Capítulo 22: O início do fim
Kurama enterrou Naomi na floresta, foi o que soube. Estava arrasado. Se sentia culpado pela morte da garota e o fato dela ser humana definitivamente mexia com ele. Tive vontade de contar a ele o que aconteceu mas não tive coragem.
O inverno que se seguiu foi um tormento. Kurama estava cada vez mais violento e amargo. Depois da morte de Naomi quase não ficava no castelo. Sumia por semanas e nem Hekel sabia para onde ia. Bebia horrores o tempo todo. Criava problemas desnecessários e em pouco tempo dobrou o número de inimigos declarados do bando. Um dia matou um de seus próprios subordinados sem aparentemente nenhum motivo relevante. Tive que me desdobrar em dois para impedir um levante.
Quando a situação chegou num ponto que eu mesmo não conseguia mais contornar fui falar com ele. Como nunca o encontrava, tentei, como um último recurso, pedir a ajuda de Hekel mas para minha surpresa ele parecia não se importar nem um pouco com as loucuras de Kurama. Me convenci de uma vez por todas que era impossível entender os membros do Hame-kala. Quanto mais caótica nossa situação de tornava, mais satisfeitos eles pareciam ficar.
Um dia Hiuga veio me dizer que Kurama estava no castelo. Era uma boa oportunidade para tentar dialogar com ele, se é que isso ainda era possível. Não foi. Mais uma vez me arrependi de tê-lo conhecido.
“... você o que? Tá pensando que manda em mim agora para me dizer o que fazer?”
“Kurama, só estou te dizendo a verdade. O bando está inquieto. Alguns já foram embora. Estão com medo de sermos invadidos... Você é o líder deles mas nunca lhes dá a menor atenção, nem chega perto...”
“Quer saber, não dou a mínima. Não preciso mesmo de bando nenhum... Agora vê se manda antes que me irrite ainda mais.”
Resolvi mudar de estratégia.
“Kurama, eu cada vez te entendo menos... Se está com algum problema pode me contar. Você sabe muito bem que...”
“Nem pense em voltar a dizer que me ama, ouviu? Ou eu não respondo por mim. Você uma vez me disse que ia embora, não sei porque até agora não foi.”
“Não fui porque sou uma besta que se importa com você!”
“Ainda bem que reconhece.”
Pensei em partir para cima dele mas dessa vez foi diferente. Ele se defendeu com violência, acionando uma de sua plantas contra mim. Em instantes galhos me envolviam me esmagando o corpo. Quando já estava quase sem poder respirar ele me soltou. Cai no chão tentando recuperar o fôlego. Quando consegui me erguer novamente ele não estava mais lá.
...
Após essa minha última discussão com Kurama, decidi que não me restava mais nada além de cuidar de mim. Voltei a treinar, parei de encher a cara e de tentar me enganar com relação à situação que estava vivendo. Hiuga começou a me ensinar a ler e a escrever. Até que não era tão difícil como havia imaginado.
Comecei também a organizar as atividades do bando. Cometemos vários roubos à revelia do chefe mas eu não me importava, afinal ele mesmo já tinha me dito uma vez que eu poderia trabalhar por conta própria se quisesse. Com o bom trânsito que tinha entre o bando, foi bem fácil estabelecer as coisas a minha maneira.
Meus planos eram bem diferentes dos de Kurama. Eu mal me preocupava em saber dados sobre o alvo, para mim o negócio era mesmo atacar de uma vez. Os subordinados adoravam, principalmente por não terem que ficar decorando mapas e posições complicadas. Já quanto aos resultados... bem, nossos ataques rendiam bons frutos mas a verdade é que o número de baixas também era grande. Só que isso não me importava. Precisava atingir Kurama de algum modo e se este implicava em destruir seu bando que assim fosse.
Os meses se passaram e para cada ação articulada por Kurama havia outras 10 promovidas por mim.
No início do primavera organizei a invasão de um castelo há um dia de viagem do território de Kurama. Mais de 15 guerreiros me seguiram nesta empreitada. No entanto, as informações que obtive eram falsas e praticamente caímos numa cilada. Perdi quase todos os companheiros logo no começo, nas inúmeras armadilhas escondidas nos corredores. Não demorou muito para que eu próprio caísse numa. Sem perceber pisei num dispositivo que acionou a abertura de uma espécie de alçapão, só que bem maior. Quase caí sobre as setas que se espalhavam no seu interior. Quando fui cercado pelos inimigos, percebi que na verdade estava invadindo outro covil de ladrões. Seria torturado até a morte, sem sombra de dúvida. Subitamente escutei alguns gritos e vi que as criaturas que me cercavam começaram a cair desmembrados, como se tivessem sido retalhadas por raios. Foi quando vi Kurama se aproximar. Engoli seco. Ele estava seríssimo. Me encarou por algum tempo.
“Se continuar assim, vai acabar se dando muito mal.”
Não deu tempo de me explicar. O youko virou as costas e desapareceu, deixando-me só naquele buraco onde havia caído.
Não dei ouvido aos conselhos de Kurama. Continuei liderando minha própria facção do bando. Sabia que era o único modo de chamar sua atenção, como desta vez em que me salvou a vida.
Levei meus planos até onde pude. Em menos de 1 ano essas aventuras custaram a vida de mais da metade dos membros do bando de Kurama. Sabia que Hekel pressionava Kurama para que algo fosse feito à meu respeito. Não creio que desse importância às baixas que eu estava provocando. Na verdade, Hekel passou a ter prevenção contra mim desde que se convenceu que não iria aceitar suas propostas. Era meu maior inimigo, alguém que sabia ter interesse em me destruir.
Por outro lado, observava que Kurama agia cada vez mais estranhamente. Até me surpreendi quando o vi chegar a uma reunião do comando. Era a primeira vez que o via desde o dia em que impediu que fosse capturado no castelo que tentei invadir.
Hekel começou a falar sobre novas precauções que deveriam ser adotadas pelo membros do bando. Reparei que Kurama não estava prestando nenhuma atenção. Se limitou a concordar com o que Hekel havia dito sem nem saber o que. Tinha algo de diferente nele, parecia mais corado. Natural, pensei, afinal o tempo mais quente estava começando.
No final, Hekel resolveu me alfinetar.
“Acho que seria importante falarmos agora sobre certos membros de nosso grupo, inclusive da própria chefia, que insistem em cometer loucuras por aí...”
Resolvi não deixar barato.
“Se está falando de mim não precisa esconder meu nome.”
“Já que faz questão, Sr. Yomi, é do Sr. mesmo que estou falando. Matou quase 15 guerreiros numa aventura inconseqüente qualquer. Não creio que precise lembrá-lo de que ainda não é o líder.”
“Não faço nada que não me tenha sido permitido. Se Kurama proibir evidentemente não irei mais usar seus subordinados...”
Todos olharam para Kurama. Ele se levantou.
“Eu não vou proibir nada. Quando ele for morto ele pára e pelo que já vi esse dia não está muito longe... Agora se os Srs. me permitem, eu tenho mais o que fazer.”
Hekel franziu a testa. Apesar de não ter gostado do que
disse, saboreei minha pequena vitória com bastante satisfação.