Memórias

Por Ana-chan

Capítulo 16: O Castelo



 

 A vida no bando de Kenzo sem Liu não era a mesma. Com nossa liderança enfraquecida por sua ausência, Suzoni começou a querer mandar também. Incitava os outros a descumprirem nossas ordens, não participava de nossas ações. Eu estranhava a passividade de Kenzo ante aquela situação. Por mim Suzoni já estaria morto há muito tempo mas o líder proibiu que me metesse. Achava um absurdo chegarmos ao ponto de lutarmos entre nós.

 Como era de se esperar, chegou o dia em que Suzoni desafiou Kenzo pela liderança do bando. Achei que teríamos uma luta afinal mas ela nunca aconteceu. Kenzo entregou o bando a Suzoni sem reagir. Tive um choque com sua atitude a princípio mas depois compreendi que mesmo para Kenzo a falta de Liu tornara tudo aquilo sem sentido. Como jamais aceitaria receber ordens de Suzoni e também não estava interessado em desafiá-lo, optei por seguir Kenzo e abandonar o grupo.

 Viajamos até uma pequena vila bem ao norte da grande floresta. Estávamos nos dirigindo para o norte do Makai por insistência minha. Não suportava a idéia de permanecer no leste por mais tempo. A tal vila era um lugar bastante estranho. Estava quase abandonada e seus poucos habitantes viviam amedrontados.

 Ficamos hospedados na casa de um velho que nos aceitou em troca de algumas moedas. Sua casa era grande mas ele morava só. Acabou nos explicando que todos os seus parentes já tinham ido embora mas como estava velho demais para começar vida em outro lugar, foi deixado para trás junto com vários cômodos vazios.

 Em pouco tempo descobrimos o motivo de toda aquela esquisitice. A vila era a mais próxima ao castelo do Hame-kala, uma seita com fama de praticar rituais macabros e experiências mortais com youkais vivos. Para mim, apenas superstições e bobagens, é claro. No entanto, a realidade não era tão simples. Os membros Hame-kala eram youkais muito antigos que se dedicavam há centenas de anos às artes proibidas, que envolviam desde a fabricação de remédios até a busca da imortalidade. Seu castelo era uma fortaleza negra e caindo aos pedaços, desprotegida pelo que diziam. Toda a segurança que o Hame-kala precisava era provida pelo medo que sua fama inspirava. Lembrei que até mesmo Kurama tinha respeito por eles pois jamais se atreveu a fazer nenhum plano envolvendo sua fortaleza. Os poucos habitantes da tal vila comentaram que o Hame-kala escondia tesouros antigos em alguma parte o castelo. Foi justamente essa a parte da estória que me interessou.

 Kenzo, que é bom lembrar, era bem mais velho do que eu, conhecia muitas estórias sobre o Hame-kala e tinha muito receio de ficar perto de seu território por tanto tempo. Ficou chocado quando lhe revelei que pretendia roubar o castelo, em busca dos tais tesouros.

“Está louco Yomi! Tem alguma idéia com o que está pensando em se meter?”

“Diabos Kenzo, não vê que estamos quebrados? Temos que fazer alguma coisa ou nunca teremos condições de deixar esse lugar maluco. E quer saber? Não acredito em nenhuma dessas bobagens que dizem por aqui. Vivi nesta floresta por mais de um ano e nunca soube de nada que tenham feito. Para mim não passam de velhos anti-sociais com manias esquisitas, e daí?”

“Se não acredita em nada, por que acha que tem tesouros escondidos lá?”

“Eu não acho nada mas sou ladrão... vou pagar pra ver.”

“Yomi, eu sei que você não é daqui. Eu nasci e cresci no leste. Eu sei que tem muitas coisas sobre o Hame-kala que não passam de lendas infundadas mas sei também que quem entrou naquele lugar nunca mais saiu.”

“Isso é o que nós vamos ver.”

“Será que tem alguma coisa que eu possa fazer para tirar essa idéia da sua cabeça?”

“Não.”

“Tudo bem, então eu vou com você.”

...
 

“Kurama, o que é aquilo?”

“Aquilo o que?”

“Aquelas torres lá em baixo.”

“Um castelo. Parece perto mas é um dia inteiro de caminhada até lá.”

“Castelo? Uau! Vamos lá! Deve estar cheio de coisas de valor lá dentro. Você nunca me disse que tinha um castelo aqui mesmo na floresta...”

“Esquece isso, Yomi. Aquele castelo é a fortaleza do Hame-kala. Nem morto eu entro lá.”

“Tá com medo é? O grande Kurama, quem diria? Afinal, o que é Hame-kala?”

“É uma espécie de seita antiga. Na verdade meu pai me proibiu de ir até lá. Disse que se eu desobedecer e o Hame-kala não me matar, ele mesmo me despacha para outra vida. Melhor não desobedecer, né?”

...
 

“Acorda Yomi! Já é dia claro! Quer dormir o dia inteiro?”

“Diabos, Kenzo! Tinha que me acordar logo agora que eu estava tendo um sonho tão bom?”

...
 

 Escolhemos uma noite de lua cheia, bem clara. Nos preparamos com armas, sacolas e cordas como sempre e nos dirigimos ao castelo.

 Ao chegarmos aos muros do enorme castelo disse a Kenzo que não queria que viesse comigo. Não queria que participasse de uma ação com medo mas ele insistiu.

 Pulamos o muro facilmente. Não havia sinal de vida naquele lugar. Cuidadosamente invadimos o castelo por uma janela e começamos a explorá-lo por um corredor comprido e escuro. Era tudo tão silencioso que por mais que nos esforçássemos, não conseguimos deixar de produzir ruídos somente por pisarmos naquele chão de madeira velha e podre.

 Finalmente alcançamos aquela que julgamos ser a sala dos tesouros. Era retirada e a porta estava bem fechada. Mesmo assim não tivemos dificuldades em arrombá-la. Entramos em um enorme salão, cheio de objetos estranhos. Nos separamos em busca de objetos valiosos. As paredes eram revestidas por madeira formando prateleiras e divisórias. Pra minha decepção, nenhum tesouro ocupava aqueles espaços, apenas livros. Nunca em toda a minha vida tinha visto tantos livros juntos. Para que diabos serviria tudo aquilo?, pensei. Reparei que Kenzo vasculhava uma superfície cheia de objetos ainda mais estranhos. Frascos e vidros de todos os tamanhos... Papéis rabiscados, velhos pergaminhos...um caos! Ouvi Kenzo me chamar.

“Yomi, acho que encontrei algo...”

“O que é?”, perguntei descrente.

“Olhe, é vinho...”

“Bom, pelo menos não sairemos daqui com as mãos abanando.”

 Guardamos o pequeno barril em uma sacola e iniciamos a retirada. Seria a ação mais monótona de minha carreira se não fosse por uma pequena surpresa no final. Passávamos de volta por aquele corredor quando percebemos uma luz. Nos escondemos atrás de uma porta entreaberta. Vimos quando dois sujeitos envoltos em mantos cumpridos passaram. Um deles subitamente parou e olhou em volta. Pensei que fossemos ter problemas mas isso não aconteceu. As figuras estranhas seguiram seu caminho e eu e o Kenzo seguimos o nosso.

 Comemoramos nossa pseudo vitória consumindo seu único fruto, ou seja, aquele pequeno barril de vinho. Bebemos até ficarmos completamente embriagados. Dormimos juntos. Foi uma lástima constatar isso na manhã seguinte. Não lembrava de nada. Acho que Kenzo se sentiu da mesma maneira. Jamais tínhamos sequer nos sentido atraídos! Estávamos bastante constrangidos com tudo aquilo.

 Resolvemos seguir viagem, certos de que algo muito estranho havia acontecido.