Capítulo 3: Kurama

 

Kaizo e Kuronue permaneceram na sala como havia sido ordenado. Estavam se sentindo desconfortáveis e apreensivos embora por razões bastante diferentes. Enquanto Kuronue não sabia o que pensar a respeito da transformação de Kuni, a única preocupação de Kaizo era se eles corriam o risco de ser expulsos depois daquela confusão.

Kuronue foi o primeiro a quebrar o silêncio.

"O que o mestre disse que ele é?"

"Um youko."

"Por que ele não se transformou antes?"

"Eu é que sei?"

"Será que isso é só temporário? Quem sabe ele não volta a ser o Kuni?"

"Duvido muito. O mestre disse que ele é um youkai, como nós. Você não ouviu?"

Kuronue balançou a cabeça indeciso.

"Eu vou lá no quarto e já volto."

"Ah não vai não!..."

Mas quando Kaizo se virou, seu irmão já tinha ido. Porém, pouco tempo depois ele estava de volta, segurando uma sacola debaixo do braço. Só que Kaizo estava tão irritado com as reiteradas teimosias de Kuronue que nem se deu o trabalho de perguntar o que era. Foi logo disparando um sermão. A bronca só não foi maior porque o mestre reapareceu bem a tempo de poupar os ouvidos de Kuronue de um iminente massacre.

"Venha comigo...", disse Najah, dirigindo-se ao menino, "... e quanto a você, Kaizo, pode ir."

"Mas mestre..."

"Vá de uma vez!"

Kaizo ainda hesitou não teve outro jeito senão se retirar aborrecido.

Kuronue seguiu Najah em silêncio, embora na verdade estivesse gritando por dentro. De alguma forma, o mestre percebeu.

"O youko acordou. Pelo que deu pra ver não está muito machucado. Quero que tente falar com ele."

Ao entrarem no pequeno compartimento, Kuronue olhou em volta sem entender. Não havia ninguém lá. Mas Najah se dirigiu até um pequeno vão incrustado entre as pedras que formavam a parede.

"Ele entrou aí."

O menino olhou incrédulo. Era tão estreito que teve medo de entrar e ficar entalado. Porém bastou um olhar mais severo do mestre para convencê-lo que tinha que entrar de um jeito ou de outro.

Com jeito, Kuronue se esgueirou entre o vão, sentindo a parede "lixar" as extremidades de suas asas. Sorte que Kuni, ou seja lá quem fosse, também não tinha conseguido ir muito longe. Estava encolhido no fundo do vão, ainda nu como quando surgiu na reunião. Até então Kuronue não tinha a menor idéia do que iria dizer, mas ao vê-lo tão amedrontado, foi tomado por uma inesperada simpatia para com seu ex-animal se estimação. Sem querer, se surpreendeu sorrindo para ele, afinal, não podia ser tão ruim assim.

"Oi! Lembra de mim?", falou, tentando parecer o mais amistoso possível.

Mas Kuni só se encolheu ainda mais.

"Sou Kuronue, seu dono, ou melhor, ex-dono. Agora que sei que é um menino não posso mais falar assim, né? Você sabe falar?"

O silêncio permaneceu inalterado.

"Vem comigo, vem. Aqui está apertado e escuro demais. Não precisa ter medo.", disse, esticando o braço para alcançá-lo.

Kuni desviou do toque como pode mas Kuronue não desistiu.

"Ora! Algum dia eu te machuquei? Por que não confia mais em mim?... Bom, se é assim, eu fico aqui com você...", disse, tentando acomodar as asas da melhor forma possível.

Os meninos se olharam por algum tempo. Kuronue não entedia porque mas estava achando tudo aquilo cada vez mais interessante. Já quase não se importava mais com o incômodo nas asas. Subitamente, o youko engatinhou desajeitadamente em sua direção e parou bem do seu lado.

"Ku... ro..."

"Kuronue. Sou eu. E você?"

"Kuro... nue."

"Não. Kuronue é meu nome...", enfatizou apontando para si próprio, "... e o seu?"

"Ku..."

"Kuni?"

O youko balançou a cabeça negativamente e olhou para cima, como que puxando pela cabeça.

"Ku... rama."

"Kurama? É esse o seu nome de verdade?"

Sua resposta foi um entusiasmado aceno de cabeça, seguido por um bocejo.

"Está com sono?"

Sem qualquer convite, Kurama se deitou, fazendo a perna de Kuronue de travesseiro como de hábito. Finalmente se sentia um pouco mais seguro após o solavanco que virou sua vida de pernas pro ar. Não entendia o que estava acontecendo, apenas que subitamente estava maior, sem equilíbrio e também com muito frio, provavelmente porque seu pelo havia sumido. Por sorte sua cauda ainda estava lá, ou pelo menos uma das duas que costumava ter. Só se lembrava de ter acordado desse jeito e dado de cara com aquele sujeito horrível de quem antes vivia se escondendo. Era tudo tão estranho. Kurama... há quanto tempo não ouvia esse nome... Já havia sido chamado assim, embora não se recordasse bem porque ou por quem... Mas apesar de tudo, Kuronue ainda estava ao seu lado e naquele momento, isso era tudo o que lhe importava.

Assim, Kurama dormiu ali mesmo. Kuronue tentou levantá-lo mas o lugar era muito estreito e Kuni, quer dizer, Kurama estava bem mais pesado naquela forma. Com algum esforço, o menino arrastou seu novo amigo para fora. Najah ainda os esperava.

"O que aconteceu?", perguntou ansioso, ao vê-los de volta.

"Ele dormiu."

Imediatamente, Najah levou o youko para um colchão do outro lado do quarto.

"Eu acho que ele está com frio, mestre. Eu trouxe uma roupa minha pra ele usar.", disse Kuronue tirando uma camisa de dentro da sacola que havia ido buscar.

Najah chegou a pegar as roupas da mão do menino mas as devolveu logo em seguida.

"Vista-o você."

Kuronue se aproximou e começou a por as roupas em Kurama.

"Acho que vai ficar meio grande...", comentou.

Na verdade, não era bem o que pretendia dizer. O mestre os observava fixamente e Kuronue não conseguia decifrar se seu olhar era de aprovação ou de desaprovação. Mas não podia permanecer na dúvida por muito mais tempo...

"Ele pode ficar, não pode?"

"Vamos ver..."

"Por favor, mestre."

"Não quero por aqui uma criança que se comporte feito um bicho."

"Eu vou ensiná-lo, prometo... E ele entende as coisas, me disse até que seu nome é Kurama."

"Kurama?"

"É."

"Um youko prateado chamado Kurama... Não sei se gosto disso... Youkos não abandonam seus filhos a menos que haja uma boa razão pra isso..."

"Já sei! Vai ver ele se perdeu da mãe."

"Pode ser..."

"Mestre, deixe ele ficar. Ele é tão pequeno, não deve comer muito. Eu divido as minhas coisas com ele."

"Já disse... vamos ver. Se ele começar a se comportar feito gente, pensarei no assunto. Até lá, está sob sua responsabilidade, entendido?"

"Sim senhor!"

"Fique aí essa noite. Não quero que o menino se assuste novamente quando acordar."

Kuronue sorriu satisfeito. Algo lhe dizia que, apesar da aparente evasiva de Najah, Kurama já havia sido aceito.

O menino se ajeitou no lado do colchão que Kurama não estava ocupando. Estava cansado, afinal, tinha sido uma longa e atribulada noite. Antes de fechar os olhos, não evitou de dar uma última olhadinha no youko. Era responsável por ele agora, não podia vacilar. Mas apesar da apreensão que isso pudesse lhe causar, Kuronue se sentia satisfeito... importante até. Daquele dia em diante, teria uma missão de gente grande a cumprir...