Capítulo 4: Parceiros

O início do aprendizado de Kurama foi mais lento e complicado do que Kuronue poderia supor. As dificuldades de comunicação pareciam insuperáveis e nos primeiros dias o youko não conseguia sequer andar direito sobre as duas pernas. Por mais que Kuronue fosse cuidadoso, Kurama estava sempre se desequilibrando e caindo. Outro desafio considerável foi ensiná-lo as mais básicas regras de convivência, como usar roupas e comer de maneira civilizada. Por sorte, parecia não haver nada que a infinita paciência de Kuronue não pudesse dar um jeito.

No começo, Kuronue teve muita ajuda. Os jovens habitantes do subterrâneo se divertiam ensinando Kurama um amontoado de bobagens como cuspir a distância e repetir palavrões. Para alívio de Kuronue, seus colegas pararam assim que a presença de Kurama deixou de ser novidade.

Por sua vez, Kaizo foi o único que não se importou desde o início. Achava um absurdo seu irmão perder tanto tempo com aquela criatura tão fraca e insignificante. Para ele, Kurama até teve sua utilidade como raposa, mas como youko não passava de um peso morto.

Najah jamais voltou a se manifestar a respeito de Kurama mas por via das dúvidas, Kuronue continuava mantendo seu amigo o mais longe dele possível. Precaução pura e simples.

 

Era mais um dia enfadonho para Kaizo, o que não chegava a ser uma novidade. Desde que o youko havia surgido, seu irmão não fazia outra coisa a não ser pajeá-lo o dia inteiro. Há meses não roubavam uma agulha sequer. O por do sol se anunciava e só haviam alguns poucos lugares onde a inseparável dupla poderia estar. Kaizo acabou os encontrando no lago. Aparentemente, seu irmão estava ensinando o youko a nadar. Só faltava essa...

"Kaizo! Vem ver o que eu ensinei pro Kurama."

Kaizo suspirou. Não via a hora de seu irmão se cansar daquilo.

"Preciso falar com você, Kuro."

"Já vou, já vou! Olha só uma coisa antes... Vai Kurama! Faz de novo!"

O youko mergulhou até desaparecer e voltou a tona mais adiante. Depois voltou do mesmo jeito.

"Viu como ele já está nadando bem?"

"Raposas nadam bem, Kuro...", respondeu Kaizo secamente, "... Será que podemos conversar agora."

Kuronue fingiu que não ouviu.

"Vem Kurama! Vamos sair da água. Está esfriando."

Kaizo só ficou observando enquanto seu irmão ajudava o youko a se secar e se vestir.

"É irmãozinho... Você é uma ótima mãe!", comentou ironicamente.

"Ele é meu amigo, Kaizo, e não sabe fazer nada sozinho. Depois, o mestre disse que sou o responsável até que ele aprenda as coisas."

"Do jeito que ele é burrinho, você vai continuar com esse encargo por muito tempo."

"Ele não é burro! Aprende tudo que eu ensino rapidinho."

Kaizo desviou seu olhar para o youko que, sentado no chão, lutava uma árdua batalhar para vestir um colete.

"Tô vendo..."

"Bom, ele ainda se atrapalha com as roupas de vez em quando...", emendou Kuronue meio sem graça.

"Manda ele vir aqui, Kuro. Quero dar uma olhada nele."

Kuronue levou Kurama até seu irmão, mas o youko insistia em se esconder atrás dele.

"Ele é bem bonitinho, né? Sabe que desde que voltou a ser youko já cresceu três dedos. E olha que isso só tem 27 dias. Mas também, se você soubesse o quanto ele come..."

"Acho que o mercador de escravos daria um bom dinheiro por ele."

"KAIZO!!"

"Não falei sério, irmão. Só queria ver a sua cara de mãe aflita."

"Assim você assusta ele."

"Ele? Duvido que tenha entendido alguma coisa."

"Duvida porque não foi a sua asa que ele apertou... Afinal, qual é a conversa que você queria ter comigo?"

"Tem treinado com os pêndulos?"

"Sabe que não."

"Droga, Kuro. Daqui a pouco você não vai saber fazer mais nada além de bancar a babá! Bom, mas não foi sobre isso que eu queria te falar. Tem uma caravana acampada perto da trilha. Nós podíamos ir até lá hoje a noite..."

"Não posso, Kaizo. Não dá pra confiar em deixar ele sozinho ainda."

"Não seja ridículo! Sabe lá quanto tempo ele não viveu sozinho antes de você encontrá-lo."

"É diferente. Ele confia em mim agora."

"Kuro, será que você já parou pra pensar no absurdo que virou a sua vida? E o pior é que eu como seu parceiro tenho que arcar com as conseqüências dessa maluquice."

"Não seja dramático! Olha, vamos fazer o seguinte: enquanto Kurama não puder se virar sem mim, você pega o Tieko pra seu parceiro. Assim você não se prejudica com a minha maluquice."

Com essa Kaizo não contava.

"Você está sugerindo que eu arrume outro parceiro?"

"Só temporariamente, irmão. Sei que não tenho direito de te prejudicar mas também não posso largar Kurama de mão logo agora que eu conquistei a confiança dele. Quem sabe se daqui a um tempo ele até nos ajuda a recuperar o tempo perdido?"

As asas de Kaizo se agitaram nervosas, num cacoete que costumava repetir sempre que se via contrariado.

"Sabe de uma coisa? Fique com esse youko estúpido se quiser. Vou falar com Tieko ainda hoje. E é melhor você já ir treinando seu amiguinho pra ser seu parceiro porque vai precisar de um."

Kaizo virou as costas e saiu sem olhar pra trás, ignorando os chamados de Kuronue. A partir daquele dia, os irmãos seguiriam rumos diversos. Nada mais seria como antes.