Paraíso
por Ryoga K2R
Capítulo 09: MEMÓRIAS DE UM TEMPO ESQUECIDO
O sol urgia por detrás das altas montanhas coroadas pela fina neve que caia sob as nuvens, seus longos raios dourados reluziam pelo céu e acariciavam o esbelto e suave rosto da garota que com seus grandes olhos azuis observava atentamente o firmamento que se curvava imponente sobre ela. Preso por entre seus lábios rosados , um filete de capim esmeralda balançava conforme o vento lhe agredia. Seus cabelos dourados, curtos e bem aparados, estavam adornados com um belo e lânguido laço cor de rubi.
Vestia uma camisa branca, leve e confortável que cintilava conforme os raios solares incidiam sobre suas esparsas e curvelinias dobras. descansando sobre seu peito, um medalhão dourado e adornado com pequenas e valiosas jóias rosadas refletiam aos filetes de luz causando um vistoso brilho por sob a clara vestimenta.
Seu jovem corpo repousava sobre a calma e aguda a grama verde, a leve umidade da terra esfriava suas costas mesmo tendo o fino tecido como uma fraca e vulnerável barreira como empecilho.
Subitamente seus olhos se fecharam e se impulsionando com os braços, dobrou o joelho mudando sua posição. Agora ela estava sentada, seus olhos ainda se mantinham presos no vasto céu azul, suas pernas estavam flexionadas a frente , onde seus braços se apoiavam como se fosse uma pequena sacada de uma grande torre e ela debruçava por sobre ela despreocupadamente:
- Paraíso ...- ela balbuciou um som fraco como um sussurro, apenas um pensamento que escapara subitamente de sua mente.
- Eu queria lhe perguntar uma coisa? - agora sua voz soava alta e audível, como se ela estivesse falando com alguém, mas não havia ninguém a sua volta. Os pássaros albinos piavam ao longe enquanto o som ríspidos de carroças era emitido fracamente de uma pequena estrada que cortava a pequena floresta ali perto.
(- Pergunte minha criança.) apesar da resposta surgir de uma voz repleta de ecos, foi ouvida apenas pela garota que abaixou levemente a cabeça como se envergonhada, ela lembrara agora que não havia a necessidade de palavras para se comunicar com Paraíso, apenas os ecos do pensamentos se tornam necessários para aqueles que são ligados interiormente pelo pacto e pela amizade.
(- Você tem algum sonho?) questionou Ellen.
(- Sonho?) indagou o Mashin. Era possível notar um certo tom de surpresa na voz sempre imponente repleta de ecos de Paraíso.
(- Você possui algum sonho? Um sonho que lhe faça persistir nele, mesmo sob as piores adversidades ) Ela olhou para o céu, onde um par de belos pássaros de penas albinas que reluziam ao toque cálido do Sol, cruzavam velozmente em direção ao Sul. O vento soprou rápido e agudo, atingindo agressivamente os finos fios de cabelos loiros que se agitaram e balançaram de forma confusa em frente ao esbelto rosto de Ellen, que começou lentamente a mover seus lábios rosados, surgindo deles um belo e calmo canto, igual ao que ela e Paraíso haviam ouvido semanas atrás em um festival de agradecimento a farta colheita que ocorrera em uma pequena cidade rural.
"Nessa vida tudo é fantasia
Qualquer coisa pode acontecer
Todo mundo tem que ter um sonho
Pra viver..."
(- A música do festival, você a aprendeu!) exclamou Paraíso surpreso, pois pelo que lembrava só há haviam ouvido apenas uma vez.
(- Sim. Mas ainda não consigo acertar o ritmo) Ellen se levantou como em um salto, mantinha seus olhos ainda fixos no vasto céu cor de safira.(- Mas você ainda não respondeu minha pergunta, Paraíso.)
(- Sim, minha criança. Eu tenho um sonho!) respondeu convicto (- Eu quero ser livre, livre como os humanos e elfos, quero sentir a grama verde a massagear meu corpo que repousa sobre ela, quero sentir o vento frio a agredir meu corpo. )
(- Então você quer ser um humano?) Ellen esperava de tudo, menos ouvir aquilo como resposta, afinal todos desejavam ser um Mashin, pois são os seres mais poderosos conhecidos em toda Zefir.
(- Sim!) respondeu convicto.
(- Então eu lhe digo Paraíso, farei de tudo para torna-lo humano. É uma promessa!)
***
Ellen cambaleou até a entrada da gigantesca caverna, logo atrás dela jazia o corpo inerte de um enorme e monstruoso Dragão- Rubi. Ele tinha sua asas vermelhas completamente destruídas, de um corte lateral no tórax escorria uma grande quantidade de sangue, formando uma vasta poça envolta dele.
Ellen não estava em melhor estado, seu braço esquerdo estava inerte e completamente ensangüentado. Arrastava a perna direita, de onde escorriam filetes avermelhados de sangue, sua roupa se rasgara em finas fatias de tecido. Ela Mantinha seu olho esquerdo fechado devido ao sangramento em sua testa, vários arranhões estavam espalhados por todo o seu corpo.
Mesmo no lastimável estado em que estava, um sorriso se formou em seu lábio, estava satisfeita. Conseguira aquilo que tinha vido buscar: o báculo de Comunhão. Ela o carregava com seu braço direito até que finalmente chegou a saída do covil do Dragão e desfaleceu em meio a terra parda do local ,o báculo foi arremessado a alguns metros dela e foi sua ultima visão antes de perder a consciência.
Ela finalmente poderia cumprir sua promessa e por isso estava satisfeita consigo mesma.
***
Um filete de luz atravessou a janela e atingiu o belo rosto de Ellen que dormia tranqüilamente. Lentamente ela abriu seus olhos e se sentou na beira de sua cama. Ela gemeu devido as fortes dores que se espalhavam por todo seu corpo, que estava repleto de ataduras e curativos. A passos lentos, caminhou até uma penteadeira feita de madeira prateada.
Sentou-se num pequeno banco, e começou a escovar seu loiro cabelo enquanto observava atentamente o motivo de estar ferida daquele jeito: O Báculo de Comunhão, que estava sobre uma pequena mesa circular ao seu lado.
Subitamente, um par de batidas a porta, desviou sua atenção e ela calmamente se dirigiu até a porta e a abriu, revelando o maior mago de Zefir atrás dela: Cleph.
- Ellen! Nós precisamos conversar.
- Pois não? Entre Cleph!
Ellen após convidar Cleph a entrar voltou calmamente a sua tarefa, penteando cuidadosamente seus fios de cabelos dourados. Cleph permaneceu parado e pensativo logo atrás dela. Ambos podiam ver a face um do outro através do reflexo no límpido espelho da penteadeira.
Ao notar a presença do Báculo a direita de Ellen, Cleph finalmente dirigiu a palavra:
- Ellen. Estou aqui por que a Princesa Esmeralda e eu tememos por sua segurança.
- E por quê ? Não vou fazer nada perigoso. Respondeu se virando para Cleph que permanecia sério.
- Então, qual o motivo de ter se empenhado tanto, a ponto de ser quase morta por um dragão ancestral, apenas para resgatar o báculo de Comunhão?- questionou Cleph, apontando seu cajado mágico em direção ao báculo.
- Para cumprir uma promessa a um amigo - respondeu friamente - nada a ver com você, Esmeralda ou Zefir.
- Você pretende tornar Paraíso humano não é?
- Como sempre você está a um passo a minha frente, Cleph. Ellen sorriu marotamente para Cleph que permanecia sério.
- Ao menos você sabe o risco que corre?
- Sim. Eu irei desaparecer em troca de tornar Paraíso humano não é? Mas fiz uma promessa e vou cumpri-la. Custe o que custar.
- Vejo que você perdeu a razão, Ellen. Esqueceu da promessa que fez a um outro amigo?
- Você se refere a Takeda não? Eu acredito que ele estará melhor sem mim do que comigo - Os olhos dela se tornaram melancólico enquanto observava o vazio do céu.
- Me desculpe Ellen. Mas, eu e a Princesa não pensamos assim.
- Então você acredita que pode mesmo me impedir Cleph? - Os olhos dela se transformaram completamente, como se estivesse zombado do mago ao seu lado.
- Se não houver outro meio- Um brilho avermelhado começou a se formar envolta do cajado de Cleph. Ellen recuou assustada com a decisão do mago, mas logo um sorriso se formou em seu rosto. Anos atrás ela o temia, mas agora Cleph não chegava nem aos seus pés em relação aos poderes que havia obtido.
****
Cleph desfaleceu ao chão em meio aos destroços do que antes era o aposento de Ellen, a mais poderosa Magic Knight que já existiu. o vento frio que vinha de um enorme rombo na parede do aposento .agredia o cansado corpo do mago.
Apoiado em seu cajado, ele se dirigiu até o rombo na parede e olhou para o céu azulado, o sangue escorria quente dos vários ferimentos em seu corpo, sua vestimenta estava inteiramente destruída. A batalha com sua discípula havia sido mais difícil do que esperara, se não fosse a ajuda da Princesa , provavelmente ele não teria vencido a batalha e impedido Ellen de cumprir sua insana promessa.
Desviou seus olhos para o jardim do castelo onde um cristal azulado refletia os raios dourados do Sol, em seu interior uma garota aparentando doze anos estava aprisionada, seus olhos estavam melancólicos e tristes pois não conseguiria cumprir mais sua promessa a um amigo e isso era imperdoável.