Capítulo 38: O silêncio no lago
Kaizo recostou-se em uma árvore, no ponto mais visível da margem do lago. Estava lá não só para ser visto, como para ver também. Precisava, mais do que nunca, estar atento a tudo o que se passasse ao seu redor.
Há quase quarenta dias, sua vida havia dado a mais perfeita das revira-voltas. Estava no comando, finalmente, como sempre se julgou merecedor. Desde que Najah partira para um retiro nas montanhas do norte, o subterrâneo estava inteiramente ao seu encargo, e melhor, a seu comando. Parecia inacreditável que uma coisa assim pudesse acontecer, considerando as circunstâncias...
Kuronue e Kurama estavam de volta ao leste, e, pelo jeito, não voltariam a se embrenhar em aventuras pelo Makai tão cedo. A despeito de todas as façanhas narradas por seu irmão, a viagem havia sido um completo fracasso no ponto de vista material. A dupla regressara ao subterrâneo com pouco mais do que algumas bujigangas baratas e uma coleção de roupas esquisitas. E, apesar de parecer mais alto, poderia jurar que Kuronue havia emagrecido no último ano.
Bom, por sorte não haviam sofrido reversos piores. Só ele sabia o quando a vida sem rumo podia ser cheia de surpresas, em maioria, extremamente desagradáveis. Talvez, já fosse mesmo tempo para que seu irmão aprendesse a dar ao subterrâneo o devido valor.
Até que a convivência com o youko estava suportável. Não era para menos... Ele mal parava no subterrâneo. Parecia decidido a enriquecer naquela primavera, provavelmente para compensar as frustrações de um ano inteiro perdido. Passava dias seguidos longe do território de Najah, geralmente sozinho. Pelo que ouvira falar, estava freqüentando assiduamente os buracos menos recomendáveis do leste do Makai. Sempre soube que Kurama era um total desclassificado, mas nunca suspeitou que fosse tanto. Ao menos, ainda não havia tentado envolver Kuronue, se bem que, desconfiava que esse dia não custaria a chegar. Aí sim, teria que tomar uma atitude. Até lá, podia esperar para ver no que tudo aquilo iria acabar...
"Já vai?", perguntou Kuronue ao surpreender Kurama se vestindo, "... Ainda é cedo, falta muito para escurecer. Fique e durma mais um pouco."
"Não agüento mais esperar... Prefiro ir de uma vez do que ficar aqui rolando no colchão."
"Me leve com você então."
"Você sabe que eu não posso. Preciso resolver isso sozinho."
"Mas quero te ajudar. Não sou tão inútil e nem você é tão esperto quanto pensa"
"Você sabe o que eu estou fazendo. Quer mesmo participar?"
"Quero! Por você eu juro que eu quero."
Kurama apenas se aproximou e deixou que seu braços envolvessem seu parceiro com força.
"Confie em mim, Kuronue. Isso tudo vai acabar mais cedo do que você imagina.", disse, antes de afrouxar o abraço apertado e desaparecer pela abertura cuidadosamente camuflada da caverna.
Algum tempo havia se passado e a sensação estranha permanecia a mesma.
Kaizo desencostou do tronco e olhou ao redor mais uma vez. Havia algo errado. O lago nunca estivera tão silencioso naquela hora do dia, especialmente em se tratando de uma tarde tão bela. Era como se os pássaro e pequenos animais que costumavam rondar a região tivessem desaparecido completamente. Nem um ruído sequer...
Pouco depois, ele se levantou. Ainda que não fosse o novo chefe, tinha o dever de verificar o que estava acontecendo. Maldito Enzo. Aquele desleixado nunca estava por perto quando era necessário.
Estava tudo tão calmo ao redor do lago que Kaizo tomou uma das trilhas para checar um pouco mais adiante, por mero desencargo de consciência. Podia ter chamado alguém para ir com ele, mas não julgou necessário. Se ao menos Kuronue estivesse disponível, mas com certeza estaria enfurnado em algum canto com aquele youko. De resto, não havia mais ninguém que valesse de grande ajuda por ali. Desde que o mestre perdera o interesse por seus pupilos, o ócio os transformou em jovens fracos e preguiçosos. Não era a toa que havia se responsabilizado pessoalmente por Koji. Era seu dever ajudá-lo enquanto o mestre não recuperava o juízo.
Antes da volta de Kuronue, chegou a pensar que não havia mais esperança para o pobre mestre. Durante algum tempo chegou até a temer pelo destino de todos ali. Parecia inacreditável que uma pessoa tão sábia e poderosa pudesse se deixar destruir por um amor traído, mas era exatamente o que tudo dava a entender. Talvez, por isso mesmo fosse tão surpreendente a reação do mestre depois da volta do youko... Viajar? Não que as coisas não estivessem lhe correndo bem, mas que era estranho, lá isso era.
Kaizo mal tinha acabado de concluir um pensamento quando deparou-se com um pequeno descampado no meio da trilha. Árvores e arbustos recém derrubados, indicavam a presença de um grupo de youkais naquele local... estranhos. Os olhos de Kaizo fixaram-se sobre a mata destruída enquanto sua mente divagava sobre o que fazer. Estava só, com dois pêndulos grandes e três pequenos e um punhal. Não era muito. Tinha que voltar e buscar ajuda antes de perseguir os invasores.
Não conseguiu sequer dar meia volta. Um grupo de youkais rapidamente o cercou e o atacou, mal dando-lhe tempo de erguer uma arma. Ainda assim, Kaizo conseguiu se esquivar das primeiras investidas, recuperando espaço para o contra-ataque. Há muito tempo que não era forçado a lutar pela vida, mas as lembranças do tempo em que fatos como esse faziam parte da rotina o ajudaram a surpreender seus adversários.
O silêncio finalmente se dissipara. Em seu lugar o som do choque de metais ressoava entre a vegetação.
"Pare!! Não o mate!", gritou um youkai com cara de lagarto e olhos de inseto, "... Ele pode ter alguma utilidade."
O comando foi prontamente atendido. Ofegando muito, Kaizo seguiu com olhos esgotados o movimento das espadas se afastando de seu pescoço. Sentiu quando foi agarrado por uma das asas e arrastado até a árvore mais próxima. Suas pernas pesavam como chumbo, mas foi mantido em pé, de costas para o tronco.
"Acho que já ouvi falar de uma tipo feito você... asas negras... Você sabe voar?", provocou o cara-de-lagarto, provavelmente chefe do grupo.
Kaizo o olhou de lado, mas nada respondeu.
"Estou vendo que está cansado de ficar de pé. Acho que devemos te dar uma ajudinha, não acha?"
Ao sentir a pele de sua asa direita perfurada por um punhal, Kaizo não segurou um gemido. Suas pernas fraquejaram, mas a dor o atingiu novamente mais uma vez. Rapidamente, ele reergueu o corpo. Sua asa estava pregada contra o tronco. Se não permanecesse de pé, seria rasgada até o fim.
"Que pena. Eu sempre achei que essas asas não eram de carne. Me desculpe amigo. Eu tinha pra mim que asas era tipo cabelo, sabe... Se bem que nem sei porque eu achava isso... Nunca tive cabelo!!!", gargalhou o youkai, seguido pelo coro de seus comparsas.
"Ei chefe! Posso pregar a outra asa?", perguntou o tipo parado ao lado de Kaizo.
"Claro que não imbecil! Não vê que machuca?"
"Eu solto ele então...", continuou, com expressão confusa.
"Cale a boca imbecil!!!!!!", berrou o chefe, "Suma de minha vista! Vá para além da curva ver se vem alguém... Arghhhhhhh... Cambada de idiotas! Bom, onde eu estava? Ah, sim...", prosseguiu, aproximando-se de Kaizo, "... gozado... é vermelho. O sangue da sua asa devia ser preto, não acha?"
Kaizo virou o rosto.
"Ei ei ei! estou falando com você! Você sabe falar não sabe? SABE???", gritou, forçando o punhal para cima de modo que perfurasse ainda mais a asa ferida.
"Sei...", respondeu o cativo.
"Que ótimo! Assim é que eu gosto: co - o - pe - ra - ção, compreende, bom. Quero que você me diga, sem muito salamaleque onde está o seu amigo de cabelos prateados. Quero a ficha completa, sem enrolação. AGORA. Prometo que vou ser bonzinho com você se não me der trabalho."
"Quem?"
"Resposta errada. Béééhh!!!", berrou, antes de manobrar o punhal com mais força.
Kaizo mordeu o lábio. Não morreria gritando feito uma mulher.
Um pigarrear alto foi ouvido, atraindo a atenção do grupo para a figura parada bem atrás deles.
"Com lincença, senhores. Sinto muito a interrupção, mas creio que tenho algo que lhes pertence."
"Mas que coisa! Não se pode mais torturar em paz nessa terra!!", resmungou o youkai lagarto com a mais entediada das expressões, "Oh, cambada. Alguém aí dá um jeito nesse cara!!"
"Hn... Isso não será necessário.", prosseguiu o desconhecido, com um leve sorriso nos lábios.
Com toda calma, o objeto escondido atrás do corpo do desconhecido foi atirado aos pés do lagarto.
"Mas o que é..."
E a cabeça decepada de um de seus comparsas, justamente o que havia acabado de mandar para a curva da trilha, jazia bem debaixo de seus olhos. A última coisa que pode ver com eles.
As pernas de Kaizo tremeram a ponto de não se agüentarem assim que a luz intensa invadiu todo o local. Era como a claridade de um trovão, só que tão próxima que parecia cegar seus olhos. As pernas lhe fugiram completamente de controle, mas por algum motivo, não desabou. Sentiu o metal ser puxado e sua asa libertada, e nem assim caiu no chão.
Kaizo voltou a si em seu próprio quarto, no subterrâneo. Quase todos os garotos se acutuvelavam do lado de fora, aguardando notícias suas mas Kuronue não permitiu que ninguém entrasse até que estivesse acordado, com exceção de Koji.
Até que não se sentia mal para quem havia sido pregado numa árvore... Não custou para que fosse posto a par dos acontecimentos.
Os youkais que o atacaram eram caçadores de recompensas profissionais. Estavam atrás de Kurama e tudo indicava que o haviam confundido com Kuronue. Sua sorte foi ter sido atacado perto da divisa do território onde vivia um amigo do mestre, que não só salvou sua pele como também o levou de volta para casa e ofereceu alguns remédios para as feridas. Kaizo sabia de quem se tratava. Já o tinha abordado uma vez dentro do subterrâneo e já o tinha visto algumas vezes naquela parte da floresta, inclusive de conversa com Kurama. Desconfiava que o mestre não apreciava sua aproximação, mas podia ser só impressão.
"E ele me deixou aqui e foi embora?", perguntou.
"Ele já foi embora sim. Recomendou que tenhamos mais cuidado daqui pra frente. Sem o mestre o território fica muito desprotegido..."
"Por que ele fez isso?"
"Ele sabe que você vive aqui. Também está preocupado com os caçadores, eu acho. Descanse um pouco. Vou ficar aqui com você."
"Como você quer que eu descanse sabendo que por causa da raposa você está na mira de caçadores?"
"Mano, não vamos falar disso agora, por favor."
"Ele vai ter que parar com essa vida, ou..."
"Kaizo, nã..."
"Ou eu ponho ele pra fora daqui. O mestre disse que eu posso fazer o que quiser pra manter a ordem. Não posso permitir que ele traga perigo para nós só porque resolveu ficar rico e freqüentar as piores espeluncas do Makai... Kuro, por favor, aproveite que ele está te deixando de lado pra largar dele de vez."
"Olha, tá vendo?...", interrompeu Kuronue nervoso, "Está sangrando de novo! Vê se sossega aí e dorme. Vou lá fora buscar água e já volto."
Kaizo se reclinou respirou fundo. Talvez Kuronue tivesse razão quando a descansar. Só que já havia água no quarto.
Kurama fechou a porta devagar, silenciosamente.
"Pensei que não fosse sair daí. De saída?"
"Posso?"
"Sente aí."
"Como quiser.", disse, sentando-se na cadeira mais próxima de imediato.
"Você está me irritando."
"Só estou fazendo o que manda. Não é assim que tem que ser?"
"Você já havia usado um banheiro interno antes?"
"Já."
"Mas duvido que seja mais confortável do que esse. Você está desfrutando um dos cômodos mais luxuosos do Makai. Devia ser mais grato."
Os olhos de Kurama percorreram o quarto de paredes de madeira e cortinas da cor de vinho. Cadeiras forradas, objetos decorativos e uma cama onde caberiam com folga uns cinco youkais do seu tamanho.
"Já vi melhores.", disparou, encarando seu interlocutor com frieza.
Najah cruzou os braços.
"Você veio cedo hoje. Não estava com saudades, imagino... Ah, não precisa responder... Soube que está fazendo progressos. Aprecio o seu empenho. Nosso acordo está se confirmando como eu havia previsto."
"Não precisava ser assim."
Os dois se encararam em silêncio durante um tempo.
"...Está enganado."
"Najah, isso é loucura. Me deixa ir..."
"Não se atreva a choramingar novamente na minha frente.", cortou o youkai, severo, "Nosso trato vai continuar até o fim porque esse é o meu desejo. Seu teatro não me comove. Sei que se pudesse, acabaria com tudo hoje mesmo."
"Não estou fingindo."
"Pode ir embora."
"Najah..."
"Vá de uma vez... eu posso mudar de idéia."
Kurama limitou-se a se retirar, sem dar nem mais uma palavra.
Ainda tinha muito o que fazer naquela noite.
A lua já estava alta quando Kurama alcançou o refúgio. Sabia que era a mesma taverna de quinta onde havia se embriagado pela primeira vez há quase dois anos atrás. Depois daquele dia, havia jurado para si mesmo que nunca voltaria a lugares feito aquele. Somente mais uma entre muitas outras promessas tolas que nasceram apenas para serem quebradas. Melhor teria sido prometer que jamais lamentaria promessas desfeitas. Pena que não havia pensado assim desde o começo...
Ele entrou no salão principal. Havia algumas mesas espalhadas pelo local, coisa que não existia da última vez. Um escravo pediu que esperasse, e lhe ofereceu uma bebida. Kurama aceitou mas não bebeu. Apenas sentou-se junto ao balcão, de olho no que se passava a sua volta.
Sua missão não era das mais simples. Alguns dias atrás havia recebido uma mensagem de um negociador de tesouros roubados com quem já havia trabalhado uma única vez. Na verdade, não o conhecia pessoalmente. O sujeito era um daqueles figurões que nunca aparecem, mas que tem uma mão por baixo de boa parte dos negócios sujos que acontecem no Makai. Talvez estivesse sendo imprudente de aceitar um encontro como este, mas não estava em posição de escolher muito. Precisava progredir, e rápido. Não suportaria se sua situação com Najah se prolongasse por muito mais tempo. Não depois de ter conhecido a liberdade ao lado de Kuronue.
"Olá.", cumprimentou alguém com uma voz muito suave e jovial.
Kurama virou para o lado. Na outra extremidade do balcão, uma jovem de longos cabelos negros sorria para ele, como que esperando que o gesto fosse retribuído. Não pode evitar de engolir seco... como era bonita. Havia passado um ano inteiro rodado boa parte do Makai e nunca havia visto nada parecido.
Ele nem percebeu em que momento deixou transparecer seu espanto. Talvez tenha arregalado os olhos demais... O certo é que ela entendeu imediatamente. Levantou-se e, sem nenhuma cerimônia, se aproximou e sentou-se ao seu lado. Durante o pequeno percurso, Kurama notou, com algum espanto, que não era um garota, e sim um jovem da sua idade. Com tanta pintura no rosto era difícil de chegar a uma conclusão. Torceu para que ele/ela não tivesse percebido isso também...
"Meu nome é Nagoya. É um prazer conhecê-lo."