Capítulo 12: LÁGRIMAS

 

    (Está escuro. Tenho medo do escuro. Estou com frio. Odeio o frio. Afinal, por que estou aqui?).

    - Que a união seja feita e minha promessa cumprida!

    (Uma promessa. Promessas sempre devem ser cumpridas. Foi assim que me ensinaram. Cumprindo promessas eu deixo os outros felizes. A felicidade dos outros é minha própria felicidade. É nisso que eu acredito... ou penso que acredito.).

    - Vejo que você perdeu a razão, Ellen. Esqueceu da promessa que fez a um outro amigo?

    (Se devo sempre cumprir minhas promessas, porque prometo o que eu não posso cumprir? Deve ser uma perfeita idiota. Eu prometi a ele que voltaríamos a nos encontrar e então viveríamos juntos. Algo simples, mas que eu compliquei por querer ser especial.).

    - Você já é especial para mim!

    (Sim, mas isso por que você me ama. Mas... eu quero ser amada por todos. Quero ser admirada. Quero ser importante. Quero valer alguma coisa!).

    - Se você me ama então porque não volta comigo?

    (Voltar? Voltar onde eu sou uma entre muitos. Ser uma pessoa comum, como todas as outras. Eu já disse: quero ser ESPECIAL! Mas isso me basta? Se especial é suficiente? Afinal, o que é ser especial? Por favor, alguém me responda! Não me deixem falando sozinha! Eu não gosto de estar sozinha!).

    - Eu te odeio Ellen!
    - Eu vou matar você "mina"!

    (Ódio e vingança. Sentimentos que nos torna humanos. Se sou odiada por que mereço viver? Prefiro estar morta... se já não estou!).

    (O frio me incomoda, a escuridão me dá medo. Eu não ouço nada, não me vejo e não me sinto. O que prova que eu existo? Que eu ainda estou viva?).

    (Se penso, logo existo. Ótima frase feita por alguém que acreditava existir. Todos pensamos que existimos. Isso nos torna humanos e nos permite viver. A vida é uma piada. Uma brincadeira de mau gosto.).

    (Estou cansada de brincar!).

    - Ellen!

    (Esse é o meu nome. É assim que os outros se referem a mim. Apenas um artifício para facilitar as coisas. Damos nomes as coisas por ser conveniente. Todos temos um nome. Que queiramos ou não. Mas isso não me importa, não foi eu que escolhi ser chamada assim. É tão conveniente ter um nome.).

    - Nunca direi meu nome a alguém que está preste a morrer!

    (Nomes são dados a todas as coisas. Eu tenho um nome, logo sou uma coisa. Isso é questão de lógica. Todos somos coisas, estamos num mundo repleto de coisas. Coisas que nos machucam, que nos fazem sofrer. Coisas que nos fazem rir ou chorar. Coisas e mais coisas.).

    (Apesar de tudo, coisas são necessárias para que haja um mundo real. Para que possamos toca-los e senti-los. É isso que os torna real. Isso prova que eles existem... Ou achamos que exista. A realidade é composta daquilo que acreditamos ou que os outros nos fazem acreditam. Mas... E quanto aos sonhos?).

    - Sim, minha criança. Eu tenho um sonho!

    (Sonhar é algo pessoal e único. Cada um possui seu próprio sonho. O sonho é o combustível que permite girar as engrenagens da vida, mesmo diante das dificuldades. É necessário sonhar para se viver).

    (Quem não sonha não vive. Logo merece não existir. Todos devemos sonhar.Ter um sonho apenas seu, único. É necessário. É preciso. Para se sonhar não é necessário que haja coisas, nem aquilo em que acreditar).

    (Sonhando é mais fácil se fugir da realidade que nos machuca e faz sofrer. É por isso que eu prefiro sonhar). (Mas... Se sonhar é algo pessoal e único, ao se sonhar estamos sozinhos. Eu não gosto de ficar sozinha. Eu estou com medo...). (E é tudo culpa minha. Sou uma verdadeira idiota. Alguém que traiu seus próprios amigos merece ser castigada com a solidão. Ficando sozinho se percebe os quanto os amigos são importantes).

    - Por que? POR QUE? POR QUE VOCÊ FEZ ISSO ELLEN?

    (Para cumprir uma promessa. Traí meus amigos, lutei com eles, fiz com que sofressem apenas para que eu pudesse cumprir uma promessa. Como sou egoísta! Não pensei nos sentimentos alheios. Estava obcecada).

    (Realmente! Eles estão melhores sem mim. Um monstro egoísta e traidor que não merece um pingo de confiança).

    - Me desculpe Ellen. Mas nós não pensamos assim.

    (Se isso é verdade. Se vocês podem realmente me perdoar. Me aceitar novamente como uma amiga. Voltar a ser como éramos).

    (Eu ficaria muito contente... Mas não ha volta para mim. Só me resta ser esquecia em meio à escuridão e o nada).

    (Por favor, me deixem desaparecer em paz. Estou cansada de fazer os outros sofrerem. Estou cansada da minha vida. Estou cansada de ser especial. Prefiro ficar aqui...).

    - Então eu ficarei com você!

    (NÃO! Nem ouse em pensar nisso. Eu mereço sofrer pelos meus pecados, não quero que tenham pena de mim).

    (Eu desejo o melhor para aqueles que amo!).

    - Se você me ama então por que não volta comigo?

    (Voltar? Mesmo que os faça sofrerem, insistem que eu volte? Vocês estão malucos? Lembre, eu os traí ,fiz com que chorassem, os feri e mesmo assim insistem que eu volte.)

    - Por que você é nossa amiga!

    (Amiga? Ainda posso ser chamada de amiga? Se for verdade, gostaria de voltar. Ter um a segunda chance. Ter um novo sonho!)

    - Podemos ir embora?

    (Sim!)

    ***

    -NÃOOOOOOO!!!!! - o grito agonizante de Paraíso ecoa pelo vasto céu de Zefir.
    A luz dourada em seu peito expandiu rapidamente, envolvendo-o. Ele se debate, tenta escapar, fugir, mas nada consegue fazer para evitar ser engolfado pelo temível brilho.
    A surpresa se estampa na face de Takeda que observa atônito. Ele não compreende o que está acontecendo. Ele apenas quer sua amada de volta, ele quer Ellen de volta!
    Súbito, uma delicada mão feminina rompe do interior do brilho, tateando o vazio. Dedos delicados de uma criança. O belo rosto de Ellen surge logo depois procurando por apoio ou um braço acolhedor.
    Perseus se adianta, cambaleante, e acolhe a jovem, envolvendo-a em sua mão. Ellen sorri ao ver a face de Perseus observa-la preocupado. Ela esta feliz. Seu coração pulsa agitado e sua alma está novamente tranqüila.
    Infelizmente é uma paz temporária que se desfaz quando o brilho dourado finalmente se extinguiu. Paraíso ressurge em sua gigantesca forma Mashin. Espantado com o ocorrido, ele olha absorto para suas próprias mãos, negras e reluzentes. Ele não entende o que aconteceu, não sabe por que sua comunhão com Ellen fora desfeita. Mas ele sabe perfeitamente que seu poder diminuiu drasticamente com o fim da comunhão e que num combate direto com Ellen ele seria facilmente derrotado.
    Envolto em seu desespero, Paraíso não consegue pensar claramente. Apenas um único pensamento se destaca em sua mente distorcida: matar Ellen antes que esta recupera suas forças.
    Seus olhos vagam pelo céu até avistar seu alvo acolhida na mão de Perseus. Suas negras correntes sibilam ameaçadoramente a sua volta. Seus olhos brilham e as correntes partem, cortando o céu em direção a sua vitima.
    Os lindos olhos de Ellen se arregalam ao pressentir a aproximação das correntes. Takeda também as percebe e num movimento brusco ele vira suas costas para o ataque, protegendo Ellen do impacto, mas sendo fatalmente ferido.
    As negras correntes de Paraíso trespassam o dorso de Perseus, que grita em agonia. O sangue escorre vermelho e caudaloso. Seus olhos, antes dourados, se tornam opacos. Lentamente o poderoso Mashin da Terra começa a se desfazer. Perseus está morto.
    Takeda cai da enorme jóia do peito de Perseus. Ellen o acolhe e o abraça fortemente. Os ferimentos no Mashin também se refletem em seu piloto. Filetes rubros de sangue escorrem dos ferimentos de Takeda.
    As lágrimas brotam lerdas dos olhos de Ellen:
    - Takeda, por favor, não morra. Eu te amo. Nunca mais vou te deixar. Nós vamos viver juntos na Terra...
    Nesse instante Takeda a interrompe colocando seu dedo indicador sobre os lábios rosados de Ellen. Ele sorri melancolicamente.
    - Ellen. Não chore. Estou contente por saber que você está bem.
    - Takeda, eu... - o desespero envolvia Ellen, a vida de seu amado escorria lentamente por entre seus dedos e ela nada podia fazer.
    - Eu quero que você seja feliz, Ellen!
    - Como eu posso ser Feliz sem você?
    - Eu estarei sempre ao seu lado, te vigiando. Por favor, acredite em mim, Ellen. Eu te amo... - a cabeça de Takeda pendeu para o lado, seus olhos se tornam opacos, extinguindo o vivaz brilho da vida.
    Takeda estava morto. Ellen não acreditava que aquilo pudesse estar acontecendo. Abraçou fortemente o corpo sem vida de seu amado. Sua mente estava confusa,a dor da morte lhe corroia o peito.
    Seus olhos varreram o céu em busca do assassino de seu amor. Paraíso voava imponente alguns metros a sua frente. Um forte desejo de vingança brotou em sua mente. Paraíso matara a pessoa mais importante para ela e ele pagaria esse crime com a vida.
    Custe o que custar.

    ***

    - Hã?
    - O que foi Sr. Lantis?- indagou surpresa a jovem secretária de longos cabelos verdes e olhos lilás.
    - Não é nada! - Lantis mentia.Ele podia sentir emanando de Zefir um enorme poder mágico que ele nunca sentira antes. Alguém com poder suficiente para destruir tudo e a todos. Uma expressão de preocupação se estampou em sua face serena.
    - Então é melhor se apressar, pois a reunião está preste a começar- avisou a jovem, sorrindo gentilmente.
    Lantis acenou positivamente balançando a cabeça. Ele deveria averiguar o que estava acontecendo em Zefir depois. Agora ele teria uma reunião com o lideres políticos de Altozan. Lantis se tornara o embaixador elegido por Cleph para questões políticas entre Zefir e os outros três mundos. É um trabalho árduo, mas o melhor espadachim mágico de Zefir é a pessoa correta para o serviço.
    Lantis suspirou, tentava disfarçar, mas a preocupação era perceptível em sua fisionomia.

    ***

    Lucy abriu lentamente seus olhos. Esta ferida, mas ainda é capaz de lutar. Levantou seus olhos, vermelhos como fogo, e contemplou assustada a explosão de fúria de Ellen.
    Lucy nunca vira antes tanto poder. Então era verdade o que Cleph lhe tinha dito: "o poder de um magic knight é infinito, depende apenas de sua força de vontade". Ellen é a prova viva de quão real é essa afirmação.

    ***

    Uma enorme aura negra envolvia Ellen, relâmpagos cortavam o céu. Ela esta liberando todo o seu poder. Levantou os olhos e fitou Paraíso ameaçadoramente. Paraíso recua intimidado, não esperava que a morte de Takeda gerasse tamanha fúria em sua antiga companheira.
    - PARAÍSO, EU TE ODEIO!!!- Ellen carrega em seu punho uma gigantesca quantidade de energia repleta de relâmpagos e faíscas negras
    - GRAVITY CLUSTER!!! - um feixe de energia negra parte velozmente do punho de Ellen em direção ao gigantesco Mashin.
    Paraíso utiliza seu poder restante para gerar um escudo negro de energia. Infelizmente seu nível de poder é extremamente inferior ao de Ellen e logo o escudo se despedaça. Paraíso é arrastado em meio a um turbilhão de energias negras. Sua pele queima. A dor aguda lhe corroe o corpo e a alma.
    - MALDITA!!! - brada Paraíso agonizante, sendo desintegrado impiedosamente pelo poderoso ataque da Magic Knight.