Capítulo 26: Tocaia
No dia anterior ao que tinha marcado para a invasão da vila, me encontrei com Kaizo. Como sempre, me abri com ele sem revelar nada que pudesse comprometer Kurama. Nunca traí aquele youko, mesmo com toda a raiva que sentia em momentos como aquele. Nunca fiz nada para prejudica-lo enquanto estive ao seu lado. Infelizmente o mesmo não poderia ser dito à respeito dele, como constatei muitos anos mais tarde.
Kaizo me chamou de louco umas 30 vezes quando lhe descrevi meu plano. Ele não estava exagerando porém eu não me importava nem um pouco.
...
No dia combinado me reuni à outros 10 voluntários e partimos para o ataque. Tínhamos combinado que chegaríamos como viajantes e assim poderíamos atacar de surpresa. Eu pensava que se conseguíssemos matar os líderes da vila seria fácil. Só que não foi bem assim.
Passei séculos tentando entender o que se passou naquela noite. A vila estava muito calma, o que não era normal. Achei estranho e cheguei a considerar abortar o ataque mas não fiz. Esse foi um dos maiores erros da minha vida...
Caímos numa emboscada e fomos massacrados. Os guerreiros que nos atacaram não eram habitantes do local em defesa de suas posses e sim mercenários contratados com o propósito de nos exterminar. Eram muitos e com poderes bem superiores aos nossos. Um deles em especial derrubou todos em seu caminho até chegar a mim. Não tive a menor chance. A imagem daquele guerreiro feroz foi a última captada por meus olhos. Consegui feri-lo mesmo assim, nem sei como. Ouvi quando ele ordenou a retirada de seus subordinados gritando que a vida era mais importante que qualquer recompensa.
Desnecessário descrever a situação em que fui deixado. Às cegas, tateei entre os corpos de meus companheiros. Acabei pisando em falso e cai de uma altura que me pareceu imensa. Acho que desmaiei depois disso. Não faço idéia de quanto tempo fiquei jogado naquele lugar. Tinha esperança que alguém tivesse conseguido escapar e voltar para o castelo mas Kurama não apareceu para me ajudar daquela vez. Estava cego e inutilizado, com certeza não serviria mais para ele. Resolvi me aquietar a aguardar a morte. Era a única coisa que me restava a fazer.
...
Acordei na escuridão total e julguei que fosse noite. Não lembrava direito de nada que tinha acontecido. Permaneci parado até que senti alguém se sentar perto de mim.
“Kurama? É você?”
“Não, Yomi. Sou eu, Kaizo. Fique calmo, você está muito mal...”
“Onde estou? Por que está tão escuro?”
“Você não se lembra do ataque à vila?”
A minha memória começou a voltar a medida em que puxava por ela. Só que o mesmo não ocorria em relação à luz.
“Não vejo nada? Por que tapou meu olhos?”
“Yomi... não sei como vou te dizer isso mas... seus olhos foram feridos. Não creio que voltará a enxergar.”
“Não... não pode ser.”
Comecei a tentar levantar e a arrancar os curativos dos meus olhos. Kaizo tentou me impedir mas eu o empurrei com toda a força que me restava. Pus as mãos sobre os meus olhos e senti as feridas imensas que os tinham dilacerado por completo. Queria gritar mas não consegui. Kaizo me dizia coisas para me consolar mas eu não ouvia. Por alguns instantes pensei que fosse ficar louco. Só não saí correndo porque minhas pernas também não me obedeciam. Haviam se partido na queda.
...
Fiquei um tempo com Kaizo até me recuperar. Evidentemente minha visão não voltou. Me sentia péssimo por depender de outra pessoa. Kaizo me dizia que já tinha conhecido um youkai que mesmo cego se movimentava e até lutava como se enxergasse, se orientando pelo som e sensações através de um dom que havia aprendido a desenvolver. Eu não queria saber de nada. Vivia dizendo que preferia ter morrido. Passei meses nesse estado.
...
“Como se sente hoje?”, perguntou Kaizo como de hábito.
Quase um ano já havia se passado desde o ataque que me cegou.
“Melhor, eu acho... Me lembrei do sujeito que fez isso comigo... ele falou em recompensa. Não faz sentido...”
“Não? Tem certeza que não foi coisa daquela raposa?”
“Claro que não. Ele não se daria esse trabalho. Se quisesse que eu parasse com minhas ações era só mandar.”
“Se você diz isso...”
“Você sabe alguma coisa dele?”
“Parece que andou atacando no norte. Vai ver que não se contenta só com a fama e os inimigos que fez por aqui... Você quer que eu dê um jeito de avisá-lo que está vivo?”
Me surpreendi com a pergunta.
“Você faria isso por mim?”
“Muito contrariado, é claro.”
“Não se preocupe. Não quero que ele me veja nesse estado... Kaizo, eu tomei uma decisão. Vou voltar para o sul.”
“Vai o que? Como?”
“Ainda não sei. Mas estou cansado disso tudo. Quero voltar para casa.”
“Mas como vai viajar? Você está ce...”
“Cego. Eu sei. Não posso ficar mais assim, vivendo como um inválido. Eu agradeço tudo o que fez por mim. Não sei se um dia poderei retribuir. Queria fazer algo por você... e até poderia. Eu sei que só vai descansar depois que matar Kurama mas não posso traí-lo. Espero que me perdoe.”
“Não tem o que perdoar... Não aceitaria uma traição
como pagamento.”
...
E foi assim que retornei a minha terra natal, o sul do Makai, de onde um dia fugi em busca de aventura.
Tive bastantes problemas no início mas incrivelmente o fato de não enxergar me desenvolveu uma percepção que jamais julguei que pudesse ter.
Quando cheguei à vila onde nasci não reencontrei
nenhum parente. Haviam sido mortos ou migrado segundo me informaram. Porém,
o casebre caindo aos pedaços onde nasci ainda estava lá.
E foi nele que iniciei a trajetória que me transformou em rei de
todos os territórios do sul do Makai.