Capítulo 21: Naomi
Para minha surpresa Kurama reapareceu em poucos dias. Ainda estava abatido mas parecia não se importar com isso. De fato, quem o via nem poderia acreditar que mal tinha acabado se recuperar de um ferimento grave. Estava determinado em recuperar o tempo perdido. Logo naquela semana atacamos dois castelos distantes. Não deu para eu não ficar preocupado.
Lucramos bastante com aqueles dois ataques. As coisas pareciam ter voltado ao normal e todos se sentiam aliviados com isso. O bando se reuniu numa espécie de comemoração com direito a muita bebida e companhias interessantes.
Ter me tornado comandante me fez popular entre os guerreiros. Eles estavam fartos da esquisitice do Hame-kala e tinham muito medo de Kurama para tentarem alguma reivindicação direta, então, começaram a me ver como o elo que estava faltando entre eles e a cúpula do bando. Era uma tremenda responsabilidade. Os mais variados tipos de problema me eram trazidos o tempo todo, desde picuinhas sem importância até a famosa questão a respeito dos complica-díssimos planos do líder.
A festa durou a madrugada inteira. Acabei bebendo demais, naturalmente. Notei que outra festa estava acontecendo na sala de reuniões e resolvi seguir para lá, afinal eu era do comando também.
As coisas estavam mesmo pegando fogo por lá. Estavam todos tão bêbados que mal conseguiam andar. Até Kurama que nunca se embriagava estava pra lá de alto. Provavelmente tinha se esquecido que acabara de perder tanto sangue que não poderia ter a resistência habitual. Estava rodeado de fãs, igualmente embriagados. Um deles era a mesma do dia em que fui me queixar do assédio de Hekel. Ela me olhou e riu. Pelo visto ainda se lembrava daquela cena. Reparando bem, era uma garota bastante diferente.
“Então, está impressionado com a Srta. Naomi também? Ela é humana, notou?”, perguntou Hiuga com uma bafo de bebida capaz de derrubar uma besta.
“Humana?!”
“Isso mesmo. É quase impossível manter um humano aqui no Makai mas o que o Sr. Kurama não consegue?”
“Como pode?”
“Ela veio até aqui junto com outros dois. Acabou ficando, não preciso explicar por que.”
“Nunca pensei que humanos pudessem fazer isso.”
“Na verdade, podem. Não todos evidentemente mas existem alguns que são extremamente bem dotados. Se desenvolverem seu dom podem até enfrentar um youkai de igual para igual... Não é muito o caso desta daí.”
“Kurama parece gostar dela...”
“Não creio que seja tão tolo para isso. Ela não tem mais de 30 anos mas é bem mais velha do que ele. Só tem no máximo mais 20 anos de juventude. Humanos vivem muito pouco, sabia?”
“Já tinha ouvido falar...”
Reparando bem, aquela humana tinha se tornado uma companhia quase que constante para Kurama. Desconfiava que estivesse morando no próprio castelo. Não entendi que diabos tinha visto nela. Exceto pelo fato de não ser youkai, aquela criatura parecia tão banal, tão fraca... Tinha uma pele clara, cabelos castanhos, olhos negros. Não era alta nem baixa, gorda nem magra. Tinha certeza que já tinha visto pelo menos 30 fêmeas mais bonitas nos braços de Kurama desde que tinha me juntado ao bando.
A festa continuou. Kurama estava tão louco que provavelmente não sabia mais o que estava fazendo. Muitos já estavam esticados no chão, fora de combate, inclusive Hekel. Os “sobreviventes” foram todos para um quarto. Eram na maioria fêmeas, além de Kurama e três dos outros comandantes, nenhum do Hame-kala. Um deles me chamou para ir junto. Não deu para recusar.
Dispensável explicar o que aconteceu naquele quarto. Quando acordamos, muitas horas depois. Estava nu perto do terraço. Era uma manhã estranha, um frio danado. Estava perto de uma das fêmeas, o que me deixou bastante aliviado. Quando tentei me levantar vi tudo girar. Senti que a ressaca seria uma das piores que já tinha tido na vida. Tive que sentar primeiro. Sacudi a garota mas ela nem se mexeu.
Vi que Kurama e a humana estavam deitados um pouco a frente. Tentei me lembrar do que poderia ter acontecido ali mas nada me vinha na cabeça. A última coisa que me lembrava era de ter bebido mais vinho dentro do tal quarto. Não sabia o que fazer. Fui até onde Kurama estava e o sacudi mas ele não acordou. Não estava me agüentando de frio, sorte ter encontrado minhas roupas logo. Voltei para o cômodo onde estava. Ainda pensei em trazer Kurama e a humana para dentro. Não deu. Senti uma onda de náusea subir estômago acima e acabei vomitando. Não sei o que aconteceu depois, devo ter apagado de novo.
Quando acordei, sentia como se muitas horas já tivessem se passado. De fato, já era noite outra vez. Estava em cima de uma cama. Me sentei ainda me sentindo meio tonto. Quando meus pensamentos começaram a voltar, me lembrei de ter acordado perto do terraço. Levantei cambaleando e fui até lá. Estava vazio. Senti um alívio por já terem saído ou serem tirados daquele lugar. Desci as escada ansioso por encontrar alguém. Estava um silêncio medonho, só não estranhei porque sabia que todos deveriam estar semimortos como eu.
De repente, um abatido Hiuga me segurou.
“Onde pensa que vai?”
“Lugar nenhum. Acabei de acordar, quero saber como está Kurama.”
“Ah, sim... você era o que estava desmaiado perto do terraço... Olhe, aconteceu uma coisa... A Srta. Naomi está morta...”
“O que?”
“Isso mesmo. Quando o Sr. Kurama acordou ela estava morta. Não sabemos se a causa foi o frio ou o excesso de bebida. Humanos são tão frágeis, uma tristeza.”
“E quando foi isso?”
“Umas duas horas atrás.”
“Estranho. Eu acordei cedo e fui até onde eles estava. Tenho quase certeza de que a humana estava viva.”
“E por que não fez nada?”
“Não consegui. Apaguei de novo logo em seguida. Azar o Kurama ter custado tanto para acordar... Logo ele que nunca fica assim tão bêbado.”
“Uma lástima mesmo.”
Segui meu rumo em direção ao pátio.
“Sr. Yomi!”
“O que?”
“Não diga a ninguém que viu a humana com vida esta manhã.”
“Mas por que?”
“Eu acho que é melhor assim, confie em mim.”