal escondia seu constrangimento.
"Há um quarto vazio logo ali. Yu, não se incomodar..."
A moça pegou Kurama pela manga da blusa e o levou até o quarto em silêncio. Antes de fechar a espessa porta de madeira, limitou-se a um aviso direto.
"Não saia daí antes de eu vir te buscar."
Kurama não se deu o trabalho de falar. Sabia que ela não esperaria por sua resposta. Ficar quieto naquele quarto vazio, sem nada pra fazer é que era o problema. Ele resistiu o mais que pode, tentando se distrair escutando a discussão que vinha da sala mas em pouco menos de uma hora, já tinha pulado a janela e alcançado a liberdade do gramado que rodeava a casa. Aquilo é que era lugar pra se viver e não os buracos no meio do mato onde costumava se esconder com Yu. Assim, Kurama se pôs a explorar as redondezas.
Quando alcançou o outro lado da casa, deu de frente com o mesmo grupo de crianças que havia visto na sala. Eram cinco ao todo, a maioria um pouco maiores que ele. Pareciam estar se divertindo, ou pelo menos até a sua chegada. Uma acanhada troca de olhares precedeu uma inevitável tentativa de diálogo. O menino maior se aproximou de Kurama, que, por sua vez, fez o possível para demonstrar a mesma firmeza de Yu.
Só que as coisas não lhe correriam tão bem como pensava...
A reunião já havia acabado, quando Kurama foi levado de volta a sala, guiado pelo jovem que havia visto saindo com as crianças. Seu nome era Seiji embora isso não fizesse muita diferença pra ele no momento. Seu rosto ainda doía bastante mas ao menos não tido sido o ali único que saiu machucado. Se lembrava com satisfação da expressão daquele atrevido quando fez a grama atacá-lo. É certo que tinha desobedecido Yu, mas isso também não chegava a ser uma novidade. Tinha acabado de vencer sua primeira luta de verdade. Quem sabe se dessa vez não conseguiria arrancar dela um elogio?
Yu, que ainda estava na sala conversando com o youko mais alto, se espantou quando os viu. Pareceu embaraçada. Kurama não tinha certeza, mas algo lhe dizia que não tinha sido arrastado pra lá em boa hora...
O tal youko alto aproveitou a confusão para se retirar, com a cara amarrada, sem dar satisfação..
"Não precisa se preocupar...", adiantou Seiji, "... Ele não está muito machucado. Estava brigando com Osamu lá nos fundos..."
Yu fechou a cara e se aproximou tão irritada que Kurama não resistiu ao impulso de se esconder atrás de Seiji.
"Você me desobedeceu!"
"Calma, Yu...", intercedeu Seiji novamente, "... ele não fez nada demais. Só quis dar uma volta por aí. Se eu soubesse que não queriam que ele ficasse, teria levado ele comigo antes."
"Não se mete Seiji! Era o que me faltava, um moleque defendendo o outro... Quanto a você, Kurama, vá lá pra dentro e não mova um dedo até eu mandar."
"Não quero ir lá pra dentro! Quero ficar aqui."
"Pare de choramingar e vá de uma vez."
Kurama foi saindo devagar... ainda tinha alguma esperança que Yu cuidasse do machucado em seu rosto. As vezes ela fazia isso... ou pelo menos até ter descoberto que costumava se machucar de propósito só pra se paparicado um pouquinho.
"Yu, não seja radical... Ele só tem 5 anos. Você trata ele que nem um general."
"Acha o que? Que cobri-lo de mimos vai fazer a vida dele mais fácil... ou a minha?
"Você está falando de que?"
"Ora garoto! Vai cuidar da sua vida!"
"Não sou garoto e você deveria ser a primeira a reconhecer isso!"
"Não se atreva a tocar nesse assunto, está entendendo? Que inferno!"
Kurama desistiu de enrolar e entrou. Não havia nada em volta. Até a janela havia sido fechada dessa vez. Não houve outro jeito a não ser se sentar num canto e se acomodar o melhor possível. Ter uma cauda nessas horas vinha bem a calhar, além de servir de cobertor era bom de abraçar... Seria uma longa noite.
Na manhã seguinte, foi acordado por Yu. Ela estava diferente, falando macio, até mesmo com ele. Talvez fosse pela presença do sujeito alto ao seu lado. Kurama podia até se atrever a pensar que Yu gostava dele...
Depois de uma refeição que para Kurama mais pareceu um banquete, os dois o levaram para a floresta em mais uma caminhada interminável. Foi aí que o inesperado aconteceu... quanto teve vontade de parar, o amigo de Yu o carregou. Como era bom poder se deslocar e descansar ao mesmo tempo. Mas o melhor de tudo era poder ver o mundo de cima pela primeira vez...
Num determinado ponto, a dupla parou. Kurama tinha a sensação de que Yu estava cada vez mais estranha. Quando foi posto no chão, a moça o abraçou... Kurama não conseguia lembrar da última vez em que isso tinha acontecido... Seria lógico que apreciasse aquele afago tão raro mas a verdade é que aquilo o encheu de medo. Assim que Yu o soltou, fugiu correndo quase que instintivamente. Mas não foi longe. Alguns metros a frente foi pego pelo outro youko. Kurama ainda tentou se debater mas não conseguiu se libertar mais...
"Kurama! Acorda!"
"Kuronue?"
"Quem mais? Você está que não para quieto! Assim eu não consigo dormir. Está tendo algum pesadelo ou coisa assim?"
"Acho que sim.", respondeu Kurama se levantando.
"Ei! Onde você vai? Ainda não amanheceu."
"Lá fora."
"Espera que eu vou com você."
"Kuronue... se você não se importar, eu preferia ir sozinho."