Memórias

Por Ana-chan

Capítulo 19: Hekel



 

 Minha promoção, ao contrário do que esperava, não trouxe o reconhecimento de Kurama, pelo contrário, ele não dava a menor importância para o que eu dizia. Não raro, zombava de minhas opiniões na frente de todos. Mas isso não era o pior de tudo...

 A convivência com a “cúpula” do bando, formada pelo líder e outros 10 youkais, na maioria membros do Hame-kala, me fez tomar conhecimento dos estranhos hábitos que Kurama desenvolvera, que só o tornava mais distante do youko que eu havia conhecido.

 O comando se reunia quase todas ao noites, porém quase nada era discutido em relação às atividades do bando. Pareciam mais reuniões sociais onde se comia, bebia (e muito) e falava sobre assuntos que eu mal podia acompanhar. Nas que Kurama aparecia, estava sempre acompanhado por alguém. Constatei bastante irritado que o líder tinha uma coleção interminável de amantes, e mais, trocava de parceiros talvez tão rápido como esvaziava taças de vinho. Embora nunca parecesse embriagado, era impressionante ver o quanto Kurama e seus colegas do Hame-kala bebiam, em especial o tal Hekel.

Hekel era considerado o segundo líder do bando. Era um youkai de meia idade, talvez uns 500 anos, bastante alto (mais do que eu). Tinha um cabelo meio amarelado, curto e desgrenhado. Vestia sempre um manto cumprido e estava sempre me olhando com um jeito estranho...

 O mais esquisito então era que Kurama e Hekel estavam sempre juntos. As vezes se beijavam quando se encontravam. Comecei a notar que Hekel fazia questão de parecer íntimo de Kurama, principalmente quando eu estava por perto. Pareciam estarem juntos mas isso não os impedia de terem quem bem quisessem.

 Detestava admitir mas o que me enlouquecia mesmo em toda aquela estória era constatar dia após dia que não significava nada para Kurama.

...
 

Estávamos certa vez em uma das tais reuniões quando quase explodi. Kurama estava sentado em seu lugar habitual. Havia uma garota sentada em seu colo, com a cabeça encostada em seu ombro. Era uma criatura bastante diferente das habituais, quase sem atrativos mas era a primeira que via roubar tanto a concentração do youko. A todo o momento ela beijava-lhe e pescoço e enfiava o braço por dentro de sua camisa. Kurama retribuía as provocações, fazendo outras gracinhas semelhantes. Estava vendo a hora que iriam se esquecer da presença de terceiros naquela sala.

 Resolvi que deveria fazer alguma coisa para interromper aquela cena.

“Kurama. Eu tenho algo importante para lhe dizer!”

Falei bem alto para não correr o risco de ser ignorado. Funcionou. Todos pararam de falar e olharam para mim.

“E que algo importante seria este?”, perguntou Kurama sorrindo cinicamente.

“Er... bom... Estamos parados há muito tempo e os guerreiros estão ficando entediados.”

“E daí?”

“Eu queria sua permissão organizar algumas ações por conta própria para que os companheiros possam se exercitar.”

 Kurama riu como se eu tivesse contado alguma anedota.

“Tudo bem, se querem arriscar seus pescoços por nada não vou ser eu quem irá impedir.”

 Percebi que estava implícita em sua resposta uma crítica direta a minha pessoa. Resolvi continuar.

“Acho também que deveria tentar algo para que seus subordinados... bom, para que se torne mais popular entre eles.”

 Dessa vez Kurama e os outros explodiram em gargalhadas.

“E quem te falou que eu quero ser popular? Não ligo se gostam de mim ou não, só quero que façam o que eu mando. Se quer distraí-los vá em frente mas não me aborreça mais com essas idiotices.”

 Em seguida Kurama retirou-se, carregando a fêmea que continuava grudada nele como um esparadrapo. Foi aí que reparei que Hekel estava me olhando de modo estranho de novo.

“A reunião está encerrada, retirem-se agora”, disse Hekel com sua voz abafada.

 Começamos a sair. Estava irritadíssimo, pronto para matar alguém.

“Sr. Yomi, por favor fique. Quero falar-lhe em particular.”

“O que é?”

“Você saberá.”, respondeu-me enquanto aguardava que os demais saíssem. Fechou a porta.

“Tenho-o observado muito, Sr. Yomi.”

“É... e para que?”

“O Sr. é muito interessante...”, disse enquanto se aproximava de mim. Dei alguns passos para trás.

“Ora, não tenha medo de mim...”

“Eu? Medo? Você só pode estar brincando!”, afirmei, parando de me mover.

Ele se aproximou ainda mais, até quase colar seu corpo no meu.

“O Sr. tem algo que há muito não via em nenhum youkai... O Sr. tem paixão, nenhum bom senso, mas é encantador admirar sua impulsividade. E além disso tem uma aparência bastante máscula, muito atraente...”, disse baixo.

Alisou meu cabelo. Dei-lhe um empurrão, o mais forte que consegui. Estava enojado. Era a primeira vez que sofria assédio sexual na vida. Desembainhei a espada e apontei-a para Hekel.

“Se ousar encostar em mim mais uma vez arranco sua cabeça!”

“Mil perdões, Sr. Yomi. Não pretendia assustá-lo assim. Julguei que o Sr. fosse mais vivido em relação a essas experiências.”

“A minha experiência não lhe diz respeito. Não aprecio a sua pessoa e não há nada que possa fazer para mudar minha opinião, então deixe-me em paz!”

“Será que não há nada mesmo, Sr. Yomi...”, disse, sentando-se calmamente.

“O que pensa que sou seu bastardo, uma mercadoria. Não teria interesse por você nem que fosse o último youkai da face do Makai!”, esbravejei, indignadíssimo, preparando-me para deixar aquele local antes de cometer uma loucura.

“É uma pena Sr. Yomi. Se estivesse disposto a ser mais generoso comigo, poderia interceder em seu favor junto a Kurama. Ele me ouve muito, sabia?”

“O que? Que espécie de proposta é esta?”

“Simples, Sr. Yomi. Kurama, digamos, me deve alguns favores. Se eu pedir que lhe dedique alguma atenção, tenho certeza que não irá negar... Ora, não diga que não se sente atraído por ele. É compreensível. Kurama é belíssimo e tem muito poder. Além disso, amá-lo é um prazer indescritível, acredite-me.”

 Escutei Hekel falar estupefacto. Nunca me considerei bom e muito menos ingênuo mas nunca tinha ouvido tamanha imundice. Saí porta fora feito uma flecha. Vaguei por algumas horas madrugada a dentro. Estava extremamente confuso. Como iria lidar com aquela situação daí para diante? Subitamente uma idéia radical me ocorreu e resolvi colocá-la em prática de imediato.

 Corri o mais rápido que pude de volta para o castelo. Entrei e subi rapidamente as escadas até o último andar.

“Onde pensa que cai, Sr. Yomi?!”, perguntou Hiuga aflitíssimo se pondo na minha frente, “Está bêbado?”

“Saia da frete, Hiuga, ou vou derrubá-lo. Quero vê-lo agora e ninguém irá me impedir!”

 Empurrei Hiuga e segui em frente. Esmurrei a porta do quarto de Kurama. Segundos depois, aquela fêmea que havia visto na reunião surgiu na porta seminua.

“O que quer? Cê tá bêbado ou coisa assim? Vá embora! Se Kurama acordar você tá ferrado!”

 Empurrei a garota, que se estatelou no chão e aproximei da cama onde Kurama dormia. Estava nu, deitado de bruços em meio a lençóis desarrumados. Seus cabelos espalhados pelos travesseiros, escondiam-lhe o rosto. Sua respiração era lenta, sinal de que estava profundamente adormecido.

 Hiuga e a garota me seguraram, me implorando para ir embora. Continuei onde estava resistindo aos seus empurrões até que ouvi uma voz sonolenta resmungar:

“Que circo é esse? Por acaso o Makai está sendo implodido?”

 Kurama havia acordado e se sentava na cama enquanto puxava o lençol numa tentativa inconsciente de esconder a nudez. Por alguns segundos tive raiva de mim mesmo por tê-lo tirado de um sono tão tranqüilo mas não podia voltar atrás.

“Kurama, preciso falar com você em particular nesse minuto. Só peço que escute o que eu tenho a dizer. Depois pode me expulsar, me matar ou até me trancar naquele calabouço horrível que eu não me importo!”

 Ele me encarou com aquele expressão de que não estava acreditando no que estava vendo. Hiuga e a garota começaram a tentar se explicar ao mesmo tempo.

“Ora, calem-se!”, disse Kurama rispidamente. Os dois obedeceram instantaneamente.

 Kurama respirou fundo.

“Está certo, pode falar. E vocês dois caiam fora.”

“Mas Sr.!”, protestou Hiuga.

“Agora! E leve Naomi com você.”

 Assim que se retiraram, comecei a me preocupar com o que acabara de ter feito. Kurama se levantou, enrolando o lençol na cintura. Foi até uma pequena mesa e bebeu um gole de um copo que estava lá. Trocou o lençol por uma calça e sentou-se em uma poltrona de frente para mim.

“Você não mudou nada... continua o mesmo desmiolado.”

 Me animei. Era a primeira vez que ele falava comigo sem ser em tom de desprezo ou deboche.

“O que há de tão importante afinal?”

“É que... bom... seu amigo do Hame-kala, Hekel... ele me assediou.”

“... Tá, e daí?”

“Ele disse umas coisas bastante indecentes...”

“E foi por causa disso que você me acordou? Pensa que sou sua mãe por acaso?”

“Você não entende... ele disse coisas muito desagradáveis a seu respeito... disse que tem poder sobre você e que poderia fazer você se interessar por mim... falou de você com se fosse um brinquedo dele...”

 Kurama abaixou a cabeça e depois me encarou.

“Yomi, qual é o seu problema? Hekel te cantou e é só. Aceite se estiver afim, recuse se não estiver. Você é adulto, imagino que já deva saber do que gosta. Se quer um conselho fique com ele um tempo, nem que seja só para aprender algo de útil... E não ligue para o que disse ao meu respeito. Nem todo o poder de Enma me faria ficar interessado por você.”

 Para mim, suas palavras foram terríveis... , mas não tanto como o tom em que foram ditas. Por alguns instantes tive vontade de matá-lo. Teria que feri-lo de algum jeito... Não podia mais suportar a frieza e a indiferença de seu olhar.

“Que diabos você se tornou, Kurama? Acaso vendeu sua alma da mesma maneira com que parece vender o corpo? Nós éramos amigos. Poderíamos até ter sido mais do que isso mas eu nunca quis me aproveitar da sua pouca idade e dos seus problemas. Mesmo assim nunca te abandonei, nem depois de você ter feito o que fez. Você começou aquele incêndio, tá lembrado? Eu só fugi quando me convenci que não havia meio de salvá-lo. Não te procurei antes porque estava isolado na guerra do norte,  nunca poderia imaginar que estivesse vivo. Sempre te amei e você sabe disso. E ainda assim vem me tratando feito um nada! Qual é o seu problema, afinal? Será que você só gosta de quem te maltrata?”

 Kurama se levantou e se aproximou de mim.

“Yomi, é a última vez que eu vou te dizer isso. Tire da cabeça essa maldita idéia de que nós temos um passado junto. Eu não tenho mais passado. Joguei-o fora há muito tempo como quem se livra de uma roupa velha. Nada e nem ninguém tem importância para mim agora, e muito menos você.”

“Por que me convidou para ficar então?”

“Se quer mesmo saber, por dois motivos: você tem coragem e youki embora não saiba tirar o devido proveito de nenhum deles, o segundo é que Hekel me pediu.”

Olhei para baixo. Ainda faltava a cartada final.

“Você pode não lembrar mas um dia já me quis.”

 Ele me olhou um pouco surpreso.

“Então contente-se com a recordação do que teve. Eu não lembro, felizmente.”

“E nem poderia. Não houve nada. Um dia você estava muito mal e quis se consolar comigo... só que eu percebi que você não sabia o que estava fazendo e resolvi não me aproveitar...”

 Pela primeira e última vez vislumbrei alguma perplexidade nos olhos do youko. Foi por pouco tempo. A frieza habitual manifestou-se e tremi quando constatei que nada do que tinha dito o havia tocado. Ele riu.

“Você o que? Nossa, como você é patético!”

 Ao ouvir aquela frase, perdi a cabeça. Segurei-o pelo ombros e empurrei-o contra a parede de pedra com toda a força que tinha. Senti que o tinha ferido mas não conseguia me controlar. Não tenho muita noção do que fiz por que estava totalmente fora de mim mas lembro de ter batido com o joelho em seu estômago com bastante violência. Ele não se defendeu. Tenho certeza disso porque seu poder naquele altura era muito maior do que o meu, poderia ter me feito em pedaços se quisesse. Quando voltei a mim, Kurama estava no chão. Sangue escorria de seu pescoço e boca. Eu estava agachado do lado dele, ofegante, com minhas mãos manchadas com o sangue dele. Soltei-o e me levantei para tentar atinar com que tinha feito. Serenamente, Kurama se ergueu e encostou na parede.

“Será que estamos quites agora?”

 Não sabia o que responder. Só vim a entender o significado do que me disse muitos anos mais tarde.

“Queria nunca ter te conhecido.”

 Essa foi a única coisa que falei antes de sair correndo.