Capítulo 23: Youkos
Ano novo problemas novos.
Todos os comandantes estavam na sala de reuniões, trabalhando sobre um novo plano. Hekel estava expondo suas idéias quando Kurama chegou. Estava atrasadíssimo e parecia cansado. Saíra na noite anterior e provavelmente tinha acabado de voltar. Hekel percebeu que ele não estava bem e tentou manobrar a reunião de acordo com seu próprio plano mas não funcionou. Até meio Kurama conseguia ser mais esperto do que um Hekel inteiro. Não demorou para que as coisas começassem a ser encaminhadas de acordo com o pensamento do líder. Enfim, nem tudo tinha mudado tanto assim.
De repente, nossa reunião foi interrompida por dois guerreiros. Eles pediram mil desculpas e expuseram o caso.
“Sr., capturamos dois youkais bem aqui perto nesta manhã. Eles já estão enjaulados e...”
“Eles são caçadores?”
“Não, Sr.”
“E eu já não disse que quando for assim é para matar logo de uma vez?”
“Sim Sr., mas é que esses são diferentes... eles são como o Sr.”
“Como eu o que, ladrões?”
“Não, youkos.”
Kurama deu um passo para trás. Parecia perturbado.
“Você tem certeza?”
“Absoluta, Sr.”
Kurama ficou um tempo em silêncio.
“Se o Sr. quiser posso me livrar deles imediatamente...”
“Não!... Eu vou até lá. Quero ver quem são.”
Kurama saiu em direção ao calabouço. A reunião foi interrompida e eu aproveitei que ninguém estava prestando atenção em mim para seguir Kurama, de longe é claro. Depois dei a volta para entrar no calabouço pelos fundos. Estava muito intrigado com a presença de outros youkos para perder aquilo.
Acabei chegando primeiro que Kurama. Me espantei com o que vi, uma fêmea e uma criança, que pelo tamanho não poderia ter mais de 12 anos. Seria filho de Kurama? Dispersei essa idéia. O guri não parecia nada com ele, mesmo assim... A fêmea tinha cabelos castanho-avermelhado e também o menino. Era quase a mesma cor do youko que há muitos anos tinha me revelado ser pai de Kurama. Ela até que era bonita, talvez com a minha idade, pele muito branca, olhos verde claros. Parecia triste mas não era para menos. Afinal estava presa naquele lugar horrível.
Kurama entrou devagar, bastante cauteloso. Os youkos se encararam durante um bom tempo. Lágrimas escorriam do rosto da fêmea enquanto ela permanecia abraçada ao pequeno. Kurama acionou o dispositivo que abriu a porta da cela onde estavam, permitindo que a dupla saísse do covil.
“Kurama...”, ouvi a fêmea murmurar depois se um bom tempo.
“Quem é você?”, ele perguntou reunindo toda a frieza que podia.
“Você não se lembra de mim, meu filho?”
“Como poderia depois de tanto tempo?”
“Eu nem sei o que te dizer... tinha pensado em tantas coisas mas agora já nem lembro mais... você cresceu tanto, está tão mais alto que eu... Sei que não te faltam motivos para me odiar... eu fui uma péssima mãe,... eu queria tanto poder te explicar o que aconteceu, porque eu fiz o que fiz... Diga alguma coisa, meu filho, por favor.”
“Dizer... dizer o que? Eu não tenho nada para conversar com você. O que veio fazer aqui afinal?... Meus guerreiros quase te mataram.”
“Kurama me escute... Esse aqui é Ken, seu irmão. Só tem 11 anos... Talvez seja um dos últimos de nosso povo...”
“Nosso povo?! Do que você está falando? Daquela gente que te convenceu que eu era uma maldição?”
“Então você lembra... Kurama, eu nunca deveria ter dado ouvido a eles... eu nunca acreditei naquilo mas eu era tão jovem, não queria ser banida, tinha medo de não conseguir sobreviver sozinha. Achei que te prender na forma de raposa te daria mais chances de sobreviver...”
“Chega, Yu! Não quero mais saber dessa estória... não significa mais nada para mim.”
A fêmea soltou o menino e andou em direção de Kurama.
“Você se lembra até do meu nome. Eu sinto que no fundo não me odeia...”, disse tentando tocá-lo.
Ele deu um passo pra trás.
“Você sabe quem eu sou?”
“Você é o filho que não vejo desde que tinha 5 anos. Por favor não fuja de mim.”
Ele virou de costas.
“Não... Eu não sou seu filho e não faço parte do seu povo. Sou Kurama, ladrão do leste do Makai. De youko eu só tenho aparência... nunca fui nada além de um estorvo para você e os outros...”
“Não fale assim, filho... eu sou a culpada de tudo... te empurrei para essa vida quando te abandonei...”
“Vou mandar alguém te levar até a trilha. Não entre no meu território de novo porque não vai ter a mesma sorte que teve dessa vez...”
“Kurama, não faça isso... Ainda posso te compensar pelo que fiz...”
“Yomi, eu sei que está aí. Apareça!”
Não teve jeito, tive que me mostrar, um tanto sem graça.
“Você ouviu o que eu disse, não foi?”
“Er..., bom quase tudo.”
“Então vá com eles até a trilha, anda.”
Obedeci. Saímos da prisão bem devagar mas Kurama não olhou em nossa direção em nenhum momento. Olhei para aquela criatura que chorava perto de mim e me lembrei de minha mãe no dia que disse a ela que iria embora e não voltaria mais. Acho que pela primeira vez senti saudades do que tinha deixado para trás.
Nossa viagem foi silenciosa. A mãe de Kurama custou muito para parar de chorar mas acabou se acalmando. Não trocamos uma palavra no caminho. Ela só me falou depois que chegamos na trilha.
“Aqui é a trilha. Seguindo por ali haverão várias vilas, na maioria pacíficas. Essa parte da floresta não é muito perigosa, você e seu filho ficarão bem.”
“Ele até pode ser, é só uma criança. Nunca mais ficarei bem depois de ter constatado o mal que causei ao meu próprio filho.”
Não tinha a menor idéia do que dizer.
“Olha, eu sinto muito.”
“Você é amigo dele?”
“É... pode-se dizer que sim.”
“... E ele está indo bem, mesmo sendo ladrão?”
“Claro que sim. Ele tem muito poder, todos tem medo dele por aqui.”
“Ele parece um príncipe... Revê-lo tão adulto, tão bonito foi ao mesmo tempo o momento mais triste e mais feliz de toda minha vida...”
“Eu tenho que voltar agora.”
“Eu entendo. Adeus Sr....”
“Yomi.”
“Adeus Sr. Yomi.”
...
Acabei indo até uma das vilas próximas. Queria espairecer um pouco. Na volta visitei Kaizo. Contei para ela sobre a mãe de Kurama. Como sempre jogou todas as culpas no youko, disse que mandar uma fêmea com filho embora sozinhos foi o mesmo que condená-los a morte mas vindo dele eu não poderia mesmo esperar outra opinião. Assim, só cheguei de volta ao castelo quase uma semana depois.
Nova surpresa ao chegar até lá. Pretendia contar a Kurama que sua mãe e irmão tinham chegado bem à trilha mas Hiuga me informou que ele tinha se trancado no quarto e não queria ver ninguém.
“Como assim, está doente por acaso? Alguma caçador pegou ele de novo?”
“Não, Sr. Yomi, ele está bem. Vai ver só quer descansar...”
Duvidei um pouco das palavras de Hiuga. Era um bom serviçal mas
como ator deixava muito a desejar. Sabia que Kurama não se isolaria se
não fosse algo sério e não estava enganado. Ficamos quase
um mês sem notícias dele.