Memórias
 

Por Ana-chan


Capítulo 27: Nova ordem



 

 Cerca de 150 anos depois meus domínios já eram bem vastos. Tinha meu próprio castelo que era bem melhor do que todos os outros que existiam no Makai porque tinha sido construído para mim, do meu modo, e não às custas de banhos de sangue como todos os outros.

 Quanto à mim, tinha mudado bastante. Não era mais um adolescente desmiolado e imprudente. A falta de um dos sentidos me fez cauteloso e pensativo. Reuni à minha volta não só guerreiros poderosos mas também youkais que se dedicavam ao estudo e à ciência. Queria que meu reino fosse diferente do de Laizen, queria que todos os meus súditos pudessem desfrutar de um certo conforto, mesmo os que fossem fracos e insignificantes.

 O Makai daqueles anos começou a ser dividido. A oeste ainda reinava Laizen, o mais antigo e ainda considerado o mais poderoso dos reis, embora já um tanto enfraquecido por um jejum que já durava vários séculos. Ao norte, um rei cruel e desconhecido tomou o poder do dia para a noite destruindo tudo que se punha em seu caminho. Seu nome era Mukuro e não tinha nada a ver com os líderes da guerra de que eu havia participado. Sua origem era uma mistério total. No sul era eu quem começava a por ordem nas coisas.

 O único território que permanecia sem soberano era o leste. Lá, a situação era bem mais complicada. Com a formação dos três reinos que mencionei, todos os carniceiros deste mundo fugiram para o leste, transformando a antiga região da grande floresta num ambiente hostil e violento até para os padrões do Makai. Cada centímetro de chão era disputado com ferocidade pelas inúmeras facções de bárbaros e criminosos que se multiplicavam por lá numa velocidade assustadora. Não havia mais a tradicional divisão entre ladrões, caçadores e aldeões. Todos haviam de tornado assassinos e não havia mais lugar seguro.

 Sabia que Kurama ainda vivia por lá e consequentemente Kaizo também. Só não sabia em que condições. Me preocupava com eles, não vou negar. Tentei enviar mensagens para ambos mas nunca fui respondido.

 Lembro que certa vez soube que Kurama tinha sido capturado no reino de Mukuro. Mandei um de meus comandantes até lá para pagar qualquer preço por sua libertação. Ele retornou meses depois com a notícia de que ele havia conseguido fugir e Mukuro estava furioso por desconfiar que um de seus próprios seguidores tinha lhe facilitado a fuga. Com isso, perdi a última chance que tive de revê-lo.
 

...
 

 Anos mais tarde, estava numa reunião quando Yoda, um de meus assistentes me informou que havia um viajante insistindo muito para falar comigo.

“Yoda, já não te disse que não recebo ninguém sem audiência marcada, e muito menos no meio de uma reunião.”

“Eu sei, senhor, mas esse aí é diferente. Disse que é seu amigo há quase 400 anos e que veio do leste só para vê-lo.”

 Me engasguei com a própria respiração mas consegui manter a compostura.

“Yoda, leve-o ao salão principal e o faça sentir confortável. Diga que estou ocupado mas que assim que puder irei vê-lo.”

 Por alguns momentos tive reações próprias da juventude. Me vesti como se fosse para um recepção. Lutei comigo mesmo para não parecer ansioso e embora exteriormente não deixasse transparecer meu nervosismo, por dentro estava quase fora de mim. Caminhei até o salão devagar e entrei mais devagar ainda só para fazer gênero. Não entanto, quem esperava por mim não era exatamente que eu estava pensando.

“Kaizo?”

“Yomi. Não é que é você mesmo?”

 Levei Kaizo para uma enorme varanda de onde podia-se ver toda a extensão de meu reino.

“Nunca pensei que pudesse estar tão bem. Ouvi todas aquelas estórias sobre Yomi, senhor do sul, mas me recusava a acreditar pudesse ter conseguido ir tão longe.”

“Eu tive sorte... e muita ajuda também. O sul é minha terra natal. Sempre foi pobre e desolada, ninguém ficava por aqui. Quando perdi a visão pensei muito e cheguei à conclusão que deveria voltar para cá. Não teria utilidade no leste mas qualquer coisa que conseguisse realizar no sul já seria um grande feito. Acho que foi o único plano que fiz na vida que deu certo.”

“Mas você é especial, eu sempre soube disso. Estou muito feliz por saber que conseguiu superar tudo o que aconteceu.”

Queria perguntar por Kurama mas resisti.

“E o que fez todos esses anos?”

“Com certeza nada comparável às suas conquistas... Tenho algo para te contar... É sobre Kurama.”

 Continuei agüentando firme. Tentei me fazer de desinteressado.

“Kurama? A última coisa que soube é que escapou de Mukuro, o rei do norte. Como vai ele?”

“Ele está morto.”

 Perdi a pose.

“Ele o que?”

“Ele está morto, Yomi. Dessa vez é para valer. Eu sei porque fui eu quem atirou nele. O vi morrer. Não tem volta.”

“Você? Não acredito... como conseguiu? Kurama é mais poderoso que você, provavelmente mais esperto também...”

“É verdade... Mas eu o matei assim mesmo. Cumpri a promessa que tinha feito e estou livre agora.”

 Ficamos calados durante um tempo.

“Como aconteceu?”

“O bando de Kurama se desintegrou quando o leste foi invadido por toda a escória do Makai. Ao mesmo tempo ele se desentendeu seriamente com seus colegas do Hame-kala e acabou enfrentando um levante. Venceu mas não levou porque o castelo onde vivia foi invadido logo a seguir. Não que lugar fosse problema para ele afinal, ele conhecia aquela floresta como ninguém. No entanto, sobreviver sozinho no leste dos últimos tempos não é uma tarefa das mais fáceis, eu mesmo tive que deixar o local onde morava para me juntar a um grupo de caçadores... Acho que ele se enfraqueceu com isso mas não voltou atrás porque nunca mais teve bando. Seu grande erro foi ter permanecido no leste onde sua cabeça valia mais do que todos os tesouros que roubou na vida... Sabia que era só uma questão de tempo até que ficasse completamente encurralado. Quando o destino finalmente nos colocou frente a frente, não vacilei. O abati com um só tiro e o observei de uma distância segura até que não se mexesse mais. Foi um bom tempo, nunca pensei que pudesse resistir tanto. Pensei em enterrá-lo mas seu corpo desapareceu na frente de meus olhos, nunca imaginei que isso acontecesse com os youkos... Foi assim que aconteceu.”

Fiquei um bom tempo em silêncio, sem saber o que dizer. Acabei não dizendo nada.

“Eu te trouxe uma coisa.”

 Kaizo me entregou uma faixa de tecido. Disse que foi a única coisa que não desapareceu junto com o corpo de Kurama. Quando segurei, mesmo sem ver, tive certeza que era parte de sua roupa. Sem pedir licença, me retirei.

Levei muitos anos para me acostumar com a idéia de que tinha morrido. Pensando bem, acho que nunca me acostumei.
 

...
 

 Kaizo viveu no meu reino seus últimos anos. Desistiu de ser caçador e passou a se dedicar aos livros. Não o odiei pela morte de Kurama porque sabia que isso seria inevitável de qualquer forma. Ladrões têm sempre um final violento mesmo os mais poderosos. Pelo menos não havia sido escravizado ou capturado novamente. Neste mundo há muitos destinos bem piores do que a morte...

 O fim de Kaizo também veio de forma inesperada. Foi morto poucos anos mais tarde, quando viajava pelo norte. Até hoje não sei bem o que aconteceu.
 

...
 

 Recentemente, fui informado que Kurama estava vivo. A princípio pensei se tratar de uma piada de péssimo gosto. A estória era totalmente absurda. Segundo ela, Kurama teria tomado as rédeas de seu próprio espírito ao morrer e incorporado um ser humano, numa espécie de reencarnação extra-oficial. Só me convenci que era verdade quando meus mais confiáveis generais juraram que o viram um Kurama humano voltar à forma de youko na frente de todos durante o último Torneio das Trevas.

 Nesta altura, eu já era o rei mais importante do Makai. Laizen estava a beira da morte e Mukuro... bom, a despeito da fama faz o tipo que se contenta em ficar em paz desde que não lhe irritem.

 Após a confirmação de que Kurama estava vivo, meu maior objetivo passou a ser tê-lo novamente perto de mim. Não seria como no passado. Agora eu sou o mais poderoso. Poderia lhe oferecer tudo que quisesse, tesouros, bibliotecas e até o Ningenkai inteiro. Não me importava se o corpo fosse o de um humano. Estava decidido em traze-lo de volta.

 Quando finalmente nos reencontramos pude constatar que tudo que haviam me dito sobre ele era verdade. Kurama se tornou outra pessoa. Embora seja um youkai vivendo numa “casca” emprestada, tem reações típicas dos humanos. Porém, o pior de tudo é que ele realmente se sente bem desse jeito. Não foi difícil me convencer que o perdi para sempre.

 Sempre soube que foi Kurama quem tramou aquele emboscada em que perdi a visão, embora tenha passado anos me recusando a admitir isso para mim mesmo. Nunca consegui odiá-lo, nem mesmo por isso.

 Mesmo assim, tive sorte. Fui bem sucedido na vida. Meu reino é estável e depois do torneio organizado por Yusuke os conflitos de sempre diminuíram consideravelmente. Nunca consegui ter quem eu amava do meu lado mas me consolo pensando que está satisfeito entre os humanos, longe do passado que tanto o atormentava. Nunca soube bem o motivo dele ter vivido sempre cercado pela falsidade, convivendo com a angústia e a solidão. Talvez ele fosse mesmo amaldiçoado. Neste caso, ele rompeu com sua sina quando se tornou humano. É por isso que não poderia obrigá-lo a ficar no Makai embora não me falte poder para isso. Acho que mesmo após todos esses anos ainda não suporto a idéia de magoá-lo. No fundo, sei que continuo o amando mais do que a mim mesmo.
 
 

~ Fim ~