Capítulo 1: Kuni

 

Seis anos antes.

 

Kuronue caminhava pela floresta apressado, tentando inutilmente acompanhar os passos de seu irmão mais velho. A trilha estreita e cheia de obstáculos bem como a enorme sacola que carregava dificultavam bastante o andar do pequeno youkai que a todo custo resistia ao impulso de pedir arrego. Em todo caso, aquela dificuldade toda estava servindo bem ao propósito de ensina-lo sobre as inconveniências de se furtar mobília. Quanto mais Kuronue andava, quanto mais suava, mais se arrependia de ter cismado de carregar aquela cadeira estúpida. Bem que Kaizo o havia avisado...

"Como é, Kuro? Já está disposto a deixar de ser cabeça dura?"

"Não. Estou muito bem, se quer saber..."

Kaizo deu de ombros. Sabia muito bem que para a teimosia de seu irmão só havia um remédio: deixá-lo arcar com a conseqüências. No entanto, uma coisa não podia negar: era uma bela cadeira. Pensando melhor, talvez devesse ajudá-lo, afinal, Kuronue era só uma criança. Com certeza não iria agüentar arrastar aquele trambolho por muito mais tempo e acabaria deixando-o pelo caminho. Não havia sentido em tal desperdício.

O youkai alto deu meia volta para reencontrar seu irmão lutando para soltar uma parte da sacola que havia ficado presa em um arbusto espinhoso.

"Maldita planta!", resmungava o pequeno, batendo as longas asas negras numa tentativa de ganhar mais impulso para libertar sua preciosa carga.

"Cuidado, hein... assim é capaz de você sair voando..."

Kaizo permaneceu mais uns segundos assistindo os esforços desajeitados de Kuronue. Definitivamente já estava na hora de acabar com aquilo. Com apenas um puxão, Kaizo soltou a sacola e a jogou por cima das próprias costas.

"Eu carrego pra você um pouco, está bom assim?"

"Não... estou... cansado.", gaguejou o menino ofegante.

"Eu sei que não está. Mas acho que é a sua vez de ir na frente..."

A convivência com Kuronue fez de Kaizo um especialista em psicologia infantil. Os dois haviam sido expulsos da vila onde nasceram quando Kuronue tinha 5 anos de idade e desde então haviam se tornado inseparáveis. Oito anos se passaram e os irmãos continuavam a dividir os azares e as sortes da vida nas florestas do Makai.

No entanto, o destino lhes havia sido bastante generoso nos últimos anos, principalmente quando os trouxeram àquela região em particular. Foi lá que, após anos de vida a deriva, Kaizo e Kuronue encontraram um lugar para onde podiam voltar e estar em segurança entre um furto e outro. Garotos como eles dificilmente conseguiriam abrigo generoso e desinteressado mas, de fato, foi exatamente isso o que aconteceu. Mais do que moedas e bugigangas, os irmão haviam conquistado um dos tesouros mais raros do Makai, um lar, e estavam dispostos a zelar por ele pelo resto de sua vidas.

"Kaizo, você acha que o mestre vai gostar da cadeira?"

"Então é pra ele?"

"Claro!"

"Acho que vai gostar sim... Sabe, Kuro, você é um guri bem mais esperto do que parece... Agora, vai na frente em silêncio e não esquece de me avisar se vir alguém."

"Tô indo, tô indo..."

Kuronue, apressou o passo aliviado por ter reassumido o controle de seu corpo. Mal via a hora de crescer e ser tão alto e forte como Kaizo. Até que ser pequeno tinha certas vantagens em sua profissão, mas por outro lado, era humilhante não conseguir carregar sua própria sacola. Sorte que tinha um parceiro tão legal...

Os pensamentos de Kuronue se dissiparam quando deu conta que havia se afastado demasiadamente de seu irmão. Já estava pensando em voltar um pouco atrás quando ouviu um gemido abafado vindo de sua esquerda. É claro que não era de bom senso sair por aí checando cada ruído da floresta mas aquele lhe pareceu diferente. Não era alto nem tampouco assustador. Na verdade, estava mais para um choro, um gemido ou coisa assim. Kuronue hesitou por alguns momentos mas a curiosidade acabou falando mais alto.

Enquanto isso, Kaizo mudava a sacola com a cadeira de um ombro para o outro pela décima vez. Era bem mais pesada do que havia pensado e não conseguia entender como o seu irmão tão pequeno pode carregá-la por tanto tempo sem reclamar. Ainda bem que não estavam muito longe de casa...

"Kaizo !!!! Corre aqui!"

O youkai não precisou pensar para largar suas cargas e correr em direção ao grito. Kuronue nunca havia feito tal coisa... Seu coração foi a mil na ânsia de verificar o que poderia estar acontecendo com seu irmão. Talvez tivesse sido imprudente por tê-lo mandado ir na frente...

À distância, Kaizo já foi se acalmando quando avistou Kuronue parado ao lado de uma árvore...

"Vem ver o que eu achei."

"Kuronue, eu não acredito que você me fez correr desse jeito por nada...", disse, se aproximando do irmão.

Os olhos de Kaizo se arregalaram ao ver o "achado" de seu irmão. Era muito pior do que havia imaginado. Ao invés de algum objeto perdido, o que encontrou foi um animalzinho preso numa armadilha...

"O que a gente faz?", perguntou Kuronue com expressão de súplica.

"Kuro, eu não acredito que você fez um escarcéu por causa disso aí... E eu burro larguei tudo lá atrás achando que era algo importante... Vamos sair daqui, ok?"

"Mas... e ele?"

"É só um bicho e está morrendo. Me espere enquanto vou buscar as sacolas... E não toque nele. Sabe-se lá se essa coisa tá envenenada..."

Arfando, Kaizo voltou para buscar sua carga. Era tudo o que lhe faltava, Kuronue se compadecer de cada animal ferido da floresta. Às vezes, não via a hora de seu irmão crescer um pouco...

Mas o desgosto de Kaizo, estava só começando. Quando alcançou Kuronue novamente, ele já tinha soltado o animal e estava enrolando um pedaço de tecido na pata ferida pela armadilha...

"Que diabos você pensa que está fazendo?"

"Não posso deixar ele aqui, tadinho. É só um filhotinho. Vai ver se perdeu da mãe..."

Kaizo ameaçou tomar o animal dos braços de Kuronue mas sua resposta foi um esquiva ligeira que quase o desequilibrou. Resolveu mudar de argumentos.

"Kuro, larga isso! O bichinho vai morrer de qualquer jeito... e depois sabe que não pode criar animais no subterrâneo. Não podemos quebrar as regras."

"Deixa eu levar ele pra casa só hoje, por favor. Ninguém precisa ficar sabendo. Se ele melhorar eu levo de volta pra floresta e se piorar eu sacrifico de uma vez. Não posso abandoná-lo desse jeito."

"Tá bom, tá bom! Faça o que quiser mas se alguém perguntar, eu não sei de nada... E tem mais uma coisa: não conte comigo para te ajudar a cuidar dele, entendeu?"

"Valeu, mano! ... O que acha que ele é?"

"Um bicho idiota."

"É sério. Parece um raposa, só que tem dois rabos..."

"Então vai ver que é uma raposa idiota de dois rabos.", respondeu Kaizo contrariado.

"Maneiro. Pera aí, deixa eu ver uma coisa... é macho!"

"Impressionante."

"Que nome eu dou pra ele?"

"Ei! Que estória é essa de nome? O combinado é que NÃO vamos ficar com ele."

"Eu sei, eu sei... mas até lá eu tenho que chamá-lo de alguma coisa, né?"

"Que tal Imbecil?"

"... Já sei! Vai ser Kuni!", exclamou ajeitando seu novo amigo o melhor que pode em seu colo.

Kaizo olhou para cima, tentando entender porque tinha deixado uma coisas dessas acontecer.

"Não há de ser nada...", pensou otimista, calculando quanto tempo mais um filhote naquelas condições poderia durar.

A dupla seguiu o resto do caminho em silêncio.