Capítulo 2: Dias de raposa

 

Ao fim de dois dias, Kaizo se convenceu de vez que havia feito uma grande besteira ao permitir que Kuronue trouxesse Kuni pra casa. Seu irmão não fazia mais nada que não fosse pajear o bicho. Suas preocupações haviam se resumido a tratar da pata da raposa, alimentá-lo e até mesmo conversar com ele. Kaizo ainda tinha esperança que seu irmão se cansasse daquilo mas... no fundo já duvidava bastante que ele fosse capaz de devolvê-la a floresta como havia prometido.

Só que isso não era tudo. No lugar onde moravam haviam outros quinze jovens youkais que também haviam se rendido àquela brincadeira estúpida de bichinho de estimação. Pelo menos com a cumplicidade de todos ficava mais fácil esconder raposa do dono da casa...

Mestre Najah era um youkai misterioso. Há muito Kaizo desejava saber mais sobre seu anfitrião sem realizar nenhum progresso nesse sentido. Tudo que se sabia é que ele havia optado por viver em reclusão naqueles túneis subterrâneos e que tinha o hábito de permitir que jovens órfãos ou perdidos neles de abrigassem. Não tinha riquezas, não tinha escravos. Apesar da aparência forte e imponente, jamais mencionava qualquer palavra que aludisse à violência. Se tinha poderes, ninguém sabia ao certo. Também não exigia nada de nenhum de seus protegidos, apenas que aprendessem alguma coisa, ler, plantar, caçar, enfim, algo de útil. Como Kaizo já era um garoto vivido quando lá chegou, nunca teve oportunidade de ter muito contato com ele, o que frustrava bastante a sua curiosidade. Por outro lado, já que era o mais velho entre os jovens habitantes do subterrâneo, esperava que um dia tivesse sua capacidade reconhecida embora até o momento ainda não tivesse feito jus a qualquer tipo de tratamento especial.

Talvez, porque se sentia com tanta obrigação de se sobressair em meio àquele bando de pré-adolescentes que estivesse tão preocupado com a nova travessura de Kuronue. Mestre Najah não admitia que os garotos levassem animais para o subterrâneo e, a despeito da boa influência que deveria ter, era justamente o que seu próprio irmão havia acabado de fazer. Porém nada parecia poder ser feito quanto a isso. A cada dia que passava, Kuronue estava mais apegado ao bicho e vice-versa.

Logo que voltou a andar, Kuni quase pôs tudo a perder quando fugiu do cercado onde Kuronue o havia colocado. Por sorte os meninos o encontraram antes que o mestre percebesse qualquer coisa. Alguns dias depois, no entanto, já não havia mais o perigo de Kuni escapar, já que passou a seguir Kuronue para onde quer que ele fosse. Na semana seguinte o quadro se agravou. Kuni não só seguia Kuronue como também ameaçava avançar em qualquer um que chegasse perto dele... inclusive Kaizo.

Quando não havia mais nada que desgrudasse os dois, a solução foi Kuronue adotar um bolsa tiracolo onde escondia Kuni sempre que Najah estivesse por perto. Para Kaizo, aquela situação estava extrapolando todos os limites. A gota d'água veio quando Kuronue teve que mudar de quarto alegando Kuni "não gostava" de ficar no mesmo lugar que ele. Como se já não bastasse seu irmão dividir o mesmo colchão com aquele bicho.

Mesmo assim, Kuronue se mudou e ainda teve o desplante de comentar depois que Kuni havia passado a dormir muito melhor longe de Kaizo...

E assim os dias se passaram...

Como era de se esperar, Kuronue não enjoou de seu bichinho de estimação... pelo contrário, passou a treiná-lo para fazer gracinhas para os outros garotos. Todo o dia era a mesma coisa: senta, deita, rola, dá a pata, busca o graveto... Sorte que Kuni era do tipo silencioso ou nada teria feito com que escapasse do fio do punhal de Kaizo.

Porém, as habilidades de Kuni estavam sempre excedendo o previsível. Kuronue passou a levá-lo junto quando ia roubar. A raposa trabalhava tão bem vigiando ou mesmo passando por vãos estreitos para alcançar objetos mais bem escondidos que em pouco tempo se tornou parte imprescindível em todos os planos de Kuronue. E quando o roubo acabava, Kuni ainda caçava uns coelhos para o jantar. Melhor impossível. E assim, Kaizo só ia ficando cada vez mais certo de que seu irmão jamais o deixaria ir...

Todas as semanas, havia uma reunião geral no subterrâneo. Era uma espécie de confraternização já que normalmente cada um cuidava de sua vida ali. Mestre Najah e todos os garotos ficavam algumas horas juntos na sala principal para conversarem sobre os mais variados assuntos. Geralmente o mestre não falava muito, mas parecia se divertir com os casos contados por seus protegidos. Kaizo era sempre quem dominava as discussões. Era o líder nato do grupo, para orgulho de Kuronue.

Certa noite, Kuni, como sempre, foi escondido dentro da sacola de Kuronue durante a reunião. Quase sempre ele dormia lá dentro o que era, sem dúvida, bastante conveniente. Com o tempo, Kuronue já não tinha mais tanto medo que ele fosse descoberto mas por precaução preferia manter a bolsa sempre bem a vista.

O assunto da vez era ventilação. As últimas chuvas haviam feito uma parte do subterrâneo desabar prejudicando muito a circulação de ar. Kaizo estava expondo suas idéias para amenizar as conseqüências do problema porém Najah não parecia lá muito atento. O mestre tinha dessas coisa... as vezes parecia que seus pensamentos estavam a quilômetros de distância.

"... acredito que se iniciássemos os reparos amanhã, em três dias já teremos normalizado a situação... O que acha da idéia, mestre?"

"... Muito boa. Faça como quiser."

"Sim senhor."

Kuronue se aproximou para mostrar a Najah um desenho que tinha feito. Há alguns dias vinha desenvolvendo um plano para que Kuni fosse aceito e a primeira etapa era exibir o melhor desenho de raposa que conseguisse fazer. Se o mestre gostasse já seria um bom começo...

Najah pegou o papel e o examinou atentamente.

"Está muito bonito. Quantos anos tem, Kuronue?"

"Treze, senhor. Eu sou irmão de Kaizo."

"Ah sim! Dá pra notar a semelhança. Você desenha bem para a sua idade. Acho que vou exigir mais da sua caligrafia daqui pra frente..."

Kuronue deteve o suspiro. As coisas que não tinha que fazer por Kuni...

De longe, Kaizo os observava. Parecia até que o mestre estava mais interessado naquele desenho estúpido do que em seus planos para consertar os canais de ventilação. O jovem voltou para seu lugar habitual desapontado... Bem em cima da almofada em que costumava se sentar, estava a bolsa de Kuronue com Kuni dentro... - Aquilo era demais, será que até seu lugar na reunião aquele bicho iria ocupar? - Num movimento impensado, Kaizo chutou a bolsa para o lado. Um gemido de animal cortou o ar, interrompendo todas as conversas da sala.

Najah se levantou.

"Que foi isso?"

"Nada!", berrou Kuronue, tentando alcançar a bolsa. No entanto esta começou a se mover sozinha sob os olhares apreensivos de todos os presentes.

"O que tem aí?"

Kuronue abraçou a bolsa.

"Não tem nada lá, mestre.", interveio Kaizo.

"Cale-se! Não sou idiota... Kuronue! Traga essa bolsa aqui."

"Vai, Kuro.", incentivou Kaizo. - Pelo menos assim se livraria da maldita raposa.

Kuronue entregou a bolsa trêmulo. Najah abriu a bolsa e puxou Kuni de lá de dentro por uma das caudas.

"Qual a regra sobre animais?", perguntou bastante severo.

"Nada de animais.", respondeu Kuronue aflito, com lágrimas nos olhos.

"Pensei que não soubesse..."

"Mestre, a culpa é toda minha. Eu trouxe ele e eu obriguei todos aqui a ficarem quietos. Mas por favor não machuque ele. Eu levo ele de volta para a floresta, eu juro."

Kuni se torcia virado de cabeça pra baixo. Por instantes Najah pareceu indeciso, até mesmo condescendente... porém Kuni conseguiu se torcer de um jeito que o possibilitou morder a mão de Najah. Foi solto e iniciou um fuga alucinada pela sala.

Os garotos gritavam, alguns corriam atrás de Kuni. A balbúrdia se instalou e isso mas até do que qualquer outra coisa, tirou Najah de sua fleuma habitual. Kuni não foi alcançado pelas mãos de seus perseguidores e sim por uma bola incandescente que o atirou contra a parede sem qualquer esperança de defesa.

Kuronue abafou o grito e correu em proteção de sua raposa de estimação sem pensar se poderia ou não outro ataque estar a caminho. Por sorte, não estava.

Kuni ainda estava inteiro mas completamente sem ação. Kuronue começou a chorar ali mesmo. Não se importava com que os outros iriam pensar.

"Você matou ele...", disse encarando Najah, entre um soluço e outro.

Kaizo achou melhor se meter, antes que seu irmão dissesse algo impensado...

"Kuro... deixa disso. Era só um bicho..."

"Era meu amigo..."

"Não fica bem chorar por causa disso..."

"Deixe-o...", interveio Najah, se aproximando, "... e vocês todos, vão para seus quartos. Não há mais nada que se fazer aqui."

Os jovens se dispersaram em silêncio.

Kuronue se levantou carregando Kuni.

"Vou enterrar ele lá fora.", disse decidido.

Mas antes que desse o primeiro passo, sentiu uma energia estranha percorrer seu braços. Subitamente, Kuni parecia estar em brasa. Kuronue devolveu-o ao chão antes que o deixasse cair...

"Que foi?", perguntou Kaizo.

"Afastem-se!", ordenou Najah.

Kaizo puxou Kuronue para mais longe. Completamente atônitos, Os três viram os corpo da raposa ser envolvido por uma energia enfumaçada, que rapidamente se dissolveu dando lugar a um corpo de menino com cauda e orelhas de raposa.

Kaizo e Kuronue se olharam e depois para o mestre.

Najah se aproximou devagar e se ajoelhou ao lado da criança.

"É um youko."

"Um quê?", perguntou Kaizo.

"Ele é um youkai...", explicou Najah sem tirar os olhos do pequeno corpo a sua frente, "...Kuronue?"

"E.. Eu não sei.. . nunca vi ele fazer isso... eu juro."

Kaizo estava visivelmente apreensivo mas para não parecer covarde também se aproximou.

"Está vivo?"

"Sim, está..."

"E é perigoso?"

"Não nessa idade."

Kaizo suspirou aliviado mas Kuronue continuava observando à distância. Sua cabeça estava atordoada. Kuni era um menino, youko, ou qualquer coisa assim... Mas o que o incomodava não era espécie de youkai que Kuni pudesse ser... Na verdade, se sentia... traído? Era como se durante meses Kuni tivesse mentido para ele mesmo sem saber falar...

Najah tirou sua capa e cobriu o youko com ela.

"Vou levá-lo para dentro, ver se consigo reanimá-lo. Vocês dois não saiam daqui enquanto eu não mandar. Eu posso precisar de ajuda quando ele acordar."

Najah se retirou, deixando para trás duas cabeças cheias de dúvidas.

Porém, para Kuronue, as descobertas daquela noite ainda não haviam chegado ao fim.