Capítulo 39: A proposta
Kurama olhou o rapaz de lado, sem saber o que dizer. Não havia nada ali que não fosse fora do comum. E, para completar, ainda tinha que lidar com aquele tipo sorridente que teimava em permanecer com mão estendida para ele.
"Me desculpe mas eu não aperto mãos."
"Tudo bem.", disse o jovem sem se abalar, "Não é costume de youkos, né? Vocês dão um tapinha no braço do outro assim...", exemplificou, pondo em prática a teoria.
Ao sentir a pancadinha em seu ombro, Kurama olhou o rapaz com uma certa indignação. Que atrevido, pensou, ao mesmo tempo em que imaginava se o tal costume do tapinha podia ser mesmo verdadeiro.
"Xiii, já vi que te irritei... Foi mal, youko. Não tive a intenção."
"Não tem problema... Só não encoste em mim de novo. Eu não gosto."
"Puxa, pode deixar. Posso ao menos falar com você?"
"Olha, eu estou esperando alguém, não quero me distrair..."
"Teruo Oshi?"
"Como sabe?"
"Sei que ele vem para um encontro hoje."
"Você o conhece?"
"Bem até demais. Ele é o responsável pelo meu bem estar... bom, ele entre outros. Mas... ele nunca chega aqui tão cedo. Você não quer esperar em um local mais confortável?"
"Estou bem aqui."
"Você é muito sisudo pra sua idade, sabia? Desse jeito vai acabar envelhecendo antes do tempo."
"Eu não me importo. Escuta aqui garoto, você não tem que ir trabalhar não? Olha só, a sua clientela já está chegando."
"Clientela? Então é isso que você está pensando? Que eu sou um prostituto ou coisa assim? Eu só moro aqui... Me desculpe. Não vou mais te incomodar.", disse, retirando-se para o mesmo canto onde estava antes.
Kurama acompanhou o youkai com os olhos, mas sem nada dizer. Não costumava dar esse tipo de fora. Que constrangedor. Pior é que o talzinho era protegido da pessoa quem procurava. Sabe-se lá que influência exerceria sobre ele. No entanto, o que podia fazer?
Discretamente, ele espiou o youkai mais uma vez. Devia ter pouco mais que a sua idade. Parecia uma criatura extremamente bem tratada. Cabelos perfumados, roupa bem feita e modos elegantes apesar da maquiagem e excesso de adornos. Não evitou de pensar que teve sorte por Najah nunca tê-lo feito se enfeitar. Considerava muito pouco digno sair por aí sendo confundido com mulher ou biscateiros. Ser humilhado entre quatro paredes já era ruim o suficiente. Então, não podia culpar aquele youkai, podia? Tecnicamente, não eram tão diferentes assim.
"Natoya...", chamou, aproximando-se do rapaz.
"É Nagoya."
"Nagoya... sinto muito. Eu não..."
"Ah, não esquente. Todo mundo pensa a mesma coisa quando me vê. E não se preocupe. Oshi não dá a mínima se alguém me ofende por aqui."
"Não era isso..."
"Era sim. Mas não fico chateado com isso. Já me acostumei."
"Mesmo assim, me desculpe o mal jeito."
"... Não precisava se incomodar. Olha só, alguém sentou na sua cadeira."
"Você estava falando sobre esperar em outro lugar... Se ainda estiver de pé... Está ficando muito cheio aqui pro meu gosto."
"Vem comigo!", exclamou o youkai, pulando do assento, satisfeito como criança que arranja um amigo novo.
O corredor escuro quase fez Kurama desistir. Isso só não aconteceu porque Nagoya, ao passar pelo escravo, pediu que ele avisasse Oshi de sua presença assim que chegasse. Então, acabou o seguindo até um dos últimos quartos.
O cômodo em nada se parecia com o corredor. Bastante iluminado e limpo, além de cuidadosamente decorado, diga-se de passagem, ao gosto do dono. O que não faltava ali eram lenços, tecidos e roupas além de bugigangas por todos os lados.
"Fique a vontade. É aqui que eu moro.", disse Nagoya, esticando-se sobre um móvel estreito e comprido, que Kurama nunca havia visto.
"Obrigado.", murmurou o outro, meio sem graça, antes de se sentar na beirada da cama.
"Ainda não sei o seu nome."
"... Kurama."
"Pode se esticar aí, Kurama. Er... Se importa de me passa a escova?"
"Hn?"
"O objeto bem aí do seu lado... Ah, e o espelhinho também... Muito obrigado"
Kurama observou o youkai arrumar os cabelos durante um tempo. Não conseguia entender o que tanto ele alisava ali...
"Você mora aqui há muito tempo?", perguntou o youko, depois de inspecionar o quarto mais uma vez.
"Há cinco anos. Pode parecer pouco, mas pra mim é uma eternidade."
"Hn..."
"Não precisa conversar comigo se não quiser."
"Não é isso..."
"Pode me perguntar coisas também. Sabe, quase nunca aparece gente interessante por aqui, quero dizer, para conversar. Alguém da minha idade e, de preferência, sem língua bifurcada."
"Que tipo de youkai é Oshi?"
"Bom, a raça eu não sei. Dizem que ele muda de forma, então a gente nunca sabe. Está com fome?"
"Não. Não era sobre a aparência que eu estava perguntando..."
"Ah sim... Quer saber se pode confiar nele?"
"Queria saber se ele é tudo que dizem por aí..."
"E quem é? Já ouvi falar de Kurama, o ladrão que roubou o artefato sagrado dos Senelos e nunca pensei que ele fosse alguém tão jovem quanto eu... ou tão bonito."
Kurama paralisou por alguns instantes, quase enrubesceu mas logo recuperou a pose.
"Já estou tão famoso assim?"
"Está sim, eu acho. Se bem que, em matéria de informação, sou um privilegiado. São tantos os que passam por essa cama aí... cada um com uma novidade que julgam que eu ainda não conheço."
"Você tem... é... Oshi não se importa se você..."
"Se eu vou pra cama com outros? Ahh não! Ele sabe que eu não tenho muito com que me distrair."
Kurama revirou os olhos.
"Que foi?"
"Nada."
"Como nada? Você fez uma cara engraçada... Pensou que eu era um prostituto e agora está espantado porque eu tenho outros amantes?"
"Não... É que eu não sei como você consegue se distrair assim..."
"Hn????"
"Esquece."
"Tá... É...bom, você veio ver Oshi... Há muito tempo ele não se interessa em falar pessoalmente com um ladrão. O intermediário deve ter falado muito bem de você pra ele.... As tarefas de Oshi são sempre perigosas e você é tão garoto. Por que não deixa isso pra depois?"
"Não posso."
"Está endividado?"
"É, de uma certa forma..."
"Não se acanhe. Peça o que quiser porque a parte dele nunca é menor."
Silêncio.
"Acha que ele tem como conseguir que um youkai muito poderoso seja morto?"
"Pergunte a ele. Se te prometer isso, pode ter certeza que vai cumprir."
Silêncio.
"Será que ele demora?"
"O escravo vai avisar, não se preocupe."
Kurama não estava disposto a conversar, mas quando deu por si, estava ouvindo com surpreendente interesse as estórias daquele youkai tão diferente. Uma rara coleção de fofocas e amenidades, incrementadas por uma extensa coleção de amantes e casos passageiros. Nagoya era de pragmatismo amoroso formidável. Dizia-se um convicto resignado. Fora apaixonado por Oshi durante os primeiros anos, mas ao constatar que jamais passaria de um bibelô para uso esporádico, passou a buscar seus próprios pequenos prazeres. E, embora Kurama não compreendesse bem sua lógica, tinha que admitir que, ao menos, ele sabia tirar proveito das circunstâncias.
"Mas essa...", disse Nagoya, segurando uma grilada de ouro, "... Veio do Ningenkai... Ou pelo menos foi o que a pessoa que me deu disse."
Kurama olhava com certa admiração as peças que seu anfitrião espalhara sobre a cama. Dezenas de presentes de amantes, que lhe eram exibidos orgulhosamente. A maioria dos objetos tinham mais beleza do que valor, mas mesmo assim, compunham um conjunto de fazer inveja a muitos ladrões.
"Você podia viver um bom tempo por conta dessas peças..."
"Você quer dizer, vendê-las?"
"Claro. Podia ter uma vida boa numa vila qualquer sem ter que dar satisfação pra ninguém."
"Humm... Que graça ia ter? Não, prefiro continuar sendo o brinquedinho de Oshi, me dá status. Além do mais, é o que eu sei ser. Gosto de me enfeitar, gosto de pintar o rosto, gosto que olhem pra mim. Mas sabe do que eu mais gosto? De ver um youkai levantar dessa cama em estado de choque e dizer - Nagoya, você é a melhor bimbada que eu já dei na vida! - Eu que escolhi viver assim... Minha família era de guerreiros, com youki desenvolvido e tudo. Ninguém entendia que eu era bonito demais pra ficar por aí de guerra em guerra colecionando cicatrizes. Imagine só... Oshi foi a primeira pessoa que reconheceu o meu verdadeiro valor, por isso fugi com ele. Pode parecer estranho pra você, mas é assim que eu sou."
O jovem encarou o youko esperando encontrar mais um de seu olhares desconfiados. Kurama parecia experiente, mas nem por isso capaz de compreender seu estilo de vida. Talvez estivesse abusando da boa vontade de alguém que dizia ter apenas um amante. Não sabia ao certo se a monogamia de Kurama seria uma virtude ou um desperdício, mas o fato é que sentia um desejo incontrolável de combatê-la, se não com ações, pelo menos com uma conversa pra lá de apimentada.
No entanto, a situação parecia tomar um rumo antes completamente descartado. Seria possível que o silêncio que novamente se abatia sobre eles significasse algo mais do que o embaraço inicial?
Kurama, inclinara a cabeça, desviando os olhos para os objetos sobre a cama. Nagoya podia jurar que, por debaixo da franja, estava vermelho como uma maçã.
"Kurama... é... está quase amanhecendo. Oshi deve estar chegando. Espero não ter te chateado muito com minhas bobagens.", disfarçou.
"Não, você conversa bem... e..."
Kurama engoliu seco e olhou diretamente nos olhos violeta do jovem youkai a sua frente. Depois, fechou os olhos esperando que a imagem de Kuronue o livrasse daquela sensação. Não adiantou. Como podia estar se sentindo daquela forma em relação a uma criatura que nunca havia visto na vida? Ainda que ele fosse tão bonito e que cheirasse tão bem, não tinha o direito de pensar nele daquela forma. Nem percebeu como aquilo havia começado. Estava quieto, ouvindo-o falar, gesticular... Tão diferente de tudo o que conhecia, tão cheio de sutilezas, olhares e risinhos. Nem mesmo aquela pintura no rosto lhe parecia mais tão ridícula...
Por um instante, preferiu que estivesse diante de Najah.
"Kurama."
O chamado fez com abrisse os olhos.
"Tudo bem?", perguntou Nagoya, empurrando os objetos que estavam entre eles antes de se aproximar.
"Acho que vou esperar lá fora. Está muito quente aqui dentro.", disse, levantando-se.
Foi segurando pelo mão.
"Não precisa fugir. Ele não vai saber se você não contar."
"Eu amo ele."
"Eu acredito. Hoje também não é bom para mim... mas aconteceu. Ninguém tem culpa."
Um arrepio forte subiu pela coluna de Kurama assim que os lábios do youkai tocaram os seus. Não havia mais tempo para reagir, nem para pensar. Talvez estivesse sendo enfeitiçado. Realmente queria muito acreditar nisso...
Uma pancada forte se fez ouvir pelo lado de fora da porta, interrompendo os jovens já semi-reclinados sobre a cama. Nagoya resmungou algo, enquanto Kurama decidia se xingava ou agradecia ao destino.
O youkai de cabelos negros se recompôs rapidamente e abriu a porta. O escravo encurvado o esperava do lado de fora. Oshi havia chegado e estava esperando por Kurama em seu aposento particular. Quando Nagoya se virou, o youko já estava de pé, ajeitado a roupa fora do lugar.
"Não esqueça de limpar o rosto. Parte da minha maquiagem está nele.", comentou, sentando-se novamente sobre o móvel estreito.
Kurama conseguiu se livrar da pintura que borrara seu rosto, mas não do rubor intenso. Não se lembrava da última vez em havia ficado desse jeito, engasgado nas próprias palavras, desejando que o chão o sugasse. Por sorte o outro falou por ele.
"Pode voltar quando a reunião acabar. Vou estar aqui."
"Acho que não vai dar tempo..."
"Vou estar aqui assim mesmo."
Ao passar pela porta, quis dizer adeus mesmo que fosse apenas com um olhar...
Mas nem isso conseguiu.
Kurama voltou pelo corredor sombrio. O escravo o estava esperando no final, com a expressão apática dos que não tem direito à própria vontade. Levou-o até o cômodo e pediu que entrasse.
"Bom dia Kurama. Estou feliz por ter atendido meu chamado."
O youko piscou, na esperança de estar ouvindo coisas. Não podia ser...
"Você?"
"Surpreso?", perguntou Hekel, enquanto enchia um copo de vinho.
"Como é que eu nunca imaginei...", disparou Kurama após um longo suspiro.
"Não se subestime. Não tinha como saber que eu sou Teruo Oshi. Tenho muitos nomes, meu caro. Acho que nem eu lembro de todos... Aceita um copo? Pessoalmente eu detesto negociar a seco."
"Apesar de esperto, acho que não me conhece... Se pensa que vou trabalhar para você, está completamente enganado. "
"Não seja infantil, garoto. Se o chamei aqui, é porque tenho uma proposta que pode ser muito vantajosa para ambos. Se quisesse apenas conversar, seria muito fácil encontrá-lo na floresta. Somos vizinhos, esqueceu?"
"Não tem acordo com você. Não é o único negociador do Makai. Posso muito bem procurar outro por aí."
"Realmente, você pode... Pode passar anos até conseguir o que deseja. Youkos tem vida longa... Mas duvido muito que encontre alguém capaz de proporcionar-lhe uma oportunidade de resolver seu probleminha de uma vez só..."
Kurama permaneceu onde estava enquanto Hekel se aproximava. Ante a falta de resistência, ele prosseguiu.
"Beba um gole. Vai te fazer bem."
Ele virou o rosto.
"Como quiser... Bom, imagino que esteja disposto a ouvir o que tenho a dizer..."
"Pare com essa encenação e fale de uma vez.", disse, num tom baixo e controlado.
Hekel se afastou um pouco. Olhou seu interlocutor nos olhos, com um meio sorriso nos lábios.
"Como estava dizendo, minha proposta é estritamente profissional. Aprecio o seu estilo. Tem talento nato para se apropriar do alheio. O artefato foi apenas um teste..."
"Teste?"
"Não é nada que se compare ao que vou propor... Quero que considere bem o risco antes de decidir. No entanto, se tudo correr bem, lhe concederei tudo o que precisa para resolver sua vida... para sempre. Tudo, compreende? Seu maior desejo em troca de uma noite de trabalho arriscado. Então, devo continuar?"
"Continue."
"Ótimo! Vamos sentar... Temos muito o que conversar..."
Há muito que Nagoya já havia refeito a maquiagem, desta vez, com capricho redobrado. Mudara de roupa também, só para garantir a boa impressão. Não era sempre que tinha a chance de ter alguém tão jovem a atraente em sua cama, e, caso Kurama voltasse, queria ter certeza de satisfaze-lo plenamente.
Um ruído no corredor o alertou para a aproximação de alguém. Rapidamente, deu uma última arrumada no cabelo e se deitou na cama, simulando uma atitude casual.
A porta de abriu e os olhos de Nagoya perderam parte do brilho ao constatar que não se tratava de quem estava pensando. Mesmo assim, não se fez de rogado. Exibiu seu melhor sorriso, pulou da cama a abraçou seu protetor com descarada alegria.
"Oshi! Você veio me ver! Estou tão feliz! Não imagina o quanto significa pra mim alguns momentos de sua atenção."
Hekel empurrou-o com um movimento lento, apenas para afastá-lo.
"Algum problema?", perguntou o rapaz timidamente, "... Não quer que o seu Nagoya lhe faça uma massagem?"
"Vem aqui."
O jovem se aproximou. Hekel acariciou seus cabelos durante um tempo. Subitamente, puxou-os com força. Nagoya gemeu, mas não se atreveu a protestar.
"Escute bem, seu vadio. Nunca mais pense em encostar um dedo num convidado meu, ou eu quebro o seu lindo pescoçinho, estamos entendidos?"
"Sim senhor...", murmurou Nagoya segurando o choro, pouco antes de ser empurrado contra a cama.
"Não sabia que o youko era do seu interesse, eu juro..."
"Não se dê ao trabalho de mentir. Tem até o meio-dia para arrumar suas coisas."
"Está me mandando embora? Não, por favor, eu..."
"Ora, cale-se! Não estou te expulsando... Você não vivia dizendo que gostaria de viver no meu castelo? Pois muito bem... É para lá que estou te levando."
"Mas..."
"Até o meio-dia. Espero que não me desagrade dessa vez..."
Nagoya seguiu seu mestre com os olhos, até que a porta fosse fechada. Em seguida, olhou com carinho o quarto onde havia passado os últimos cinco anos de sua vida. Não sabia mais se ainda queria partir com ele. No entanto, não tinha escolha.
"Droga, estou borrando toda a maquiagem...", lamentou-se, desistindo de vez de tentar conter as lágrimas.
Anoitecia quando Kurama regressou à caverna. Esperava encontrar Kuronue morrendo de preocupação, mas não havia ninguém lá. Talvez fosse melhor assim. Com certeza seu parceiro o encheria de perguntas que, no momento, se sentia cansado demais para responder.
Estava coberto de poeira da viajem. Um banho não lhe cairia mal, mas se deitou do jeito que estava. Não tinha ânimo suficiente para uma caminhar até o lago. Também havia pouca água no reservatório da caverna, sinal de que Kuronue não estivera lá por muito tempo. Provavelmente Kaizo o havia convocado para mais uma reunião administrativa no subterrâneo.
O tempo passou, mas sua mente se recusava a deixar a proposta de Hekel de lado. Virou repetidas vezes no colchão que nunca lhe parecera tão desconfortável. Pensou em ir até o rio mas acabou desistindo de vez. Em algum momento, teria que se acomodar...
Seus olhos se abriram assim que sentiu algo deslocar seu cabelo.
"Ah... Me desculpe... Não queria te acordar.", murmurou Kuronue sentando-se do seu lado.
"Não estava dormindo... "
"Chegou há muito tempo?"
"Não sei. Acho que não. Já é noite?"
"Já."
"Onde estava? Você parece cansado... Aconteceu alguma coisa?"
"Eu estava com Kaizo. Ele se acidentou ontem a tarde mas hoje já está melhor."
"Hn..."
"Por que não está dormindo?"
"Não consigo. Tem uma coisa que eu preciso conversar com você..."
"Agora não. Estou pregado e você também.", disse, se acomodando atrás de Kurama, "... Amanhã a gente pensa nisso, tá?"
Kuronue se encostou no youko até que o nariz tocasse sua nuca e o abraçou.
Ao sentir o calor do corpo de seu amante contra o seu, Kurama foi tomado por uma suave dormência, como se só então estivesse realmente descansando da jornada iniciada no dia anterior. Kuronue se mexeu de leve, roçando o rosto em seu pescoço. Era tão bom... Não podia ser melhor com nenhum outro...
"Kuronue..."
"Hn?"
"Eu fiz uma coisa que... bem. Eu quase fiz. Mas... eu não queria... e... mesmo assim... Eu tentei evitar, eu juro... Não que tenha acontecido algo, não aconteceu nada... Mas se por loucura minha tivesse acontecido... não seria importante... Quero dizer... Você é... vai ser sempre... Kuronue?"
Kurama olhou para a mão inerte ao lado de seu peito. Ele já tinha dormido, não ouvira nada do que disse.
Com todo cuidado, segurou a mão de Kuronue e a abraçou contra si.
Apesar de tudo, se sentiu mais leve, certo de que Kuronue não precisava mesmo ter ouvido aquilo.