Capítulo 37: A virada do destino
Kurama retornou para a caverna sentindo todo o peso da situação em que se metera. Adorava aquele lugar, mas no instante em que ouviu a recomendação de Kaizo, prometeu para si mesmo que jamais retornaria ao leste novamente...
Ou pelo menos enquanto não fosse o youko mais poderoso do Makai...
Só esperava que Kuronue se desse por satisfeito de estar com o irmão por uma tarde e concordasse em ir embora dali no dia seguinte...
Já tinha até feito alguns planos... Ouvira falar que haviam florestas interessantes em uma certa região do Makai. Talvez Kuronue gostasse da idéia de construir um esconderijo por lá. Seria bom pra ele ter um lugar fixo para morar. Podia ser até que chegasse o dia em que Kaizo deixasse de ser teimoso e aceitasse abandonar o subterrâneo. Seria penoso conviver com ele mas... Que coisas não seria capaz de fazer para agradar Kuronue?
De qualquer modo, o importante era sair do território de Najah o mais rápido possível. Já tinham abusado demais da sorte.
Pouco mais tarde, Kuronue apareceu na caverna. Convidou-o para ir à vila mais próxima com Kaizo e os demais garotos do subterrâneo. Estava animadíssimo, tanto que mal conseguiu esconder a frustração face a sua recusa.
"Por que não, Kurama? Vai ser divertido."
"Não quero, Kuronue. Sabe como me sinto em relação a esses garotos... Vai você."
"Não quero ir sem você."
"Ah... Você vai ter a sua vida inteira pra olhar pra minha cara... Eu vou ficar bem. Vou aproveitar para improvisar um colchão. Minhas costas estão doendo desde ontem, sabia?"
"Hn... As minhas também..."
"Vai logo, tá? E vê se não enche a cara dessa vez. Odeio bafo de bêbado."
Kuronue saiu, não tão satisfeito como havia entrado, porém Kurama sabia que bastaria alguns instantes de bate-papo com o irmão para se esquecesse de sua falta. Não pensava nisso com mágoa, pelo contrário, apenas com a praticidade habitual.
Logo que se viu só, baixou o arrependimento. Teria sido ótimo farrear com Kuronue um pouco antes de ir embora.... Se não fosse pelo insuportável do Kaizo, nem se incomodaria com os outros. Eram todos uns idiotas mesmo...
O tempo passava e a falta do que fazer parecia lhe consumir os miolos. Imaginar o que Kuronue estaria ou não fazendo era quase uma tortura. Desde que saíram do leste era a primeira vez que se separavam assim, por motivo nenhum... Não demoraria muito para estar andando de um lado para o outro como uma animal enjaulado... Não havia absolutamente nada com que se distrair...
Sem querer, seu pensamento acabou recaindo sobre a caixinha de sementes que havia esquecido em seu ex-quarto no subterrâneo. Todas aquelas sementes incríveis, perdidas para sempre. Lhe ocorreu quando na vida teria outra oportunidade de vez uma Mimosa de perto.
Talvez não fosse difícil ir até lá, pegar o que lhe pertencia e escapar, como fazia quando roubava. Se considerava um ladrão suficientemente competente para fazer isso sem grande perigo. Afinal, se já tinha roubado até mesmo numa das torres de Laizen, por que com os domínios de Najah seria diferente?
"Idéia maluca... Nem morto eu volto lá...", afirmou para si mesmo antes de voltar a polir a pequena jóia que roubara no reino de Laizen.
Amanhecia quando Kurama se esgueirou pelas passagens mais desconhecidas que levavam aos últimos cômodos do subterrâneo. Haviam algumas absolutamente secretas, que ele próprio só conhecia por lhe terem sido reveladas por Najah. Foi fácil entrar sem ser notado. Definitivamente, o subterrâneo não estava mais tão bem cuidado como costumava ser.
Ele parou junto à entrada do quarto que dividia com Kuronue com uma última ponderação em sua mente... Não estaria sendo abusado demais?
Podia ter virado as costas naquele momento se não tivesse sentido a energia emanada pelo youki de Najah tão próxima. Estava muito fraca e intermitente, nem parecia pertencer a um youkai tão poderoso. Kurama jamais havia sentido algo tão estranho. O nível era tão baixo que se não estivesse atento, facilmente não a teria detectado.
Ele entrou no cômodo escuro. Certamente sua presença já havia sido percebida por quem quer que estivesse lá dentro. Não lhe parecia digno, ou mesmo prudente, fugir agora que já tinha chegado tão perto.
Najah estava lá, encostado na penumbra do canto mais retirado, reclinado contra a parede, imóvel quanto uma estátua.
Kurama respirou fundo e logo se arrependeu. O quarto cheirava muito mal e a vibração inconstante do youki de Najah refletia a mais profunda angústia a apatia.
"Então voltou?", veio a voz do fundo do quarto, embotada como a de um doente.
Tarde demais para mudar de idéia.
"Vim pegar uma coisa que eu esqueci... Não pretendia incomodá-lo."
"Você sabe que sua presença nunca me incomoda. Saia desse canto, ande. Acenda uma vela para que possa vê-lo."
Reunindo toda a calma que lhe restara, Kurama se aproximou. Havia uma teia de aranha enorme sobre o antigo luminária, sinal de que há muito tempo não era aceso. Por um momento, ele chegou a prender a respiração para se livrar do cheiro insuportável... Aquilo mais parecia uma cena de um sonho tenebroso. Najah sempre fora tão asseado...
"Me disseram que estava doente...", continuou Kurama enquanto fazia o que Najah lhe pedira.
"Isso é o que todos pensam."
"Fico feliz por não ser verdade, então..."
A claridade iluminou o quarto, possibilitando que os ex-amantes pudessem se ver.
"De certa forma, é verdade sim...", sussurrou o youkai, olhando fixamente para seu visitante.
"O acendedor está quebrado.", comentou o jovem youko, torcendo para que seus olhos não traíssem o que realmente se passava em sua mente.
"Minha aparência assusta você?"
"Não."
"Continua mentiroso, menos mal... Algumas coisas nunca mudam... Ainda assim... você está diferente... os cabelos, tão longos. Me diga, ele gosta assim? Tem muito bom gosto..."
"...Você está diferente, os cabelos... tão longos. Me diga, ele gosta assim? Tem bom gosto..."
"Eu gosto assim."
"Kuronue... eu devia ter imaginado... Você foi muito hábil por tê-lo escondido tão bem de mim."
"Acabou Najah. Isso tudo já faz muito tempo. Não tem mais nenhuma importância."
Najah riu, uma risada estranha que fez Kurama dar um passo atrás.
"Um youkai é jovem enquanto pensa que um ano é muito tempo..."
"Não posso ficar mais... Estão todos me esperando lá fora."
"Entendo... Pegue o que quer e vá, o que está esperando?"
O youko caminhou até a reentrância da parede onde escondera a caixa de sementes. Ela ainda estava lá coberta por uma fina camada de terra. Rapidamente, ele voltou a se afastar. Parou novamente, perto da passagem para o corredor.
"Najah... eu nunca pensei..."
"Vá embora, Kurama... Vá de uma vez... De tudo o que esqueceu aqui, não há mais nada que queira levar..."
Kurama se retirou sem dizer mais nada. Kaizo não havia mentido afinal. Algo de muito errado acontecera com ele.... Ver um youkai tão formidável como Najah naquele estado o fez sentir uma tristeza inexplicável... Lhe ocorreu se certas pessoas não teriam nascido apenas para serem infelizes....
Saiu tão sorrateiro quanto entrou. Não voltaria para a caverna. Iria a vila encontrar Kuronue e os outros. Uma manhã cinzenta e fria se anunciava, um mal presságio que não poderia ser ignorado. E, por algum motivo, não queria ficar sozinho naquele momento.
Ele seguiu pela trilha num passo mais apertado do que o usual. Com sorte, encontraria Kuronue voltando. Mas podia esperar para ver alguém. Desde que deixara os arredores do subterrâneo, se sentia perseguido por uma sensação misteriosa e incômoda. Várias vezes parou de andar certo de que estava sendo observado. No entanto, não podia sentir nem um sinal de youki por perto.
Trocou de trilha, caminhou ainda mais rápido.
Pouco tempo depois, corria a toda velocidade, executando suas melhores manobras evasivas... Ele mudou de forma. Sabia que não havia muito mais o que podia fazer...
Kaizo olhou para seu irmão de soslaio. Já não podia mais suportar aquela expressão angustiada. Quanto exagero...
"Kuro, pare com isso... De nada adianta você ficar desse jeito. Quem te vê pensa até é que caso de morte..."
"Eu devia ter ficado com ele.", murmurou o jovem youkai, procurando se conter.
"Ahhhh... E você ia fazer o que? O tonto acionou uma armadilha, se quebrou um pouco, o que tem demais? Não me consta que ele tenha ficado tão sentido quando você foi arrastado pela correnteza do rio..."
"Ele nem ficou sabendo disso, mano, como poderia ter sentindo alguma coisa?"
"Bons tempos, quando ele não ficava sabendo o que acontecia com você..."
"Chega Kaizo! Pare de falar assim dele o tempo todo! Você não vê que... Eu vou voltar lá pra dentro..."
"Não faça isso, Kuro. Deixe ele lá... Acha que ficar nessa aflição vai ajudar? Deite aí, tente dormir um pouco, por favor.", disse Kaizo bastante calmo, mas com firmeza.
Maldito Kurama. Sempre arrumando confusões que invariavelmente faziam seu irmão sofrer. Se bem que, por um lado, dessa vez havia algo de positivo em tudo aquilo. Graças à estupidez do youko, Kuronue estava de volta ao subterrâneo, local de onde nunca deveria ter saído. Kurama estava bem. Teve a pele salva pelo mestre mais uma vez e em alguns dias já estaria pronto para aprontar outras das suas. O que lhe preocupava era a reação de seu irmão... Se ao menos esse episódio fosse um fato isolado. Muitas vezes lhe ocorria se eles não... NÃO! Não podia ser... Kuronue se sentia responsável por ele, tinha sido assim desde o início... Que lhe importava se Kurama havia se tornado um baú de problemas e surpresas desagradáveis? Provavelmente para seu irmão ele ainda era apenas um filhote perdido na floresta. Tinha que ser essa a explicação para tamanho apego...
"Kaizo!"
O chamado interrompeu seus pensamentos de forma tão súbita que o fez tremer.
"Hn?!? Ah, é você? Você me assustou..."
"Como é que ele está?", perguntou Enzo.
"Dormiu, felizmente. Já não agüentava mais tanto drama..."
"Ainda bem. Há dois dias que não pregava o olho mesmo depois de tudo que a gente bebeu lá na vila... Pensei que ninguém ia ser capaz de arrancar ele do lado de Kurama. Isso é que é amor..."
"O que você está insinuando, hein?"
"Ora, Kaizo... Acho que até o Koji deve ter percebido. Tá na cara que seu irmão e Kurama... né? Você sabe..."
"Pois saibam que vocês todos estão redondamente enganados! Não há nada entre eles. Se houvesse, Kuro já teria me contado."
"Teria mesmo?"
"Sai daqui, anda! Sua voz me irrita. Não quero que sua conversa estúpida o acorde."
"Tudo bem... se você quer assim..."
Kaizo observou o youkai se afastar com olhos nervosos. Em seguida, desviou os olhos para o irmão adormecido. Não podia ser...
Kurama acordou aturdido por um pesadelo muito estranho. Era o que lhe faltava. Nunca fora de ter pesadelos na vida... No entanto, seu primeiro movimento teve que ser detido antes que se completasse. Uma dor aguda percorreu seu peito, se espalhando rapidamente pelo corpo todo. O susto acelerou sua respiração e nesse momento ele percebeu que respirar era doloroso também. Não havia sido um pesadelo então.
"Kuronue.", ele chamou com a voz falha.
"Ele não está aqui agora Kurama."
O youko virou a cabeça devagar, ao mesmo tempo em se esforçava pra lembrar dos últimos acontecimentos. Não estava mais acampado ao lado de Kuronue, nem mesmo na estrada... Já havia chegado a floresta e... um menininho, Kaizo, Hekel, o subterrâneo, Najah, a trilha e...
"Por que está tão escuro?", perguntou, só para ganhar tempo enquanto o resto não lhe ocorria.
"Acenderei uma vela."
"Foi você, não foi?"
"Quem tirou você de lá? Fui eu sim... Parece ser a minha sina, não? Salvar seu pescocinho..."
"Não adianta disfarçar... Senti seu youki.", afirmou Kurama erguendo os olhos para a figura recém iluminada.
Najah sentou-se calmamente ao seu lado, não muito próximo. Sua aparência em nada se assemelhava ao youkai que Kurama havia visto da última vez.
"Você acionou uma armadilha na floresta. Teve muita sorte, o estrago poderia ter sido muito maior."
"Armadilha? Não havia armadilha nenhuma... Onde está Kuronue?", murmurou, ao mesmo tempo em que tentava a todo custo se erguer.
"Já disse, está lá fora."
"Você... matou ele?"
"Matei? Você está confuso. Kuronue está no quarto do irmão, descansando provavelmente..."
"Eu sei que a única armadilha naquela floresta era você. Se fez algo com ele pode me matar agora."
"Seu parceiro está bem.", disse Najah com bastante firmeza, "E não me venha com essa estória de morrer... Não faz seu gênero..."
"Por que me trouxe pra cá então?"
Silêncio.
"Me desculpe por não aliviar seu sofrimento com remédios. Pense que a dor é alimento do espírito. E acredito que já deixei o seu passar fome por tempo demais. Pode muito bem se recuperar sozinho... Ah, mais uma coisa. Não tente se levantar. Tem duas costelas quebradas aí, no mínimo. Andar não vai ajudar nem um pouco."
"Por que não responde nada do que eu pergunto?!"
"Calma Kurama... seja um bom menino... Vou buscar água para você.", disse Najah, antes de retirar tranqüilamente.
Kurama se virou, trincando os dentes para suportar as pontadas no peito. Queria sair e descobrir o que realmente estava acontecendo antes aquela situação o enlouquecesse de vez. Precisava ter certeza que Kuronue estava bem. Ele se levantou, apoiando-se na parede de pedra. No entanto, caiu de joelhos antes de dar o primeiro passo. Foi só então que percebeu que estava nu, ou estaria se não fosse pelas faixas que envolviam várias partes de seu corpo.
Ele levantou a cabeça... O lugar não lhe era estranho. Estava num compartimento desabitado, onde muitas vezes havia se escondido depois das brigas com Najah.
"Então tentou se levantar?" Eu avisei que não conseguiria..."
Najah estava de volta com a mesma expressão plácida. Ele se aproximou com um caneco de água numa das mãos.
"Seu parceiro está dormindo. Está no quarto de Kaizo.", informou antes de estender-lhe a água.
Kurama segurou o caneco. Estava com muita sede. Porém, atirou o recipiente ainda cheio contra o youkai, acertando-o em cheio do peito.
"Quer me dizer o que está acontecendo aqui?!?", gritou.
A camisa de Najah estava encharcada pela água derramada. Ele olhou para si mesmo, examinando-se como se não tivesse ouvido o protesto. Depois se aproximou lentamente e ajoelhou-se ao lado dele. Num movimento brusco, segurou-o pelo pescoço, empurrando-o de volta contra o colchão.
"Estou FARTO da sua rebeldia.", disse entredentes, ignorando a expressão dolorida do outro, "... Está na hora de termos um pouco mais de disciplina por aqui."
O youko fechou os olhos e virou o mais que pôde o rosto ainda preso pelas mãos de Najah. A dor em seu peito era tanta que não podia respirar, não conseguia sequer pensar... Ele nem percebeu quando as lágrimas começaram a escorrer por seu rosto.
"Oh... O que é isso? Será que eu estou arrancando lágrimas de você? Não me dá esse presente desde que era um menino. Gosto disso. Gosto de extrair alguma reação de você... É uma pena que esta seja a única que tenha para me oferecer... Bom, já é alguma coisa...", disse Najah, soltando o pescoço de Kurama.
"O que você quer?"
"O que eu quero Kurama é o que você tirou de mim. O que você me roubou quando me humilhou com suas mentiras, ou pior, quando me fez gostar delas... Não me importa os seus motivos. Não me interessa o que você pensou quando achou que podia me usar para a sua conveniência... Ora vamos, pare com isso. Ver tanto medo em seus olhos me dá vontade de matá-lo... Sei que você não é assim. Logo logo estará pensando em uma saída... Pois não pense. Você se livrará de mim um dia. Até lá, cuidarei para que você tenha outras prioridades na vida..."
Kurama olhou diretamente para ele.
"Melhor assim... Está vendo? É só falar sério com você que as lágrimas são rapidamente deixadas de lado. Sabe, Kurama... Ainda não sei quem odeio mais, se eu por amar você, ou você por me desprezar."
"Eu nunca de desprezei."
"Não desprezou meu poder, meus conhecimentos, a boa vida que eu te dei, mas dispensou o amor que fez nascer em mim..."
"Não tenho culpe de não te amar!"
"Isso é o que você pensa... Não, Kurama, o amor não funciona desse jeito com criaturas como você... Você preferiu aquele estúpido youkaizinho apenas porque não o tinha, enquanto a mim... Você se lembra deste quarto? Aqui onde você veio comer escondido há alguns anos atrás? Desde aquele dia você soube que me tinha, Kurama. Quis então conquistar o que não possuía, preferiu o desafio de transformar o amor de irmão em desejo de amante. O seu amor faz parte do seu encanto e é tão falso quanto ele... Ainda assim, parabéns. Kuronue seria capaz de te dar o próprio sangue. Ainda há de morrer por você um dia, pode acreditar."
Najah parou de falar e deu uma boa olhada no youko. Por alguns momentos, desejou acabar com toda aquela agressão e consolá-lo como fazia quando ele ainda era um menino. No entanto, ele sabia que se comover naquele momento seria o mesmo que desistir para sempre.
"Virei vê-lo mais tarde. Se você cooperar, trarei um remédio para a dor. Adeus, Kurama."