Capítulo 41: Promessa
A raposa atravessou o descampado como uma intermitente sombra prateada, tão rápida que dificilmente poderia ser seguida por olhos destreinados.
Ele precisava se apressar, mover-se no limite se seu corpo e energia. Teria tempo para descansar depois. Tudo que lhe importava era estar junto de Kuronue o mais breve possível.
Melhor reflexão o havia feito desistir de dar um fim em Kaizo. Mais um dia longo e aturdido deu-lhe para dar-lhe tempo de pensar que matá-lo não ajudaria seu parceiro, embora certamente lhe trouxesse uma grande satisfação pessoal.
Youkai idiota. Só mesmo a mais estúpida das criaturas rejeitaria um irmão como Kuronue.
Porém, de uma certa forma, aquele lamentável episódio serviu para alguma coisa. No momento em que se viu obrigado a se separar de seu amante quando ele ainda soluçava em seu ombro, se convenceu de uma vez por todas que já estava mais do que na hora de colocar um fim definitivo no jogo absurdo que sua vida havia se tornado.
Assim que avistou o rio, retornou para a forma de youko. Podia jurar que nunca havia corrido tão rápido em sua vida. Fizera em menos de uma manhã o percurso que antes lhe tomava quase um dia inteiro. Em compensação, teve que se deitar perto da margem por um tempo, até recuperar o fôlego. Não queria regressar parecendo um fugitivo em desespero...
Só desejava que Kuronue tivesse tido um dia suportável. Seria tão bom se ele tivesse conseguido dormir pelo menos um pouco. Não que realmente contasse com essa possibilidade, mas ainda assim, era tudo o que desejava.
Pelo sim pelo não, entrou na caverna bem devagar... Estava tudo tão... arrumado? Não julgou que Kuronue teria condições de tratar de alguma coisa naquele dia. Mais surpreendente, foi encontrá-lo sentando junto a um vão por onde penetrava a claridade, sentado calmamente, analisando com atenção os papéis que trouxera na véspera.
Os dois se abraçaram durante um tempo. Kuronue ainda estava trêmulo, apesar de não aparentar nem um décimo do abatimento que o dominara no dia anterior. Kurama não sabia bem o que pensar daquilo, então, se limitou a agir normalmente. Kuronue lhe fez várias perguntas sobre os mapas. Embora achasse que ainda era um pouco cedo para falar sobre a proposta, acabou adiantando alguma coisa, sempre evitando tocar nos pontos mais preocupantes.
"E você acha que o tal Oshi cumprirá a parte dele."
"Acho que sim, não entrego o espelho pra ele antes disso. Kuronue, eu quero fazer isso, mas..."
"Kurama, eu quero ir com você."
"Já disse que não quero te envolver. O problema é meu, não seu."
"Isso é o que você diz! O problema é meu sim. Quero ir com você, resolver isso de uma vez pra gente ir embora daqui."
"Kuronue... Não é como você está pensando... Diz isso por causa do seu irmão..."
"Não sou mais irmão dele, você não ouviu?... Só tenho você agora."
Os dois se olharam por um instante. Então, Kurama se aproximou e o abraçou.
"Vamos fazer isso juntos sim. E vamos pra bem longe daqui..."
Amantes...
Aquela palavra não saia do pensamento de Kaizo desde o maldito dia em que chegou a acreditar que finalmente se livraria do youko.
Agora nada mais adiantaria. Aquele maldito havia conseguido tudo que queria. Enquanto desejasse Kuronue, não o deixaria ir. Conhecia seu irmão o suficiente para saber que seria assim.
E pensar que se julgou possuidor do maior dos trunfos. A misteriosa carta, que tanto havia jurado que não iria ler... Dificilmente se deixava vencer pela curiosidade, mas a idéia de que tal bilhete pudesse representar algum perigo para Kuronue o convenceu a tomar conhecimento de seu conteúdo.
Entre muitos borrões e alguns símbolos que desconhecia, vislumbrou naquela mensagem uma chance de ter devolta a companhia do irmão. No entanto, a realidade a que fora apresentado era contundente demais para ser desfeita por aquelas palavras.
Para onde a raposa fosse, levaria Kuronue com ele.
Sentado no mesmo canto de onde se recusava sair, Kaizo pensava no que fazer. Pesar e remorso pareciam sufocá-lo por dentro. Com ou sem amante, sabia bem lá no fundo que perdera seu irmão para sempre. Ele havia crescido, e escolhido seu próprio caminho.
Talvez, ninguém tivesse culpa se suas vidas haviam tomado rumos opostos... Nem mesmo um certo youko problemático chamado Kurama.
Foi quando uma sensação estranha o tomou de assalto. Era como uma voz lhe dizendo que se não falasse com Kuronue naquele momento, não o faria nunca mais.
Ele guardou o pingente num bolso e saiu sem olhar para trás, deixando sobre o colchão um pedaço de papel amarelado.
Uma carta que jamais chegaria a seu destino.
Já era noite.
Kurama havia enchido as paredes da caverna de pequenas flores luminosas. Naquela noite, não teria que voltar à vila, o que não significava que pudesse descansar.
Havia muito a ser feito.
Kuronue havia passado a tarde inteira debruçado sobre os mapas que Oshi, ou melhor Hekel lhes fornecera. Nada menos do que a localização da fortaleza do bando de ladrões mais violento e sanguinário do leste do Makai, um grupo de bárbaros com organização militar. Dizia-se que funcionavam como um formigueiro e atacavam como um enxame de gafanhotos. Se queriam uma vila, nada os impediria de destruí-la até a última casa. Felizmente, pareciam fora de atividade há um bom tempo. Mesmo Kurama nunca havia ouvido falar sobre algum ataque recente deles, mesmo depois que passou a freqüentar o mercado negro de tesouros roubados. Ouvira dizer que os líderes haviam passado a se dedicar a ações mais audaciosas, como o tráfico de escravos para o Ningenkai.
Porém, perigosos ou não, eram em poder deles que se encontrava o objeto que lhes garantiria a paz com que tanto sonhavam. E nem todas as lendas do Makai os impediriam de ir em frente em seu intento.
A dupla estava concentrada em seus planos quando Kaizo apareceu novamente. Kurama se limitou a encará-lo por alguns instantes antes de deixá-lo a sós com o irmão. Sentado do lado de fora da caverna, sua cabeça se dividia entre seu parceiro e a missão a sua frente. Embora Kuronue demonstrasse confiança, algo lhe dizia que não seria tão fácil.
Ele sabia que, do lado de dentro, os irmãos estavam se entendendo novamente. Se consolou em pensar que seria melhor para Kuronue, embora não estivesse mais disposto a ter a mesma boa vontade em relação a Kaizo. De qualquer modo, não iria interferir. De nada adiantaria de qualquer jeito...
Um bom tempo havia se passado quando o youko sentiu a presença do irmão de Kuronue ao seu lado. Esperou que ele se sentasse ao seu lado, só depois olhou para ele.
"Queria conversar com você antes de ir embora... a sós.", disse o youkai de asas negras.
"Pode falar."
"Não é bem uma conversa. Na verdade são dois pedidos."
"Deixa ver se eu adivinho... Se afaste de Kuronue e suma daqui?"
"Não... não é isso. Queria te pedir pra você tomar conta dele pra mim. Pode não acreditar, mas não foi fácil para mim manter a família unida desde que Kuro foi expulso da nossa vila....", começou Kaizo antes de fazer uma pausa.
Ele olhou para frente e continuou.
"...Não era a minha intenção... Nós vivíamos no sul do Makai, onde não há nada além de trovões no céu. Se nunca esteve lá, nem precisa ir... Não há água, nem lagos, nem árvores... Só casebres caindo aos pedaços e falta de comida. Mesmo assim, minha família teve uma vida boa até o meu pai desaparecer... No sul, nenhum adulto se importa muito com os mais jovens, é cada um por si. Mas meu pai era diferente. Ele conversava comigo sobre uma porção de coisas... Me dizia que até no Makai uma criatura tem que tentar ter uma vida decente... Depois que ele desapareceu , minha mãe teve que por os filhos mais velhos para fora de casa porque não havia comida para todos. Eu estava entre eles. Não sei porque mas fui o único a ficar na vila... Acho que tinha esperança que ela me aceitasse de volta, sei lá... Fiquei com muita raiva quando ela pôs outro no lugar no meu pai. Ele parecia um bom marido, mas também não queria um filho que não era dele. Não deixava eu chegar nem perto de casa... Um dia aquela porcaria de vila foi atacada. Eu fugi e quando voltei me disseram que a minha mãe e companheiro dela estavam mortos e que eu tinha um irmão pequeno... Eu não dei a mínima. O pai dele não me acolheu, por que eu faria isso?... Não sei porque mas acabei levando o guri para o que sobrou da minha casa. O que mais me irritava é que por mais que eu o desprezasse, ele estava sempre sorrindo para mim... Dividia comigo a comida que roubava, dá pra acreditar? Quando o expulsaram de lá, cheguei a agradecer ao destino... Uns dias depois, fui embora com ele. Nunca nos separamos depois disso..."
Pela primeira vez, Kaizo olhou bem nos olhos de Kurama.
"...Criar Kuronue foi a única coisa decente que eu fiz na minha vida... Te contei isso tudo, porque queria que entendesse o quanto ele é importante pra mim."
"Eu entendo..."
"A outra coisa que eu quero te pedir é quanto a essa idéia maluca de roubar os ladrões. Não me olhe com essa cara, Kuro não me contou tudo mas deu pra deduzir bastante por aqueles mapas..."
"Não me leva a mal, Kaizo, mas isso não é da sua conta.", respondeu Kurama, se levantando.
Porém, Kaizo o seguiu, até parar a sua frente.
"É uma loucura completa, Kurama, será que você não percebe?! Se forem pegos serão feitos em pedaços! Você já é ladrão há tempo suficiente para saber que tentar roubar de outros ladrões é morte certa!"
"Vamos ter cuidado. Vai ser um ataque bem planejado. E eu não estou obrigando Kuronue a ir.", despistou o youko.
Conversar com Kaizo era uma coisa. Ter que lhe dar satisfações outra completamente diferente.
"Kurama, se você ama o meu irmão como diz que ama, desista disso. Disso e de toda essa loucura antes que ele acabe pegando pelos seus erros..."
"Já que entende tanto dos meus erros, o que espera que eu faça?"
"Você sabe o que... Proteja ele com vem fazendo até agora."
Kurama o encarou incrédulo.
"Isso mesmo que você entendeu. Deixe Kuronue longe disso. Se entenda com o mestre da maneira que achar melhor, deixe-o feliz e siga a sua vida. Sabe melhor do que eu sobre quem a ira dele recairá se, mesmo que este roubo insano dê certo, o resto não aconteça como vocês esperam..."
"Não posso fazer isso..."
"Por que não? Diz que ama o meu irmão, não diz? Pense que ao menos agora terá um motivo digno para ser amante do mestre..."
"Vai embora daqui, Kaizo. Suma da minha vista antes que eu esqueça que é irmão de Kuronue..."
"Eu vou sair sim, mas não antes de você me garantir que não vai levá-lo no roubo. O problema é seu e ele não tem que arriscar o pescoço por isso! Ou será que você quer matar dois amantes pelo preço de um?"
Por um momento, Kurama pensou que fosse mesmo matá-lo. Bastaria um único movimento, ou até menos.
"Você morre de raiva de mim, não é Kaizo? Porque por mais que tenha deixado de viver a sua vida para viver a do seu irmão, ele me ama muito mais do que a você... Pois pode ter certeza de uma coisa nessa sua vidinha miserável. Hoje foi o último dia que o viu. Nós vamos embora daqui, e eu vou cuidar para que em pouco tempo ele nem sequer se lembre que um dia você existiu."
"Realmente, não sei o que Kuronue viu em você. É um grande ator, Youko Kurama. Devia se orgulhar disso... Não vou mais perder meu tempo com você. Nem tampouco vou me impressionar com sua ameaça tola. Uma criatura feito você não tem mesmo a menor condição de entender o que é o elo entre duas pessoas que se amam... Ah, já ia esquecendo de te dar o aviso..."
"Fala logo e se manda."
"Posso não ser cheio de truques como você, mas também tenho meus trunfos. O maior deles sempre foi a perseverança... Eu nunca desisto do que começo. Se alguma coisa acontecer com o meu irmão, vou te caçar até o fim, está entendendo? Pode levar mil anos, não importa. Vou ser sua sombra para o resto da sua vida..."
Assim que Kaizo se distanciou, parou, sentindo o corpo todo formigar. Suas asas tremiam tanto que o ferimento recente voltou a sangrar. Seu desejo era de voltar lá e resgatar seu irmão a qualquer custo, mas sabia que seria inútil... Tudo o que lhe restava era pedir aos deuses que protegessem Kuronue. A sensação estranha voltou a dominá-lo, um mau presságio que não o abandonaria tão cedo.
Cinco dias se passaram.
O plano estava pronto. Quase tudo havia sido engendrado por Kuronue. Kurama nunca o havia visto tão empenhado em sua vida. Seria uma ação muito rápida e furtiva. O mapa havia revelado algumas falhas na segurança da fortaleza. Se tudo desse certo, entrariam e sairiam tão rápido, que quando fossem notados, já estariam fora do território do bando.
Kurama teve que dar o braço a torcer que, num caso como aquele, seria necessário evitar o todo o custo o confronto direto. Os ladrões eram muitos, centenas pelo que ouvira falar. Além disso, todo o território era protegido por um poder muito forte, que praticamente anularia sua capacidade de controlar vegetais. A habilidade física seria tudo com o que poderiam contar. Por garantia, Kurama havia treinado um pouco com chicotes comuns, feitos de couro. Levaria dois e um punhal afiado. Kuronue não teria problemas em usar os pêndulos. Contudo, ambos sabiam que, se o pior acontecesse, nada disso poderia ajudá-los...
O dia do ataque se aproximava e a tensão havia crescido consideravelmente. A todo o momento checavam novamente os mapas, e repassavam o plano. Além disso, houve algumas falhas de última hora. O modo escolhido por Kurama para se livrar dos encontros com Najah quase pôs tudo a perder. Três dias antes do combinado ele ingeriu uma raiz tóxica em quantidade segura para parecer doente sem estar. Najah acreditou no pequeno golpe, mas Kurama vomitou até a véspera, obrigando-os a adiar o plano por mais dois dias. Depois foi a vez de uma inexplicável vermelhidão nos braços de Kuronue forçar novo adiamento. Por fim, o dia fatídico ainda foi protelado uma terceira vez, desta vez, por um motivo que, de inicio, não foi revelado a Kuronue.
Era como se o destino operasse contra eles...
"Para onde você está me levando?", perguntou Kuronue ao se ver sendo levado para um recanto remoto da floresta.
"É surpresa. Não seja tão curioso. Você já vai ver..."
Os dois prosseguiram por mais algum tempo.
"É aqui.", revelou Kurama sorrindo.
"Aqui o que? Só vejo árvores e mato. Não estou entendendo."
"Olhe para cima."
Kuronue levantou os olhos. Havia uma espécie de casa de madeira presa ao tronco largo da mais alta das árvores, como se estivesse encaixada em seus galhos.
"Então, gostou?"
"Tem uma casinha lá em cima?"
"Vem comigo."
"Ma... mas é alto..."
Kurama deu um risinho e puxou seu parceiro, segurando-o com força... Subitamente, o chão começou a subir. Kuronue só percebeu a tempo de fechar os olhos a grudar ainda mais no youko. Assim que se viu dentro do pequeno quarto, quase não pode acreditar no que havia acontecido. Demorou um pouco até que compreendesse as explicações de Kurama, qualquer coisa sobre cordas, roldanas e contrapesos, que lhe pareceram ridículos perto do deslumbramento que aquele lugarzinho apertado lhe despertou.
Agora entendia a razão do adiamento sem motivo...
Todos os objetos que seriam usados no roubo já estavam lá, bem como a maioria de suas roupas e utensílios de uso freqüente. Um pouco sem graça, Kurama informou que não houve tempo para fazer a mudança completa...
Havia também um colchão largo e macio, forrado por um tecido tão suave que parecia pertencer a um rei. Pequenas flores luminosas quebravam a escuridão. Mas, sem dúvida, o que mais admirou Kuronue foi o teto. Ao invés de completamente fechado, como era usual, havia nele inúmeras janelas que lhe permitiria apreciar as estrelas mesmo deitados.
"Nunca pensei que um dia veria o céu pelo teto de casa...", disse Kuronue sorrindo, sentado sobre o colchão.
"Achei que nossa última noite nesta floresta tinha que ser em grande estilo..."
"Então foi isso que andou aprontando o dia inteiro?"
"Gostou?"
"É lindo."
"Tem outra coisa pra te dar... Fiquei na dúvida se faria ou não. Mas não se empolgue, acho que não ficou muito bom...", continuou Kurama, tirando o pingente de Kuronue de dentro da camisa.
"Você consertou o colar!", exclamou Kuronue colocando-o no pescoço de imediato, "... obrigado Kurama... Significa muito pra mim."
"Eu sei... Vai entender... "
Kurama se sentou e Kuronue o puxou para um beijo como há muito não tinha a oportunidade de trocar. Como era bom poder ter uns momentos de tranqüilidade antes do que vinha pela frente... No entanto, Kuronue se afastou antes que não pudesse mais parar de beijá-lo.
"O que houve?"
"Nada. É que eu também tenho uma surpresa pra você..."
"Pra mim? O que é?", perguntou Kurama olhando em volta.
Kuronue esticou as asas e se reclinou para trás, apoiando-se nos cotovelos.
"Vem aqui procurar, vem...", convidou com um sorriso maroto.
Kurama riu, animado com a perspectiva de algum joguinho amoroso. Se ajoelhou, encaixando-se entre as pernas de seu amante e começou a puxar a cordinha que prendia o colete.
"Kuronue e suas roupas chatinhas...", murmurou, em tom brincalhão ao constatar a dificuldade de desfazer tantas voltinhas sem arrancar tudo de uma vez.
Foi quando mirou de relance uma manchinha escura situada no peito de Kuronue, entre o ombro e o mamilo esquerdo.
"O que é..."
O youko piscou e puxou o tecido até tirá-lo totalmente do caminho. Havia um desenho pequeno, pouco maior do que um polegar, gravado na pele de Kuronue.
Uma raposa.
"Achei que não era justo você ser o único tatuado..."
"Mas... Como, quer dizer quando..."
"Ora, pare de falar... Não vai terminar o que começou não?", insinuou-se, olhando de relance para o colete semi-aberto.
Kurama penas sorriu, antes de tascar uma lambida bem em cima da tatuagem de raposa.
Kuronue acordou sentindo como se tivesse dormido uma noite inteira. Demorou um tempinho até que reconhecesse onde estava. As flores luminosas já haviam se apagado, mas o luar sobre as janelinhas do teto era mais do que suficiente para manter o quarto tão bem iluminado quando qualquer claridade artificial.
Então, Kuronue finalmente se lembrou do que o fez despertar, um sonho que não tinha desde que era criança. Era tudo tão estranho... Quis acreditar que estava apenas estranhando o lugar mas, em pouco tempo, a sensação angustiante que o havia torturado há alguns dias atrás voltou a se manifestar.
Não podia ser... Não depois de uma noite tão maravilhosa...
Consciente de que não havia escapatória, ele apelou para a solução testada da última vez. Abraçou seu amante, torcendo para que, como da outra vez, não o despertasse.
"Kuronue? Tudo bem?", perguntou Kurama com voz sonolenta, correspondendo o abraço com um leve afago em seus cabelos.
"Vai passar... Me deixe ficar assim só mais um pouco..."
Eles permaneceram naquela posição até que Kuronue recuasse, sentando-se com expressão aliviava.
"O que aconteceu?", insistiu Kurama, sentando-se também.
"Nada... acho que é só loucura minha... Não sei explicar... É a segunda vez que eu acordo no meio da noite sem motivo nenhum.... Aí eu fico olhando pra você e me dá uma sensação horrível..."
"Me olhar te dá uma sensação horrível??"
"Não... Não é bem assim... É que toda a vez que eu te vejo dormindo me dá a sensação que vai ser a última..."
Kurama o olhou por uns momentos e depois sorriu com indisfarçável ternura.
"Se isso já aconteceu várias vezes e eu continuo aqui, é porque não é nada demais, não acha?"
"Você e suas explicações racionais para tudo..."
Kurama voltou a se deitar.
"Deita aqui junto de mim que passa."
Kuronue não pensou duas vezes antes de aceitar o convite. Não havia lugar no mundo em que se sentisse melhor do que entre os braços de Kurama.
"Kurama?", perguntou instantes depois.
"Hn?"
"Está muito cansado?"
"O que quer dizer?", perguntou, olhando seu amante nos olhos como se já adivinhasse a resposta.
"É que... eu queria muito... que você fizesse amor comigo mais uma vez."
Kurama se ergueu virando-se devagar até que seu corpo descansasse reclinado sobre o de Kuronue. Jamais havia visto aquela expressão nos olhos dele... Chegou a ficar de coração apertado.
"Quantas vezes você quiser...", respondeu com leve ar de convencimento, ao mesmo tempo em que disfarçava sua própria inquietação.
"Eu amo você."
"Também te amo."
"Kurama..."
O youko voltou a olhá-lo nos olhos. Se alegrou ao constatar que parte daquele peso já o havia deixado.
"... Se alguma coisa, um dia, de..."
"Nem pense em dizer isso...", interrompeu, envolvendo-o com força, "... Tudo vai acabar bem, você vai ver... Vamos para bem longe, onde poderemos ficar juntos para sempre... eu prometo."