Capítulo 40: Segredos e Mentiras
"Kaizo?", chamou com voz fraca o jovem youkai parado junto à entrada do quarto.
"Enzo...", murmurou o youkai erguendo o corpo, como se não pudesse conversar deitado.
"Acordei você? Como se sente?"
"Estou bem. Pode entrar."
Enzo entrou e se sentou ao lado de Kaizo com uma expressão bastante animada.
"Você parece bem melhor hoje. Kuronue vai ficar contente quando te ver."
"Onde ele está? Já é dia?"
"Já amanheceu, mas ainda é cedo. Kuronue saiu ontem a noite. Disse que ia lá na tal caverna onde Kurama está morando. Deve ter dormido por lá..."
"Ah... Acho que estou lembrando... Ele não devia ter saído sozinho a noite..."
"A gente falou, mas ele nem ligou..."
"... Ele sabe o que está fazendo."
"Kaizo... Tenho uma coisa pra te contar. Acho que deve ser importante..."
"O que é?"
Enzo limitou-se a lhe estender um pedaço de papel grosso, dobrado em formato retangular. Assim que o segurou pode ver pequenas letras grafadas na parte superior.
"Está escrito Youko Kurama."
"Foi o que imaginei... É uma mensagem para eu entregar pra ele."
"Quem te deu isso?"
"Fui na vila ontem a noite, na taverna... comprar provisões. Vou lá sempre. O sujeito que trabalha lá..."
"Kitou."
"Esse mesmo. Ele disse que tinha alguém com uma mensagem... É... Bom. Ah, vou falar de uma vez. Um dia, eu estava meio alto e... andei espalhando que era do bando de ladrões do Kurama..."
"Que? Que bando?"
"Desculpe Kaizo... Naquele dia... Tava cheio de gente lá pra paquerar sabe? Ninguém me olhava mas estavam todos falando do Kurama como se ele fosse um deus dos ladrões, um grande coisa... Foi aí que eu inventei essa estória... de que éramos um bando e Kurama o nosso chefe..."
Kaizo arregalou os olhos incrédulo.
"Kaizo... diz alguma coisa..."
"Seu... idiota. Mas como pode ser tão burro, inconseqüente..."
"Mas... mas... saiu sem querer, eu juro! Não tive a intenção de fazer mal... e também não é tão sério assim..."
"Não é sério?? Por acaso você tem a menor idéia do que fez? Colocou a cabeça de todos nós a prêmio!"
"Eu????"
"Droga, se não fosse aquele estranho eu teria sido a primeira vítima dessa sua mentira estúpida. O mestre não está aqui pra nos ajudar... Vai ficar furioso quando souber disso e sou eu quem vai ter que responder pela sua insensatez!"
"Me perdoe... Eu nunca pensei..."
"Raio... Pior é que não dá nem pra desmentir agora... Do jeito que as notícias se espalham naquela taverna maldita..."
"Pode não ser tão ruim... Olha, não disse que éramos daqui... Só queria que me dessem atenção..."
"Espero que goste mesmo de atenção Enzo, porque vai ter muita daqui pra frente..."
"Kaizo, eu... eu... sinto tanto..."
"Não adianta choramingar agora. O estrago está feito... E o que é isso? Recado para o seu... chefe?", disse Kaizo com uma ponta de ironia enquanto examinava melhor o papel.
"Não sei bem o que é... Sabe que não sei ler... Kitou me apresentou para uma garota youko. Tão linda... Achei que ela queria ficar um pouco comigo por eu ser do... bando de Kurama, mas ela só me pediu pra entregar isso pra ele. Disse que era muito importante. Eu prometi que entregava... Mas aí pensei se não era melhor te mostrar primeiro... Você sabe ler e..."
"Está pensando o que agora, desmiolado? Que vou ler uma mensagem que não é minha?"
"E qual é o problema?"
"Não é uma coisa que alguém com o mínimo de dignidade faça... Mas isso deve ser demais pra sua cabecinha de qualquer jeito..."
"Um...tá... Devo entregar pra ele então?"
"Pode deixar a mensagem comigo. Kuronue entrega pra ele..."
"Ah... Seu irmão está sempre com ele, né?"
"Enzo, me faça um favor. Diga a todos que vai ter uma reunião essa noite. Precisamos pensar em como resolver essa confusão em que VOCÊ nos meteu... Agora suma daqui. Não preciso de babá."
Enzo ainda pediu desculpas mais algumas dezenas de vezes antes de deixar Kaizo a sós com seus pensamentos. Agora sim, tinha muito com que distrair a mente. Ele, membro do bando de Kurama... E pensar que quase fora morto por isso... Maldita hora em que Najah se desinteressou dos garotos. Estavam ficando tão estúpidos que só faltavam mugir...
Ele se surpreendeu com a facilidade com que se levantou. Estava praticamente recuperado, apesar da asa imobilizada. Melhor seria aproveitar o ar fresco da manhã enquanto os outros não acordassem.
Ao contrário da vez anterior, se sentou no local mais discreto que pode encontrar nas imediações da entrada do subterrâneo. Era uma manhã bastante agradável... detestaria ver aquela calmaria interrompida tão cedo. Por mais que tivesse se afeiçoado a alguns dos garotos, ainda preferia ficar só do que aturar suas conversas superficiais e sem graça.
Sem querer, seus olhos escorregaram para o papel preso em seu cinto. Uma mensagem para Kurama, provavelmente de algum negociador de mercadorias roubadas... Entregue por uma garota youko? Não, Enzo não sabia distinguir um maijjin de uma koorime... Mas, de qualquer modo, era estranho que alguém mandasse para ele uma mensagem escrita... Podia ser algo grave, algo que envolvesse seu irmão, talvez...
Kaizo cruzou os braços e olhou para longe. Não, não tinha o direito...
Com todo cuidado, Kuronue apoiou-se de lado, sobre um cotovelo. Não queria que algum movimento mais brusco viesse a acordar Kurama, que ainda dormia ao seu lado. Contudo, teve a sensação que nem um desabamento poderia acordá-lo. Haviam papeis espalhados ao lado dele assim como o que restara de uma daquelas florzinhas luminosas. Estava claro que ele havia passado a maior parte da noite acordado...
Kuronue abaixou a cabeça envergonhado... Como podia dormir desse jeito e nem dar conta do que se passava ao seu redor?
"Que porcaria de parceiro que eu sou...", murmurou para si mesmo, antes de se sentar com a mesma cautela do movimento anterior.
Kurama estava na beira do leito improvisado. Tão próximo do chão que um dos braços pendia para o lado de fora. Constatar isso não ajudou a apaziguar a consciência de Kuronue. Com certeza, além de ter dormido feito um morto a noite inteira, o tinha empurrado também...
Rapidamente, ele se levantou e deu a volta ao redor do colchão. Depois, passou os braços por baixo do peito de Kurama e o empurrou bem devagar até o canto. Não tinha intenção de voltar a se deitar. Já tinha dormido até demais... Porém, o espaço que surgiu ao lado dele lhe pareceu tão convidativo que não resistiu e se deitou novamente. Como já era de manhã, pensou que sua presença ali podia ao menos evitar que a luminosidade batesse em seu rosto.
Desculpa boba, a caverna era escura de qualquer maneira...
Na verdade, o que queria mesmo era ficar ali, vendo seu amante dormir. Pensando bem, foram muito poucas as oportunidades que teve de fazer isso. Sempre dormia antes do que Kurama e, ainda que acordasse primeiro, acabava invariavelmente aproveitando o tempo para adiantar alguma tarefa pendente. Como fora tolo... Mesmo assim, sorriu ao pensar que, ao menos, havia ainda muito tempo para remediar esse deslize.
O sorriso desapareceu de seu rosto. Tão rápido que nem ele entendeu porque...
Se estava tão bem acomodado, ao lado de alguém que amava tanto, desfrutando de um precioso momento de paz, por que subitamente sentia como se o coração estivesse sendo espremido dentro do peito?
Quando deu por si, estava quase chamando por Kurama... Parou, um tanto perplexo ante a própria atitude. Não podia acordá-lo só porque estava com uma sensação ruim. Então, apenas colou seu corpo ao dele, lutando contra a parte de seu mente que o incitava a despertá-lo de qualquer maneira, mesmo que fosse sem querer.
Kuronue passou mais algum tempo tentado se distrair com as longas mechas prateadas, com as orelhas que se mexiam a cada toque, mas aquele estranho desconforto teimava em persegui-lo de forma cada vez mais impiedosa e angustiante.
E, quando deu por si, estava abraçado a ele, sem se importar com mais nada. Envolveu-o com os braços, encostou o rosto em seu pescoço, deixou que os dedos se enterrassem em seu cabelo. Podia estar se comportando como uma criança medrosa, mas o fato é que em instantes a pressão em seu peito foi diminuindo, assim como o peso daquela aflição inexplicável.
Kurama se moveu, chegou até a retribuir-lhe o abraço, mas não acordou.
E, tão misteriosamente como surgiu, a sensação desapareceu.
Aliviado, Kuronue, afastou-se um pouco, voltando a temer pelo sono de seu companheiro. Porém, continuou mantendo um braço embaixo do pescoço dele, com pena de privá-lo do "travesseiro". Não se importava. Serviria de colchão se preciso fosse.
Ele se aproximou novamente, desta vez, para um beijo leve, que mal chegou a tocar os lábios de Kurama.
Foi quando notou que a sobra de sua asa não era mais a única a bloquear a luz tênue que insistia em alcançá-los naquele local...
"Irmão... Não faça assim comigo... Diga alguma coisa, qualquer coisa.... que está decepcionado, que me odeia, mas não fique calado aí como se eu não estivesse aqui!", implorou Kuronue, tentando mais uma vez arrancar alguma reação de Kaizo.
Em parte, aquilo era tudo sua culpa. Se tivesse contando a ele antes, teria evitado toda aquela cena. Agira como um covarde, e agora estava pagando o preço por sua fraqueza.
E, agora que a verdade viera a tona, se agarrava a esperança de que finalmente poderia ter com ele uma conversa franca a respeito de Kurama, sem nenhuma restrição, nenhum segredo... Por ela, foi capaz de expulsar Kurama do local onde estavam, de conter seu desespero e de expor de uma vez só todos os sentimentos, toda a verdade que vinha ocultando de Kaizo desde que amou o youko pela primeira vez.
Porém, nem apatia com que Kaizo o ouvira lhe parecia tão devastadora quanto a expressão desolada com que era encarado naquele momento. Kuronue engoliu as lágrimas. Precisava prosseguir até que chegassem a algum lugar, nem que para isso tivesse que deixar pedaços de sua alma pelo caminho.
"Kaizo... Eu não quis que fosse desse jeito... Mas agora que sabe de tudo, por favor, tente me entender..."
Ele fez uma pausa. Ainda restava um último argumento.
"... Você já amou alguém. Em algum lugar no seu coração, deve saber como eu me sinto..."
O primeiro olhar direto de seu irmão o impediu de continuar. Era como se a fisionomia de Kaizo tivesse sofrido uma metamorfose... Kuronue não pode mais segurar as lágrimas ao reconhecer o sentimento revelado no rosto de seu irmão, a mais simples, pura e indisfarçável raiva.
"Mano...", murmurou, assim que se viu frente a frente com Kaizo.
"Você mentiu pra mim por mais de dois anos, me enganou... E agora vem me dizer que eu tenho que entender essa imundice que você chama de amor. Acha que amor é isso, algo que se esconde com essa naturalidade de alguém de quem você se diz irmão? Quer que eu diga alguma coisa sobre isso? Pois bem... Estou me lixando para o que o mestre está fazendo. Tenho até pena dele por precisar tanto de uma criatura feito esse youko. Quanto a você, não me interessa se foi enfeitiçado, seduzido ou se optou pelo estilo de vida dele porque para mim você morreu."
"Kaizo... Não está falado sério..."
"E tem mais uma coisa..."
Paralisado, Kuronue limitou-se a seguir com olhos aterrorizados a mão de seu irmão se fechar em torno do pingente pendurado ao seu pescoço.
Em seguida, o estalo atrás de seu pescoço.
"... você não merece mais usar isso."
Kuronue sentiu as pernas falharem, mas não fez nada para se manter de pé. Foi sentado no chão que viu Kaizo desaparecer entre os arbustos da floresta.
"O que há de errado com ele agora? Marcou uma reunião e não vai aparecer?", esbravejou Enzo se, contudo, esconder uma ponta de satisfação.
"Não sei... ele disse que não vinha... e me mandou embora.", repetiu Koji tristemente.
"Ora, deixe isso pra lá...", interveio um dos jovens, "... o que quer que seja, podemos discutir outro dia."
"Eu concordo. Kaizo quase foi morto há dois dias atrás, vamos dar uma folga pra ele. Sabe do que se trata, Enzo?", disse outro youkai.
"Euu???"
"Foi com você que ele falou da reunião, não foi?"
"É... Foi, claro... Mas não sei o que é."
"Estão vendo? Não deveria ser nada demais. Estou indo... Fui!"
Assim que o grupo se dispersou, Koji voltou para junto da entrada do quarto de Kaizo. Ainda tinha esperança de dormir em seu colchão naquela noite.
Ele se deitou ali mesmo, numa posição em que podia espiar o youkai de asas negras que jazia estático no canto mais afastado. Ainda estava do mesmo jeito que o havia encontrado antes. Se ao menos pudesse entrar e conversar com ele... Mas tinha medo de ser expulso novamente.
Até que o chão não estava tão duro, pensou, acomodando-se melhor para a longa noite a sua frente.
Em algum momento naquela madrugada, Kaizo se moveu. O quarto estava muito escuro e ele não fazia idéia de quanto tempo havia se passado desde que se deitara ali.
Acendeu a luminária mais próxima. Em pouco tempo, o cômodo foi preenchido por uma luz fraca, porém suficiente para fazer seus olhos arderem.
Koji não estava em seu colchão, e sim estendido no corredor ao lado da entrada. Silenciosamente, ele se aproximou. Não evitou de pensar no quanto aquela criança lhe lembrava Kuronue quando tinha a mesma idade, apesar das aparências tão diferentes... Levantou-o com cuidado e o levou para seu colchão. Depois, retornou para o canto. O pingente de Kuronue ainda estava jogado no mesmo lugar. Ele o segurou, lembrando-se daquele dia, num passado distante, em que seu pai o deixara tocá-lo pela primeira vez, um dia antes de desaparecer de sua vida para sempre.
No entanto, não pode admirá-lo por muito mais tempo. A luz se extinguiu ao mesmo tempo em que as lágrimas voltaram a turvar seus olhos.