Capítulo 17: Cem Anos
Eventualmente eu e Kenzo tomamos rumos diferentes. Jamais fomos os mesmos depois daquela noite na vila. Resolvi que não iria mais pensar naquele estranho episódio. Tinha outros problemas mais urgentes do que aquele.
Decidi deixar o leste de qualquer modo. Aquela região definitivamente não me dava sorte. O problema é que estava sem recursos para viajar. Algo precisava ser feito a esse respeito, só não sabia o que.
Vaguei sem rumo pelas redondezas por algumas semanas. Uma tarde estava descansando encostado numa árvore quando ouvi alguém chamar o meu nome. Me assustei e rapidamente me pus em guarda com a espada na mão.
“Desculpe-me, Sr.”, disse o sujeito que surgiu a minha frente, “Não pretendia assustá-lo.”
“Quem é você e o que quer?”
“Me chamo Kim e sirvo ao Sr. Ono, grande general do norte. O Sr. é Yomi, o ladrão, não?”
“Que diferença isso faz?”
“Meu mestre está em busca de caçadores e guerreiros experientes como o Sr. para compor seu exército. Permita-me explicar. O Sr. Ono domina um vasto território no norte. Estamos em guerra com um povo vizinho. O vencedor será rei e dominará todo o norte do Makai. Minha missão é convencê-lo a se juntar a nós,”
“Vai passear, azulzinho!”, respondi. Aquilo só podia ser uma cilada, pensei.
“O Sr. terá um cargo compatível com sua posição, é lógico. E será muito bem recompensado...”
Bom, o que mais posso dizer. Com aquele argumento tão convincente, lancei-me de imediato numa nova profissão... a de mercenário.
Já tinha sido soldado antes, de Laizen, por breves 6 meses. Esta nova experiência não teve nada a ver com a aquela. Dessa vez a guerra era pra valer. Ao contrário do que pensava, não havia nenhum glamour naquilo. Só batalhas, mortes e espera. Esta última talvez o pior de tudo. O norte do Makai era um região gelada e inóspita. Por muitas vezes as condições climáticas suspendiam o desfecho das batalhas por meses a fio. Era desesperador. Com o tempo, a escassez de provisões começou a concorrer para a desgraça final. Pensei em desertar mas não queria parecer covarde. Levaria aquela loucura até o fim.
Com o passar dos anos, fui subindo de posto rapidamente, o que não era nenhuma proeza face ao enorme número de baixas e deserções. Ono, líder de nossa facção confiava em mim, mas infelizmente a recíproca não era verdadeira. Não passava de um sonhador com mania de grandeza que se meteu numa confusão que havia se tornado carga grande demais para seus ombros. Passava os dias examinando mapas, tentando ter alguma idéia que nos pudesse livrar do pior... embora não admitisse, considerava bastante razoável a hipótese de rendição.
Passei quase 100 anos de minha vida envolvido naquele conflito sem sentido. Tinha esperança que se saíssemos vencedores, teria um território próprio como me havia sido prometido. Acabamos derrotados, ou pior, nos rendendo, contra a minha vontade. Pelo menos estava vivo, embora mais miserável do que no dia em que havia deixado minha terra natal.
Muito pior do que a guerra foi a jornada de volta. Os derrotados haviam sido expulsos pelo lado vencedor e agora estavam rumando sul, exaustos, famintos e na maior parte sem qualquer chance de chegara a lugar algum. Eu estava entre eles, naturalmente.
O inverno nos pegou no meio do caminho. Até hoje quando me lembro daquele período não entendo como consegui sobreviver. Só sei que cheguei num ponto em que eu caminhava sem saber se devia continuar ou simplesmente me deitar e esperar a morte como tantos outros já haviam feito. Por alguma razão não me entreguei. A verdade é que o verbo desistir nunca fez mesmo parte de meu vocabulário. Caminhei até onde agüentei. Quando cheguei no ponto em que não tinha mais nenhuma força, cai no chão, sem a menor idéia de onde estava. Senti como se tivesse começado a sonhar acordado. Achei que morrer não era tão tuim afinal.
...
Abri meus olhos. Comecei a enxergar um teto de madeira. Coisa estranha, pensei. Ergui o corpo. Estava num quarto, em cima de uma cama. Parecia uma cabana, como aquelas que haviam em Nijati. Ouvi passos. Alguém veio em minha direção. Eu bem que achei aquele par de asas extremamente familiar...
“Finalmente acordou. Que coisa Yomi, por onde tem andado?... Não se lembra de mim?”
“Kaizo?”
“Que bom que se lembrou..., pensei que pudesse ter perdido a memória também... Nossa... seus chifres cresceram!”
“Você? Como pode? Morreram todos... onde estou?”
“Você está na minha casa, no leste, perto da floresta onde vivíamos com o mestre. Afinal, de onde veio? Te encontrei quase morto.”
“Do norte... da guerra.”
“Sério? Veio andando até aqui? Não é a toa que estava naquele estado...”
Me recuperei aos poucos, com a ajuda de Kaizo. Ainda não entendia o porque dele ser tão bom pra mim. Estávamos ambos espantados pelo fato de termos nos reencontrado vivos. Já havia se passado mais de 100 anos desde então.
Kaizo continuava o mesmo, um pouco mais robusto talvez. Seus cabelos negros e escorridos estavam mais compridos e seus olhos já demonstravam certa maturidade. Era um youkai adulto afinal. Me ocorreu que tínhamos a mesma idade.
“Você tem um espelho?”, perguntei.
“Para que?”
“Queria ver como estou.”
Kaizo foi buscá-lo para mim. Já me sentia mais forte mas ele insistia que eu deveria continuar de cama.
“Tá aqui!”
Me espantei um pouco com o que vi. Havia envelhecido bem mais do que Kaizo.
“Você até que não está mal para quem quase morreu.”, disse Kaizo ao ver minha expressão de desgosto.”
“Como você sobreviveu?”
Kaizo me olhou seriamente.
“Já estava esperando por essa pergunta... Não vou mentir para você... Eu fugi.”
“Fugiu... Como?”
“Não sei se você lembra disso mas o mestre tinha me deixado do lado de fora, no meio da tempestade para esperar por aquele maldito. Tive muita raiva disso... Não preciso te dizer como odeio ele... Procurei um abrigo contra a chuva e me escondi ali perto, no tronco oco de uma árvore. Vi quando aqueles bárbaros se aproximaram guiados pela raposa do inferno. Sempre soube que ia nos destruir um dia... Não havia nada que eu pudesse fazer, juro... Queria viver para me vingar dele pelo que fez com meu irmão, com o mestre, com todos nós. Por isso fugi. Sou um caçador profissional agora. Não descansarei até que morra.”
“Mas pra que? Ele já está morto!”
Kaizo me olhou espantado.
“Quanto tempo esteve no norte?”
“Quase 100 anos, talvez mais...”
“Então você não sabe?”
“Sabe o que?”
Ele abaixou os olhos.
“Me fale logo, Kaizo, o que é?”
“Ele está vivo. Reapareceu há mais de 50 anos, quando todos pensavam que estava morto, inclusive eu. É o terror do leste, não disfarça mais sua crueldade como fazia antes... Continua ladrão só que agora mata todos que atravessam seu caminho com umas plantas monstruosas que mais parecem terem sido criadas pelo diabo em pessoa. Tem um grupo de seguidores e todo o norte da grande floresta é território dele. Está metido com o Hame-kala, vendeu sua alma se vez, é o que dizem...”
Me levantei bruscamente.
“... Quer dizer que você ainda não se libertou dele?”
“Kaizo você tem certeza?”
“Infelizmente.”
“Eu o vi quando tudo pegou fogo... estava preso em meio as chamas, completamente enlouquecido... Como poderia ter sobrevivido?”
Sem pensar, comecei a me vestir esbaforido.
“Ei! Onde pensa que vai neste estado?”
“Você não entende... tenho que vê-lo.”
“E você acha que ele se lembra de você?”
A pergunta me pegou de surpresa.
“Claro que sim.”, respondi firmemente.
Kaizo gargalhou.
“Não seja ingênuo. Kurama não deve lembrar nem do mestre sequer. Aquilo é frio como o gelo do norte que você deve ter conhecido tão bem...”
Contei até 10.
“Isso não é verdade. Ele não era... não é assim.”
“Ah não? Que tipo de criatura mata seu melhor amigo e depois o próprio pai?”
“As coisas não funcionavam desse jeito, Kaizo, e você sabe bem disso. Najah o torturava, o tratava pior do que a um escravo. Deixou-o louco a ponto de fazer o que fez...”
“Eu sei disso tudo como você mesmo falou! Mas o escravo ali não era o maldito youko e sim o pobre mestre. Você não o conheceu antes de Kurama chegar como eu. Mestre Najah era justo e generoso... era um sábio. Talvez fosse mais poderoso do que Laizen mas nunca usou seu youki para a violência. Ele nem parecia um filho do Makai... Isso só mudou quando a raposa surgiu em sua vida... O mestre o amou desde que o viu pela primeira vez. Era capaz de o ficar admirando por horas seguidas. Logo se tornou um vício, não podia viver sem ele. Quando se tornaram amantes Kurama era só uma criança mas já tinha total domínio sobre ele, sabia como fazer para conseguir o que queria, não era inocente como você pensa. Kurama vivia como um animal quando meu irmão o encontrou mas o mestre cuidou dele, lhe ensinou tudo o que sabia...”
“Isso que você está dizendo não faz sentido! Aquilo não era amor, Najah era um doente, um degenerado, isso sim.”
“E o que é amor para você? Isso que você sente quando pensa nele? Se o que Najah sentia era doença, você está doente também!”
Contei até 10. De novo.
“Kaizo, você está enganado. Não o conheceu como eu.”
“Pois vá atrás dele, se quiser. Você continua enfeitiçado e não há nada que eu possa fazer para te tirar dessa cegueira!”
Terminei de me vestir apressado. Já ia saindo pela porta fora quando me lembrei que estava esquecendo de algo. Parei.
“Obrigado por tudo, Kaizo. Nunca vou esquecer do que fez por mim.”
“Ora, não tem de que. Afinal, a que você está se referindo, ter salvo sua vida ou ter te dado a “boa notícia”?”
Não respondi. No fundo sabia bem o que Kaizo quisera dizer com
aquele comentário. Kurama sempre estava vivo em meu espírito.
Saber que não tinha morrido como sempre pensei foi a surpresa mais feliz
de toda a minha vida. Se bem que em se tratando de Kurama, felicidade era uma
coisa que durava sempre muito pouco...