Capítulo 20: Caçadores
Depois que deixei o quarto de Kurama, caminhei por horas. Vi o dia amanhecer bem longe daquele castelo infernal. Sabia que o certo era ir embora, deixar aquela fonte de sofrimento para trás mas a verdade é que ainda me sentia preso a ele. Isso me irritava muito porque já não conseguia me iludir a seu respeito como fazia antes. Youkais são maus de modo geral mas Kurama não era como os outros perversos que conheci na vida. Era pior. Pior porque não era coisa nenhuma, havia se tornado uma máquina acética e gelada, inexpugnável a tudo o que se passava ao seu redor. Era incapaz de demonstrar ódio ou afeto porque simplesmente não os sentia. Suas reações era como seus planos, calculadas, precisas, visando o melhor proveito da circunstância. Nossa como eu o odiava por ser assim e ao mesmo tempo a idéia de nunca mais vê-lo me partia o espírito. Eu tinha que ir embora! Só não sabia onde arranjar forças para fazê-lo.
Sem querer, cheguei à cabana de Kaizo. Assim que ele me viu, convidou-me para entrar. Não sei bem porque mas contei a ele tudo o que tinha se passado. Acho que precisava desabafar e qualquer um servia. Não tinha intenção de incitar o ódio de Kaizo mas a verdade é que naquele momento estava por demais arrasado para ponderar esses detalhes.
Kaizo me ouviu sem dizer uma palavra. Só depois falou.
“Você pode não acreditar mas eu sempre achei que aquela peste pudesse estar metida com o Hame-kala. Eles são muito antigos e sábios e nós sabemos bem o quanto ele tinha mania de querer saber de tudo. Não duvido que tenha se entregue à eles em troca de poder e conhecimento que são as únicas coisas que ele sempre gostou...”
“Eu quero ir para outro lugar, Kaizo, por um fim nisso mas não tenho para onde ir... para ser sincero tem um lado de mim que ainda quer muito ficar, esperar por um milagre, sei lá...”
“Pois vá embora, Yomi! Não perca tempo. Esse bastardo só te trouxe desgraça... sua vida nunca vai melhorar enquanto ele estiver por perto.”
Não queria falar muito sobre aquilo. Não queria afirmar e depois não cumprir. Achei melhor mudar de assunto.
“E a carreira de caçador, como vai?”
“Vai andando. Aqui no leste está cheio de pilantras para nós corrermos atrás, não falta é serviço. Você bem poderia tentar esta carreira, você é forte, corajoso, acho que daria um bom caçador.”
“Eu? Acho que não. Meu ki não dá para tanto.”
“Que ki o que! Grandes caçadores não tem quase youki ou você pensa que para ser poderoso tem que ser bruxo igual aquele lá?”
“Que é isso? Eu sou um youkai vivido, estive em muitas lutas... o ki é o principal... se não fosse por ele seríamos tão inúteis e fracos como os humanos...”
“Não estou dizendo que não é importante. Só que agora já existem dispositivos capazes de expelir nosso próprio youki com muito mais força. Você nunca viu?”
“Não.”
“Deixa que eu te mostro!”
Kaizo abriu um baú e pegou uma espécie de arma, só que bem mais complicada do que uma espada.
“Tá aqui, deixa eu te explicar... você libera o seu youki para a própria arma, ela tem uma pedra aqui dentro que é capaz de acumular a energia, tá vendo? Ai você faz isso durante um tempo e quando estiver totalmente carregado você dispara. Se pegar, o tiro quase sempre é fatal. Prático, não?”
“Interessante. Eu deveria ter uma dessas...”
“Não sei para que. Duvido que você precise de uma recurso desses seu poder é forte, você que não sabe usar.”
“Todo mundo me diz isso... Não sei onde que é forte, não consigo expelir poder que dê para derrubar uma árvore, nem daquelas bem fininhas...E olha que eu já tive umas aulas com uma professora danada de boa. Tem jeito não!”
“Seu problema, Yomi, é que você nunca se concentra. Tá sempre pensando na raposa, isso é o que dá!”
Acabamos conversando por horas. Acabei decidindo que iria deixar o castelo do Hame-kala ainda naquela noite e iria para o oeste, tentar algo no reino de Laizen de novo. Kaizo tinha me dito que com o enfraquecimento do rei haviam muitos aventureiros estavam tentando fazer a vida por lá e que por isso eles estariam recrutando alguns soldados para a proteção do reino.
“Adeus, Kaizo. Mais uma vez obrigado por tudo. E não se preocupe, eu nunca vou contar a Kurama sobre você... Não quero mais prejudicar pessoas que são boas para mim por causa dele. Ele não merece.”
“Sabe de uma coisa, Yomi? Estou começando a ter esperanças
que você escape de acabar como o meu irmão.”
...
Caminhei de volta ao castelo completamente decidido. Já tinha até decorado o “texto” que diria à Kurama quando fosse me despedir dele. Achei muito razoável ir ter com ele antes de me mandar, afinal, bom,... acho que ainda tinha esperanças que me pedisse para ficar.
Senti uma energia muito forte ao me aproximar do castelo e comecei a apertar o passo. Ao me aproximar notei que tudo parecia meio tumultuado lá dentro. Corri e interroguei o primeiro que vi.
“Yomi, por onde andou? O diabo aconteceu aqui enquanto você esteve fora. Kido e Noni, o alto de cabelo verde e aquele outro de pele meio azulada e olhos esbugalhados, lembra? Eles nos traíram e prepararam uma emboscada pro líder essa manhã. Kido atirou nele com uma arma estranha mas não pegou de jeito e ele foi morto na mesma hora. Agora o Hame-kala tá todo lá no calabouço virando o Noni do avesso para saber quem está por trás disso. Estávamos esperando que você chagasse para nos dar alguma notícia. Você é comandante, com certeza vão te deixar entrar lá.”
Corri para o calabouço. Hiuga me deixou entrar. Noni estava pendurado de cabeça para baixo, nu. Cada vez que não respondia o que Hekel lhe perguntava ganhava uma violenta pancada nas costas. Estava todo roxo e gritava de dor. Como mais algumas pancadas provavelmente estaria aniquilado. Kurama estava num canto, sentado sobre uma mesa assistindo tudo aquilo calmamente apesar do sangue que lhe ensopava a roupa no lado direito do peito.
Hekel continuava o interrogatório mas parou quando me viu.
“Resolveu dar o ar de sua graça, meu caro? Por acaso poderia saber onde estava?”
“Não é de sua conta.”
“Não. Será? Acho que para o bem de todos devemos retê-lo aqui até saber o que fazia enquanto a arapuca de hoje era armada.”
“Eu não tenho nada com isso, eu estava na floresta, não soube de nada. Não ouse duvidar de minha palavra.”
“Isso é o que vamos ver.”
Num movimento tão rápido que não pude antecipar, Hekel me atacou. Bati com a cabeça no chão e fiquei meio tonto. Mal pude perceber quando Hekel me acorrentou. Me debati. Confesso que tive medo, e muito. Ficar imobilizado a mercê de Hekel era uma das situações mais assustadoras que eu poderia imaginar.
“Solte ele, Hekel!”
Essa frase me soou como música. E o melhor, cantada por Kurama.
“Mas Kurama, ele pode estar metido nisso. Preciso fazer algo a respeito...”
“Eu sei do que você precisa mas não vai ser desse jeito que vai consegui... não enquanto eu mandar aqui. Agora solte ele, anda...”
Ele obedeceu, extremamente contrariado. Senti um alívio
imenso, que não teria palavras para descrever. O grupo se dispersou
depois do “anti-clima” provocado por Kurama. Noni já estava morto
mesmo, não havia o que continuar fazendo lá.
...
Cerca de meia hora depois fui procurar Kurama, não para lhe dizer que iria embora, é claro. Essa idéia já tinha fugido da minha cabeça. Queria agradecê-lo pelo que fez. Talvez pudéssemos ter um diálogo civilizado enfim.
Ele estava com Hiuga na biblioteca. Tinha cismado de procurar um livro que tivesse informações sobre aquele tipo de arma ou qualquer coisa que o ajudasse a entender o mecanismo daquilo. Hiuga ia atrás dele, tentando convencê-lo a dar alguma atenção à seu ferimento.
“Kurama, será que eu poderia falar com você?”
“Vai falando.”, disse sem interromper a sua busca.
“A sós.”
“Se não quiser falar na frente do Hiuga vai ter que esperar.”
Bom, achei que não faria mal se o baixinho ouvisse. Me aproximei dele com cuidado, temendo que me mandasse ficar onde estava como da outra vez. Não mandou.
“Eu queria te agradecer pelo que fez por mim hoje.”
Kurama parou e me olhou.
“Lá vem você de novo. Não fiz por você. Sabia que você não estava metido naquilo, é só.”
“Sabia como?”
“O plano daqueles infelizes era bom demais para ter tido dedo seu.”
Senti que o inferno já estava recomeçando.
“Para com isso Kurama! Por que você não admite pelo menos que confia em mim? Pelo menos isso!”
“Yomi, eu não confio nem na minha sombra. Agora vê se vai procurar alguma coisa para fazer que eu estou ocupado, não está vendo?”
“Tem outra coisa...”
Kurama suspirou. Parecia visivelmente perturbado com a minha insistência.
“...eu estou pensando em ir embora, voltar para o oeste...”
Ele voltou a procurar na estante.
“Então, boa sorte.”
Me decidi de novo, iria embora... Diabos, ele não tinha sequer olhado para mim quando disse aquele ridículo “boa sorte”. Virei de costas. Já ia dando os primeiros passos em direção da porta quando ouvi o som de objetos caindo. Me virei rapidamente, bem a tempo de segurar Kurama que acabara de desmaiar. Hiuga correu. Só então vimos que o ferimento de Kurama não era assim tão desprezível, muito pelo contrário, era de bom tamanho e tinha pego bem no peito. Sangrava muito, só de carregá-lo até o quarto fiquei coberto de sangue.
Hiuga me pediu para ficar com ele enquanto iria procurar Hekel. Fiquei, é claro mas não foi nada fácil. Kurama sangrava demais e estava tão frio e pálido que as vezes pensava que já estivesse morto. Senti uma aflição quase tão grande quando no dia do incêndio. Tal foi meu medo de perdê-lo que já não conseguia imaginar como podia ter pensado em ir embora. Não devo ter ficado a sós com ele mais de 10 minutos mas para mim pareceu uma vida inteira.
Hekel chegou. Odiava aquele youkai mas adorei vê-lo naquele momento. Ele não perdeu tempo e tratou logo de estancar o sangramento usando um punhal em brasa, um método que a princípio não considerei nada convencional mas que acabou dando certo. O dor da queimadura fez Kurama voltar a si mas estava atordoado como uma criança pequena. Agitado, tentava em vão se levantar. Ajudei Hiuga a segurá-lo me convencendo que estava fazendo a coisa certa. Vi que Hekel o forçou a beber uma espécie de remédio. Poucos minutos depois Kurama voltou a dormir.
“Criança estúpida, acha que pode viver só de youki... Gastou tanta energia se fazendo de forte que talvez não tenha sobrado suficiente para que se recupere.”, ouvi Hekel comentar. Gelei.
Hekel mandou que todos saíssem. Contrariado, obedeci. Não
consegui dormir aquela noite.