Capítulo 15: Liu
Depois de 15 anos no bando de Kenzo, meu nome começou a ficar conhecido no leste do Makai. Ser famoso era “bom pro ego”, como dizia Liu, mas tinha seus inconvenientes. Já não podia passear tranqüilamente pois poderia ser reconhecido por algum caçador. Comecei a entender porque Kurama nunca ia a lugares públicos e até em sua floresta estava sempre alerta mesmo quando parecia distraído. Ainda não o tinha esquecido.
Kenzo havia decidido que o bando deveria mudar de região e procurar novos esconderijos. Foi um decisão inteligente pois já estávamos ficando um tanto manjados naquele lugar. Foi acertado que iríamos para o leste, não para a região da floresta para alívio meu, mas sem dúvida passaríamos por lá no caminho.
Naquele momento, o grupo era composto por 10 ladrões, além de Kenzo, Liu e eu. Por ser a única fêmea, Liu era paparicada por todos, menos pelos que não se interessavam por fêmeas, naturalmente. Era o caso de Vini, um hermafrodita vindo do norte, de onde se originavam quase todas as raças que podiam se reproduzir sem, digamos, ajuda externa. Era muito quieto e só se manifestava quando estritamente necessário. Jamais poderíamos imaginar a surpresa que nos reservava.
Estávamos na estrada há cerca de 2 meses quando alcançamos uma clareira bem junto ao lago onde anos atrás costumava nadar com Kurama. Eu bem que tinha pedido para não viajarmos por aquele caminho mas como não apresentei argumentos convincentes fui voto vencido. Continuava odiando a democracia! Aquele lugar me trazia as mais doces recordações. Não pude resistir e fui até o lago. Sentei exatamente naquele canto, bem próximo à margem onde o tive nos braços. Senti que Liu se aproximou. Ela se sentou ao meu lado.
“E então, amor? Foi aqui?”
“Aqui o que?”, perguntei disfarçando.
“Você sabe.”
“Quase.”, respondi num súbito ataque de sinceridade.
“Sabe de uma coisa, amor, quando te vejo desse jeito quase sinto inveja do tal youko. Ser amado assim é difícil pra cacete!”
Abaixei a cabeça, um tanto envergonhado por ser tão transparente.
“Liu! Yomi! Finalmente encontrei vocês. Venham rápido. Vini tá muito mal!”, gritou Ioli, um de nossos companheiros.
O seguimos apressadamente.
Quase não acreditei no que vi quando cheguei de volta ao acampamento. Vini estava se contorcendo no chão, em pleno parto. Seus olhos se reviravam de dor enquanto ele gritava sem parar.
Nossos companheiros, incluindo Kenzo, estavam comple-tamente atarantados. Enquanto alguns tentavam acalmar “o” gestante, outros se preocupavam apenas com os perigos que toda aquela gritaria poderia atrair.
“Chega pra lá, cambada de manés que eu tô chegando!”, anunciou Liu, empurrando a roda que se formou em torno de Vini. “Podem ir arranjando outras coisas pra fazer porque do Vini queridinho aqui cuido eu. Machões feito vocês não servem de nada nessas horas.”
Todos começaram a sair de perto e eu também, claro.
“Pô, gatões! Também não é assim! Alguém tem que ficar pra me ajudar.”
Logo montes de “EU” foram pronunciados. Em se tratando de Liu nunca faltavam voluntários. Não era meu caso.
“Foge não Yomi, que é você quem eu quero pra me dar uma forcinha!”
Não tive escapatória. Kenzo endossou a decisão de sua comandante de imediato.
“Pô Liu! Por que eu?”
“É que eu já estou acostumada a mandar em você, amor.”, disse sorrindo.
Na verdade quase não fiz nada, até porque mal conseguia ficar de olhos abertos. Aquele negócio de parto era demais para a minha cabeça... e para o meu estômago também. Após alguns minutos mais de gritos de Vini e panos úmidos de Liu, um choro de bebê cortou o ar. Percebi uma estranha emoção alterar as feições de Liu quando segurou aquela criaturinha. Ela chorava mais do que o bebê quando o entregou a Vini que permanecia estendido exausto no chão. Saí de perto. Estavam tão emocionados que nem repararam quando me afastei.
Sentei-me junto aos outros “machos”, que naquele momento discutiam calorosamente sobre o destino do recém-nascido e de seu pai/mãe.
“Diga, Yomi...”, perguntou Kenzo, “o bebê está bem? Acha que vai vingar?”
“É, diz aí parteira.”, brincou Suzoni, um dos mais detes-táveis do grupo.
“Mais uma gracinha dessas, Suzoni, e será você o próximo a cuspir pelas entranhas.”, respondi incisivo, de modo a desencorajar novas gracinhas.
Ele me olhou com raiva mas não teve coragem de me enfrentar.
“O bebê é saudável, segundo Liu. Vini tá meio cansado mas eu acho que vai ficar bem.”, informei secamente.
“Não podemos ficar com um bebê!”, exclamou um dos ladrões, apoiado pela maioria.
“Vini terá que vendê-lo se quiser continuar conosco.”, sugeriu Suzoni.
Kenzo olhava para o chão com expressão indecisa.
“O que você acha, Yomi?”
“Bom, não tenho experiência nenhuma nesses assuntos. Não será bom obrigarmos Vini a vender o filho se ele não quiser, o que duvido muito. Mas se isso acontecer também não poderemos ter um bebê a tiracolo. Acho melhor dar um tempo ao Vini para que se recupere. Depois ele escolhe o que fazer.”
“Pois eu acho que deveríamos vender logo o guri para o mercador de escravos. Dará um bom preço.”, manifestou-se novamente Suzoni.
“Calem-se!”, disse Kenzo, “Gostei das palavras de Yomi. Seguiremos sua idéia. Está decidido. Agora vão cuidar de suas próprias vidas.”
Não seguimos viajem no dia seguinte. Vini estava muito fraco apesar dos cuidados incansáveis de Liu. Ela parecia felicíssima com o bebê. Coisa de mulher, pensei.
“Como é, amor? Não vai segurar o neném?, perguntou Liu quando viu me aproximar.
“Não obrigado, prefiro comer uma barata.”
“Pois deveria ir se acostumando, amor, para quando tiver os seus... se bem que se continuar se ligando só em outros machos isso vai ser meio difícil...”, disse rindo.
“Diabos, Liu, não me enche! Como tá o Vini?”
“Sei não, amor. Se não começar a se recuperar amanhã acho que teremos problemas.”
“Se não se recuperar hoje teremos problemas... ou pensa que ficaremos aqui para sempre?”
“Machos! Nunca se importam. Eu vou falar com Kenzo. Não podemos abandoná-los!”
Me surpreendi com seu tom sério.
“Liu... tenho uma coisa para te dizer. Não se apegue muito a essa criança... não ficaremos com ela de qualquer modo.”
“Quer dizer que já decidiram o destino desse pobre? Como foi que não imaginei? Diz aí, qual foi a sentença?”
“Vini decidirá o que quiser. Se resolver ficar conosco terá que ... bom, terá que se livrar do fedelho.”
“É? Estou até aliviada. Pensei que já tivessem acertado o preço com o Mercador de Escravos. Me diga quem teve essa idéia tão piedosa.”
“Fui eu. Kenzo aceitou.”
“Tudo bem, amor. Não se pode ter tudo mesmo...”
Senti uma grande pesar em sua voz. Não atinei o motivo mas achei melhor não perguntar.
...
Não tinha nada para fazer. Aquele dia livre, logo naquele lugar não estava nos meu planos. Queria ir embora de qualquer jeito. Carregaria Vini se preciso fosse. Caminhei perdido em meus pensamentos durante toda a tarde tentando arranjar um meio de apressar nossa retirada sem prejudicar Vini e seu filho, não por ele, claro, mas por saber o quanto Liu se importava com tudo aquilo.
Sem querer cheguei ao enorme buraco onde havia sido o esconderijo de Najah. Senti um arrepio. Aquele lugar parecia ter ainda alguma influência sobre mim. Tentei mas não consegui evitar de lembrar de Kurama preso entre as chamas.
Meu olhar recaiu sobre um pequeno objeto, jogado naquele chão, no meio do nada. Quando me aproximei vi que era uma flor pequena e delicada. Suas pétalas eram brancas e refletiam a luz do dia num brilho levemente prateado. Como é linda, pensei. Como podia ter crescido ali, bem em cima daquele túmulo? Me abaixei com idéia de colhe-la.
“Yomi!”
Ouvi alguém me chamar. Liu se aproximou de mim com sua trouxa de viagem nas costas e o bebê de Vini no colo. Me alegrei porque pensei que já estávamos indo embora só que não era bem assim...
“Vim me despedir de você, amor.”
“Estamos indo?”
“Estão. E eu também, só que não vamos juntos.”
“Como?”
“Vini está morto. Começou a sangrar de novo há cerca de uma hora e não resistiu. Como era seguidor de Kenzo, o bebê passou a lhe pertencer. Decidiram vendê-lo como escravo e eu decidi que não podia deixar isso acontecer. Comprei o bebê de Kenzo. Vou criá-lo como meu filho, no lugar daquele que eu deixei que tirassem de mim quando no passado estive na mesma situação de Vini.”
“Liu... sinto muito.”
“Liga não, amor! Essas coisas acontecem. Tenho sorte porque encontrei um meio de remediar o mal que fiz. Não estou partindo forçada. Eu é que quis assim. Te chamaria para completar a família mas sei que você tem outras prioridades na vida.”
“Vou sentir sua falta, Liu. Pode não acreditar mas foi a única amiga de verdade que eu já tive.”
“Acredito sim, amor. Adeus... A propósito, não toque nessa flor.
É um Amaruk, bem bonitinho mas extremamente venenoso. Será que
nunca te disseram para tomar cuidado com essas coisas?”