Memórias

Por Ana-chan

Capítulo 24: Visitas



 

 Nunca havia se feito tanto suspense a respeito de Kurama. Foi quase um mês de pacto de silêncio entre Hiuga e os membros do Hame-kala. Eu tentava disfarçar mas no fundo estava preocupadíssimo.

 A única figura que perecia estar feliz era Hekel. No começo, pensei que o motivo era estar provisoriamente na liderança do bando mas com o tempo achei que não podia ser bem assim. Hekel quase não tirou proveito de sua gestão, o que pra mim era muito estranho.

 Quando reapareceu, Kurama parecia diferente embora não desse para saber exatamente em que. Quase não falava, só não tinha perdido a disposição para ser sarcástico.

“Que bom que está se sentindo melhor Kurama! Todos estavam sentindo muito a sua falta.”, disse quando o vi pela primeira vez de volta a uma reunião.

“Estão sentindo falta de meus planos complicados mesmo com toda a emoção que você lhes tem proporcionado? Quem diria!”

 Tive que engolir mais essa. Na véspera tinha atacado uma caravana e dois companheiros haviam sido mortos.

 O resto da reunião transcorreu relativamente bem mas Kurama não ficou até o final. Desconfiei que não estivesse se sentindo muito bem. Hekel saiu com ele. Comecei a entender porque parecia tão satisfeito ultimamente.
 

...
 

 Havia pouco tempo que Kurama voltara a circular entre nós quando chegou ao castelo Shorim, ladrão e mercenário, amigo de Hekel. Estava acompanhado por seu pequeno grupo de seguidores e escravos. Ficaram conosco por uma semana.

Shorim ficou muito impressionado com Kurama, o que não chagava a ser uma novidade. Passou a o assediar de todas as formas possíveis, mesmo na frente de Hekel que parecia não dar a mínima para isso. O youko, que não andava nos seus melhores dias, limitava-se a tolerá-lo.

 Ao fim de uma semana, Hekel e Shorim convenceram Kurama a deixá-los fazer uma espécie de comemoração. O bando adorou. Desde a morte de Naomi nunca mais houve nenhuma festa naquele castelo. Acabei me oferecendo para ajudar nos preparativos, afinal, uma festa não era nada mal. Os seguidores de Shorim também tiveram que trabalhar bastante. Entre eles havia uma pequena criança, de no máximo uns 5 anos. Era de se espantar ver uma youkai tão jovem. Eu mesmo mal conseguia me lembrar da última vez que tinha visto um bebê como aquele. Tinha cabelos negros talvez não me alcançasse os joelhos. Passava a maior parte do tempo apanhando e sendo repreendido por todos até porque não parava de mexer onde não devia. Seu nome era Hiei.

 Durante a festa, Kurama não deu o ar de sua graça, o que deixou Shorim extremamente aborrecido. Vi quando ele se queixou com Hekel. Lá pelo fim da madrugada, quando muitos já tinha deixado o pátio, o youko apareceu e sentou-se perto de onde estava os outros comandantes.

 Shorim passou a lhe dedicar atenção exclusiva. Já não agüentava mais ouvir tantos elogios e já tinha resolvido me retirar quando percebi que a tal criança não tirava os olhos de Kurama. Parecia fascinado, especialmente com a cauda. Engatinhou por debaixo das cadeiras sem que ninguém percebesse até ficar bem próximo. Eu podia ter feito algo mas resolvi esperar para ver o que o moleque iria fazer. Ele permaneceu em dúvida por alguns momentos, como se sua cabecinha estivesse ponderando o risco de tocar naquele curiosíssimo objeto felpudo que balançava a sua frente. Quando finalmente a vontade superou o medo, aquele projeto de youkai procedeu o que deve ter sido o maior puxão de cauda que Kurama sentiu em toda a sua vida. O youko se assustou e levantou-se bruscamente arrastando aquela criaturinha agarrada em sua cauda. Fez-se um silêncio de cemitério quase no mesmo instante. Shorim chutou violentamente a criança, forçando-a a soltar Kurama e em seguida pôs-se de joelhos em frente ao youko.

“Perdoe, por favor, alteza, esse ato infame desse ser insignificante. Ele será punido exemplarmente, eu juro.”

“Quem é ele?”, perguntou Kurama.

“Um mestiço, uma criança do norte que eu encontrei há cerca de 4 anos quando ainda era um bebê. Um traste imundo que nem o mercador de escravos quis... mas é bom ladrão para a idade, por isso fiquei com ele. Ele irá se arrepender do que fez, eu prometo.”

 Um dos seguidores de Shorim trouxe o menino que se debatia energicamente como se pudesse vencer um oponente 20 vezes maior pelo cansaço.

“Mas é só um bebê!”, disse o youko, “Qual é o seu nome?”

“Desculpe-me, alteza, mas essa criatura estúpida não sabe falar...”

“HIEI!”, berrou o pequeno.

“Ah, não? Então o que foi que ele acabou de fazer?”

 Acho que foi a primeira vez que vi Kurama se divertir em muitos meses.

“Hiei podi pegá di novo?”, perguntou a criança apontando para a cauda de Kurama.

 Shorim xingou e retirou um chicote curto de seu cinto.

“Insolente! Você vai ver é agora!”

 Quando levantou o braço para espancar o guri, Kurama o segurou.

“Pare com isso!”

“Como quiser, alteza, mas é que...”

“Eu não estou chateado... e não quero que o garoto seja punido, entendido?”

“Sim, alteza... o que quiser...”, disse guardando o chicote.

 Estava um tanto espantado com aquela atitude. Kurama costumava ser tão frio, não se comovia com nada. Olhei para os lados e constatei que não era o único me sentindo assim.

“PODI?”, repetiu Hiei.

“Pode.”, respondeu Kurama para espanto coletivo, sobretudo de Shorim.

 O menino abraçou a cauda e roçou o rosto no pelo macio. Shorim estava boquiaberto. Hekel se aproximou de mim.

“Esse Kurama é mesmo um demônio. Não só esnobou Shorim como também resolveu humilhá-lo, dando atenção a seu escravo.”

 Achei que a explicação de Hekel até tinha sentido. Pela lógica, aquilo só poderia ser uma espécie de diversão para o youko. Não sei por que mas algo me dizia que não era bem assim.

“É bu...buito”, gaguejou o menino, “Hiei num tem.”, disse apontando para o próprio bumbum, “Hiei feio.”

“Quem foi o ignorante que te disse isso?”

 Hiei se limitou a olhar rapidamente para seu “mestre”.

“Pois eu acho que você é bem bonitinho. Bom, tá precisando de um banho. Shorim precisa cuidar melhor de você.”

“Alteza, não passa de um filhote estúpido. Fique com ele se quiser.”

 Kurama olhou o menino por alguns instantes. Não havia a frieza habitual em seu olhar, pelo contrário, ele parecia estar com dó daquela criança que provavelmente nunca viveria para se tornar um adulto. Cheguei a pensar que pudesse adotá-lo.

“Não.”, disse subitamente, “Aqui não há lugar para um ladrão tão jovem.”

“Não precisa ficar com ele. Se estiver interessado pode tê-lo enquanto eu estiver aqui.”, sugeriu Shorim, sorrindo maliciosamente, “Ele está de fato meio sujinho mas garanto-lhe que é intacto. Eu pensava em guardá-lo para quando seu corpo valesse um pouco mais, mas se é do gosto de sua alteza, posso mudar de idéia...”

“Acontece que não é do meu gosto!”, respondeu o youko bastante ríspido.

“Me desculpe, alteza, mas é que eu pensei...”

“Shorim, você quer mesmo me agradar?”

“Mas é tudo que eu mais desejo!”

“Então pare de me chamar de alteza, pare de me bajular e principalmente, pare de tentar adivinhar os meus gostos.”, disse se levantando. A seguir, retirou-se como se nada tivesse acontecido.

 Ao passar pela criança, parou.

“Adeus, Hiei.”, disse baixinho fazendo um afago em sua cabeça.

 O menino segurou sua mão.

“Não bai.”, pediu.

 Kurama desvencilhou cuidadosamente sua mão dentre as dele e saiu. Quando Hiei abriu as mãos, uma flor desabrochou entre elas. Ele olhou meio desconfiado mas depois sorriu. Shorim comentou mais tarde que aquela foi a primeira vez que viu Hiei sorrir.