Capítulo 5: O Encontro Inesperado

 

Quase meio ano se passou...

Quando a primavera se fez sentir novamente no Makai, várias mudanças haviam ocorrido no subterrâneo. A dupla de ladrões do momento não mais era formada por Kaizo e Kuronue e sim por Kaizo e Tieko. Desde que Kuronue havia decidido se dedicar à educação de seu amigo youko, Kaizo passou a treinar um novo parceiro, Tieko, considerado por Mestre Najah o melhor espadachim entre todos os jovens do subterrâneo. O rapaz era de fato um talento e a nova dupla ia de vento em poupa.

Ao lado de Tieko, Kaizo expandiu consideravelmente seu arsenal de troféus, porém, o resultado que mais pretendia permaneceu inalterado: Kuronue não demonstrou incômodo algum em relação à nova situação. Pelo contrário, fazia questão de cumprimentar a dupla a cada sucesso obtido, sem a menor sombra de despeito. Kaizo já começava a duvidar seriamente da possibilidade de sua temporária sociedade com Tieko acabar um dia.

Kuronue tinha passado o inverno com Kurama num monte situado na fronteira do território de Najah. A idéia era tentar repetir o mesmo treinamento que Kaizo o havia proporcionado anos atrás. É claro as coisa não correram como da última vez, afinal, Kaizo era muito mais experiente, mas apesar dos tropeços ocasionais, progressos consideráveis foram alcançados. O teste final, então, teve resultado admirável. Kurama havia sido incumbido de afanar algum objeto de um mercador que conseguiram localizar mas fez muito melhor que isso. Não só se apropriou de tudo que conseguiu carregar como também libertou todos os escravos de sua vítima, deixando-o aturdido demais para perseguí-lo. Uma performance para veterano nenhum botar defeito.

Para Kuronue, o youko era um talento nato. Suas habilidades só não eram mais surpreendentes do que as mudanças por que tinha passado em tão pouco tempo. Em menos de um ano, havia evoluído do silêncio absoluto para a tagarelice constante. Kurama fazia tantas perguntas que as vezes Kuronue até sentia saudades do tempo em que o youko só conseguia repetir umas duas ou três palavras. Mas isso não era tudo. Kurama cresceu, e muito. Parecia impossível mas já estava quase da altura de Kuronue, que mal via a hora de regressar ao subterrâneo e exibir as novas habilidades de seu parceiro para o irmão. Tinha muita esperança que Kaizo aceitasse melhor a presença do youko quando o visse tão desenvolvido. No fundo, sentia muita falta dele. Se pelo menos ele parasse de implicar tanto com Kurama...

O caminho de volta pra casa era longo, mas a viagem prometia ser agradável. Kurama sempre arrumava algum assunto inusitado pra puxar conversa e a certeza de que o lucro do teste impressionaria a todos era bastante animadora.

"Sabe do que eu mais gostei? De quando os escravos começaram a correr e o sujeito não sabia o que fazer, se corria atrás deles ou de você.", comentou Kuronue.

"Foi a única coisa que me veio na cabeça quando senti ele voltar. Idéia boba, né? Mas deu certo."

"Pra ser ladrão é preciso saber improvisar, esqueceu? Nós faremos uma grande dupla, escreve o que eu estou te dizendo."

"Mas eu não sei escrever..."

"Maneira de falar, Kurama. Aliás, quando voltarmos, vou te levar nas aulas do mestre pra você aprender a ler. Ladrões precisam saber decifrar mapas, sabia?"

"Você disse que era pra eu ficar longe do mestre..."

"Isso foi antes. Tenho certeza que ele vai te aceitar..."

Antes de terminar o que estava dizendo, Kuronue viu que Kurama havia parado de andar.

"Que foi?"

"Olha lá."

Só então Kuronue reparou que havia algo no meio do caminho. Estava muito longe pra ver direito, mas parecia uma besta puxando uma carroça. Uma coisa era certa: não estavam sozinhos ali.

Kuronue se assegurou que seus pêndulos estavam a mão, enquanto Kurama buscava o punhal que havia acabado de roubar.

"O que a gente faz?", perguntou o youko.

"Vamos em frente, mas fique atento. Se eu mandar você correr, corra o mais que puder sem olhar pra trás, entendido?"

Kurama não respondeu. Apenas apertou o cabo do punhal com mais força.

Os garotos se aproximaram com firmeza. Demonstrar medo ou mudar de caminho naquela altura seria uma temeridade. Havia um grupo de youkais parado ao lado da grande carroça, alguns maiores, outros menores. Dava pra notar que já tinham dado conta da presença dos dois e também os aguardavam com igual ansiedade.

Kurama parou de novo.

"Que foi? Não podemos vacilar agora."

"Vamos voltar."

"Tá doido?"

Eles prosseguiram. Quando chegaram bem perto, foi a vez de Kuronue se espantar.

"Kurama, são youkos.", sussurrou.

Os estranhos os encararam de volta. Eram youkos, sem dúvida. Três adultos e duas crianças pequenas, que rapidamente sumiram de vista.

Kuronue os encarou de volta. Talvez eles soubessem sobre a família de Kurama.

"Vou falar com eles."

"Não.", protestou Kurama com veemência.

"Talvez eles possam te ajudar..."

"Ei, garotos!", alguém falou.

Kuronue se virou mas Kurama permaneceu como estava.

"Vocês por acaso conhecem essa região?"

"Claro."

"Sabem pra que lado é o rio?"

"Pra lá.", disse Kuronue, apontando para a direção de onde estavam vindo.

"Obrigado garoto."

"Vocês estão de mudança?", perguntou Kuronue, tentando ser amistoso.

"É pode-se dizer que sim... Seu amigo é meio anti-social, não?"

"Ele é..."

"Vamos, Kuronue! Vai anoitecer.", disse Kurama, virando-se repentinamente.

"Mas Kurama..."

Um quarto youko adulto surgiu de dentro da carroça. Era alto, tinha longos cabelos castanho-avermelhados e estava vestido de forma mais imponente do que os outros.

"Deixe os meninos irem."

Kuronue olhou intrigado as expressões no rosto do recém chegado e de Kurama. Podia jurar que eles já se conheciam.

"Estão esperando o que?"

Kurama puxou novamente o braço de Kuronue, que acabou cedendo. Os dois se afastaram sem dizer uma palavra.

 

Era noite e Kuronue havia encontrado um abrigo numa caverna desabitada. Se tudo corresse bem, estariam de volta no dia seguinte. Porém, apesar de todo o sucesso da expedição, o mal estar causado pelo rápido encontro com os youkos ainda não tinha se dissipado.

"Como é, não vai dizer nada?", perguntou Kuronue, quando finalmente se convenceu que Kurama não se manifestaria mais naquela noite.

"Dizer o que?"

"Porque fugiu dos youkos, por exemplo. E quem era aquele mais arrumadinho que ficou te olhando um tempão."

"Ele não ficou me olhando um tempão."

"Ficou sim. Puxa Kurama, eu só estava querendo ajudar... Tenho certeza que você não caiu do céu no meio daquela floresta..."

"Não sei o que deu em mim, me desculpe."

"Não se lembra de nenhum deles?"

"Não."

"Devia ter me deixado falar com eles. Você pode ter uma família por aí."

"Você é a minha família."

Kuronue riu. Talvez fosse melhor deixá-lo em paz por enquanto. A todo momento Kurama se lembrava de alguma coisa de seu passado, então o jeito era esperar que se lembrasse de alguém. Até lá, não se importava nem um pouco em continuar sendo sua família.

Uma vela ficou acesa durante a noite, apenas para iluminar levemente o local e espantar animais. Kuronue pegou no sono rapidamente, porém o mesmo não aconteceu com Kurama. E nem poderia... Sua cabeça estava por demais cheia com os últimos acontecimentos. Se por uma lado, queria entender o que estava errado, por outro sentia que era melhor que tudo permanecesse como estava. Só tinha uma certeza: aquele youko alto não lhe era desconhecido...