Memórias

Por Ana-chan

Capítulo 25: O beijo



 

 Depois que Shorim e seu grupo foram embora, as coisas começaram a parecer voltar para seus devidos lugares, bom, quase tudo.

 Nosso bando estava cada vez mais visado e as novas medidas de segurança estabelecidas pelo Hame-kala beiravam a paranóia, principalmente depois do primeiro ataque direto que sofremos em nossa própria fortaleza. Apesar de termos saído vitoriosos, aquilo era um sinal claro de que nossos inimigos já não nos tinham o mesmo respeito de antes, ou simplesmente estavam ficando cada vez mais fortes. Uma ou outra hipótese eram igualmente perturbadoras.

Pelas novas regras, deveríamos matar todos que entrassem no nosso território sem permissão e não poderíamos mais trazer desconhecidos para dentro do castelo. Mesmo assim, três companheiros foram mortos por caçadores nas semanas que se seguiram. Nossas reuniões só cuidavam desse assunto. Quanto a mim, fui proibido de trabalhar por conta própria. Hekel disse que já tínhamos baixas demais sem minha ajuda.

Durante o inverno que se seguiu, nossas atividades ficaram quase paralisadas. Em um mês eu já estava quase enlouquecendo de tédio. Minha única ocupação era a de apartar as brigas que quase todos os dias explodiam entre os membros do bando. No entanto, brigas não eram uma exclusividade dos guerreiros, até Hiuga conseguiu arrumar um desafeto entre o Hame-kala.

O mais grave dos conflitos, todavia, aconteceu entre Kurama e Hekel. A luta demoliu toda a ala sul do castelo. Nunca tinha visto nada parecido. Os dois quase não chegaram a se tocar, todos os golpes eram manifestações puras de youki. Tive medo que os outros membros do Hame-kala se unissem a Hekel mas ambos os oponentes proibiram que terceiros interviessem. Com os desabamentos provocados pela luta, não pudemos acompanhar seu desenlace. Tudo que nos restou foi esperar no pátio, tentando não prestar atenção na neve e no frio.

Quando tudo pareceu quieto eu e Ziegh, um dos Hame-kala, entramos sozinhos no castelo para apurar o resultado do conflito. Daquilo dependia o futuro do bando e todos estavam bastante ansiosos a esse respeito. Não era exatamente o meu caso.

Vi alguém caminhar na nossa direção e tremi por dentro. Era Hekel. Ziegh sorriu aliviado. Olhando de mais perto, ele não parecia muito ferido. Já estava sentindo um aperto no peito quando ele se aproximou de nós.

“Fui derrotado, meu caro Ziegh. Só estou vivo porque me rendi. Precisamos nos reunir agora. Temos uma decisão importante a tomar.”

 Ouvi aquilo surpreso e aliviado. Ziegh acompanhou Hekel. Não me dirigiram uma só palavra, acho que nem se deram conta que eu estava lá.

 Continuei caminhando. Acabei encontrando Kurama na varanda, naquela mesma em que Naomi tinha morrido, deitado sobre o parapeito. Corri até lá.

“Kurama, você está bem, está machucado?”

“Ah, é você? Só podia ser... Será que nunca vai cansar de ser minha sombra?”

“E será que nós nunca vamos conseguir conversar direito?... Nossa Kurama, tudo que estou fazendo é te perguntar se você está bem... Eu não vou insistir mais. Já vi que você está inteiro, não vou mais te perturbar com a minha presença.”

 Virei as costas. Não estava com a menor disposição para discutir e muito menos para ser ofendido. Mesmo assim não resisti em dar mais uma olhada nele antes de sair da varanda. Continuava parado lá, e lá ficou o resto do dia.

 O Hame-kala continuou parte importante no bando mas já não mandava como antigamente. Por outro lado isso só serviu para deixar Kurama mais isolado e estranho. Já quase não dava ouvidos a ninguém, só agia conforme suas própria idéias. Não se importava com ninguém e nem ligou quando lhe contei que pretendia continuar a agir por minha conta. Não cheguei a estranhar pois a proibição pelo que me constava, tinha sido idéia de Hekel.

...
 

Certa manhã matei um caçador que possuía uma arma igual aquela que disparou o tiro que feriu Kurama. Na verdade, já tinha visto uma daquelas com Kaizo mas não encontrei modo de comentar isso com Kurama sem traí-lo e acabei nunca falando a esse respeito. Só que naquele momento era diferente, a arma pertencia a um estranho e certamente Kurama ficaria satisfeito de tê-la.

Antes de mais nada, pedi que Hiuga fosse lhe comunicar a minha intenção pois estava farto de ser desprezado. Somente quando recebi a notícia de que ele queria me ver é que fui a seu encontro. O encontrei só, na biblioteca. Parecia infeliz mas não fiz qualquer comentário sobre isso, me limitei a tratar do assunto que me tinha levado até lá.

“Aqui está a arma. O sujeito que a carregava já está morto, conforme suas ordens.”

 Acho que ele deve ter estranhado minha frieza mas não disse nada. Apenas examinou a arma.

“E o tal era caçador?”

“Não tenho certeza mas parecia que sim. Não era grande guerreiro, foi fácil vencê-lo.”

“E o que é isso no seu braço?”

“Não é nada, um arranhão praticamente. Mais alguma coisa?”

“Não, nada pode ir...”

 Pensei em dizer mais alguma coisa mas estava decidido em não voltar a incidir no mesmo erro.

“Yomi.”

“Sim?”

“Vê se toma cuidado quando sair por aí com suas maluquices.”

 Não resisti.

“Preocupado comigo?”

“Ora, não seja pretensioso.”, disse levantando-se.

 Quando já ia passando por mim, uma idéia louca se apoderou de minha mente. Sabia que pô-la em prática poderia custar a minha própria vida mas o impulso foi mais forte do que a razão. Segurei-o com toda força e o beijei na marra. Por um momento me pareceu que o tempo tinha parado ao meu redor. Eu precisava daquilo desesperadamente e morrer já não significava mais nada para mim. A sensação que tive foi do beijo mais longo e ardente de toda a minha vida. Custei até para perceber que Kurama não estava lutando contra ele, muito pelo contrário...

 Kurama me queria, eu sentia isso sem a menor sombra de dúvida. Talvez apenas desejo puro e simples, desprovido de qualquer sentimento, mas francamente eu não me importava nem um pouco com isso. Senti que ele precisava de alguém, que estava farto da solidão e da amargura que tinham dominado sua vida nos últimos anos... Se naquele momento estivesse perfeitamente consciente, talvez conseguisse perceber até que ele se agarrava a mim ainda com mais força do que eu a ele.

 Nos inclinamos sobre a mesa sem darmos conta dos vários objetos que derrubamos. Só comecei a voltar à realidade quando percebi que Kurama havia parado de se mexer. Ao virar meus olhos para ele, senti uma dor violenta me percorrer a espinha. Minha mente perdeu totalmente o controle do corpo e eu cai no chão. Kurama tentou correr mas por algum motivo não conseguiu. Se desequilibrou ao se apoiar numa cadeira e teve que se sentar. Não olhava em minha direção. Permanecia apoiado à cadeira, com o rosto escondido entre os braços e respiração ofegante.

 Não entendia o que tinha se passado. Quando recuperei os primeiros movimentos, tratei de me arrastar até onde estava.

“Kurama...”

“Vai embora.”, disse sem me encarar.

“Mas... Por que? O que houve?”

“Sai daqui, Yomi... Isso nunca era pra ter acontecido...”

“Foi você, não foi? Por que fez aquilo?... Você está tremendo... Kurama, confie em mim, por favor.”

 Tentei tocá-lo mas ele se desviou. Meu corpo todo doía muito, mas nada que se comparasse ao me espírito. Ele se levantou e me encarou. Seu olhar era terrível, uma mistura de frieza, medo e raiva que jamais consegui decifrar.

“Nunca mais tente encostar em mim enquanto quiser viver.”

 Ele saiu, me deixando para trás naquele estado.

...
 

 Daquele dia em diante não tornamos tão frios um com o outro que não houve quem não tivesse percebido a mudança. Eu estava confuso de todo, sentia raiva e ao mesmo tempo não havia nada que pudesse afastá-lo de meu pensamento. Queimei a roupa que estava usando naquele dia porque o cheiro dele estava impregnado nela de tal maneira que preferi aquilo a nunca mais tirá-la de mim...

 Concentrei meus esforços em meus empreendimentos pessoais. Conclamava aos guerreiros a me seguirem e pregava contra os planos de Kurama abertamente. No fundo, queria magoá-lo de alguma forma e julguei que ameaçar sua liderança já era um bom começo.

 Quando resolvi invadir uma das vilas próximas, não fiz questão de manter segredo. Espalhei a notícia por todo o bando. Há muito vinha acalentando a idéia de organizar um feito tão épico que não pudesse ser ignorado. Meu plano era tão audacioso e desvairado que achei que naturalmente alguém tentaria me impedir. Ninguém tentou.