Capítulo 18: Youko Kurama
Ainda não estava totalmente recuperado mas mesmo assim deixei a cabana de Kaizo e me embrenhei na floresta. Felizmente, conhecia aquele lugar muito bem. Desta vez não seria como da última em que cruzei aquele bosque em busca de Kurama. Estava ansioso por vê-lo. Caminhei durante algum tempo, sempre na direção do castelo do Hame-kala. Não me importava com as coisas que me disseram sobre ele, queria somente vê-lo de novo. Fiz as contas e cheguei à conclusão de que estaria com cerca de 120 anos. Adolescente ainda, talvez, só que bem mais maduro. E o melhor, sem nenhum mestre Najah para atrapalhar...
Subitamente me vi cercado por 3 youkai, nem consegui perceber de onde tinham vindo. Ele me atacaram de imediato. Imaginando que fossem do bando de Kurama comecei a gritar que era seu amigo e só queria vê-lo mas eles não pararam até que eu estivesse totalmente dominado.
Amarraram minhas mão atrás das costas e vendaram meus olhos, me empurrando por um caminho que não podia enxergar durante horas. Não respondiam minhas perguntas. Acabaram me amordaçando para que eu não falasse mais. Senti passamos por um portão. Sabia que estava sendo levado para dentro de alguma fortaleza pois ouvia vozes e não estava mais pisando no solo de terra e sim em pedra maciça. De repente me empurraram para o chão. Caí. Fui deixado naquele estado durante um tempo que me pareceu um eternidade. De onde estava, só ouvia gritos que pareciam ser de dor. Já estava extremamente ansioso quando ouvi uma voz se referir a mim.
“Podem soltá-lo. O líder quer vê-lo agora.”
“Esse traste? Por que?”
“Não sei. Obedeça e é só.”
Fui desamarrado e tiraram a venda de meus olhos. Finalmente pude ver onde estava. Era uma espécie de calabouço. Tinha sido enjaulado como uma besta. Vi que haviam outros youkai na mesma situação, alguns pendurados por correntes em total estado de penúria. Tinha passado 100 anos na guerra e nunca tinha visto prisão tão assustadora.
Os dois youkai me levaram por um corredor estreito, revestido de pedra. Não se tratava de um túnel e sim de paredes bem construídas. Estava no castelo do Hame-kala, tive certeza imediata. Reconheci aquele lugar onde iniciei minha estranha aventura com Kenzo.
“Que lugar é esse?”, perguntei só para ver se me responderiam.
“Ora, cale-se!”, foi a resposta que obtive.
Os sujeitos me guiaram até uma grande sala e me largaram lá sem a menor explicação. Era um ambiente estranho, repleto de livros, mapas e objetos que não conseguia identificar. Havia uma mesa oval com várias cadeiras em volta. Parecia muito a sala em que Kenzo havia encontrado o barril de vinho mas não achei que fosse exatamente aquela, só o mesmo estilo bagunçado e poeirento.
Os minutos se passaram e nada acontecia. Para me distrair, iniciei uma pequena inspeção. Estava distraído, cheirando o líquido que estava no fundo de um copo quando ouvi uma voz desconhecida porém estranhamente familiar se dirigir a mim.
“E então, queria me ver?”
Me virei rapidamente, desconcertado pelo susto que quase fez com que eu deixasse o copo cair. Encarei meu interlocutor. Não havia sombra de engano, era Kurama o youkai parado do outro lado da sala.
“Ku... Kurama... é você?”
“E quem mais poderia ser, Yomi?”
“Você está vivo... Como pode?”
“Eu poderia perguntar o mesmo ao seu respeito.”, disse, sentando-se numa das cadeiras.
Fitei-o por alguns momentos. Ainda era o mesmo mas estava tão diferente... Não era mais a criança que conheci. Parecia tão adulto. Seu cabelo prateado que antes lhe escorria pelos ombros agora parecia mais irregular, com pontas que chegavam até quase a cintura. Seus olhos que conheci tão transparentes exibiam um estranho brilho dourado, de ferocidade indescritível. Estava mais alto, deu para perceber isso antes que se sentasse, quase da minha altura. Um progresso para quem mal me chagava aos ombros...
“Vai continuar aí parado só me olhando?”
E a sua voz... Talvez essa fosse a maior mudança. Sua voz costumava ser tão suave, tão juvenil... a que ouvia naquele momento era áspera e grossa como as dos generais da guerra do norte. Como poderia ter mudado tanto?
“Kurama... você mudou.”
“Espero que você não tenha vindo aqui só para me dizer isso.”
Me surpreendi com sua palavras. Pensei que não soubesse bem como quem estava falando.
“Sou eu, Yomi. Não se lembra de mim?”, perguntei enquanto me aproximava.
“Onde pensa que vai?”
“Até aí...”
“Pois fique onde está. Eu consigo enxergá-lo muito bem dessa distância. Afinal, não vai me dizer o que faz aqui? Não tenho o dia inteiro.”
Passei da surpresa ao choque. Não sabia o que dizer.
“Por que está me tratando assim? Você não imagina o quanto sofri pensando que estava morto. Passei os últimos 100 anos no norte, na guerra, nunca pensei que pudesse estar vivo. Quero ficar com você. Sei que sabe como me sinto... sempre te am...”
“Não diga bobagens!”, interrompeu o youko severamente, levantando-se da cadeira, “Pode ficar se quiser, desde que tire essas idéias absurdas da cabeça.”
“Mas nós...”
“Yomi, entenda uma coisa de uma vez por todas. Nunca houve “nós” e nem nunca vai haver. Hiuga!”
Um youkai baixo e atarracado surgiu à porta, atendendo ao chamado de Kurama.
“Pois não Sr.”
“Leve o Sr. Yomi para dar uma volta por aí. Se resolver ir embora mande alguém levá-lo até a trilha caso contrário apresente ele para os outros.”
“Devo avisá-lo de sua decisão, Sr.?”
“Não... não precisa. Não perca seu tempo e muito menos o meu.”, disse enquanto se retirava dando as costas para nós.
“Como quiser Sr.”
Não podia acreditar no que estava acontecendo. Aquilo parecia um pesadelo. Me apoiei sobre a mesa tão inconscientemente que não reparei ter posto a mão sobre a chama de uma vela. Gritei quando senti a queimadura.
“O Senhor está bem? Machucou-se? Deixe-me ver sua mão.”
Permaneci estático enquanto o sujeito me examinava a palma da mão.
“É superficial, ainda bem. Lhe tiraria a utilidade como espadachim se fosse grave. Por favor, siga-me.”
Obedeci mecanicamente. Conforme caminhávamos comecei a recobrar a ação lentamente. Percebi que o tal Hiuga não parava de falar, como se estivesse me dando explicações mas simplesmente não conseguia atinar-lhe as palavras. Limitava-me a responder “sim” toda vez que me perguntava “O Sr. está compreendendo, Sr. Yomi?”. Não, nada daquilo poderia ser real... não podia ser.
“Tem certeza que se sente bem, Sr. Yomi?”
“Sim.”
“Bom, agora deixe-me avisá-lo algumas coisas sobre o Sr. Kurama.”
Comecei a prestar atenção.
“Apesar do que dizem, não é difícil lidar com ele. Basta não irritá-lo e estará tudo bem. Ouvi falar que o Senhor já o conhecia. Aconselho-o a não importuná-lo sobre o passado. O Sr. Kurama não aprecia recordações, se é que me entende... Ah! E mais uma coisa importante. Fique longe do Sr. Hekel e seus amigos. O Sr. Kurama não gosta que se intrometam em seus assuntos particulares, fui claro?”
“Quem é Hekel?”
“É amigo de nosso líder. Isso é tudo que você precisa saber. Vai ficar?”
“Vou.”
...
Em dois meses no bando de Kurama quase nunca o via, embora ele liderasse pessoalmente todas as nossas ações. Logo no começo notei um certo descompasso entre o líder e seus subordinados. O grupo era composto por quase 50 guerreiros, todos ladrões poderosos e audazes, porém os planos articulados por Kurama pautavam-se na estratégia e ardilosidade. Faltava ação para ser mais claro e percebi nitidamente que o bando sentia falta disso. Outro aspecto relevante, diga-se de passagem, é que para a maioria todo aquele planejamento era esforço mental maior do que podiam suportar.
Havia, no entanto, algo que não podia ser negado. As idéias do líder funcionavam de um modo perfeito. Analisando bem, nenhum detalhe lhe escapava. Era impressionante admirar sua astúcia e engenhosidade. A verdade é que nunca houve inteligência no Makai comparável a de Youko Kurama.
Contudo, não estava preocupado com a impopularidade de nosso chefe e sim com a profunda indiferença com que me tratava. Concluí que me culpava por não tê-lo ajudado no incêndio e então resolvi fazer por merecer a sua atenção. Com obstinação incansável, me tornei em alguns meses um valor que não poderia mais ser ignorado.
Um dia Hiuga veio me perguntar se gostaria de assumir posição
de comando. Aceitei satisfeitíssimo. Não imaginava que isso
pudesse ser o início de meu fim.